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O horror em chamas

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Escrito por Rogério Silvério de Farias   
Ter, 23 de Dezembro de 2014 00:00

O horror em chamas


O HORROR EM CHAMAS

Por Rogério Silvério de Farias

 

 


1. A morte rastejante


O advogado acaba de sair. Garantiu-me que pode me livrar das grades. Ou pelo menos diminuir minha pena. O chicaneiro de porta de cadeia tem um trunfo: vai argumentar no tribunal que padeço de alguns problemas de ordem psicológica, atenuando minha condenação. Um eufemismo tolo para evitar dizer que não passo de um louco.


Não sou louco. Um louco não sabe das coisas que só eu sei. Guardo tudo na memória, gravado com as tintas flamejantes do medo − aquele quadro hediondo de abominações dantescas que presenciei, em corpo e espírito!


Agora a morte é apenas um horror ígneo e sibilante, coleando nas sombras. Cada vez mais perto, o Horror em chamas se aproxima outra vez. Mboitatá – eis como chamam a morte que sibila entre chamas!


O horror tomou forma na escuridão da noite. Grotesca, asquerosa é a fome por almas que a coisa possui. O horror ígneo rastejante, a sombra sibilante de fogo do inferno... Algo medonho que se aproxima. Fede como mil cadáveres chamejantes, e de sua língua bifurcada escorre algo como lavas de vulcão – sua peçonha mortífera e infernal.


É o Mboitatá, dizem os índios e caboclos mais antigos, a serpente de fogo de mágicos poderes, a morte sibilante e metuenda. Das profundezas, subindo e subindo dos grotões das margens dos rios do inferno, através dos vórtices das fímbrias dos pesadelos mais negros.


Arrancar-me-á a cabeça, tenho certeza, como fez com minha mãe e irmãs – seus corpos degolados encontrados fumegando entre cinzas de nossa casa corroboram o que afirmo, embora a tola Polícia ache que sou eu o assassino e o incendiário.


O advogado me deixou lápis e papel, e aqui estou a escrever tudo o que de fato houve. Se eu ainda estiver vivo quando o causídico voltar, mostrarei os escritos a ele, que provavelmente vai usá-los perante o júri como provas inequívocas de que perdi o juízo, na vã tentativa de livrar-me da prisão.


Como se houvesse outra prisão pior do que esta em que vivo, a prisão do horror sibilante, da serpente de fogo sobrenatural que se aproxima para engolir minha alma.


Não, eu não temo a morte. Temo apenas o que vem depois dela: a continuação do horror. Não passamos de meros fantoches nas mãos de entidades terríveis e poderosas, e o Mboitatá é uma delas. É um jogo cruel e tenebroso, os homens não passam de cobaias nas mãos de entidades sombrias. Há somente trevas, dor e morte no carrossel infernal dos mundos visíveis e invisíveis... Já o ouço... Já ouço o sibilo flamejante nas trevas... O Mboitatá, o Horror em chamas, a morte rastejante!...

 

2. A missiva dentro da garrafa


Tudo começou numa bela manhã de abril, muito tempo depois de chegarmos ao Brasil, vindos de Providence, nos Estados Unidos.


Antes de horrores infernais, quase sempre precedem belezas miríficas e alegrias paradisíacas, e toda treva maldita da morte nidifica seus ovos negros de horror na luz dourada e opiácea da paz.


Meu pai nos trouxe para o Brasil quando veio para aqui morar e trabalhar como tradutor, pesquisador e professor de antropologia. Logo adoeceu e morreu por causa da malária. Minha mãe adoeceu e nos mudamos do norte para o sul do Brasil, que tinha um clima mais ameno para nós americanos.


Sempre fui um sujeito estranho e solitário, é verdade, mas depois que meu pai faleceu, tornei-me o arrimo da família, o que me ocasionou uma série de surtos súbitos de ansiedade, nervosismo e paranoia, que eu ocultava sob o manto do estresse.


Lembro que uma de minhas irmãs reclamara da velha casa em que morávamos, lembrava-me que eu devia fazer algo para diminuir o cheiro de mofo e bolor que a umidade do local propiciava, bem como das goteiras e picumãs nas paredes e teto.


Como tivemos que morar em casa alugada, a coisa ficou meio complicada. Tive que falar com o senhorio, um tipo especialmente repulsivo, indolente, que costumava ler revistas de histórias em quadrinhos de horror. Dele obtive um “amanhã mando consertar”.


Resolvi eu mesmo dar um jeito. Consegui um martelo e comecei a bater no reboco úmido do quarto, só para ver no que ia dar. Da pequena rachadura escorria um filete tênue de certo líquido viscoso que presumi tratar-se da água de algum cano enferrujado. Num acesso de raiva, já que a parede era um tanto sólida apesar de úmida, desferi um golpe com o martelo, com força, e não foi preciso mais que duas ou três pancadas para descobrir algo inacreditável. O reboco caiu úmido e recoberto com uma camada fétida de bolor. A parede era oca, e havia uma espécie de nicho nela. Dentro do nicho, uma estranha e antiga garrafa, ali oculta desde muito tempo. De imediato o filete tênue que escorria cessou. Realmente não era bem um vazamento ou goteira, mas uma estranha e pegajosa umidade.


Havia um velho e puído papel dentro de uma garrafa, um manuscrito antigo. Retirei a rolha e puxei com o indicador. Inúmeras histórias fantásticas de mensagens dentro de garrafas foram contadas durante todos os tempos, de modo que isto me exacerbou a curiosidade.


O que estava escrito naquele manuscrito suplantava em horror a imaginação mórbida de um Edgar Allan Poe ou de um Lovecraft, e deixava para trás a força imaginativa e macabra de um conto de Paulo Soriano. Era qualquer coisa de fantástico e inominável que nem os voos geniais da mente talentosamente delirante de um Henry Evaristo poderiam tecer em nuanças sombrias; eram, pois, quedas vertiginosas, iridescentes e sinistras criadas pelas quimeras dos pesadelos mais vorazes do que a sinistra Swirnea evaristiana.


Tal manuscrito era uma carta de abominações, uma missiva ou diário de medo e horror escrita nervosamente com a letra de alguém que mergulhara na voragem de conhecimentos e verdades proibidas ao senso comum.


Resumirei o conteúdo negro da carta, cortando certos trechos, para que ninguém de mente sã saiba de certos segredos que deveriam mofar nas tumbas do olvido.


A carta era de um jovem estudante chamado Manuel Gudryan, que no ano de 1974 fora a Maremontes, no sul do Brasil, em busca de uma vida melhor, alugando uma pequena casa no subúrbio, exatamente a mesma casa em que eu, minha mãe e minhas irmãs agora morávamos!


Gudryan cursava Antropologia na Universidade de Maremontes, e embora fosse ateu por convicção, era interessado por casos e estudos insólitos e sombrios. Com efeito, era um desses tipos que procurava provar que o sobrenatural era uma farsa ou um delírio.


Maremontes, com suas antigas e anacrônicas casas de telhados pontiagudos e góticos, seu cemitério e seu pântano medonho, era o terreno propício para a mente investigativa e cética de Gudryan. Cercada de inúmeras lendas indígenas e mitos do folclore, povoada por assombrações grotescas e tenebrosas, a cidade antiga era como que uma cidadela de mistérios cravada no interior do sul do país.


Creio mesmo que em toda lenda ou mito folclórico subjaz uma verdade oculta; no seu imo ou raiz, há uma verdade que causa assombro a qualquer mente empedernida e presa nos grilhões do ceticismo estéril. Há, nessas lendas medonhas, uma verdade multifacetada em sua essência, transmutada de horrores reais. A imaginação popular, quase sempre pueril, apenas tornava tudo hiperbólico e distorcido, ocultando uma realidade assustadora.


Uma dessas histórias ou lendas folclóricas oriunda de antigas e estranhas tradições de tribos indígenas falava de uma enorme serpente de fogo, vinda de um mundo ignoto e paralelo ao nosso, uma mística dimensão invisível cujo portal se abriria em certos dias e horários ou condições mentais e psíquicas especiais, catalisadas por chás alucinógenos ou estados alterados de consciência. Era o Mboitatá, o Horror em chamas, rastejando pelos campos da terra do céu e do inferno!


Eu sabia, através de leituras anteriores, quase tudo sobre as plausíveis hipóteses da pluralidade dos mundos habitados e das entidades não-humanas do invisível, do universo multidimensional e das fronteiras além dos sonhos e da morte. Já lera a respeito da Teoria das Supercordas da Física Quântica, da existência da Quarta Dimensão ou Quarta Vertical, tão apregoada por visionários e místicos gnósticos. Tinha, pois, a noção assustadora das tremendas possibilidades do hiperespaço e fenômenos da antiga ciência jinas.


Os relatos da carta com ares de diário falavam de certas passagens mágicas que levavam a locais tenebrosos e fantásticos demais para as hodiernas mentes prosaicas dos céticos empedernidos.


Tais portas espirituais ou etéreas às vezes também podiam ser abertas, através de fórmulas e chaves esotéricas.


Basicamente, todo o processo mágico era não apenas espiritual metafísico e mental, mas, sobretudo físico.


Uma das passagens para o outro mundo ou o túnel astral que unia as coisas do desconhecido com o nosso, dizia a carta de Gudryan, ficava debaixo de determinada cripta num cemitério abandonado de Maremontes, perto do famigerado Pântano da Coruja Corcunda. Porém havia outras entradas, porque a região de Maremontes estaria situada numa encruzilhada interdimensional desde prístinas eras, quando os espíritos, deuses e demônios vagavam visíveis no plano físico.


Entre a arraia-miúda ou populaça supersticiosa de Maremontes, havia comentários, à boca pequena e entre persignações, de coisas estranhas que rastejavam sibilantes perto da necrópole antiga e do pântano malcheiroso, relatos de uma colossal cobra de fogo vagando também pelos campos. Era o Horror em chamas, Mboitatá, a cobra de mil venenos ígneos!


Não faltou quem se aventurasse a pesquisar esse suposto gênio ou elemental do fogo. Certo grupo de rosacruzes e gnósticos foram vistos perto do Pântano da Coruja Corcunda, passando pelo cemitério abandonado. Tais pesquisadores, no entanto, nunca mais foram vistos, e o desaparecimento misterioso fez surgir um burburinho entre o povo supersticioso de Maremontes. Alguns levantavam a hipótese tétrica de que os pesquisadores haviam sido engolidos pelas fauces flamejantes do Horror de fogo. Todavia, a Polícia acabou encerrando as buscas e investigações, já que parte do pântano era coberto por areias movediças abissais e névoas densas e espectrais, o que dificultava as procuras.


Em outros trechos da carta, Gudryan asseverava ter visto e sentido coisas estranhas e inomináveis. Dizia ter sonhos horrendos, em profundos lagos de matéria onírica perturbadora. Pesadelos macabros e demoníacos, governados por algo dantesco e rastejante, feito de fogo e veneno, uma coisa de fogo chamada Mboitatá, o Horror em chamas. Nessas loucas e aterrorizantes aventuras de pesadelo, Gudryan quase sucumbia à hipótese de que esses sonhos negros seriam reminiscências assombrosas de jornadas fantásticas por golfos sombrios, em orbes situados além da fronteira que separa o nosso mundo do outro.


3. Um sibilo nas trevas


Uma noite, Manuel Gudryan acordou assustado, suando em bicas. Passara o dia todo lendo e estudando certos alfarrábios de ocultismo e magia satânica. Lera o terrível Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred, com suas páginas mofadas de um conhecimento negro; lera o Necrosophia, com sua loucura e blasfêmia escritas com o sangue de inocentes; devorou o obsceno, anacrônico e demoníaco Diário sombrio de Kolga Salba; lera o mais abominável de todos, o Chaves Proibidas dos mundos Ignotos, do satânico yogue Camaysar Audremalon que foi traduzido no século XX pelo poeta e aventureiro de terras exóticas Júlio Leófitas, bardo errante que acabou desaparecendo nas selvas de Madagascar. Muitos outros tomos terríveis de ciências ocultas e ancestrais Manuel Gudryan lera, saturando sua mente com coisas insólitas e abomináveis.


Pela vidraça viu os campos varridos pela aragem noturna e a névoa densa rodopiando como o espectro de uma bailarina pelos campos, ao luar exangue. Vez por outra lufadas súbitas e inesperadas vinham forte lá de fora, e Gudryan parecia ouvir um sibilo medonho ecoando nas trevas.


Contavam as lendas indígenas que Mboitatá rastejava das chamas dos infernos invisíveis para peregrinar em busca de vítimas pelos campos do sul. O demônio de fogo rastejante exigia ritos e sacrifícios das tribos e dos caboclos em cultos negros, e os gritos de frenesi e transe saíam das gargantas dos adoradores da serpente de fogo como um hino lúgubre em louvor à escuridão.


Na lareira, segundo a carta de Gudryan, o fogo crepitava estranhamente. Uma estranha energia mística e diabólica parecia pairar no ar, como uma maldição. Arrepiou os cabelos da nuca ao ver um estranho e inopinado vento. De onde viria aquela lufada de um frio sepulcral, se todas as janelas do recinto haviam sido fechadas?


A carta contava tudo isso, e ainda hoje tenho receio em me lembrar das passagens e dos parágrafos de sombras. Resumirei, cortando os horrores maiores descritos, queimando a maldita carta e, assim como Manuel Gudryan, escreverei a minha própria carta a qual deixarei ao advogado ou a quem interessar possa como prova de que passei por horrores sobrenaturais e não sou um louco.


A carta de Gudryan contava tudo. Houve então um sibilo dentro da noite, e o sibilo aumentou, e de repente um estrondo, seguido de uma algaravia confusa, talvez numa língua indígena arcaica. Gudryan viu pela vidraça, ao longe, nos campos gélidos do sul em plena invernia, algo como um fogo veloz e serpentino vindo em direção a casa. Sentiu uma vertigem.


4. Além dos portais negros do pesadelo


Manuel Gudryan parecia ter desmaiado. Algo dentro das mofadas covas de sua mente sibilava em fúria e fogo, como um jorro místico de um horror ambulante penetrando, se arrastando em sua consciência, e então algo como uma porta ou fenda se abriu, dividindo o mundo real do sobrenatural, ou mais precisamente interpenetrando-os. Sentiu-se como um sonâmbulo entre labaredas de um labirinto físico e espiritual.


O medo por fim foi vencido pela curiosidade inata de Gudryan, e o seu lado cético ia morrendo aos poucos, dando lugar a uma nova mentalidade aberta aos fenômenos paranormais ou sobrenaturais. Ele penetrara numa dimensão mágica e sinistra que existia ao mesmo tempo e no mesmo lugar que a nossa. Meio alucinado, escorregava aos trambolhões num limbo de fogo vivo.


Era uma viagem de pesadelo, uma jornada ultracósmica por um golfo astral ou etéreo de infinita extensão abismal. Um cair vertiginoso numa eternidade imemorial e caleidoscópica, em páramos desconhecidos e inauditos, regiões ignotas dos universos adjacentes ao nosso, onde estrelas errantes e aziagas bailavam em nebulosas ardentes e constelações negras de pura demência e contumaz maldade, nascidas do caos de mortas galáxias de perversão. Ele era como uma formiga humana num vórtice psicodélico transcendental de ultracósmicas realidades, rodopiando em ventos gélidos e nômades.


A missiva prosseguia deste modo assombroso e inaudito. Gudryan tinha penetrado os domínios tétricos de uma entidade flamejante, algo como o reino de um elemental de fogo.


Grossa e espectral neblina pairava e cobria toda a cidade de pesadelo, era a mesma Maremontes, mas vista de outro modo, de um prisma mais sombrio. Era como a contraparte sinistra e malévola do lugar, a contraparte astral ou diabólica daquela região do sul.


Gudryan abriu a janela da “outra” casa, e além, nos campos, vultos e o clarão do fogo serpentino. Um clarão leproso emanava da lua, que cintilava como o olhar de um gigantesco demônio entronizado no alto do céu cor de cova recém-aberta.


Não era mais um largo e extenso muro de alvenaria que circundava a casa. No adro, entre a igreja da cidade e o cemitério perto do pântano, uma névoa.


A cidade era outra cidade, uma cópia ou simulacro da verdadeira. Era outra, mas ao mesmo tempo a mesma no espaço-tempo. Como o reflexo da lua num lago de ácido sulfúrico ou sangue fumegante, a cidade era sombria, funesta, funérea, assim como os campos, o pântano e o cemitério.


Estrelas rubras pintavam o céu em tons de aquarela sanguinolenta. Ciprestes podres tinham o aspecto deformado, retorcido, assemelhados as figura de uns velhos, esquálidos e encarquilhados cadáver redivivos.


Manuel Gudryan jurava que estranhos e invisíveis olhos o observavam como uma cobra hipnotiza um pássaro antes de atacá-lo.


5. Nas chamas da loucura


Manuel Gudryan começou a enxergar coisas que na realidade física ele não enxergava. Era uma espécie de loucura selvagem e transcendental, e nas chamas dessa loucura, ele tinha a consciência dos mundos. Sua visão tinha assumido proporções extraordinárias, ele agora não via apenas com os olhos físicos, mas com os olhos da mente também. Via os muitos mundos embutidos uns nos outros. Via o próprio imo de moléculas e átomos na dança cósmica coruscante da vida e da morte, um balé místico nas matérias astrais mutáveis e que turbilhonavam sempiternamente num fluxo de eternidades estupeficantes.


Não estava num sonho ou pesadelo, porém mais além deles, num estado de consciência plena muito além da consciência da vigília comum. Era um estado transcendental de visão jamais sonhado pelo mais louco dos poetas ou visionários, uma embriaguês lúcida, uma morte em vida, uma apoteose de caos e loucura, uma vertigem aterrorizante.


Tudo isso sei porque li a carta de Gudryan, repito. Havia um parágrafo que falava da estranha procissão de índios, caboclos e negros, reunidos num festival muito mais macabro do que um Kuarup.  Gudryan falava também de como ele saiu pela porta da casa como um sonâmbulo.


O proprietário asqueroso da casa, aquele senhorio torpe, abjeto e detestável, estava na procissão, sendo ele mesmo um quase índio, um mameluco degenerado. Sorria com escárnio e deboche incomuns.


Um pajé ensandecido saltitava e gritava sinistramente do seu lado, dançando nu em louvor ao Horror de fogo.


Gudryan entrara na procissão, misturando-se à horda de fanáticos, e estremeceu ao ver que durante a caminhada e dança, não ficavam marcas dos pés, nem dele e nem dos adoradores da cobra de fogo.


Então, sempre nas sombras da noite fantástica, Gudryan viu a turba sinistra encaminhando-se para algum lugar nos recônditos dos campos do sul. Encontraram um buraco escavado na terra, e todos desceram pelos degraus feitos de crânios humanos, descendo em espiral, pelas profundezas, nos subterrâneos daquela Maremontes prodigiosa.


Eles levavam archotes que emitiam uma luz bruxuleante naquela escuridão infernal.


A descida pareceu interminável, mas logo todos chegaram a uma espécie de templo subterrâneo ou catacumba sinistra.


Então pareceu a Gudryan que eles estavam no antro de Mboitatá. Entre duas colunas de granito esverdeado, numa espécie de altar, dançavam grotescamente sacis e curupiras sombrios.


Era um altar rubro aquele, recendia a sangue coagulado. Atrás, uma estranha luz de tonalidade ambarina cintilava foscamente, malignamente, como um embrião luminoso de um ser ígneo surgindo paulatinamente.


Ao som de pífaros, flautas e ocarinas, um coral de vozes diabólicas entoava em uníssono um cântico macabro e profano, verdadeiro hino de pestilência e insanidade.


Manuel Gudryan pode ver aquelas silhuetas, seus vultos grotescos. Eram índios mais velhos e mal-encarados provavelmente de uma tribo esquecida, confabulando com os sacis e curupiras. Eram uns tipos altos e magros, segurando tacapes feitos de ossos humanos, pareciam fiéis fervorosos do culto da serpente de fogo. E trauteavam sons mântricos, como que a convocar forças elementais ígneas de indescritíveis e funestos poderes.


Foi de modo inopinado que a luz ambarina apagou. Glacial lufada varreu o lugar, segundo as palavras de Gudryan em sua longa missiva. Então aconteceu uma coisa apavorante, e Gudryan tentou se autocensurar na carta, riscando passagens que seriam pouco críveis para uma mente sã. Censurara partes que seriam inacreditáveis demais. E agora era visível que sua caligrafia se tornava nervosa, tremula e, sobretudo esdrúxula.


Então o horror atingiu seu grau máximo. A coisa veio. Foi por entre as sendas da escuridão, escreveu Gudryan, que ele viu algo que deslizava pesadamente como um rio de fogo. E o murmúrio dos índios aumentou numa só voz: “Mboitatá! Mboitatá!”.


Aquilo ou aquela coisa não era do nosso mundo. Era como uma besta dantesca e rastejante nascida das cloacas purulentas e imundas, filha da cópula de elementais imundos da lama e do fogo de todas as perversões e paixões humanas acumuladas durante eras e eras desde a aurora primeva do mundo. Talvez fosse uma personificação pútrida da loucura cultivada como uma flor negra pelo mais negro dos egoísmos, um rebento cósmico ígneo nascido da lascívia estelar de divindades tartáricas em esgotos cósmicos. Ou uma mórbida e louca fantasia de piagas de tribos mortas num sonho alucinante. Era ele, o deus-demônio ou gênio do fogo Mboitatá, o Horror em chamas, a cobra de fogo de mil venenos!


Não rezava desde a infância, mas Gudryan caiu de joelhos e implorou a todos os deuses, inclusive Tupã, para que o livrasse daquela serpente ígnea. Então, antes de perder totalmente a consciência, Gudryan viu a fenda interdimensional se abrir, e houve então um vácuo e um silêncio mortal. Só depois ele acordaria e escreveria a carta. A missiva de Gudryan terminava com estranhas reticências, como se algo houve interrompido de súbito sua redação.


Depois de refletir sobre o conteúdo da missiva de Manuel Gudryan, atirei-a no fogo da lareira. O que teria acontecido com Gudryan após terminar de escrever aquela carta?...


Não sei. Hoje estou aqui, preso. Mas antes, naquela noite em que terminara de ler a carta de Gudryan, algo ocorreu...


O silêncio da noite foi quebrado por um sibilo e o som de algo se arrastando lá fora. Fui até a janela, algo iluminava a noite, como um grande fogo-fátuo.


Fechei as cortinas. Algo se pôs a empurrar a porta, e eu via pelas frestas a luz de um fogo infernal. Gritei. Pus-me a pôr a tranca na porta, colocando uma mesa para atravancá-la ainda mais. Alguma coisa continuava pressionando a porta.


Não me lembro do que aconteceu depois. Há um hiato maldito em minha memória. Sei que acordei aos berros no leito de um hospital, depois de ser encontrado pelos bombeiros a alguns metros da casa. A casa onde eu e minha família morávamos havia sido incendiada, e só restaram cinzas. Da casa e de minha mãe e irmãs. Falaram de piromania, mas eu não entendi. Eu não era nem louco e nem incendiário. Disseram que eu teria sérios problemas com a Polícia.


Então foi aqui que acabei terminando meus dias, na cadeia. Acabarei aqui estes meus escritos que deixarei sobre o catre da prisão a guisa de carta, como fez Gudryan naquela outra noite.


Tenho tido pesadelos horrendos com a gigantesca cobra de fogo. Mboitatá assombra meu sono. Aqui, nesta cela, enquanto aguardo o julgamento, sei que Mboitatá virá me buscar. Quando anoitece, um sibilo medonho se faz ouvir. Vem me buscar, eu sei. Vem rastejando nas sombras. Está chegando,  vai me levar esta noite...  Mboitatá, o Horror em chamas, a serpente de fogo dos mágicos terrores!... Oh, meu Deus, ajuda-me! Ajuda-me!...Socorr...


Conto  publicado originalmente na antologia 'Quando o Saci encontra os mestres do terror e outras criaturas do folclore'.

 

 
Autor: Rogério Silvério de Farias

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Comentários   

 
#1 Guest 28-03-2017 09:26
Great post.
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