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Quem precisa delas?

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Escrito por Vânia Gomes   
Sáb, 23 de Janeiro de 2016 00:00

 

 

Quem precisa delas?


QUEM PRECISA DELAS?

Por Vânia Gomes

 

Num fim de tarde normal, de um dia normalíssimo, um robô-policial o salvara de um estranho drone, que lhe apareceu do nada, enquanto subia a ladeira em sua motoca voadora que, velhinha, só voava baixo. Estranho, mas a verdade é que os assaltos estavam aumentando assustadoramente e ele andava muito distraído. Era presa fácil.


Desde que experimentara fazer sexo carnal, andava nas nuvens. As sensações e cheiros são parecidos com os do sexo virtual, mas são mais intensos, melhores e, por que não dizer, mais verdadeiros. Pelo menos sentia assim.


Decidira experimentar com alguns amigos em uma casa de jogos sexuais clandestina, há uns quinze dias. Pagar por sexo era estranho, quando se tem aplicativos gratuitos que podem ser adicionados aos gadgets sexuais mais modernos. Estranho, mas foi muito excitante, seja pelo proibido, seja pela experiência inusitada de ter uma companhia para algo tão íntimo. Até então, só fizera sexo consigo mesmo.


Lera num livro como eram esses prazeres nos séculos passados e quis vivenciar exatamente essa experiência, por isso teve que escolher obrigatoriamente uma mulher. Os rapazes eram bem atraentes, mas a experiência que buscava era outra. A mulher não era bonita, era franzina e aparentemente sem graça, mas soube seduzi-lo. Sentiu coisas estranhas, diferentes e mais gostosas do que aquelas proporcionadas pelos gadgets que tinha.


Não sabia se era o calor, os perfumes ou os cheiros estranhos, se era a bebida escolhida ou o prazer diferente e intenso que sentira naquela noite. Dormiu estranho, enjoado. Acordou enojado, sozinho, a mulher nem estava mais lá. No cômodo holográfico, apenas um drone que lhe serviu de despertador e também era o cobrador pelos serviços. Pagou o que devia com seu chip do banco. A segurança era incontestável, pois o local funcionava com o registro de um restaurante de comida vegetariana do século XXI. Caríssimo, pois não servia pílulas, suplementos ou shakes, vendia a experiência, que ele ainda não sabia se queria experimentar. Depois de todo aquele enjoo da noite de sexo é que não dava nem para pensar numa coisa dessas.


O robô-policial o salvara de um drone semelhante ao da casa de sexo, mas aquele modelo de drone que o atacara era o mais vendido para estabelecimentos comerciais. O policial informou-o que aqueles drones vinham sendo usados para assaltos e sequestros e, por isso, o contingente de robôs-policiais fora reforçado na região.


Ao chegar em casa, uma surpresa estranha. A mulher com quem se deitara na casa de jogos sexuais o esperava junto ao drone da portaria do prédio. Pediu desculpas pela quase invasão, mas tinha um assunto urgente para resolver com ele. O drone que quase o atacara era o gerente da casa de jogos sexuais e queria apenas levá-lo para resolver a situação. E com a maior naturalidade do mundo, a mulher feiosa e sem graça contou-lhe que estava grávida e, pelo exame de DNA, ele era o pai da criança.


— Como assim?


— Bom, eu sempre pego um pouco de cabelo dos clientes homens, porque é algo que pode acontecer a qualquer momento, já que eu não posso tomar pílulas e não quero retirar o útero. Tenho religião, sabe? Faço exames todos os dias. Há dez dias deu positivo para gestação. Ontem, fiz o exame com o aparelhinho de uma colega que detecta o pai a partir de qualquer pedaço de DNA. O resultado está aqui, pode ver. Aliás, confira se bate com o seu chip de identificação biológica. Não quero que paire qualquer dúvida, não sou vigarista.


Ainda pasmo, verificou. E conferia com seu chip de identificação. O cheiro da mulher invadiu suas narinas, o calor da tarde e aquele suor frio o fizeram tontear, sentiu uma vertigem, tudo se embaralhou à sua frente. O drone-porteiro esticou seus braços e segurou-o. Sentou-se e o porteiro logo lhe forneceu uma pílula animadora. Em poucos segundos, estava bem, mas a mulher continuava à sua frente com o problema. O que fazer?


Casar-se com ela parecia-lhe impossível, afinal, além de feia e sem graça, ganhava a vida de maneira ilegal. E ninguém se casava mais atualmente. Esse tipo de associação era coisa retrógrada, nenhuma religião exigia isso mais. O mundo havia evoluído, se fosse em outros tempos…


— Nunca achei que eu poderia engravidar alguém.


A mulher encarou-o com firmeza e disse:


— Não é a primeira vez que fico grávida e é provável que não seja a última. Mas precisamos burlar o sistema para garantir o aborto. Afinal, quase ninguém mais no mundo nasce de causas naturais, não é mesmo?


— Então você sabe como fazer isso.


— Sei. E só você assumir que me estuprou que me farão abortar.


— Mas eu não te violentei!


— Estupro não é crime, cara. Diz que me estuprou, aí me deixam abortar sem muita investigação. Não posso pôr em risco o meu emprego! E acho que você também não gostaria de colocar sua liberdade em risco, não?


Silêncio. Como gostava de ler textos antigos, sabia que o estupro fora considerado uma violência abominável em outras épocas. Já havia quase dois séculos que só nasciam homens. O mundo sobrevivia com pouquíssimas mulheres, que nasciam ao acaso, em condições nada convencionais, como provavelmente seria o caso da infeliz. E se a mulher estivesse esperando uma menina?


— O exame detectou se é menino ou menina?


— Menina, o que torna ainda mais urgente esse aborto.


Entendera melhor o problema naquele instante. Era complicado criar mulheres, ter mulheres e conviver com elas. Historicamente, quando elas começaram a dominar o mundo, achou-se por bem eliminá-las antes que conseguissem. Na primeira metade do século XXI, submetê-las ao jugo de homens não mais funcionava na maior parte do mundo. Seu domínio era cada vez mais forte nas Ciências, nas Artes, na Política. A terceira guerra, na última década do século XXI, logrou o êxito de eliminar quase todas as mulheres. Para os homens daquela época, algumas mulheres eram necessárias para sexo, apenas, já que as tecnologias de biologia sintética e bioengenharia permitiam criar homens com as variações e habilidades necessárias à humanidade sem precisar do antigo binômio homem-mulher. Quando criaram gadgets de sexo mais realistas, manter uma mulher passou a ser quase ilegal, já que sua única função havia sido suprida por algo mais tecnológico e mais limpo. Doenças sexualmente transmissíveis, por exemplo, era algo inexistente há mais de cem anos.


Mas agora ele estava com duas fêmeas bem ali na sua frente: uma adulta e um projeto em sua barriga.


Lera muitos livros antigos e, da maneira como foram escritos, estupros e violência contra mulheres já foram considerados crimes hediondos em muitas sociedades. Mas não havia saída e, querendo ou não, aqueles eram outros tempos, viva em outro ambiente, outra cultura.


Deu-lhe um cruzado no rosto sem dó e ela caiu, quase desfalecida. Levou-a para sua casa, fez sexo com ela, mas utilizou seus cheiros artificiais, para evitar enjoos ou vertigem. Não estava cometendo o ato violento do estupro, mesmo que necessário e um enorme favor àquela mulher e, por que não dizer, à humanidade. Era um homem culto e não era mais virgem, e também estava mais esperto e consciente do que deveria fazer naquela inusitada e inesperada situação. Então, pagou por mais aqueles minutos de sexo, nada de estupro. Era digno que fizesse isso, uma maneira de compensar os castigos que ela provavelmente sofreria na polícia. Além do mais, o melhor para todos era não delatar a atividade da casa de jogos sexuais: ela perderia o emprego e juntamente com os proprietários da casa responderia a um processo por disponibilização de sexo carnal, crime inafiançável desde o século XXII. E ele responderia por um processo por contravenção e ficaria algumas semanas preso, o que prejudicaria suas pretensões na empresa de robôs industriais de alta performance.


Com os sinais necessários para configurar um estupro, levou-a à delegacia:


— Estuprei essa infeliz algumas vezes. E me disse que está grávida.


O robô-policial de plantão olhou a mulher, já escaneando-a. O hematoma na maçã do rosto denunciava a violência.


— Pode ir, senhor, cuidaremos disso. Só uma pergunta: onde a encontrou? Ela é figurinha fácil aqui na delegacia.


— Rondando meu prédio, há duas semanas.


Encarou a mulher. Franzina, o cabelo liso, mas ressecado, os dentes muito amarelos do tártaro não tratado, a pele marcada por outras cicatrizes. Estranho como aquele corpo esguio e mirrado conseguia dar tanto prazer.


Fora embora sentindo-se estranho. Naquela sucessão de erros e ilegalidades, fizera apenas uma coisa certa: poupara a vida de uma mulher que seria sua descendente. Uma inocente garotinha, como diziam os antigos, não merecia uma vida como a da mãe, implorando por um estupro. E ele, como homem de fins do século XXIII, jamais assumiria qualquer mulher em sua vida, afinal, a outra possibilidade é que ela poderia dominar o mundo. E, neste caso, ele seria lembrado pela História como o homem que iniciou a desgraça da sociedade, por trazer uma mulher à vida. Não, ele é que não tornaria o futuro do mundo incerto. Sim, todas as mulheres haviam de ser eliminadas, afinal quem precisa delas?


Vânia Gomes é mineira e mora em Brasília. Graduada em Ciências Biológicas e Mestra em Genética, escreve por paixão. É  autora do livro Histórias do Vaticano e outros contos.  Seu sitewww.vaniagomes.com.br

 
Autor: Vânia Gomes

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