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O vômito de Lúcifer

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Escrito por Igor Buys   
Dom, 26 de Janeiro de 2014 00:00

 

O vômito de Lúcifer


O vômito de Lúcifer

por Igor Buys


Na fase terminal da doença, que ocorre em cerca de duas semanas após a infecção pelo vírus que a transmite, as vítimas, em convulsões terríveis, findam por expelir de jato tudo o que possuem de líquido em seus aparelhos digestivo e respiratório em frangalhos de mistura com uma grande quantidade de sangue; esses jorros vermelho-escuros, que chegam a se projetar por metros de distância, têm tingindo de escarlate paredes de hospitais e espectadores atônitos, provocando uma ardência, quando em contato com a pele, mas não a transmissão da moléstia. A ardência, ao que se sabe, é devida tão-só à imensa quantidade de humores digestivos produzidos de maneira desenfreada pelos doentes e presente no dito “Vômito de Lúcifer”.



Para contar essa história do começo, devo retroceder ao ano de 2012. Eu tinha-me graduado no Mestrado, e cursava, então, o Doutorado. A minha tese de Mestrado em Política Criminal, ramo da Filosofia do Direito que estuda a procedência ou não de se criar dispositivos de lei, visando à obtenção pragmática dos resultados pretendidos pelos legisladores, ganhou certa repercussão no meio acadêmico e acabou se tornando, inesperadamente, um “best-seller”.



O texto intitulado “De Como Elidir a Hidra do Narcotráfico em Trinta Dias” foi publicado em vários países. No ano de 2012, quando o problema do tráfico atingiu uma latitude insuportável, fundindo-se com o do terrorismo, fui convidado a fazer parte de uma conferência em Washington, onde, estranhamente, pediram-me que tornasse “concretas as minhas idéias abstratas sobre o tema”. Outorgam-me autoridade de consultor em mais um “novo programa” desesperado e paliativo do Governo dos Estados Unidos para o “combate das drogas”.



Quando tomei a palavra disse aos senhores congressistas: “eu não posso assumir nenhuma responsabilidade como consultor numa forma de ação que está em desalinho completo com o meu pensamento e que, tenho certeza, resultará em mais uma frustração para quem realmente depositar nesta alguma esperança de sucesso. Peço perdão a todos os presentes e agradeço a honra do convite para integrar este grupo de debates”.



Fui interpelado pelo presidente da mesa que me pediu que expusesse algum motivo para o meu descrédito e “ceticismo exacerbado” em relação ao “novo programa”.



Respondi-lhe: “se os senhores leram o meu trabalho, e eu creio que tenham lido, já que me convidaram a fazer parte desta mesa, devem ter compreendido como eu procuro demonstrar que o narcotráfico é um ser de natureza econômica pura, um negócio, antes mesmo de ser um negócio criminoso. Ou seja, o plano em que habita o alvo dos seus esforços é o plano econômico. A economia, por seu turno, é regida por leis naturais e, por assim dizer, auto-executórias. Pretender atingir o tráfico em si com tiros é absurdo. Com tiros podem-se matar traficantes, mas nunca o tráfico em si. O tráfico só pode ser atingido através da manipulação das leis que o governam, quais sejam as leis econômicas. Utilizem-se da mais básica lei econômica, a primeira a ser abstraída, a lei de mercado, e firam o seu alvo de morte onde ele tem o seu coração”.



Pediram-me que tornasse o meu discurso mais concreto ainda e efetivamente “propositivo”, uma vez que a minha crítica do narcotráfico já era bastante conhecida de todos os presentes.



“A demanda por drogas ilícitas alimenta a oferta dessas mercadorias; a proibição legal da produção e da comercialização, bem como todo o dinheiro gasto na repressão de tal oferta, ao longo de décadas, tem promovido a elevação do preço das referidas mercadorias numa escala inflacionária tal como provavelmente nunca se viu em relação a nenhuma outra espécie de bens de consumo; se todos leram o que escrevi, todos já conhecem bem esse ponto-de-vista. Pois bem, enquanto o tráfico for um bom negócio, ou melhor, um negócio que gera lucros superiores aos de qualquer outra espécie de empresa, ele “viverá”, promovendo a sua auto-reengenharia, indefinidamente. Entrementes, se os senhores estiverem dispostos a torná-lo um mau negócio para os seus empreendedores, esses empreendedores deixarão de investir no narcotráfico, tanto os que hoje operam nesse nicho, como os que os sucederão, se aqueles forem feridos por balas ou encarcerados”.



Ainda uma vez, pediram-me que fosse “propositivo” e dissesse-lhes como “ferir o coração do tráfico e matá-lo” no plano onde ele habita.


 

Prossegui. “Eu sustentei no meu livro que a descriminalização do tráfico em nível mundial o mataria em trinta dias... mas estou certo de que os senhores não estão dispostos a trabalhar neste sentido; certamente, preferirão buscar a solução através de uma via mais difícil e mais penosa. Perdoem-me por dizê-lo, mas são homens beligerantes e conservadores, muito mais do que pragmáticos. Pois bem, faça-se o seguinte: contaminem-se algumas cargas de drogas apreendidas pela polícia com substâncias de efeito letal ou deformante e devolvam-se essas cargas ao mercado, através de agentes disfarçados de traficantes. Faça-se isso em, pelo menos, sete países, concomitantemente, para início. A imprensa irá fazer a propaganda de que os senhores necessitam para reduzir a demanda por drogas.”

 


Alguém se ergueu de sua cadeira e elevou a voz dizendo que o que eu estava propondo era “bárbaro”. O presidente da mesa, contudo, pediu a esse homem de farda que se sentasse e a mim que prosseguisse.



“Bem, procurem envenenar um número calculado de usuários de entorpecentes, nada que chegue às raias do genocídio e nada que possa deixar de causar uma convulsão suficiente nos noticiários por todo o mundo. Cuidem que as manchetes de jornais falem sobre DROGAS ENVENENADAS em letras caixa alta e letras bem grandes e que os telejornais repitam essa expressão enfaticamente, todos os dias, com a maior freqüência possível. Cuidem também que o envenenamento das drogas seja imputado a máfias rivais. Alguns ícones, sobretudo da juventude, devem ser vitimados nesse processo, membros de bandas de roque que fazem apologia do uso de narcóticos, atores, atrizes e até políticos. Cuidem que parentes, amigos próximos e amantes dos membros deste grupo de conferencistas que sejam viciados não sejam envenenados para que nenhum dos presentes venha a causar óbices para o desenvolvimento dessa estratégia...”



— O senhor está sugerindo que algum dos membros deste grupo possua parentes ou... amantes viciadas, senhor Lao Ping Chuan?!



Respondi que “sim, isso era estatisticamente muito provável”. O homem de farda foi novamente instado pelo presidente da mesa a sentar-se e eu prossegui.

 

 

— Lembrem-se sempre de que o seu alvo é o tráfico em si, um ser de natureza econômica e mercadológica; meça-se, então, a intensidade da propaganda sobre o envenenamento, regularidade e abrangência das operações de contaminação, o número de vítimas a ser atingido, o perfil social dessas vítimas, que devem ser de todas as classes, e cada passo do seu mister, visando a reduzir paulatinamente a procura por drogas em níveis previstos. Busquem uma retração mínima de trinta por cento na demanda de entorpecentes neste país, no primeiro mês de escândalos; busquem uma redução de cinqüenta por cento ou mais no segundo mês e, assim por diante. Procurem analisar todos os fatores e calcular com a maior precisão possível os números a serem alcançados. Em um ano de trabalho, procurem obter uma retração na demanda mundial por drogas na faixa de noventa por cento.

 

 

Continuei diante de olhares atônitos. “Usem um sósia de um dos terroristas mais afamados e temidos pela população mundial e veiculem, através da mídia, a sua declaração de autoria de, pelo menos, uma parte da contaminação e o seu desejo de punir o mundo ocidental pagão com a completa aniquilação através desse expediente. Procurem dosar o medo que irão causar de modo que este fator se torne o seu principal aliado. Oferta- procura são duas faces de uma mesma coisa; o seu maior erro tem sido o de atacar a face forte do tráfico, negligenciando ações contra a sua face vulnerável.”

 


“O preço da ‘droga limpa’, isto é, com garantias de não estar envenenada, elevar-se-á nesse processo, até tornar o produto proibitivo para a imensa maior parte dos atuais consumidores. Busquem esse ideal, procurem sopesar todas as variáveis e mensurar todas as ações em função dos efeitos pretendidos.



A oferta de drogas poderá ser atacada frontalmente, quando, após alguns meses de retração na procura, os traficantes estiverem desnorteados, enfraquecidos e sem fundos para bancar os seus exércitos. Ataquem, então, a face forte, a face “yang” do tráfico, que é a oferta de drogas, quando esta estiver debilitada. Isto quer dizer, de modo bem concreto, que os senhores devem ferir com balas os traficantes, encarcerá-los e, sobretudo, apreender as suas mercadorias, conforme estes forem enfraquecendo no desenrolar desse processo. Entretanto, nunca deixem de compreender esses ataques como ataques ao tráfico em si, um ser de natureza econômica, isto é, pensem nos prejuízos que essas baixas de homens treinados e apreensões de mercadorias causará ao mercado internacional de drogas. Não se percam nas imagens extrínsecas, visualizem sempre o seu alvo onde ele reside. A face “yin” do seu problema é a demanda, mantenham sempre isso em suas mentes. Esta pode ser combatida facilmente, pode mesmo ser violentamente enfraquecida através de estratégias de infusão de medo; já a oferta é mais forte que os seus governos todos juntos, como já se sabe, e, ademais, reestrutura-se toda vez que é atacada, assim como a Hidra de Lerna, figura mitologia enfrentados por Háracles, de cujas cabeças decepadas de serpente, nasciam sempre novos feixe de cabeças...”.



Neste momento, fui bruscamente interrompido; o homem de farda esmurrou a mesa, levantou-se pela terceira vez e esbravejou:



— Chega de ouvir essas sandices sobre monstros mitológicos, “yin” e “yang” e envenenamento de nossos jovens, senhor... china Lao Ping Chuan; nós podemos vencer essa guerra, usando de...



O presidente da mesa, então, se levantou, esmurrou também o tampo da longa távola, ordenando:



— General, cale-se agora mesmo e se mantenha calado ou saia desta sala, sabendo que não retornará a ela nem a esta Casa, enquanto eu tiver poder para definir os rumos da sua carreira!



Os dois homens se sentaram, houve uma pausa breve em que todos acorreram aos seus copos com água, e, em seguida, fui conclamado a prosseguir na minha fala.



“A estratégia que defendi em minha tese e que motivou o convite dos senhores para que eu participasse desta conferência, respeitava a descriminalização da produção e da comercialização de entorpecentes. Tratava-se de uma estratégia bem menos traumática e mais efetiva, que poderia elidir o flagelo social do tráfico em trinta dias, eu estou certo, atingindo-o na esfera onde ele existe como ser de natureza econômica pura. Entretanto, estou convencido de que os senhores, que, repito, são homens beligerantes e conservadores, repudiarão essa via até a sucumbência da nossa sociedade diante do crime organizado, a cada dia mais articulado com o terrorismo, antes de adotá-la. Assim, propus um caminho beligerante e conservador, mais consentâneo com a sua compreensão do mundo.



A metodologia que esbocei nessas poucas palavras e nesse curto lapso de tempo aos senhores será efetiva, desde que mensurada em todos os seus aspectos de maneira criteriosa e cuidadosamente premeditada. Percam-se poucas vidas e ganhem-se muitas, já que o caminho da beligerância é o único aceite em nossa sociedade. Se desejarem manter uma guerra contra o tráfico, façam-no, mas façam-no de modo a obter a vitória, elidindo por completo a oferta-procura de drogas.”



Com essas últimas palavras, levantei-me da mesa, fazendo reverências e pedindo licença a todos, e me retirei.



No ano de 2014, sem que eu fosse novamente convidado a participar de foros de debate sobre o tema, li nos jornais que cargas de drogas apreendidas pela polícia estavam “ENVENENADAS”. Nos dias subseqüentes, houve uma avalancha de notícias a respeito de vítimas fatais de pelo menos três espécies de venenos diferentes imiscuídos em drogas ilícitas em diversos países. A disputa entre máfias rivais de traficantes era responsável pelo genocídio. Foram dezenas e, logo, centenas de mortos, inclusive próceres e artistas, sobretudo músicos que faziam apologia do uso de entorpecentes. Houve uma onda de pânico mundial desenfreada e, em seguida, exacerbada, ainda mais, pela divulgação de um vídeo em que o terrorista Osama Khalil Ali aparecia, assumindo a autoria de parte dos atentados e vaticinando sobre o fim da sociedade ocidental pagã e inimiga dos árabes. Obviamente, houve uma forte retração na procura por drogas e, a partir daí, sucessivos ataques foram desferidos contra traficantes e terroristas, com o desmembramento de cartéis inteiros e grandes máfias por todo o mundo.



A chamada “Guerra do Tráfico”, contudo, não foi sopesada em todos os seus pontos de maneira adequada. Por força disto, estendeu-se essa referida guerra inutilmente por longos anos, com um número mais do que excessivo de vítimas, até que, no ano de 2021, foi anunciado o fim do tráfico internacional de drogas, com a “conscientização geral” da sociedade de então sobre os riscos da utilização de entorpecentes.


 
Autor: Igor Buys

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Comentários   

 
#1 Fabrício Ramon Azevêdo Dantas 28-12-2014 04:20
Me julguem o quanto quiserem, mas achei ambas idéias apresentadas geniais, sempre pensei que poderia ser feito algo do tipo. O modo que o autor aborda a promoção dessas ideias no nível em que o conto se passa, com líderes de países poderosos é também fantástica. Gostei muito do conto, mereceu as cinco estrelas, e espero que o final do mesmo se realize, mais cedo ou mais tarde hahaha
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