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Estação Luxor

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Escrito por Pietro Vaughan   
Sáb, 23 de Agosto de 2014 00:00

 

Estação Luxor


ESTAÇÃO LUXOR

Por Pietro Vaughan

 


I

 

 

2190 D.C.


A última das seis sondas espaciais enviada a Saturno retorna a estação espacial Luxor. Durante uma semana cada uma das sondas foi encarregada de percorrer o planeta executando funções como perfuração e coleta de solo e possíveis materiais orgânicos, análise do ar e informações visuais do planeta.


Luxor está a três-dias luz de Saturno e a estação de grandes formas circulares é tripulada por técnicos de nacionalidades diferentes. Em sua maioria estão cansados e ansiosos em voltar para casa, porém ainda restam dez dias de missão dos sessenta dias planejados para exploração de Saturno. Essa é a última etapa, antes da exploração tripulada do planeta e a instalação da primeira colônia.


A Via Láctea é o novo quintal dos terráqueos.


06 de junho de 2020 marcou a grande mudança e a partir desse dia, a humanidade não foi mais a mesma. Por maiores que fossem os rumores e cada vez mais evidentes provas de vidas inteligentes em outros planetas, o abatimento em Moscou por um grupo rebelde separatista de uma nave mãe extraterreste que sobrevoava a cidade foi o estopim da mudança, tudo foi transmitido on-line, em tempo real para o mundo inteiro e nenhum governo ou órgão religioso foi capaz de negar tão grandes evidências.


Nenhum dos humanoides do sistema Cítara sobreviveu ao atentado. Em poucos dias, explodiram documentos com provas de todos os contatos já feitos e da influência dos extraterrestes em nossas decisões.


Foi o inicio do caos.


Ninguém estava preparado para essa confirmação.


Em poucos dias surgiram milhares de cultos de adoração aos alienígenas. Governos e religiosos precisaram dar explicações. Foram meses de loucura. Vários casos de suicídios em massa. Disputas pelas tecnologias aliens.


A Terceira Guerra Mundial foi consequência.


Em dez anos de guerra, mais de dois terços da população mundial havia morrido em consequência da guerra, das doenças e fome.


A guerra acabou e a reconstrução do planeta com o uso de tecnologia extraterrestre foi rápida, graças aos grandes investimentos feitos pelas grandes corporações,  e como as nações estavam falidas, as corporações foram as responsáveis pelo grande financeiro no expansionismo interplanetário e negociações com os outros planetas habitados.


Clara nasceu no período de paz.


Ela está entediada e olha para as unhas pretas feitas de porcelana. Está à espera de que o sistema de comunicação on-line entre a Luxor e a base de comando, que está a quinze dias-luz da estação, volte a funcionar.


Há três dias, o sinal tem falhado, ou mesmo funcionado em níveis fracos, e ela espera rever o quanto antes o rosto bonitinho do rapaz do setor de comunicação com que ela tem conversado quase que diariamente.


Ela precisa de rostos novos e não as mesmas caras nerds de sempre.


O monitor central dá três bipes e as luzes da torre de comando se acendem. Um holograma borrado do Comandante Jarvis se forma.


– Clara...relatório! – diz o Comandante Jarvis com a voz chiando e a imagem falhando.


– Bom dia, senhor  – responde Clara.


Relatório  – ele insiste.


Com uma voz morosa, Clara relata:


– As sondas retornaram minutos atrás, aparentemente nada de extraordinário aconteceu. Em dois dias teremos os relatórios da sondagem e...


A imagem do comandante desaparece por um momento e reaparece.


Clara ouve gritos e se distrai.


A comunicação falha outra vez e os gritos aumentam. Clara levanta-se da cadeira e caminha até a porta.


Ela ouve novos gritos seguidos de tiros.


Clara, recua, pensando: “Tiros? Mas, não temos armas?”.


– Clara?  –  o comandante a chama.


A comunicação cai e a energia também. A torre fica no escuro. Clara encosta o ouvido na pesada porta de ferro.


Tudo aparentemente está normal.


Clara aciona manualmente a abertura da porta e sai no corredor. Tudo está quieto, como sempre está na estação. Já estava convencida que ficara louca quando novos gritos precedem novos tiros. Ela retorna para a segurança da sala de comando. Com medo e com algum esforço,  ela fecha a porta. Não há esconderijos naquela sala ou em qualquer outro lugar da estação.


Os sons dos tiros estão a cada segundo mais próximos.


Clara abriga-se embaixo de uma mesa, esperando que acorde daquele pesadelo. Uma explosão sacode a estação. Os sprinters funcionam quase que imediatamente e Clara tem certeza que não está sonhando e que irá morrer.


Passos no corredor confirmam sua suspeita.


As luzes da torre de comando voltam a se acender e ela odeia que aquilo tenha acontecido justamente  quando ela mais queria ficar no escuro. A porta se abre. Clara se encolhe embaixo da mesa. O holograma do comandante retorna o suficiente para o intruso atirar na direção dele,  estourando todos os monitores que estão na região dos tiros.


Clara engole o grito de medo.


O atirador caminha pela sala, empurrando cadeiras e mesas. Clara se encolhe ainda mais, trincando os lábios.


O intruso para por um momento. Olha para os lados e caminha em direção à porta. De novo o monitor de comunicação se acende. O intruso caminha até a imagem.


Ele descarrega a arma.


Um quase inaudível grito de pavor escapa dos lábios trancados de Clara. O intruso percebe a presença dela. Com um puxão, ele a arranca de debaixo da mesa. Clara grita a plenos pulmões e chuta o agressor. O intruso defende-se com os punhos e cansado da brincadeira, arremessa-a contra a parede.


Clara desaba desacordada.


Quando Clara recobra a consciência, o intruso está agachado diante dela.


–Você pilota? – o intruso pergunta.


– Hã? – ela responde sem entender o teor da pergunta.


– Você sabe pilotar?


– Não – ela balança a cabeça em negação, acompanhando a resposta.  – Sou uma técnica de comunicação. Eu não sei pilotar... os navegadores...


– Mortos – o intruso sorri. – Você não serve de nada para mim.


O intruso estende para ela uma pistola elétrica de colocar parafusos, mas que serviu para matar várias pessoas. Com mãos tremulas, Clara pega a arma e o intruso mostra que ela deve aponta-la contra a própria cabeça.


Ela treme muito.


Com um gesto da cabeça,  o intruso a incentiva a continuar. Ela não consegue. O intruso a esbofeteia no rosto. Ele segura a mão dela com firmeza no cano da pistola elétrica. Ele força o dedo dela para apertar o gatilho. A vontade dela de viver é grande e a mão resiste por um tempo. O intruso se cansa da brincadeira. Toma a pistola dela e dispara um tiro que vaza a cabeça da Clara. O corpo dela tomba, tremendo por algum tempo e depois se acalma.


O intruso, um dos líderes da equipe de manutenção da estação, um homem calmo e de paz, olha sua vitima com admiração. Depois dá meia volta e sai da estação. Ele ainda tem uma última missão a cumprir, antes de morrer.

 

 

II


 

Ridley respira fundo.


Ele ajeita a arma no coldre e observa seus seis comandados poucos minutos antes de desembarcarem na Luxor.


Ele não está com bom pressentimento.


O piloto manobra a Falcon o mais próximo do hangar. Um droide é enviado para abrir externamente o hangar. Há setenta e duas horas terrestres, não há qualquer comunicação entre a Luxor e o centro de comando. Ridley e seus homens foram convocados às pressas para descobrir o que aconteceu. A Falcon pousa no hangar e não há sinais de vida e todas as cápsulas de fuga foram destruídas por uma explosão.


Os soldados desembarcam em duplas, Ridley é o último a desembarcar. Com o olhar ele ordena aos dois técnicos que acompanham a missão que fiquem exatamente nos lugares onde estão e sigam as ordens do piloto.


– Mantenham-se em alerta – Ridley grita pelo comunicador para os comandados. – Vocês sabem o que fazer.


Os soldados obedecem.


A primeira parte da missão se resume em encontrar alguém vivo. Pouco a pouco,  cada sala e laboratório são vasculhados. Horas em ritmo tenso, entrando e saindo de ambientes frios e silenciosos. Procurando por pessoas que deviam estar ali trabalhando e desapareceram..


– Ninguém, chefe! - Miguel grita pelo comunicador.


– Aonde esse pessoal foi parar? - Ridley se pergunta, – Svenson, busque os técnicos,  precisamos saber se eles deixaram algo nas máquinas.


Svenson obedece.


–  Como mais de cinquenta pessoas somem assim? – Miguel pergunta.


– Não sei – responde Ridley com preocupação na voz.  - Todas as cápsulas de fuga foram destruídas, eles não podem simplesmente terem desaparecido.


A conversa entre os dois é interrompida pelo som estridente de tiros de uma arma grande.


Os soldados reagem correndo na direção dos tiros. Miguel choca-se com um dos técnicos que corre na direção oposta com o jaleco coberto de sangue. O técnico desaba. A garganta cortada jorra sangue para todos os lados.


–  O que está acontecendo aqui? –  grita Miguel, tentando socorrer o técnico.


– Svenson – Ridley grita pelo comunicador. – Onde você está? O que está acontecendo?


Gritos e tiros.


Silêncio.


O silêncio dura muito pouco, novos gritos,  e esses dos outros soldados da equipe,  que atiram sem parar para o mesmo lugar.


– Recuar! – grita Ridley sem saber no que fazer no momento – Recuar! Recuar!


Ninguém obedece.


Miguel atira para todos os lados, sem saber no que está mirando. Ridley também é impelido a atirar para todos os lados. A dor de cabeça o impede de pensar direito e de seus lábios saem:

– Morram, filhos da puta!

 

 

 

III

 

Terra, uma semana depois.


Outro dia quente em São Paulo, uma das poucas capitais que restaram depois da III Guerra e hoje o centro militar do planeta. Sem previsão de chuva. Sem água. Com temperaturas próximas aos 100ºC durante o dia e zero grau à noite. Na antiga avenida Paulista, as Torres Comando Militar dominam o ambiente. No escritório do Comandante Geral o clima é tenso.


– Não sabemos com o que estamos lidando – Jarvis começa a falar, virado para a janela e observando o pôr de sol alaranjado de um dia quente. – Ponderei muito sobre isso e precisamos descobrir o que há de errado naquele lugar.


Ele sente-se cansado com a pressão dos acionistas por resultados,  e continua:


– Até onde sei,  tudo estava normal,  e agora tenho uma tripulação inteira desaparecida. Os soldados que enviei desapareceram. Preciso de respostas.


– A porra toda se resume que o senhor quer que arrisquemos nossas bundas nessa missão suicida? –  Eva pergunta com seus expressivos olhos castanho-escuros arregalados.


Jarvis a olha antes de responder, ele detesta quando Eva fala palavrão e isso é comum no vocabulário dela.


– Não penso de outra maneira. Por isso que somos soldados. Se quiséssemos viver para sempre, ficaríamos mofando no sofá vendo um milhão de canais de televisão. Saturno é importante como ponto militar estratégico.


–  Eu sei de toda essa merda.


– Eu sei que você sabe e é  por isso que confio em você. Peguem todas as informações que conseguirem. Instalem as bombas e saiam de lá vivos em menor tempo possível.


– Quero entrar e sair em menos de uma hora – Eva começa. – Ridley e os meninos ficaram mais de três horas lá. Coisas estranhas podem acontecer nesse tempo.


– Escolhi a dedo o cara que irá acompanhar vocês.


– Espero que ele seja capaz de proteger a própria bunda.


Eva se levanta da cadeira. O comandante estica a mão para ela. Eva a aperta e o comandante a puxa para um abraço.


– Se cuide!  – diz ele.


Eva o afasta com certo desconforto pelo abraço. Jarvis acompanha com o olhar a filha que sai da sala. O comandante vira o rosto para a janela vendo o próprio reflexo distorcido, o fim do dia sempre o deixa nostálgico.  Jarvis tem certeza que aquele foi o último encontro com a filha.


Ele liga o comunicador.


–  Pois não, meu senhor –  responde jocosamente James Ernest.


– Jim... não estou interessado em gracinhas.


–  Certo... o que posso fazer por você?  – Jim pergunta.


–  Quero recorrer aos meus arquivos de DNA.


Jim sorri como um gato velho.


– Quem? – ele pergunta.


– Minha filha... espere – Jarvis pensa um pouco.  – Também os da mãe dela.


– Fico feliz em ouvi-lo e saber que o dinheiro dos nossos acionistas está sendo bem usado. Estou um pouco enjoado de tanto produzir trabalhadores cabeçudos com a mesma cara de idiota e clones de soldados burros.


Jarvis esboça um sorriso.


–  Nesse nosso projetinho, quer alguma melhoria?


Jarvis pensa na filha petulante e na mulher que morrera há cinco anos em um acidente de avião.


– Não...acesse o meu arquivo com o implante de memórias e apenas acrescente convicção que somos uma família feliz e que abandonamos tudo para vivermos longe de toda bagunça.


–  Posso garantir que fez uma boa escolha...a minha ex e eu nunca estivemos tão feliz desde que ela voltou dos mortos e...


Jarvis o interrompe.


– Comece o processo – diz Jarvis.

 

 

IV

 


Eva passa as últimas instruções para os dois soltados que a acompanham  na missão e de longe avista o técnico que se aproxima da nave.


Case Bohr, com o longo cabelo preto e barba comprida encrespada como arame farpado,  passa direto por eles. Born tem um aspecto sujo e de quem vive no próprio mundo. Eva não foi com a cara dele.


– Nunca mais se atrase! – ela grita para ele. – Preciso que você seja capaz de olhar o relógio, caso contrário, vou te deixar para trás.


Estalando os dedos no ritmo do trash-metal de uma banda nórdica dos anos 2000 que ouve nos fones de ouvidos, Bohrn concorda com um gesto da cabeça e entra na nave, sem se importar com o teor de preocupação na voz da comandante da missão. Ele cumprimenta os outros ocupantes da nave e se ajeita em uma poltrona.


A nave levanta voo e,  ao sair do planeta,  atravessa um dos portais de transferência criados para encurtar o tempo de viagem.


Eva acorda Bohr que dormia para dar as últimas instruções.


– Não sabemos o que aconteceu por lá, portanto usem os trajes de contenção e não os tire de maneira alguma. – Ela se volta para Born: – Preciso que você faça a sua parte de maneira rápida, entendeu?


Born levanta a mão.


– Sim? – Eva pergunta.


–Terei uma arma?


– Não. Se você der mancada, eu mesma te mato.


A nave entra pelo hangar, com o procedimento semelhante da equipe anterior. A nave pousa próxima a nave da equipe anterior.


A equipe desembarca. O primeiro soldado que sai caminha poucos metros antes de ser alvejado na cabeça e cair.  Ridley metralha o outro soldado antes que ele reaja. Ridley rola pelo chão, pegando a arma do primeiro soldado abatido. Eva não reage. Fica travada vendo sua equipe sendo morta. Outro tiro acerta em cheio a cabeça do piloto que atirava de volta.


–  Ridley,  abaixe essa arma! –  foi a única coisa que Eva conseguiu dizer.


Completamente transtornado, o experiente soldado não obedece. Seus olhos injetados de sangue estão vidrados na parede atrás dela.


– Eles precisam pagar – ele grita.


– Cara, pelo amor de Deus! – Eva tenta tranquiliza-lo.  – Abaixe essa arma.


– Deus não tem nada a ver com isso. Ele nos abandonou faz tempo. Eu sei.


– Quem são eles? - Born pergunta ao soldado.


Ridley dá um sorriso maníaco.


– Já fiz a minha parte, agora é a minha vez.


Ridley vira o cano da arma para a boca dando um tiro contra a própria boca.

 

 

V

 

 

O silêncio após a zona de guerra que virou o hangar perturbava.


Eva estava angustiada, acabara de ver um dos soldados que ela mais admirava matar três pessoas e tirar a própria vida, em um surto de loucura. Born, ao contrário, estava tranquilo.


– Precisamos ir – ela disse a ele. – Não podemos permanecer parados.


Born contentou-se em apenas olhá-la.


– Vamos – ela disse sem convicção.


Eva olhou em volta e correu na frente. Born não pareceu preocupado. Caminhou tranquilo, certo que não tinha nada a temer. Irritada com o comportamento dele, Eva apontou a arma e disse:


– Porra! Não me atrapalhe.


– Calma. Já tô indo  – responde Born.


Vozes estranhas invadem o comunicador de Eva. São sons confusos de pessoas gritando. Outras chorando. Algumas rindo. Ela bate com as mãos no comunicador, mas o som continua,  e aos poucos o volume aumenta. De repente, as vozes cessam e uma voz fala com ela.


– Eva? – fala uma voz feminina.


Eva reconhece a voz e seu coração gela.


– Filha...filha... está me ouvindo? Sou eu...


– Mãe? – diz Eva em voz alta.


– Estou aqui.


Eva vira o corpo e se depara com sua mãe, morta há cinco anos lhe estendendo os braços.


– Não me faça ir até aí para você me dar um abraço.


– Eu não acredito... – Eva inicia um choro. – Eu não acredito – ela repete.


A mãe dela diz:


– Bobona! O que você não acredita?


Born empurra Eva para o chão e a soldado desperta do transe.


– Ficou louco! – ela grita furiosa com ele.


– Eu? Você tava caminhando na direção do parapeito, chamando sua mãe e eu que sou louco?


– Sai de cima de mim!


Born obedece, mas outra pessoa chama a atenção de Eva.


– Feiosa! Feiosa! Beijei seu namorado! – grita uma menina para ela.


Um rapaz surge do nada e fala:


– É melhor terminarmos...eu gosto de outra.


Um médico fala:


– Sua mãe morreu...eu sinto muito.


Um homem que ela tanto amou se materializa dizendo:


– Prometo que vou terminar com a minha esposa... só preciso de tempo para isso.


Todas as dores e tristeza da vida da Eva brotam de lugares esquecidos. Coisas que nem ela sabia que haviam machucado enchem seu coração de raiva e frustração.


Ela precisa acabar com aquilo.


Eva saca a arma e dispara sem parar na direção das pessoas que a magoaram e que estão surgindo diante dela. Born se protege, jogando-se no chão e se arrastando para uma sala. Eva descarrega a arma e não para de atirar, nem mesmo quando toda a munição acaba. O dedo continua apertando o gatilho.


Depois de mais de cinco minutos apertando o gatilho de uma arma descarregada, Eva se abaixa e desaba em lágrimas.


– Meu Deus! – ela grita.  – Faz isso acabar.


Born também inicia seu inferno quando uma voz no grita em seu ouvido.


– E aí, ogro? – ele se vira e vê o irmão, que desaparecera quando ele tinha dez anos.


Born fecha os olhos.


– Eu ainda estou vendo você – diz o irmão do Born.


Born aumenta o volume do rádio,  e quando volta a abrir os olhos, o irmão não está mais ali.


A estática no rádio dele aumenta.


Born muda de faixa de musica e aumenta o volume, mas o som nos fones diminui e aos poucos só resta o suave som de vozes conhecidas. Ele fecha os olhos e elas falam com ele.


Ele entende a mensagem e se assusta ao ver Eva puxando a arma reserva e a apontando contra a cabeça. Born corre na direção dela e segura sua mão.


– Não! – ele fala para ela.  – Ainda não acabou.


– O que está acontecendo? – ela pergunta.


– Precisamos chegar o quanto na torre de comando.


– Claro! – ela diz se levantando e se recompondo na medida do possível. Eles seguem o mapa até a torre de comando. Born entra na sala sem observar se ela estava realmente vazia e Eva se irrita com isso.


– Que merda! – Eva esbraveja.


Ele a ignora. Senta-se diante de um computador e o acessa.


– Estamos bem – ele fala - Não estamos só...mas estamos bem, pelo menos por um tempo.


- Onde estão os corpos? – Eva olha pela janela da sala  – Eu não vi nenhum.


- Na calderaria... acho... quem fica por último tem a obrigação de manter o lugar limpo.


– Minha cabeça dói... – Eva massageia as têmporas: – O que você quis dizer em manter o lugar limpo?


– Eles não gostam de bagunça ou sujeira, nossos corpos fedem para eles. Mesmo sendo eles que provoquem toda essa zona...eles não se sentem culpados...é a natureza deles...eles foram criados para esse propósito.


– Do que você está falando?


– Nós os acordamos. – Born digita comandos ao computador.


– Quem nós acordamos? Dá pra falar uma merda que faça sentido?


– Eles dormiam,  e nossas sondas os acordaram,  e nós os trouxemos para cá. Cara, eles dormiam há muito tempo... eles queriam ser esquecidos e quase foram... –  ele continua digitando. – São como um vírus e o simples contato com vidas como as nossas cheias de emoções, provoca loucura e mortes...eles sabem disso e isolaram.


– Você tá maluco... quem  te contou isso?


– Eles contaram... eles não têm um nome. Nunca precisaram de um nome, mas são conhecidos e temidos em todos os lugares habitados. Foi por isso que você saiu atirando como uma louca. O que você viu?


– Não é da sua conta.


– Eles nos fazem reviver nossas lembranças mais doloridas.


– Por quê?


– Eles não sabem... simplesmente existem com esse propósito.


– O que você viu? – Eva pergunta colocando a mão no ombro dele e o fazendo parar.


– O meu irmão... ele sumiu quando eu tinha dez anos.– Born cria coragem para continuar:  –Meu irmão foi morto pelo meu pai...eu sabia... todos nós sabíamos que ele era o culpado... o filho da puta matou o meu irmão.


– Como você sabe disso?


– O meu irmão descobriu que meu pai saía com outros homens – Born faz uma pausa. – Quem você viu?


– Minha mãe – Eva responde querendo chorar.


– O que vai acontecer agora?


– Mandei todas as informações que conseguimos para a Terra e a explicação de tudo que aconteceu. Espero que alguém leia.


– Você acha que vão ler? Que vão parar com a exploração?


– Não  – Born suspira. – Agora entra a pior parte.


–Eles me pediram algo.


– Que merda que você está falando?


– Eles precisam de mim, para completar a missão deles. Eles não querem machucar mais ninguém... nunca quiseram na verdade.


Eva percebe algo no olhar de Born. Antes que ela reaja,  Born saca uma pistola de pregos e atira, ferindo-a no ombro. Eva cai e Born se aproxima. Ele atira mais uma vez, acertando-a no joelho.


Eva urra de dor.


–  Seu filho da puta! – Eva grita. – Eu vou te matar.


– Não pense em sacar sua arma... não podemos voltar – ele diz.  – Estamos contaminados. Preciso ficar... preciso ficar sozinho. Levá-los para outro lugar... onde eles não podem mais ferir ninguém.


– Não me mate – Eva implora.


– Eu não sou um assassino. Apenas um homem com uma missão. Eu nasci para isso, para salvar o nosso povo e o deles.


Ele atira entre os olhos da Eva.


Born a observa por um tempo e se afasta do corpo dela. Ele se senta na cadeira do navegar e aciona os jatos da estação espacial. A viagem será longa até a estrela mais próxima e tudo finalmente acabará.


 

 
Autor: Pietro Vaughan

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