Síndrome | CONTOS DE TERROR
Você está aqui: Home > Contos de FC > Síndrome

Síndrome

PDF Imprimir E-mail
(1 voto, média de 4.00 em 5)
Escrito por Victor Meloni   
Sex, 02 de Março de 2018 00:00

Síndrome

 

 

SÍNDROME

Por Victor Meloni



Às vezes que somos obrigados, por questões que nos fogem, a remexer no lixo acumulado em nossas reminiscências, o fedor nos assalta com um sorriso amarelo e cínico, como é possível constatar sempre que o encaramos. Se estas memórias exalam, por todo e qualquer poro, apenas sensações lúridas, e sofrimento atroz, parece-nos mais presente, então, toda vez que tentamos afastá-las. Menos mal que há fim em tal tormento, seja ele de qualquer natureza.


***********


Nesta época, o clima, como consta nos documentos Históricos, foi completa e insidiosamente alterado pela ação dos seres humanos. Esta, somada ao ciclo natural das mudanças que ocorrem no planeta, intensificou sobremaneira a miséria colhida na negligência e estupidez das necessidades egoístas de cada um de nós. Tudo o que os especialistas advertiram, ocorreu. Desertificação em massa da maioria das áreas plantáveis. Extinção de um número assustador de espécies, que levou outras a multiplicarem-se em pragas incontroláveis. Contaminação do solo e envenenamento diligente de quase todas as reservas de água. Dessalinizar a dos mares tornou-se impraticável diante do custo insustentável em um planeta já dessorado economicamente pela falta, completa, de bom senso diante dos avisos.


Tentamos aquilo que, há muito, pesquisadores já vinham estudando e pondo em prática, em situações débeis, até então, forçoso esclarecer, mas que forneceram as bases para o que (acreditavam) ser nossa única alternativa: colonização de outro planeta. Em um esforço conjunto, várias nações financiaram o projeto Ícaro. A finalidade era bem pragmática. Levar os primeiros humanos ao planeta E195, recém-descoberto e que atendia à maioria das exigências para a probabilidade de reproduzir a nossa atmosfera e, concomitantemente, sustentar a vida como a conhecemos. Uma vez bem-sucedida a missão, o Ícaro retornaria, levando, junto à outras máquinas desenvolvidas até aquele momento, outro tanto de indivíduos, e assim sucessivamente até que todos fossem levados do planeta. Um processo lento, obviamente, e que tomaria boa parte das nossas atenções e pediria uma dose colossal de abdicação, essencialmente da parte dos menos favorecidos socialmente. Nada surpreendente, até então.


Ícaro ficou oficialmente pronta em 08 de setembro 3011. Engendrada pela mais avançada inteligência artificial já desenvolvida para a manufatura de cálculos impensáveis, condição ao feitio das máquinas que nos levaria ao novo mundo. Um robô. Algo, diziam as agências de notícias, surpreendente até mesmo os experts. Um novo nível de autômato.


Aqui, penso ser óbvio o decorrer dos acontecimentos. E, se não, é mesmo minha obrigação continuar a relatar para quem quer que venha a ler este documento. Os sintomas pareciam claros, até mesmo para os mais leigos, conquanto os cientistas envolvidos no projeto nos dissessem o contrário às sugestões nada sutis fornecidas pelo que eles nominaram HELL (Hybrid Enhanced Life Limit). Fontes ignoradas relatavam, em jornais sombrios, relegados à imprensa marrom pela grande mídia, que HELL estava conjecturando há muito. Coisa possível apenas aos humanos garantiam os estudiosos. Uma espécie de vaticínio das películas de ficção científica de outrora. Mas, sendo impossível esconder os fatos por muito mais, as autoridades se entregaram ao inevitável, lançando-nos à sorte daquilo que medrava nos laboratórios de altíssima tecnologia dos Estados responsáveis pela criação de HELL.


Ícaro nunca chegou a ser lançada. E195 permaneceu apenas nas elucubrações daqueles que se atreviam a nutrir alguma esperança. A inteligência artificial tornou-se autônoma e resolveu-nos por uma ameaça. Não esperou nosso inevitável termo e adiantou-se, elaborando sofisticados sistemas de busca e, no encontro, extermínio. Fomos terminantemente considerados um conjunto de sinais que caracterizavam determinada situação. Ameaça.


Rabiscando estas linhas, conforta-me saber que as lembranças vagas, quase apagadas, que me ligam a um passado menos tempestuoso, estão prestes a se desfazerem, pois esgota-se o tempo para o palco que as permite. Os sons, rascantes, estão aí, em minha porta, mesmo que seja esta um empréstimo poético da sua função. O cheiro inconfundível das engrenagens se armando, e do clique que antecede o vômito abrasador daqueles canos imperecíveis, garantem-me encontrado.

 

 
Autor: Victor Meloni

Leia outros artigos deste autor

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

 

PageRank

Pesquisa de informações

Leitores Online

 

Área de Autenticação








Após o cadastro, acesse seu e-mail e siga as instruções.
Copyright © 2018 CONTOS DE TERROR. Todos os direitos reservados.
Joomla! é um Software Livre com licença GNU/GPL v2.0.