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A Passagem

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Escrito por Eudes de Pádua Colodino   
Sáb, 30 de Julho de 2016 00:00

passagem

 

A PASSAGEM

Por Eudes de Pádua Colodino


Depois de uma longa jornada, o ilustríssimo doutor teve seu derradeiro e doloroso suspiro e partiu desta vida.


*   *   *


Não soube como nem quando chegara ali, mas estava em um lugar escuro e absolutamente silencioso. Sentia-se conduzido pelos braços por forças misteriosas e muito superiores às suas, mas não conseguia divisar se aquilo que lhe agarrava as axilas era humano ou não. Ficou nessa condição - tal qual boneca marionete sendo arrastada por misteriosas cordas - por um longo período, período este condizente com a sua lenta retomada de consciência, quando se deu conta de que sua morte não fora propriamente o fim, como especulara durante sua vida, mas o começo de alguma outra existência - uma existência pós-tumular: aquilo que jamais acreditara e sempre fizera muito esforço em refutar.


Estava tremendamente desconfortável nesta situação de não saber onde estava nem quem ou o que lhe conduzia. A escuridão era de um negrume intenso, mas tão intenso que parecia sólido. O ar tornava-se cada vez mais pesado e pestilento, e o calor aumentava conforme a distância ao seu desconhecido destino era percorrida. Quando o doutor especulou que sua sorte poderia ser sobejamente desafortunada, caiu, desamparado, em uma queda vertiginosa e veloz, porém muito longa. Gritou desesperadamente, pois suas suspeitas tornavam-se cada vez mais reais: ele estava sendo conduzido ao Inferno.


Sim, ao Inferno.


O ar durante a queda lhe queimava cada vez mais e mais, e era tão denso que chegava a ponto de parecer que abandonava seu estado gasoso e se convertia em uma parede áspera e cruciante. A pele de seu corpo (que corpo? O doutor, mesmo sob lancinante dor, pensava em como tinha sensações corpóreas mesmo post-mortem) parecia estar sendo-lhe arrancada a seco.


Após muito cair, mergulhou em um mar composto por líquido fétido e putrefato, pior do que os piores chorumes que conseguira presenciar na Terra. Vomitou até parecer que sua alma se esvaía, imersa em puro desespero. Afogava-se naquele caldo nojento mas não conseguia a benção de morrer pela segunda vez ou perder a consciência, que parecia mais viva do que nunca. A escuridão permanecia, as dores da queda também.


Finalmente ouviu alguma coisa.


Um murmúrio longínquo tornava-se rapidamente próximo como se sua audição fosse sendo recuperada progressivamente, e logo percebeu-se no meio de uma multidão inumerável de condenados, gritando desconsolados, roucos, alucinados de dor e pânico. Era tateado, puxado, arranhado, espetado, mordido, golpeado por todos os lados. Estavam todos sendo sufocados como ele, mas cada vez menos pelo líquido apodrecido e muito mais pela aglomeração fenomenal de pessoas naquele poço esquecido por Deus, porém aparentemente muito apreciado pelo diabo.


E, assim, finalmente encontrou sua alocação. Não foi mais conduzido a lugar nenhum, senão pela pressão sofrida devido à massa amorfa de gente condenada que lhe comprimia por todos os lados, causando-lhe o ápice de toda a dor e desconforto que um homem jamais poderia imaginar. Mal conseguia-se respirar, e o cheiro era insuportável, como se todos ali estivessem terrivelmente suados há dias, meses, anos, séculos…


– Meu Deus! Deve ter gente aqui desde os primórdios da humanidade!  –  concluiu, exasperado. Não conseguia entender nenhuma palavra que era pronunciada ao seu redor, se é que alguma era, pois a cacofonia preenchia todos os espaços.


Não conseguiu concluir nada mais por uma eternidade. Ficou ali, mais um naquele vozerio, no breu, lutando contra tudo e todos por um átimo que fosse de paz, alívio e ar.


*   *   *


Longo tempo depois, impensável para os mortais, o doutor finalmente conseguiu equilibrar minimamente seus pensamentos e refugiou-se, a tremendo custo, no interior de sua destruída mente. Vasculhou dentro de si por um espaço de serenidade, onde pudesse repousar e se concentrar por uma resposta.


Aquilo não podia continuar assim.


Não para sempre.


Deveria haver uma saída.


Parou de se debater contra a multidão dos demais e relaxou. Buscou fixar seus sentidos em algum lugar, algum ponto além dali, onde pudesse escapar.


Nada. Apenas um oceano de nojeira, repulsão e desespero à sua volta.


Mas não podia voltar a se perder entre os demais. Devia agarrar-se firmemente a esta nesga de consciência para buscar algo melhor; aquela era sua fé no momento. Não podia perdê-la. Não havia alternativa.


Após mais longo período, ignorando tudo o que lhe afligia e buscando encontrar algo que sequer sabia o que era, pôde sentir um pequeno ponto, perdido e distante, de alívio.


Era uma sensação difícil de se explicar. Era como se, ao longe, um farol lhe mandasse um fino e intermitente facho de luz invisível aos olhos, porém visível espiritualmente, lhe orientando para fora da tormenta.


Sentiu algo estranho dentro de si: uma felicidade que se abeirava à euforia. Abriu os olhos para o breu e esforçou-se na direção daquele sinal de paz a qualquer custo.


Avançou irado contra todos os que se apertavam no meio de seu caminho, causando e sofrendo as mesmas dores que jamais se acostumara. Mas pouco lhe importava. Sua meta não seria obstruída.


*   *   *


Finalmente chegado ao lugar que emitia aquele sinal, pôde perceber que era uma passagem muito estreita, e já tremendamente disputada por uma série de almas desesperadas que, como a sua, foram capazes de se aperceber da sua existência. Resoluto, lutou às cegas até ter sua oportunidade de acessá-la.


A passagem era protegida por algo parecido com um potente esfincter que, nas raras e ligeiras aberturas que proporcionava, deixava passar um pálido porém esplendoroso raio de luz que se projetava na escuridão, revelando um sem-fim de faces brutalmente desfiguradas pelo tormento, sedentas pela travessia ao outro lado. O doutor forçou a entrada durante um desses lapsos de abertura, e pôde finalmente respirar liberdade depois de muitas e muitas eras naquele inferno; porém, logo o orifício se fechava, deixando-o mais e mais insano pelo que havia do outro lado. E não desistia. Aquilo era deslumbrante. Sabia, em sua desgastada memória, que o que tentava acessar nada mais era do que o que ele já conhecera quando teve a oportunidade - a vida. Algo trivial e comum, mas que era o mais precioso dos bens a serem cobiçados pelas almas flageladas, como as de sua condição. –


–  Mas… que maldição…! Isso não vai me impedir… de passar!


*   *   *


Gabrielinha estava linda no vestidinho de princesa que ganhara de sua madrinha. Os pais a levaram ao parque no dia de seu aniversário, para proporcionar um dia agradável à sua querida filhinha caçula. Afinal, não se fazem sete anos duas vezes na vida.


Todos estavam felizes e sorriam naquele dia ensolarado de feriado prolongado, onde a data de cumpleaños da pequena teve a fortuna de incidir, o que garantiu um bom quórum de presentes na celebração. Ali, na grama verde, brilhante, debaixo da fresca sombra de uma frondosa árvore, a pequena aniversariante fazia uma pose aborrecida para a Polaroid nova do papai:


– Vai, Gabrielinha! Dá um sorrisão pro papai! Mostra essa janelinha pra câmera, meu docinho!


–  Meu Deus, não sei porque ela está tão emburrada hoje. Será que não gostou do vestidinho? - Sussurrou a mãe ao ouvido do marido, que fazia mil e umas caras e bocas para animar a filhinha, afim de que pudesse tirar uma bela foto de recordação.


–  Impossível, meu bem… Era o que ela queria. Custou os olhos da cara da Alice… Francamente, não entendo porque ela está tão jururu assim hoje… Todo mundo que ela gosta está aqui!

Mas Gabrielinha não sorriu. Parecia triste, emburrada, pra baixo.


E a foto foi tirada mesmo assim.


Naquela mesma noite, ela caiu de cama. Febre alta, altíssima. Repentina. Correram com ela para o hospital, e logo recebeu tratamento intensivo.


– Pai, mãe… Não sabemos ainda o que é. Mas estamos fazendo o possível. Ela vai ter de ficar aqui por tempo indefinido…  –  Disse o médico aos desesperados pais, ambos sem saber o que fazer ou o que dizer, no corredor do lotado hospital. A menina estava tão bem… Acordou bem, se alimentou bem. Do nada, tudo mudou… Será que foi o parque? Alguma coisa na água, talvez?


*   *   *


O pai voltou para casa após mais uma noite mal dormida no hospital. A menina seguia em quadro delicado há dias, sem maiores explicações.


Jogou-se no sofá, exaurido.


Chorou copiosamente.


Cansou-se do papel de pai e marido durão, forte. Por dentro, se esvaía em temores e dúvidas. Não podia perder sua pequenina… Mas já se resignava.


Levantou-se na direção da estante, pegou o álbum de fotos da pequena. Folheava e chorava, numa sensação de quase luto. Sentia saudades de sua filha, bagunçando a casa, brincando feliz. Agora, ela estava lá, entre a vida e a morte…


–  Vida e morte...


Estranhou.


– Que é isso?


Fixou melhor a foto, não acreditou no que via. Correu na direção da janela, onde estava mais claro: alguma coisa estranha surgira na última foto do álbum, justamente aquela que Gabriela não sorrira.


–  Isso… é… alguém?


Um borrão na foto, próximo da menina, evidenciava vagamente uma face humana disforme, diabólica. Sua expressão era de pura dor e sanha, parecendo projetar-se sobre a criança.


Assustado, o pai lembrou-se de que já houvera escutado algumas histórias de fantasmas e aparições em fotografias e filmes, porém nunca acreditara muito nisso. Mas, agora, ele era testemunha de um fato desses, e não havia como negar que aquilo era extremamente verossímil. Correu para checar as fotos tiradas com a máquina, e todas estavam em perfeito estado; apenas a de Gabrielinha, a única que ela tirara com a câmera nova, ostentava aquele sinistro espectro.


Sentou-se novamente no sofá e buscou ligar os pontos: tudo agora parecia fazer sentido. Religioso que era, teve a ideia de procurar o pastor de sua igreja; ele havia de saber como proceder. E não havia mais tempo a perder, pois a vida de sua filha podia estar em sério perigo - pela eternidade.


*   *   *


Chegaram correndo ao hospital, e logo subiram para a ala onde Gabrielinha continuava internada. Insistiram muito com a equipe médica para que permitissem o acesso do pastor e dos pais à garota na UTI, até que conseguiram a liberação. À beira do leito, logo trataram de começar os rituais de exorcismo.


O velho e experiente pastor conduzia os trabalhos, acompanhado de perto pelos pais, que lhe prestavam auxílio, quando indagados. Buscavam manter a fé e esperança, e oravam muito pelo restabelecimento da saúde da pequena. No leito, Gabriela dava pequenos sinais de atividade, enquanto o ritual se desenrolava, o que aumentava ainda mais a certeza dos presentes de que o que a acometia possuía raízes estritamente espirituais.


– Viram isso?! Ela abriu os olhos! Abriu! - Gritou exaltado o pai, à incrédula equipe médica que acompanhava a dramática cena, à pouca distância dali. Os sinais de recuperação da garota eram progressivos e vigorosos, conforme o tempo se passava. Por fim, convencidos da veracidade do que ali ocorria, a equipe médica também se uniu ao pastor e aos pais, e fizeram uma corrente de orações que tomaram o ambiente dos corredores e salas próximos pelas horas seguintes.


Depois de muito lutarem contra as forças sobrenaturais que se abatiam contra a menina, Gabriela finalmente acordou. Corada, linda, arrancou lágrimas de alegria de sua mãe, que caiu ajoelhada aos pés da cama, emocionada. Gabriela sentou-se, e sua face parecia incrédula. Vislumbrou tudo ao redor com seus grandes e curiosos olhos; fixou os presentes. Deu um largo e satisfeito sorriso, mostrando a linda banguelinha que era um bálsamo às marejadas vistas do pai. Todos aplaudiram e se abraçaram, jubilosos. O pastor, suado e exausto, dava graças aos Céus.


A criança estava perfeitamente bem. Parecia, finalmente, salva.


Parecia.


*   *   *


Enquanto isso, vítima de forçosa permuta espiritual, a jovem e cândida alma de Gabriela chegava ao Inferno, sofrendo injustamente as agruras daquele lugar totalmente incoerente à sua breve e imaculada existência.


 
Autor: Eudes de Pádua Colodino

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