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O outro vampiro

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Escrito por Paulo Valença   
Ter, 14 de Julho de 2015 00:00

O outro vampiro

 

O OUTRO VAMPIRO

Por Paulo Valença

1


Irene observa o que o ônibus vai deixando para trás: edifícios, residências, automóveis, pedestres, enquanto o vento noturno entrando agasalha-lhe as faces. Mais uma noite regressando a casa, após os expedientes na fábrica, no serviço exaustivo de contar e fazer pacotes de caixas. Até quando assim, neste emprego que não lhe oferece futuro? Ah, como é difícil a vida de pobre! Mas, enquanto vivos, temos de ter fé, confiar no amanhã.


- É isso aí.


Diz, libertando o que reflete para espanto da mulher gorda, vizinha da cadeira. E sorri, como se não percebesse a perplexidade da parceira de viagem. O coletivo corta a avenida agora sem o intenso movimento do início da noite, quando há os “engarrafamentos” da hora do “rush”.


Quanta vez já fez esse percurso após sair da indústria? Mas, como tudo passa, a nossa vida é uma constante alteração... Alisa os cabelos finos, compridos, negros e, na nuca, sente... Os furinhos ainda não sicatrizados da mordida do Josuel, seu ex-namorado.


- Você endoidou Cara? Negócio de morder! Tá pensando o quê?


A discussão e ela, então resoluta:


- Pois fique com sua “tara” de morder, que não quero mais namorar com você. Está tudo acabado!


- Mas, Irene,  isso faz parte da amizade, é um carinho.


- Carinho pra você, pra mim não. Tarado!


Namoro findo. E a falta que sente do rapaz esguio, branco, de sorriso tímido, cabeleira aloirada, longa... Mas, é assim mesmo. Faz parte da vida.


- Faz parte.


Repete novamente falando. Ante a perplexidade da senhora que sem se conter, inquire:


- Tá sentindo alguma coisa, filha?


A jovem sorri, e responde:


- Nada não. Pensando em besteiras.


- Entendo...


Logo o ônibus estaciona e Irene:


- Dê licença, Dona.


- Pois não, mocinha.


Afasta o corpo volumoso de lado, permitindo a passagem da moça, que alerta o motorista:


- Vai saltar!


Então, aligeirando-se salta. A condução retorna o  itinerário e Irene caminha, adentrando na rua defronte.


A noite amadurece. As calçadas com um ou outro passante. De uma casa próxima, vem o choro de uma criança. De outra, os latidos de um cão. Por que pobre gosta tanto de cachorros? E, de repente, sente... Por que essa impressão de que está sendo perseguida? Há dias, sempre à noite, que tem a mesma sensação de que está sendo seguida. Mas, por quem, se não vê ninguém próximo?


- Estarei ficando biruta?


Apressa-se. Doida para chegar à casinha, onde a mãe a espera, preocupada, receando o pior, porque com a idade, D. Ivoneide está cada vez mais pessimista. E, outra vez alisando os cabelos (em seu hábito repetitivo) sente a marca dos dentes na pela da nuca, feitas pelo “cabra” safado do Josuel!


Sobe a escadaria de estreitos e inúmeros degraus.


No alto, o morcego de asas longas e os olhinhos de estranho brilho cintilam, acompanhando-a.


2


O rapazinho corre a palma da mão sobre o pescoço, friccionando-o:


- “Gata” que história é essa de morder? Porra! Tá sangrando.


Ergue-se, nervoso. Então, a mão de dedos longos lhe envolve o tranco, trazendo-o... E os caninos novamente retornam a agir, sugando-lhe o doce, doce sangue.


A dormência. A entrega. E, a satisfação de Irene, no sorriso que esclarece o porquê do ataque disfarçado em carícia, no jogo do amor, transmitido por Josuel, o outro vampiro.



Ilustração: Diego Santos


 

 
Autor: Paulo Valença

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