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P.R.O.C.N.E.

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Escrito por Sonia Regina Rocha Rodrigues   
Sex, 30 de Dezembro de 2016 00:00

 

 

PROCNE


P.R.O.C.N.E.

Por Sonia Regina Rocha Rodrigues


O efeito estufa, durante décadas apenas uma teoria, agora nos assava a todos igualmente, crédulos e incrédulos, cientistas e leigos. Ao calor somavam - se dois outros males: os cataclismos decorrentes da mudança do polo magnético do planeta e, pior que tudo, o terrível vírus Deméter furiosa.


Quando descoberto não causara muita turbulência, parecia ser apenas uma variante do mosaico do tabaco. Finalizava-se o processo de vacinação em massa contra o vírus Ebola e pensava-se que, estando finalmente controladas as duas grandes epidemias deste século (a primeira fora a AIDS), poderíamos descansar.


Então, e só então percebemos a magnitude do problema que enfrentávamos. Tal como Deméter, após o rapto de Cora, retirara da terra sua fecundidade, deixando - a estéril, assim o novo vírus destruía todo o potencial reprodutivo dos vegetais, espalhando - se com rapidez por todas as espécies, frutíferas ou daninhas.


Daí a pressa em se construírem plataformas e ônibus espaciais em série, para evacuar rapidamente o planeta, pois o calor e a fome já haviam matado milhões de homens e animais de toda espécie.


P.R.O.C.N.E. era prioridade absoluta. Projeto de Construção de Naves Espaciais.


Meu tio Samuel, o líder do projeto, arrastara meu irmão, mecânico de motores atômicas, para o projeto.


Então, incompreensivelmente, Samuel suicidou - se. Na véspera de sua morte, deixou-me um envelope lacrado e um bilhete: “Um cientista não pode deixar - se levar pelos seus desejos mais secretos. E eu deixei - me levar pela esperança.”


Abri o envelope e encontrei uma pasta de desenhos. Nosso tio fora também pintor. Pinturas... esboços...haveria algum sentido naquilo? Comecei a folhear o álbum, lendo os títulos das ilustrações: A Deusa Nut _ A caverna de Pitágoras _ As Sete Esferas _ O País dos Hiperbóreos _ Big - Bang _ As Bolhas de Bohr _ A Foto da Mulher de Mao.


Meu irmão, desolado, mostrou-me uma palavra escrita na capa e que me passara desapercebida: Procne.


- Que tem isso a ver com as naves espaciais? - perguntei.


- Procne não é uma sigla. Não é P.R.O.C.N.E. É Procne. Ei! A Deusa Nut! Acho que Samuel queira contar algum segredo, através da mitologia. Alguma coisa misteriosa há neste projeto. Procne deve ser uma chave.


Rememoramos a história de Procne, infeliz esposa de Tereu. Seu esposo apaixonou - se pela cunhada, Filomela, e como esta o recusasse, ele cortou - lhe a língua para que ela não pudesse acusá-lo e aprisionou - a em um palácio. Filomela então bordou sua história em uma colcha e enviou - a de presente a Procne, que assim descobriu a verdade.


- E Samuel, que por algum motivo não pode falar, nos envia desenhos. Esta pasta é o bordado de Filomela.


- Você acha?


- Olhe os desenhos. São concepções do mundo. São as maneiras como, através dos séculos, a humanidade imaginou o universo.


- Não a última.


- Não. Esta é diferente.


A Foto da Mulher de Mao não se encaixava de jeito nenhum no conjunto. Não era um desenho e nada tinha a ver com Mao. Tratava-se de uma colagem de fotos de revista: um cameramen filmava atores que se maquiavam para mais um capítulo da série Jornada nas Estrelas.


- Não consigo imaginar qualquer relação entre um vulcano e um ditador chinês.


Passamos grande parte do domingo a conversar e a observar os desenhos.


- A deusa Nut é uma criação do medo. O medo faz as pessoas imaginarem toda sorte de horrores. A noite, com a escuridão, traz o medo. Mas o medo também criou a deusa Nut, que, com seu manto protetor, a noite, protege o sono de seus filhos. E se você acredita na deusa Nut, não precisa mais temer a noite.


. - Você acha que o tio Samuel estava com medo?


- Não, Rita, eu acho que ele estava louco. Eu o ouvi falando sozinho, dizendo que recebera ordens para abandonar o projeto P.R.O.C.N.E. e trabalhar na fabricação de uma bomba de nêutrons.


- Que horror! Só alguns poucos, os que já estão nas plataformas espaciais, iriam sobreviver.


- Dentro de três meses estaremos todos mortos de calor ou fome. Nossa única chance é o P.R.O.C.N.E.


Apontei para um dos desenhos:


- Que diz a teoria das bolhas?


- Essa é a teoria que compara cada conjunto de galáxias a uma bolha de sabão. Na superfície das bolhas existe a chamada tensão superficial, que mantém os átomos fortemente unidos entre si. Esta teoria diz que uma força semelhante à tensão superficial impede qualquer matéria de desprender - se das bolhas, e isto significa ser impossível uma nave espacial viajar de uma bolha para a outra.- Impossível haver contato entre os mundos.


- Acabo de ver um detalhe aqui. Pegue aquela lente de aumento.


Lá estava, ampliado e nítido sob nossos olhos, a um canto do desenho, diversas bolhas representando o sistema solar; cada planeta, cada satélite, isolado em sua bolha. Um calafrio percorreu-me a espinha.


- Seria terrível se não houvesse nenhuma possibilidade de comunicação entre os mundos.


- Estou-me lembrando de quando o tio Samuel começou a escrever seu livro sobre a estrutura da matéria, trancou - se em casa e desligou o computador da Internet para que ninguém roubasse sua ideia.


- Nós pensamos que ele houvesse enlouquecido. Ele escrevia em código para que ninguém pudesse entender, se por acaso alguém]em lesse sua teoria...


- Disse que estavam todos errados, que somente ele sabia a verdade e que descobrira a equação que representava a criação do universo e que muitos chamam de... Deus.


Uma boa gargalhada liberou um pouco da tristeza que nos consumia.


- Pobre Samuel!


- Mas ele recuperou a razão. Abandonou o livro e voltou a trabalhar na N.A.S.A.


No envelope havia também um CD e nós o colocamos no CD_ROM. Apareceu na tela a mensagem: “Insira o código”


Lembrei-me da ocasião em que precisei dar a Samuel a minha senha pessoal na Internet. E ele comentara: ‘é só um número diferente da minha”.


Só um número diferente. Não foi difícil encontrar a senha. E então apareceram as instruções para que nós, seus sobrinhos, embarcássemos no dia seguinte de manhã bem cedo no último ônibus espacial a sair da Terra. Nossa única chance de sobrevivência era atingir uma plataforma espacial. As etiquetas de acesso foram devidamente impressas e nosso embarque confirmado via Internet.


- Que história é essa de último ônibus? - ficamos espantados. Pois não tínhamos ainda noventa dias de prazo?


Então desligamos o modem.


- Se há algum mistério na morte do tio Samuel, ele não vai querer a Internet bisbilhotando por aqui.


Corretíssimo. Lá estava na tela a verdade terrível. Inteiramo-nos da história sórdida do Grupo de Eugenia, que consistia em selecionar os melhores espécimes da raça humana para colonizar um planeta gêmeo da Terra na galáxia de Andrômeda assim que os grandes cataclismos começassem. Primeiro, limpar a Terra da escória da raça com auxílio de vírus como o HIV e o Ebola. Depois, convencer as massas de que já conquistáramos o Cosmo, através de projetos fantasmas da N.A.S.A. Enquanto isso, as verbas eram utilizadas no verdadeiro projeto, o P.R.O.C.N.E., desenvolvido com muita lentidão. As naves não saíam da órbita terrestre porque não se encontrou um tal fator de correção para anular a gravidade do planeta. Aparentemente, algo dera errado.


- Samuel estava louco. Realmente louco! - exclamei.


Meu irmão começou a vasculhar em sua pasta de recortes.


- Aqui está! - anunciou ele, triunfante - O tio Samuel sabia que eu tinha este artigo sobre a foto da mulher de Mao. Foi uma das coisas mais impressionantes que eu já li.


Um artigo amarelado, de uma Veja de meados do século, da época em que Mao repudiara a mulher. Havia duas fotos idênticas da época em que Mao assumira o poder. Na primeira dela, a mulher de Mao está a seu lado. Na segunda, ele está ausente e lia - se abaixo a legenda: “Esta foto foi publicada esta semana nos jornais da China para lembrar ao povo que Mao nunca foi politicamente apoiado por sua mulher”.  E o artigo prosseguia, comentando os perigos da manipulação da verdade pela mídia.


Examinei acuradamente A Foto da Mulher de Mao e dei-me conta de um detalhe:


- Olhe com mais atenção para esta colagem. Aqui, no cenário, atrás do capitão Kirk, não é a Enterprise. É a Apolo XI.


- Com truques fotográficos pode- se convencer o mundo de praticamente qualquer coisa.


- Pode-se até mesmo montar um circo espacial e fazer toda gente acreditar que o homem já pisou na Lua.

 
Autor: Sonia Regina Rocha Rodrigues

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