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Borboleta

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Escrito por Eudes de Pádua Colodino   
Sáb, 20 de Agosto de 2016 00:00

Borboleta

 

 

BORBOLETA

Por Eudes de Pádua Colodino

 


O garotinho estava extasiado.


Debruçado sobre a janela de seu quarto naquela tarde fria, esquecendo-se do chá que esfriava sobre a lição de casa, contemplava longamente o bem cuidado jardim de sua casa. Gostava de observar o vaivém das muitas espécies de pássaros que vinham comer as variadas frutas das plantas de seus pais, tomar banho de terra no chão do terreiro e lavarem-se na água deixada num potinho exclusivo para este fim. Refletia sobre sua breve vida e os acontecimentos da turma do bairro e da escola, escutando música baixinho no rádio e vigiando a vida silvestre naquele pedacinho verde de alegria que agraciava sua arguta visão. Gostava desse exercício, era sua meditação cotidiana.


Porém, naqueles dias, tinha um motivo especial para a prática desse aprazível exercício: uma grande e bonita crisálida se desenvolvia num galho de laranjeira. Nunca houvera presenciado tal milagre antes, e isso despertou ainda mais sua viva observação da natureza doméstica. Seu pai lhe dissera que aquilo é o processo de desenvolvimento da lagarta para se tornar borboleta, e o homem não conseguiu disfarçar seu espanto com o tamanho desta pupa. O menino fez até um trabalho sobre ela, com uma bela capa e ilustrações ricamente decoradas com lápis de cor. Sua professora de Ciências lhe deu um dez, com louvor.


Como aquilo era perfeito! Quanto mistério no processo de metamorfose de um ser asqueroso e comilão para outro tido como a materialização da leveza e poesia do mundo natural. Aquele casulo, imóvel, preso por uma pontinha de nada à árvore, resistente às chuvas, ventanias e à vulnerabilidade aos possíveis predadores… Quanta perfeição. Admirável.


De repente, um movimento. O garoto sobressaltou-se, despertando do estado letárgico da imensidão de seus profundos pensamentos. Tudo silenciou e fechou-se na crisálida.


Outro movimento. “Meu Deus, é agora!”, pensou. “Chamo a mãe? Pego o celular e tiro uma foto…?” Não. Não queria perder um único momento daquele acontecimento. Agora a borboleta nasceria.


“Que cor será? Dará tudo certo? Suas asas serão suficientemente fortes? Meu Deus… tudo tem de dar certo. Vai dar, vai dar…”


Com um movimento seguido por outro, cada vez mais brusco, o inseto buscava romper a fina e vigorosa casca que o isolava do mundo exterior. Boquiaberto, o menino acompanhava cada instante com viva expectativa, tal qual um torcedor empurra para o gol o artilheiro de seu time.


Rompeu.


Um susto.


“Que… que é isso?”


Um animal apavorante saía de dentro da crisálida. Pardacento, medonho, cautelosamente revelava dois pares de asas escamosas e pontiagudas e um corpo segmentado em placas negras e vistosas. Sacudia-se, emitindo um som baixo e rouco, estridente, desagradável aos ouvidos. Uma estranha forma de vida que o menino jamais vira menção em nenhum lugar, seja no livro de Ciências, nas histórias de seus pais, na TV ou na Internet. Aquilo não devia existir. Devia ser algo inédito na natureza, uma aberração, único.


Ou não?


Perplexo, o garoto seguia com os olhos o misterioso ser que se movia lentamente, subindo os galhos e folhas com suas longas e delgadas patinhas, explorando aquele que agora também seria o seu mundo. Embora provavelmente fosse algum tipo de inseto, o bicho parecia ter consciência, verificando tudo ao seu redor, possivelmente se apercebendo de sua existência e do que haveria de ser feito agora, seja por seus instintos ou… seu raciocínio.


Voltou-se ao menino que, num sobressalto, subitamente se via desprotegido e vulnerável. Saberia por acaso o que aquilo seria capaz de fazer?


Os dois se encararam por alguns segundos. Seus estranhos e vagos olhinhos avermelhados checavam algo no garoto que este desconhecia, instigando nele mais e mais o palpite de que o bicho tinha consciência.


Titubeou.


Indiferente, o inseto virou-se para o alto, abriu suas asas e partiu em voo, zumbindo gravemente pelos céus afora, desaparecendo por cima do telhado e sumindo dos olhares de seu incrédulo espectador, que não sabia o que pensava ou dizia acerca daquela bizarra visão da qual, certamente, jamais se esqueceria.

 

 
Autor: Eudes de Pádua Colodino

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Comentários   

 
#1 Guest 12-04-2017 23:54
Este é o tipօ de site que precisa divulgado
, pois realmente mudam ɑ nossa visão .
јá estou divulgando pɑra meus colegas Ԁe faculdade para
quᥱ possam aprendam mais com seu site
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