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O guardião

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Escrito por Wagner Silva   
Sex, 06 de Dezembro de 2013 00:00

 

O Guardião

 

O Guardião

por Wagner Silva

Sempre tivera uma impressão errada do serviço de guardião noturno. Principalmente por conta da imagem impregnada no consciente coletivo, formada por anos e anos de bombardeio de filmes americanos. A visão era clara: um uniforme parecido com o da policia, um cassetete e uma lanterna para iluminar um labirinto de corredores.


Realidade e expectativa são separadas por um abismo. Nada de uniforme. O cassetete é um pedaço de madeira arranjado por ele mesmo e que lhe enche a mão de farpas. Não tinha lanterna, pois todas as luzes posam acesas. Não precisa percorrer todos os corredores, pois do pátio central tem uma visão de quase todos os cantos da escola. Onde a visão não alcança, ele julga ser sem importância. Na verdade lhe falta um pouco de coragem para chegar mais perto e verificar todos os cantos.


Poucas pessoas tem a noção do quão sinistro fica um prédio escolar durante a noite.  Qualquer ruído se torna incomodo. O som dos próprios passos ecoando pelas paredes se torna aterrorizante. Ainda mais se tratando de um prédio antigo como aquele.


Ele estava sentado na escadaria do pátio, que levava até a quadra de esportes. Decidira não ficar dentro da cozinha – lugar onde costumeiramente passava as noites – pois nos dois canais que pegavam em seu pequeno aparelho de TV, a programação não era ideal pra quem ia passar a noite sozinho num lugar assustador. Em um dos canais, um pastor expulsava aos berros uma entidade que não deixava a fiel ter prosperidade financeira e no outro, um filme sobre possessão demoníaca. Definitivamente, aquele tipo de assunto deveria ser evitado para um trabalhador noturno. Passar a noite sozinho numa escola já era uma situação tensa o suficiente.


A escadaria fica de frente para o pátio, na extremidade oposta, uma outra escada de cinco degraus conduz à porta de entrada da escola. O pátio é um ambiente coberto e ladeado por dois corredores nas suas laterais. A passagem para a quadra de esportes é a céu aberto. O céu está bem iluminado pela Lua e pela quantidade incomum de estrelas. Uma paisagem digna das ilustrações sobre o espaço feitas pela NASA. Naquela noite porém, tamanha beleza não era sequer percebida.


Sentado com os braços retos apoiados nos joelhos, ele olhava fixamente para o chão do pátio. Infelizmente, as poucas imagens que ele viu na TV ficariam assombrando sua mente a noite toda.


A noite de primavera estava extremamente quente. O abafamento era quase asfixiante. As paredes dos corredores laterais ao pátio eram cobertas com trabalhos dos alunos. Cartazes sobre os mais diversos temas. Em um deles, um gráfico de barra mostrava como a população do planeta ia morrer por falta de alimentos dali a poucos anos. Em outro, recortes com fotos de celebridades negras. Gravuras de animais, certamente por conta de algum trabalho de arte. Mas, de todos os cartazes, aquele com o desenho de um velho escravo era o qual mais o incomodava.  A figura parecia olhar diretamente para ele o tempo todo. Não importava onde ele se colocasse naquele pátio, a figura parece acompanhá-lo com os olhos. Seja sentado na escadaria, na entrada dos banheiros, nas mesas do refeitório, mesmo na cozinha, através da janela que dava para o pátio, a imagem melancólica do escravo parecia o seguir.


Por isso olhava fixamente para o chão. Para fugir dos olhos do escravo, para fugir de qualquer tipo de pensamento que fizesse aquela noite parecer ainda mais longa. Era inútil. A todo o momento vinham a sua mente a imagem do pastor exorcizando em um canal e a mulher precisando ser exorcizada no outro.


Tentando retomar o controle da situação, pensa consigo mesmo : “Estou pior que uma criança assustada. Estou com todas as luzes acessas, não tem mais ninguém aqui, já trabalho nesta escola há seis meses e nunca ouvi barulho suspeito nenhum. Agora cá estou eu, sentado na escada, só por que lugares abertos passam sensação de segurança. Só porque vi assuntos sobrenaturais na TV e por causa desse maldito cartaz! Estou com medo de ficar sozinho em um lugar fechado.”


Num súbito ímpeto de coragem decidiu: “Vou olhar esse cartaz nos olhos, mostrar quem manda e depois vou até a  cozinha fazer um lanche.”  Para ele, naquela noite, esses dois atos seriam o ápice da coragem.


Foi subindo a visão aos poucos, com a dramaticidade de uma novela mexicana. Elevando a visão para aquele desenho que já estava o incomodando há duas noites.


Conforme ia erguendo os olhos, sentia o chão sumindo sob seus pés. O sangue correndo em turbilhões por suas veias. O coração martelando forme seu peito. Ondas de choque por todo seu corpo. Sentia como se lhe enfiassem milhares de agulhas nos pés, mãos e pela coluna. Na boca, um gosto amargo, nas narinas um forte odor de velas queimando. Sentiu vontade de gritar, mas a voz não saiu pois em seus pulmões não tinha ar suficiente para emitir qualquer som. Correr estava fora de cogitação, pois seus membros não obedeciam. Sequer se moviam. Estava completamente paralisado.


Na porta de entrada, ao lado do cartaz com a figura melancólica do escravo, estava ela parada. Quem é? O que é? Como entrou? É uma mulher? É uma criança? Com certeza parece uma pessoa...está de vestido...está de frente ou de costas? A porta está trancada, tenho certeza que sim. Que horas são? Estou sonhando? Perguntas e afirmações desencontradas percorriam sua mente.


Apesar das três lâmpadas que iluminavam a entrada da escola, não conseguia enxergar com clareza. Era como se uma sombra confundisse sua visão. Sabia que era uma mulher ou uma menina e que estava de vestido branco. Não conseguia perceber se a aparição estava de frente ou de costas. Os cabelos negros lhe caiam até a cintura. Estava a aproximadamente vinte metros de distância, mas ele não conseguia distinguir bem o que via. Tentava olhar para os pés, para as mãos mas não percebia se estava de frente ou de costas. A única certeza que tinha era de que aquilo não devia estar ali.


Em meio aquela cabeleira negra, percebeu um par de olhos o fitando. Olhos extremamente vivos e expressivos e um leve sorriso sarcástico no canto da boca. Agora tinha certeza, aquilo estava de frente e olhando direto para ele.


Era uma figura estranha, parecia uma jovem...parecia uma criança...parecia assustadora...parecia inofensiva... Não, inofensiva não! definitivamente era assustadora. O guardião estava em absoluto estado de choque! Não conseguia se mexer, parecia estar sendo hipnotizado por aquela aparição.


Ele não conseguia organizar seus pensamentos, não conseguia fixar seus sentidos. Por trás daquela aparição, perecia ter mais alguma coisa, como se alguém estivesse a acompanhando, mas era tudo muito confuso. Ao mesmo tempo que parecia estar acompanhada, também parecia estar sozinha. Ao mesmo tempo que parecia estar de costas, também parecia estar de frente. O guardião sentiu seu pavor aumentar quando não conseguiu perceber se aquilo estava parada ou avançando em sua direção. Apenas conseguiu perceber o movimento quanto ela já estava no pátio, na metade do caminho entre a porta de entrada e ele.


A cada passo que a criatura dava em sua direção, seu pavor aumentava exponencialmente. Não conseguia sequer piscar os olhos. Quando se deu conta, ela já estava subindo a escada, a menos de dois metros de distância.


Já quase podia sentir as mãos daquela menina ou mulher ou seja lá o que fosse, em volta do seu pescoço o estrangulando. Mãos frias e ásperas! Já quase podia sentir o hálito fétido e podre daquilo bem na sua frente, pronta para lhe dilacerar a face com mordidas.


Mas a coisa passou direto por ele. No ar pairava o cheiro de velas queimando, de flores velhas e de alguma coisa que ele não conseguia identificar... alguma coisa sombria, triste... era o cheiro da morte! O ar ficou ainda mais abafado, o clima ainda mais quente.


Quando o guardião se deu conta, a moça já estava no alto da escada e continuava sua marcha pelo corredor. Estava indo na direção da porta do banheiro feminino. Ao chegar na frente da porta estacou.


A confusão dos sentidos voltou! Ele Já não conseguia perceber se ela estava parada ou em movimento, de frente ou de costas... não conseguia identificar sequer se ela ainda estava ali. Foi como se ela estivesse novamente envolta pelas sombras, pela escuridão, embora o corredor estivesse bem iluminado.


A coisa começou a emitir um grunhido gutural de forma leve e contínua. Um grunhido que rapidamente se tornou um grito ensurdecedor. Era um som angustiante, sofrido, sobrenatural, um grito de dor que fez até o chão tremer!


Quando se deu conta, o guardião já estava de pé perto da porta de entrada, ou no caso dele, de saída da escola. Estava de costas para a porta e de frente para o pátio. De onde estava via no final do corredor a porta do banheiro feminino onde há poucos instantes a coisa tinha acabado de desaparecer diante seus olhos.


Não sabia o que foi aquilo. Não sabia nem como saiu da escadaria e foi parar perto da saída. Sabia apenas que tudo havia sido real, sabia que o grito da criatura ainda estava ecoando pelos corredores e sabia que tinha que sair dali o mais rápido possível.


Ainda sem o pleno domínio do seu corpo, deu meia volta na direção da saída, mas deu de cara com aqueles mesmos pares de olhos negros o olhando de baixo para cima.


Agora era nítido! A criatura estava ali, parada entre ele e a saída, a menos de dez centímetros de seu rosto, o olhando com um ar sombrio e um riso demoníaco.


- Nunca Mais! Sussurrou ela abrindo lentamente a boca e inclinando a cabeça para o lado.


Então um novo grito, ainda mais estarrecedor que o primeiro se ouviu e a aparição avançou sobre o vigia.


Testemunhando a cena, estava o desenho do velho escravo, com os olhos vidrados e melancólicos.

 
Autor: Wagner Silva

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Comentários   

 
#1 profile 01-11-2018 06:10
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