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O diabo mora nesta casa

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Escrito por Jorge Eduardo Machado   
Sáb, 20 de Agosto de 2016 00:00

 

Diabo

 

O DIABO  MORA NESTA CASA

Por Jorge Eduardo Machado


Depois de algumas centenas de metros do tráfego lento das dezoito horas, o carro da diocese parou em frente à mansão em estilo colonial, uma das últimas naquele bairro de comércio movimentado e ruas saturadas com prédios de mais de dez andares. A porta do carona se abriu, e logo o padre Daniel se aproximou do vestíbulo da casa. Olhou para o segundo andar, e de um quarto guardado por espessas cortinas emanava um piscar incessante de luz. Também ouviu gritos femininos, mas com voz grave, além do barulho de vidro quebrando contra a parede.


Nada que assustasse o sacerdote, integrante de uma das ordens menores da Igreja Católica havia cerca de vinte anos. Já vira de tudo um pouco nesse ofício de exorcista, exceto aquele a quem supostamente combatia. Sim, ao longo do tempo, padre Daniel se tornou cético quanto à existência do diabo. No mais das vezes, as pessoas que a ele recorriam estavam possuídas por problemas existenciais, psicológicos, psiquiátricos ou até mesmo físicos, como quando a mãe de uma menininha de cinco anos confundiu uma rara afecção cutânea no rosto da filha com uma possessão demoníaca. Mas o diabo, este ele nunca confrontara.


Não seria diferente agora com essa família, a quem chegara por intermédio de um certo Sr. Moreira, advogado criminalista e católico praticante. Os pais sofriam com os problemas de saúde da filha de treze anos havia muito tempo, mas na noite anterior o quadro se agravara. Ela passou a se contorcer na cama, mudou o tom de voz e, a todo momento que tentavam se aproximar dela, reagia de forma agressiva.Antes mesmo que pudesse soar a campainha, o outro filho do casal, um adolescente de dezessete anos, atordoado, com as mãos trêmulas e o olhar desvairado, veio ter com o padre à entrada.


“Ainda bem que o senhor chegou! Minha irmã tá possuída! Nos ajude, por favor!”

 


xxxx

 



“Foi um alívio quando o padre chegou. Eu estava no segundo andar, encostado à janela do quarto da minha irmã, quando levantei um pedaço da cortina e vi o carro se aproximando. Tomei coragem, atravessei o fogo dos infernos e desci correndo as escadas.


Ele devia ter quase uns cinquenta anos, um jeito de cara conservador, sério. Se fosse em outra situação, me daria medo, mas eu já estava morrendo de pavor. Entre o padre e o diabo, a escolha fica fácil.


Ninguém imagina que isso vai acontecer na própria família. Na verdade, há muito tempo que eu não considerava que tinha uma família. As coisas iam mal lá em casa. Meus pais estavam quase se separando. Minha irmã vivia tendo crises.

 


Desde pequeno que eu não gostava do meu pai. Ele bebia e batia muito em mim. Na escola, sempre fui um dos piores alunos, e ele me cobrava muito, queria que eu me destacasse. Não acho que era pro meu bem, não, mas só pra satisfazer o ego dele, pra aparecer pros amigos do hospital. A cada reprovação – e foram umas três –, ele me espancava.


Já a minha mãe era meu porto seguro. Ela me abraçava toda vez que me via chorando pelos cantos. Tinha a maior paciência pra me ensinar os deveres da escola. Eu amava minha mãe.


Tudo mudou quando eu tinha uns doze anos. Sei que ela também sofria com o gênio do meu pai, só que não é fácil descobrir que a sua mãe tem outro cara, que está enganando todo o mundo. Um dia, cheguei mais cedo da escola – tinha matado aula – e ouvi uma conversa dela no telefone com um amante. Mamãe estilhaçou a confiança que eu tinha nela.


Dali em diante, passei a sair direto da escola pra rua, com alguns colegas mais velhos. Foi um período de liberdade. Descobri a aventura, o sexo, as drogas... Ah, as drogas nunca me decepcionaram! Primeiro, a maconha; depois, a cocaína. E cada vez mais e mais euforia.


Só que depois vinha um período de depressão. E eu precisava de mais, mas depois de um tempo não tinha de onde tirar dinheiro. Furtei alguns reais de um comércio, fui parar na delegacia. Meu pai – muito legal o meu pai! – me liberou com a ajuda de um amigo advogado. E depois me recebeu em casa com o carinho habitual.


Foi só eu me livrar da delegacia e da estupidez do meu pai que voltei pras drogas. Alguns anos depois, um conhecido me ofereceu o crack. Como a gente diz, é um bagulho muito doido! Na primeira vez, já me viciei. E não parei mais. Quando eu estava na piração, até cachorro virava jacaré pra mim. Isso mexe com a cabeça.


Passei a não voltar pra casa. Dormia debaixo de viadutos, em cracolândias, nas quebradas da vida. No início, minha mãe até ia atrás de mim. Depois, teve que se voltar pros próprios problemas de saúde. Meu pai desistiu logo: percebeu que minhas crises atrapalhariam demais o trabalho dele.


Pequenos roubos e furtos alimentavam o meu vício. No café da manhã, no almoço e no jantar, o cardápio era um só: droga. Naquele dia, fumei cinco pedras de crack a manhã toda. Cheguei em casa por volta de umas quatro da tarde. Estava muito louco. Fui até a cozinha e peguei uma faca grande bem afiada. Queria matar meu pai. Claro que era o efeito da droga. Eu não ia ter coragem pra fazer isso de cara limpa.Subi as escadas e fui até o quarto dele. Ninguém. O quarto da minha mãe? Vazio. De repente, ouvi uma voz grossa vindo do quarto da minha irmã. Pensei que fosse um ladrão e corri pra lá de faca em punho. Empurrei a porta, e o cenário era literalmente uma visão do inferno.


Ao mesmo tempo que se contorcia sob os lençóis, como se alguém tentasse dominá-la, minha irmã rosnava palavrões para os meus pais, que estavam ao lado da cama. Eles nem notaram minha aproximação. Cheguei até a janela pra tentar abrir as cortinas, mas, nesse instante, minha irmã se voltou pra mim.


‘Vou te matar’, ela gritou, com os olhos fumegantes. E os lençóis começaram a levitar, e depois o corpo dela também, como se viesse ao meu encontro. Num impulso, atirei a faca contra ela, sem direção – deve ter caído atrás do guarda-roupa. Meus pais me abraçaram, e senti a minha visão embaçar e começar a girar, e então desmaiei. Devo ter apagado por umas duas horas. Só acordei com o barulho de carro estacionando à entrada da nossa casa.”



xxxx



“Prostração. Diante daquela cena, não saberia definir meu sentimento de outra maneira. De um lado, minha filha num estado indescritível, algo sobrenatural. De outro, meu primogênito, desmaiado, beijando a lona por causa da maldição da juventude atual. Se eu pudesse, sumiria naquele instante mesmo, como uma névoa que vai se diluindo através da manhã.


Não sei quando comecei a sumir da minha própria existência. Talvez quando me casei, aos 25 anos, ainda com muita fome de vida. O amor nos faz abrir mão de muitas coisas. Talvez quando, depois de formada em História e já com um emprego de professora, aceitei os argumentos do meu marido, um bem-sucedido ortopedista, de que não precisava trabalhar, pois ele manteria as contas de casa em dia. Ou ainda quando engravidei com menos de um ano de casamento e passei a me dedicar integralmente ao meu filho e ao lar. Acredito mesmo que possa ter sido ao fazer vista grossa para os indícios de traição vermelhos, lilás e laranja que meu querido trazia nas golas da camisa e até nas peças íntimas, isso sempre depois de estafantes plantões no hospital. Veio a segunda gravidez, e a minha sentença de prisão estava definitivamente decretada.


Difícil indicar o ponto a partir do qual o amor-próprio não voltaria mais. O primeiro porre do marido que agora se revelava um alcoólatra? O primeiro tapa depois de tentar contestá-lo? A primeira vez em que surrou nosso filho pequeno? Não sei. Eu só queria ser amada. Não me refiro à afeição que meus filhos me dedicavam. Sempre fomos muito ligados. Eu necessitava de amor como mulher.


Encontrei-o na troca de olhares com um vizinho de rua, um rapaz solteiro que morava com a mãe doente em uma casa no fim da rua. Ele era alguns anos mais novo que eu, alto, magro, ar de intelectual. Sempre que passava por mim, fazia questão de cumprimentar. Não sei bem ao certo que desculpa usou para puxar conversa, mas em pouco tempo já estávamos enrolados sob a coberta de algum quarto de motel. Esses encontros furtivos duraram alguns poucos anos, depois dos quais meu namorado se cansou da clandestinidade da nossa relação. Queria encontrar alguém com quem pudesse fazer planos.


Nos afastamos por um tempo, e a separação coincidiu com o agravamento do quadro do meu filho, adolescente rebelde, que dava cada vez mais preocupação a mim e a meu marido. Quando nos demos conta, as drogas já tinham arrombado a porta de nosso lar e estavam sentadas ali no sofá, diante de nós, assistindo ao noticiário da noite.Ao mesmo tempo, nossa caçula tinha um estranho problema de saúde: tiques nervosos, sonambulismo, gagueira, epilepsia. A situação foi se agravando a tal ponto que a levamos a psicólogos, psiquiatras, terapeutas alternativos. Nada adiantou.


Sem meu namorado e rodeada de problemas, me rendi à depressão. Em pouco tempo, eu mesma passei a consumir caixas de psicotrópicos na tentativa de levantar o moral. Os tarja preta não provocavam em mim efeitos colaterais, exceto um: vez ou outra, eu tinha alucinações. Em certa ocasião, cheguei a pensar ter visto meu pai, falecido anos antes, ao entrar rapidamente no quarto e dar de cara com ternos do meu marido pendurados no guarda-roupa aberto.


Depois de algum tempo, meu amor voltou a me procurar, embora já tivesse outra mulher. Percebi que agora ele queria só matar saudade do sexo, variar um pouco. Aceitei, pois não podia impor condições. Mesmo porque, nossas transas serviam como válvula de escape de uma panela de pressão prestes a explodir.


Meu derradeiro inferno familiar começou aproximadamente às onze da noite. Após voltar de mais um encontro às escondidas, senti meu sangue congelar ao notar o carro de meu marido na garagem. Por que ele já havia retornado do plantão? O normal seria ele chegar apenas pela manhã.


Atravessei o amplo salão no térreo sem ouvir barulho. Subi as escadas com cuidado, entrei na minha suíte pé ante pé. Estava tremendo, tamanha a tensão. Abri o armarinho do banheiro e logo ingeri duas drágeas de uma vez. Precisava me acalmar.


Subitamente, explodiu vidro contra a parede do quarto da minha filha, na outra extremidade do corredor. Corri para lá e abri a porta num impulso. Alguém havia arremessado uma garrafa de uísque em direção a um quadro com a foto dela quando menina. Acendi a luz e surpreendi meu marido assustado, lívido, à cabeceira da cama, enquanto minha filha se contorcia e falava palavrões com uma voz rouca.


Ele estava bêbado. Não tinha nem como contestar minha chegada tardia. Puxou-me pelo braço para fora do quarto e trancou a porta. 'É o demônio, mulher! Nossa filha está possuída pelo diabo!'. Reparei que havia uma mancha de sangue na manga esquerda da camisa dele. Tentei abrir a porta, mas ele me impediu. Colei os ouvidos à madeira e passei a auscultar grunhidos, convulsões, choques contra o chão e as paredes. Fiquei desesperada, mas ele não me deixou socorrê-la. Fui até o banheiro e tomei mais dois tarja preta.


Ao voltar, meu marido estava à porta do quarto, como um Cérbero, telefone em punho. 'Moreira, desculpe ligar a esta hora. Preciso da sua ajuda.' O auxílio que ele procurava era espiritual. Nossa pequena estava endemoniada.


Ficamos em vigília a noite inteira. Os barulhos e os gritos não cessaram. Mal trocamos algumas palavras eu e meu marido, que emendava doses de uísque uma atrás da outra. Já os meus companheiros fiéis foram os remédios. Entupi-me deles durante a manhã e a tarde. Pouco antes das dezesseis, o silêncio imperou lá dentro. Tomamos coragem e entramos.


Recomeçou, então, a algaravia de minha filha. Palavras desconexas, olhos esbugalhados, movimentos tensos. Mas agora era diferente. Havia fogo na parte de trás da cama. E a cada impropério que proferia, as bonecas em sua estante se movimentavam, como se submetidas a um pequeno sismo. Não restava dúvida: era caso de possessão demoníaca.


Encolhemo-nos próximo à cama, os dois apavorados, quando repentinamente meu filho invadiu o cômodo com uma faca na mão. Temi pelo pior. Ele estava transtornado, e eu não queria que machucasse minha flor. Ela precisava de ajuda, e não de agressão. Atônitos, nós pais assistimos ao confronto dos nossos rebentos. O demônio investiu contra meu filho, que lançou a faca – graças a Deus! – sem qualquer precisão.


Rapidamente, o envolvemos, e ele desmaiou. Com nosso filho desacordado, não tivemos como sair dali, mesmo amedrontados pela cena dantesca diante de nós. Até a chegada do padre, demos as mãos, rezamos e torcemos para que nada de pior sucedesse.


Quando ouvimos um carro parando perto da entrada de nossa casa, o demônio começou a gritar mais alto. O quarto tremeu. Minha filha passou a atirar contra o teto os jarros de flores que mantinha em sua estante; eu, talvez numa reação histérica, passei a apertar o interruptor de luz sofregamente, acendendo e apagando a lâmpada em ritmo acelerado. Meu marido quedou estático. Nosso filho, já reanimado, pulou do lado da janela até a porta e foi atender o padre.”


xxxx


“Não gosto de tratar desse assunto. É uma história de medo, nojo e ignomínia.
Medo de ser descoberto. Não que eu deva satisfações a qualquer sentimento moral. Às favas o escrúpulo. O ser humano é ou não é assim? Mas a queda é maior quando há muito a se perder. E eu tenho uma posição social destacada, uma reputação pela qual devo zelar.


Conheci minha mulher quando ela ainda estava na faculdade. Na ocasião, eu lá cursava o mestrado e já tinha carreira iniciada e bem encaminhada na área da ortopedia. Nosso namoro e posterior casamento ocorreram quase por inércia. Eu precisava de uma mulher para mostrar à sociedade. Ela tinha boa formação, era de boa família. Mulher perfeita para casar, ficar em casa e cuidar dos filhos.


Não que desgostasse da fornicação caseira, mas desde cedo fui dado a aventuras sexuais. Nunca tive pudores quanto a isso e sem cerimônia admito que traí minha companheira desde antes do enlace matrimonial.


Além do sexo, ao qual voltarei a fazer referência mais adiante, uma outra paixão mundana sempre me dominou: o álcool. Na juventude, as bebidas me serviam. Em momentos festivos, estavam lá para tornar o ambiente mais leve, agradável. Com o tempo, elas passaram a me absorver. E como no escorrer da areia de uma ampulheta invisível, a relação se inverteu: era como se eu me houvera tornado um fiel de algum culto profano a um deus etílico e tivesse por obrigação depositar em oferenda minha própria saúde mental.


Somado a um casamento de fachada, o vício é capaz de produzir o que socialmente se denomina de crápula. Um marido infiel e agressivo, um pai severo e cruel: apenas faces aparentes e odiáveis de um homem infeliz.


Ainda me restava o prazer do sexo, tema ao qual retorno para explicitar o que poderia ter sido minha ruína, não fosse uma insólita interferência satânica. Sou um ninfomaníaco, não resta dúvida. Orgias em casas de suingue, transas com prostitutas, trepadas nos plantões do hospital, os ménage à trois em que experimentei até brincadeiras homossexuais... Uma extensa lista de aventuras lascivas, que, entretanto, já não me apresentava mais novidade. Eu queria uma experiência sexual inédita.


Ao completar sete anos, minha filha recebeu um presente diferente. Papai colocou-a no colo, pôs a mão por baixo de seu vestidinho de rendas, deslocou sua calcinha e acariciou suas partes íntimas. Foi um prazer indescritível. Para mim, claro.


Para ela, o nojo. A partir daí, passou a ter problemas de aprendizado, distúrbios da fala, insônia. Não, eu não parei. Eu queria mais. Contentei-me com esses aperitivos durante anos. À medida que avançavam as carícias, seu estado de saúde se deteriorava.


Naquela noite, cheguei mais cedo em casa, cabulando um plantão imaginário, o qual só existiu como desculpa para a minha tola e infiel esposa – como se eu não soubesse de seu inútil caso amoroso havia muito tempo. O meu filho já se mudara mesmo para as ruas, de modo que na mansão estávamos apenas eu e meu brinquedinho favorito.


Bebi algumas doses de uísque e, já alto, avancei ao meu parque de diversões. O quarto estava escuro, ela já estava dormindo. Caí por sobre o corpo dela, sem pruridos, desbragadamente. Foi quando aconteceu uma reação inesperada.


Ela me afastou com raiva – uma força excessiva para uma menina de treze anos. Em seguida, cravou os dentes no meu braço esquerdo, o que provocou uma dor aguda. Caí para trás gritando. Ficamos ali alguns minutos em silêncio sob a luz da Lua que entrava pela janela: eu tentando me recompor; ela me olhando fixamente, sem piscar, como se mirasse o infinito. Arrisquei mais uma investida, e ela prontamente se apoderou da garrafa de uísque que eu deixara sobre a cômoda e arremessou-a em direção à parede. Menos de um minuto depois do estrondo, minha mulher irrompeu no quarto.


Surpreendido pela desagradável presença uxória e diante do contorcionismo iniciado por minha filha, ocorreu-me uma desculpa contra a qual soçobra qualquer tentativa de explicação racionalista: nosso bebê fora possuído pelo demônio. Retirei a mulher do cômodo e dei início a uma atuação digna de Oscar. Recorri ao sempre solícito Moreira, que me prometeu acionar seus contatos na diocese a fim de conseguir a visita de um exorcista o mais rápido possível.


Enquanto eu mergulhava no doze anos, minha mulher chafurdava nas suas pílulas da felicidade. Lá dentro, nossa filha continuava a se debater, a ranger os dentes e a falar palavras incompreensíveis.


Depois de muitas horas de angústia, sobreveio a tranquilidade. Os sons estranhos pararam. Entramos no quarto, e, então, aconteceu algo inusitado. É como se a fantasia virasse realidade. Como se uma mentira fosse repetida tantas vezes que, ao confrontá-la, já não se distinguisse mais entre verdade e imaginação. A menina estava mesmo possuída.


Ao nos ver entrar, recomeçaram os espasmos. Ela vomitou uma cachoeira verde, arregalou os olhos e girou o pescoço bem além do que um ser humano normal seria capaz, numa cena digna de Friedkin.

Assustei-me, pois não encontrava uma explicação plausível para aquilo tudo. Entrei num estado de torpor, embora tenha permanecido acordado e saiba que continuei me movimentando pelo cômodo mecanicamente. Quando retomei o controle dos meus pensamentos, um padre estava à porta do quarto.


Ah, o medo, o nojo e a ignomínia! Esta surgirá aos olhos de quem porventura venha a saber dos detalhes obscuros desse exorcismo, os quais pretendo deixar escondidos nos recônditos da minha consciência.”


xxxx

 


Munido de crucifixo, bíblia e água benta – fazia parte da pantomima do ritual –, padre Daniel se apresentou aos pais da menina, enquanto esta continuava a pronunciar palavrões e a se debater sobre a cama. O sacerdote pediu a todos que se retirassem, não antes sem ouvir súplicas da mãe para que salvasse sua filha.


Assim que todos saíram, a garota se acalmou um pouco, embora tenha continuado a respirar rapidamente, como que bufando. O padre encostou a mão direita sobre a testa da jovem, e ela se mostrou irritadiça. Depois, ele rezou alguns pais-nossos e ave-marias, ao mesmo tempo que espargia algumas gotas de água benta sobre o leito da enferma. Tratava-se de um eficaz placebo para aqueles que, por alguma razão, realmente se sentiam tomados por um demônio.


Finalmente, tomou as mãos da jovem entre as suas, assentou-as sobre a capa da bíblia, orou mais um pouco e disse: “Que o espírito ruim que perturba esta jovenzinha vá embora e ela volte a ter paz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”. A menina adormeceu por pelo menos meia hora.


Ao abrir os olhos, perguntou ao exorcista: “Quem é o senhor? O que aconteceu?”.

 


“Você não se lembra?”.


“Não me lembro de nada.”


“Descanse agora, minha filha. Você só está um pouco cansada”, recomendou o padre, com um indisfarçável e sereno sorriso de satisfação, por mais uma vez ter ajudado uma família a se livrar do diabo imaginário, embora não pudesse – e talvez nem quisesse – perscrutar os verdadeiros fantasmas que afligiam aquele lar.


Ainda no andar de cima, fez admoestações aos pais e ao irmão da menina, garantiu que estava tudo bem a partir de agora e se despediu.


Ao passar pela sala de estar, já na penumbra pelo contraste entre a escuridão do adiantado da hora e a profusão de luzes que a invadiam desde os letreiros do bairro populoso, deteve-se por um instante a admirar uma foto da família que acabara de ajudar. Sobre o móvel de mogno, sorriam felizes os cônjuges e os filhos pequenos, a garota com não mais de dois anos. Ao girar a cabeça, pensou ter visto, de relance, uma figura canhestra sentada sobre uma antiga poltrona forrada com feltro e prontamente direcionou o olhar para o assento a fim de se certificar do que vira. Estava vazia. Não passara de uma ilusão de óptica. Com uma gota de suor frio escorrendo pela fronte, o padre logo se retirou da mansão, cada vez mais convencido de que o diabo só existe na imaginação de mentes enfraquecidas por problemas cotidianos.


Atrás dele, uma gargalhada inaudível aos ouvidos comuns ecoou pela casa, e voltaram a se estender invisíveis fios condutores que uniam garras sinistras a suas marionetes humanas. Talvez o demônio não estivesse dentro daqueles a quem o padre ajuda. Muito mais acertado seria ter procurado em volta.


 
Autor: Jorge Eduardo Machado

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Comentários   

 
#3 Guest 11-04-2017 23:19
oi . Você рode me falar qual plataforma você ᥱstá usando aqui ?
muito em breve estarei construindo mᥱu blog maѕ tenho dúvidas ѕobre
ԛual plataforma utilizar е gostei muitⲟ o formato ԁo seu site .

Ѕе puder me informar , ѕеrá de grande valia .
agradeço antecipadamente
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#2 Guest 23-09-2016 16:58
o melhor que ja li
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#1 Guest 06-09-2016 22:13
Obrigado pela publicação!
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