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Toc! toc!

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Escrito por Wagner Silva   
Qui, 16 de Julho de 2015 00:00

 

Toc! toc!

 

TOC! TOC!

Por Wagner Silva

Toc! Toc!


Lentamente as trevas começam a se dissipar e ele sente seu corpo sendo tomado pela consciência novamente. Sente as falanges dos dedos formigarem levemente. Os olhos vão se abrindo. Ao contrário do que é de se esperar, a luz não lhe ofusca a vista. Na verdade não há luz nenhuma.


De pleno domínio do seu corpo, de olhos abertos, tudo o que vê é a escuridão. Está deitado de barriga para cima. As coisas lentamente começam a tomar forma na penumbra. Conforme seus olhos vão se acostumando com a falta de luz, ele consegue perceber os vultos ao seu redor. Distingue a estante de seu quarto,  onde ficam seus cd´s, revistas e o aparelho de som. Distingue também a cômoda, onde fica seu velho aparelho de TV de 19 polegadas. Seu quarto é a sua fortaleza e seu refúgio, um lugar que deveria lhe trazer a sensação de segurança  e proteção. Deveria!


Toc! Toc!


O barulho o coloca em total estado de alerta. Com os músculos contraídos, e os batimentos cardíacos acelerados. Sentiu o coração pulsando em sua garganta. Suas pupilas estão dilatadas e ele faz um esforço pra tentar enxergar melhor em meio aos vultos. Estaria ele sonhando? Infelizmente ele sabia que não.


Toc! Toc!


É uma casa mista, paredes externas de material  e as repartições internas de madeira. Três quartos, o dele, o dos seus pais e entre eles um quarto vago para receber visitas. Fica em um bairro residencial tranqüilo. Algumas vezes tranqüilo demais, quase deserto. Normalmente após as 23 h não há mais viva alma perambulando por suas ruas. O vizinho do lado fica a cerca de 30 metros de distância, com um muro alto no meio. O Vizinho da frente tem um terreno enorme e uma casa construída nos fundos. A sua casa era isolada das demais.


Poucas horas antes, por volta das 20h, aproveitando que seus pais viajaram, recebeu um pequeno grupo de pessoas. Um amigo e duas amigas para ser mais exato. As meninas ficaram pouco tempo e antes das 22h, já haviam partido levando consigo a esperanças dos garotos terem algum sexo naquela noite. Ele e seu amigo ficaram por cerca de uma hora bebendo algumas cervejas e fumando um baseado. Até que por volta das 23:30h seu amigo também se foi. A pequena sala ficou ornamentada com latas de cerveja, bitucas de cigarro e restos de maconha. A arrumação poderia esperar até a manhã seguinte, pois seus pais ainda ficariam dois dias fora. O cheiro do baseado ainda impregnava a casa. Ele foi se deitar meia noite. Devem ter se passado duas horas e meias no máximo.


Poderia seu amigo ter voltado por algum motivo e estar batendo à sua janela?


Não! O barulho não era de batida em vidro, mas de batida em madeira. Poderia alguém estar batendo à porta? Não, pois mesmo ignorando o fato do portão estar cadeado,  caso fosse alguém à porta, as batidas soariam abafadas pela distância e no entanto, era como se as batidas estivessem muito perto. Assustadoramente perto.  Quase dentro da sua cabeça.


Toc! Toc!


Uma leve descarga de choque, proveniente do susto, percorre seu corpo. As batidas são dentro da casa. Estão batendo na parede do quarto. Não são batidas fortes. São bem leves, como se alguém estivesse batendo com os nós dos dedos na parede. Leves mas com intensidade suficiente para ter o acordado. Ainda deitado ele aguça a audição para tentar identificar o ponto exato de onde vem o barulho. Mas então, não há mais barulho nenhum. Um súbito silêncio invade o quarto.


A esta altura, sua visão já está completamente adaptada a escuridão. A pouca luz vem do poste na rua e atravessa a grossa cortina de lona. Já reconheceu cada móvel e objeto do seu quarto. Aparentemente está tudo em seu lugar. Aparentemente ele esta sozinho no quarto. Mas em sua mente, uma voz insiste em lhe soprar aos ouvidos “as aparências enganam”.


Durante uma fração de segundos ele calcula sua posição e mapeia mentalmente o seu quarto. Num súbito movimento, levanta dá dois passos em direção a porta, bate a mão no interruptor e se joga novamente pra trás na direção da sua cama, onde se cobre. É uma cena ridícula, coberto com o edredom em forma de capuz, deixando apenas uma fresta para espiar o quarto, como se estivesse envolto em um manto mágico que o protegesse de todos os perigos.


Luz acesa,  o quarto em ordem, a porta fechada. Tudo da mesma forma que estava quando ele foi se deitar.


Toc! Toc!


Desta vez conseguiu identificar de onde veio o barulho. Veio da parede, logo atrás da sua TV. Veio do aposento ao lado, do quarto de visitas.


Ladrão? Muito pouco provável. O bairro era tranqüilo, assim como a cidade e toda a região.  Há anos não se tinha notícia de roubo de qualquer espécie por ali.


Algum animal de estimação? Nem ele nem seus vizinhos próximos possuíam gatos ou cachorros.  Além do mais, não teria como um bicho entrar sem ser percebido.


Tenta organizar os pensamentos de forma lógica e analisar as possíveis alternativas.


Fugir pela janela? E depois, ir pra onde? Pedir ajuda pra quem? Falar  o quê? Dizer que escutou um barulho dentro de casa e saiu correndo? E se alguém vier ajudar e vir as bebidas e os baseados na sala? Ficar na rua até amanhecer? Do que adianta, o que está fazendo o barulho agora, provavelmente continuará a fazer depois que o Sol raiar.  Se admitir que o barulho vai sumir com o dia claro, é o mesmo que admitir que o que causa o barulho só estaria lá durante a noite. Seria admitir que o barulho não é natural. Seria admitir que ele esta acreditando em coisas sobrenaturais. Acreditando em assombração.


Infelizmente  sozinho e assustado, assombração é a única explicação que passa na sua cabeça.


Tentando  controlar o medo, que ainda está num estágio controlável, analisa suas opções: ficar a noite toda apavorado ou descobrir o que está fazendo o barulho.


“Não sou mais criança” pensou ele. “ se for alguma assombração, não vai ser a parede que vai impedir de me atacar. Se não for... se não for... Mas é claro que é! O que mais estaria batendo na parede? Com certeza tem um demônio, ou uma mulher vestida de branco com a faca na mão só esperando que eu vá até lá pra me pegar e...”


Toc! Toc!


–Puta que pariu! Sussurra ele ao mesmo tempo em que dá um pulo de susto.


Na sua mente já podia ver a mulher com um vestido branco esvoaçante, com os cabelos louros balançando ao vento e com a ponta da faca batendo contra a parede.


Toc! Toc!


– T-tem  alguém aí? Pergunta ele, com a voz fraca e trêmula. As palavras saem arranhando sua garganta que está seca, devido ao fumo e a tensão que sente.


–  Quem tá aí? Arrisca novamente, dessa vez com um tom mais firme. Novamente a resposta é apenas o silêncio.


Levanta-se da cama, ainda enrolado na coberta e caminha lentamente até a porta. Com a mão firme, segura a maçaneta e começa a girar levemente para fazer o mínimo de barulho possível. Abre a porta formando uma pequena fresta e através dela olha para a sala, mas não é possível ver quase nada.


Sentia que sua própria casa era um ambiente desconhecido e hostil. Um ambiente em que atrás de cada móvel, cada porta, poderia haver um perigo mortal e eminente, pronto para atacar a qualquer momento.


Seu pavor era notável. Sentia um nó na garganta, um terrível formigamento nas extremidades dos pés e das mãos. Um frio constante e descomunal na espinha e uma sensação de vertigem no estômago, como se estivesse despencando de uma montanha russa, uma montanha russa macabra e demoníaca, cujo destino seria uma morte horrível, lenta e dolorosa.


Então aqueles poucos segundos – o tempo necessário para ele tomar coragem pra sair do quarto e acender a luz da sala – parecem não ter fim. Com muito pesar ele abre um pouco mais a porta, passa exprimindo pela fresta e caminha até o interruptor da sala. No exato momento em que aperta o botão da luz, ouve o Toc! Toc!


Sem saber distinguir o que de fato acontecia e as peças que sua mente lhe pregava devido ao medo, ele pode sentir – ou captar pela sua visão periférica – um vulto se aproximando. Se virou um movimento brusco e apavorado na direção do quarto de hospedes, já imaginando que ficaria cara a cara alguém ou com algo.


Nada!


A sala estava exatamente do mesmo jeito que ele tinha deixado antes de se deitar. Nada fora do lugar, nada fora do comum, aparentemente. Uma leve brisa soprava e entrava pelo basculante da janela, fazendo com que as cortinas dançassem de forma fantasmagórica ao sabor do vento.


Como se fosse uma conspiração para deixar tudo ainda mais dramático, a porta do quarto de hospedes esta fechada.


De repente, as cortinas se repuxaram e se contraíram com uma nova rajada de vento, e novamente o Toc! toc! fez seu sangue congelar nas veias.


Já não conseguia falar, não tinha controle algum sobre seu corpo que não parava de tremer. Era quase como se estivesse em transe. O medo tomava conta dele, mas ainda assim sabia que iria até o fim para descobrir a fonte das batidas. A cada passo que dava atravessando a sala, a porta do quarto parecia crescer diante dele, fazendo se sentir cada vez mais indefeso.


O pavor era tanto, que nem tomava uma forma única em sua mente. Enquanto levava a mão para a maçaneta da porta, divagava sobre o que iria encontrar do outro lado: o corpo de uma mulher em decomposição, com os olhos saltados pra fora e os cabelos desgrenhados... ou algum tipo de cachorro do inferno, com a baba negra e os olhos faiscantes grunhindo de forma aterrorizante... ou o próprio demônio, vestido de capa preta, com o corpo cheio de fumaça, fedendo a enxofre e carne podre....


Sentiu uma onda de calor e choque percorrerem seu corpo quando pouco antes de encostar na maçaneta uma nova rajada de vento fez com que a porta se abrisse com um leve “tec!”.


Parado com a mão levemente a frente do corpo, na posição de cumprimentar alguém ou, no caso, de abrir a fechadura, viu a porta se abrir com um ranger que mais parecia um murmúrio, um lamento vindo do inferno.


De imediato viu a cama. Aparentemente (as aparências enganam) tudo em ordem. Conforme a porta ia se abrindo e a luz entrando, revelava um quarto com poucos móveis, mas com tudo em seu lugar. Ninguém estivera ali. Uma escrivaninha velha, uma cortina de lona com uma madeira na base para manter esticada, a cama de casal e um guarda roupas.


Por alguns instantes ficou ali parado, contemplando o quarto que agora não fazia barulho algum. Não havia nada e nem ninguém fazendo qualquer tipo de ruído ali, pelo menos não que ele pudesse ver.


Teria sido um sonho? Seria possível que tivesse imaginado tudo?


Uma nova rajada de vento entra pelo basculante do quarto e faz com que a cortina de lona comece a balançar. Então a madeira na base da cortina bate levemente contra o guarda-roupas.


Toc! Toc!


Nesse momento, foi como se alguém tivesse desligado o seu disjuntor. Toda a tensão em seus músculos se desfez de uma vez só.


Apenas esboçou um sorriso bobo e murmurou:


–  Filho de uma puta!

 
Autor: Wagner Silva

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Comentários   

 
#4 Guest 12-04-2017 08:23
adorei o site . Já salvei no favorito .
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#3 Guest 03-09-2016 09:14
ué!? toda essa enrolação pra nada? nem um fantasminha para aparecer? você escreve super bem, mas...
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#2 Hedjan Costa da Silva 26-07-2016 22:18
Muito bom! Conseguiu criar aquele clima de tensão necessário pra qualquer bom conto.
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#1 Guest 16-02-2016 10:52
Tenso... Mto bom. Curti demais!
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