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Aquele que venceu a guilhotina

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Escrito por Pedro Pantoja   
Qua, 28 de Maio de 2014 00:00

 

 

Aquele que venceu a guilhotina

 

Aquele que venceu a guilhotina

por Pedro Pantoja


As execuções na vila de Mariano César aconteciam à noite. Lá, a guilhotina já havia separado cinco cabeças de seus corpos, numa única noite. Mas a história da execução de Miguel Verde fugiu à normalidade. Não me recordo bem o crime que Miguel cometera, contudo me recordo vivamente de sua execução por dois motivos: o primeiro porque fui seu carrasco. O segundo, em que pese ser inacreditável, é verdadeiro e lhes narro ainda sobressaltado.


Seria a única execução da noite. Uma ventania nunca vista antes fustigava os cabelos e as roupas das testemunhas que apareciam para ver o cumprimento da sentença. Quando a carroça parou, o outro carrasco ordenou que o condenado descesse para depois subir ao patíbulo. Miguel trazia uma mordaça à boca e vestia somente uma calça deveras rota. As mãos estavam amarradas atrás das costas e o pescoço com grossos lanhos perceptíveis mesmo a pouca luminosidade.


Junto à população e a alguns guardas, o comandante da execução, major Ruiz, perguntou-o se desejaria algo desta vida antes de morrer. Verde meneou a cabeça afirmativamente. Então, o major me mandou tirar a mordaça para que aquele pudesse falar.


- Desejo que após a execução, a vila me considere como um homem livre; que tenha pagado sua dividia com a sociedade. Não desejo mais ser importunado por ninguém – solicitou Miguel Verde.


O major Ruiz riu-se placidamente e virando-se para as pessoas presentes, cuja quantidade grassava, falou:


- A lei não proíbe que após as execuções, os condenados sejam considerados livres, meus senhores. Também é demonstração da piedade que nossa vila pode oferecer. Para mim não há problema. Assim, peço que se alguém se opuser, fale agora.


Todos mantiveram o silêncio.


Então o major determinou, valendo-se de um tom jocoso:


- Após a execução, o estafermo será perdoado.


As pessoas presentes riram pelo adjetivo dispensado ao condenado. Ainda assim, Miguel Verde curvou sua cabeça em agradecimento. A mesma cabeça que seria decapitada! Em seguida, recoloquei a mordaça e dei-lhe voz de comando para aboletar seu pescoço no vão de madeira por onde a lâmina passaria, no que prontamente obedeceu. Enquanto o outro carrasco o vigiava, fechei o madeiro superior envolta do pescoço de Miguel, travando-o com dois ferrolhos inalcançáveis por suas mãos.


Ao sinal do major, soltei a corda que sustinha a afiadíssima lâmina.


O som da morte reboou pela vila. A execução havia terminado, porém algumas pessoas gritaram horrorizadas. Distingui quando uma voz senil e trêmula, esconsa no meio dos espectadores, berrou um premonitório “Santo Deus, isso é impossível”.


Rapidamente compreendi que algo dera errado na execução. Não havia sangue no estrado e o cesto que aparava as cabeças decapitadas estava vazio. Maquinalmente, eu olhei para o decapitado que se mantinha imóvel, a não ser pelo sorriso que estampava por trás da mordaça. A lâmina passara pela sua garganta e ele não produzira um espasmo muscular sequer. O homem havia sobrevivido à execução pela guilhotina. Apavorado, eu me perguntava como.


A despeito dos gritos aterrados da população, o outro verdugo não havia percebido que a guilhotina fora vencida.


Enquanto o major Ruiz olhava incrédulo para o cadafalso, Miguel Verde, num movimento medonho, levantou-se lentamente. Seu pescoço transpassara o madeiro que o segurava.  Já havia desatado o nó das mãos e soltado a mordaça. Então olhou para o público, cujas colunas vergavam-se para trás por puro assombro, e disse:


- Enforquei-me há algumas horas e escondi meu corpo debaixo da cama, na cela. Agora sou uma alma livre, já que nada mais devo a vocês. Enterrem-me dignamente! Em seguida, o fantasma pulou do estrado para o chão, espantando um sem-número de pessoas, e encetou um caminhar rápido para a saída da vila. Perturbadoramente, seu corpo foi se tornando mais e mais diáfano até desaparecer por completo. Por ordem do major, alguns guardas diligenciaram à cela onde o condenado estava detido e encontraram seu cadáver com uma corda presa ao pescoço, sob o catre.
 
Autor: Pedro Pantoja

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Comentários   

 
#1 Paulo Soriano 08-08-2014 00:32
Uau! Muito bom! Brilhante e surpreendente!
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