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A Árvore

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Escrito por Carlos Oliveira   
Sex, 21 de Outubro de 2016 00:00

árvore

 

 

A Árvore

Por Carlos Oliveira

 

 

O ar estava carregado de um perfume amadeirado, naquela tarde de terça-feira. As crianças corriam pelo sítio, aproveitando cada canto da extensão de nossa propriedade. O dia estava satisfatoriamente agradável. Nada me preocupava, a não ser pelas brincadeiras de meus três filhos. Dois meninos e uma menina. Chamavam-se João, Daniel e Michella. Amava tanto aquelas crianças, elas eram parte de mim.


Quando a tarde começou a escurecer e o céu foi pintado de cores tristes, chamei-os para entrar. Logo, às 19 horas, o jantar seria servido e todos precisavam estar arrumados. Minha segunda mulher era uma boa cozinheira, não como Maria, minha primeira. Reunidos à mesa, o barulho de família reunida preenchia o ambiente silencioso do lado de fora, quero dizer... quase silencioso. Pois os grilos e aves noturnas faziam verdadeira orquestra, seus chamados naturais deixavam um som irritante, repetitivo, infindável até o próximo amanhecer.


Naquela noite, o jantar era um delicioso guisado de carne acompanhado de arroz branco e salada. A carne aparentava boa consistência. Contudo, sabia que seria forçado a tentar fazer com que meu filho do meio, Daniel, comesse alguma coisa. Olhei para Ágata, minha outra esposa, e notei que o hematoma em seu olho direito ainda permanecia apesar das compressas de gelo. Sua aparência mostrava um desgaste, profundas olheiras deixavam seus olhos com uma expressão sinistra, seus lábios estavam rachados e seus cabelos desalinhados. Certamente, eu não conseguia entender o porquê daquela postura, eu sempre fui um bom homem para minha família. De qualquer jeito, eu estava quieto durante o jantar, apenas conversava comigo mesmo, com minha consciência. Trocar palavras durante as refeições nunca me apetecera tanto. Meu pai sempre me ensinava essas etiquetas necessárias para formar bons costumes.


- Nunca fale enquanto come, moleque. Dizia ele.


Quando criança, eu apenas obedecia tudo ao que ele falava, sendo ele um homem de meia idade e com um corpo largo e forte.Jamais ousei levantar a voz ou atrasar o cumprimento de qualquer ordem dada por ele. Mas minha mãe era uma tola, sua personalidade desafiadora sempre fazia o lado ruim de papai acordar. Certa vez, no meio da noite, escutei copos se quebrando na cozinha. Levantei e fui até lá para saber o que acontecia. Vi meu pai sobre minha mãe, suas mãos fortes e pesadas estavam atracadas no pescoço dela. Ele dizia que toda vagabunda deveria morrer. O corpo magro e débil dela se contorcia abaixo do corpo dele, seu rosto estava roxo e seus olhos quase saltando. Suas mãos arranhavam violentamente o chão, deixando marcas no piso.


Corri em direção ao papai e gritava para que ele parasse de machucá-la, empurrava-o com minhas duas mãos. Abaixo dele, quando suas mãos afrouxavam o aperto no pescoço de mamãe, ela aproveitava para lutar e tentar se livrar dele. Aquela situação horrível durou alguns minutos, tempo em que outro homem surgiu da sala, com a boca cheia de sangue, ele chutou a cara do meu pai. As mãos dele se soltaram do pescoço da mamãe e ela conseguiu recuperar o fôlego que lhe estava sendo arrancado.


Ela se levantou com muitas dificuldades e apoiou-se no sujeito desconhecido. Enquanto isso, papai começou a recobrar sua atenção para os dois. Olhei para ele e observei que seus olhos estavam diferentes, suas partes brancas foram tomadas pela cor preta, as veias de seu rosto estavam sobressaltadas e sua face estava, muito, muito vermelha. Ele bateu em mim com o braço direito, com isso, fui lançado ao chão e minha cabeça acertou o piso com tamanha violência que desmaiei por alguns segundos.


Ao voltar à consciência, encostei-me à porta da cozinha para o quintal e olhei ao redor. O corpo de papai estava jogado em meio ao corredor entre a sala e a cozinha, uma faca estava com toda sua lâmina enterrada na carne de suas costas. O chão branco da cozinha estava salpicado de um vermelho rubro. Levantei do chão e procurei por mamãe. Ela estava na sala com o homem desconhecido. Sua expressão era de susto. O homem falava ao telefone com alguém. Voltei para meu quarto em um súbito ataque de pânico, todo som ao meu redor silenciado foi, só conseguia ouvir a batida de meu coração. Como um grande tambor dentro do meu peito. Corri pelas escadas e fui para debaixo de minhas cobertas. Lá fora, à noite, após o jantar, todos foram para seus quartos. Minha esposa Ágata permanecia na cozinha, limpando a louça suja do jantar. As gotas de chuva começavam a dançar pela janela do meu quarto, o som dos trovões e os clarões dos relâmpagos, junto com os ventos, faziam com que os galhos das árvores ao redor da casa parecessem com garras tenebrosas, de criaturas malignas que espreitam nossos pesadelos.


Por um instante, fechei os olhos, ao abri-los, vi papai no canto do meu quarto, próximo da porta, ele sorria para mim, com seus profundos olhos negros. Como sempre, ele nunca se atrasava, o relógio marcava nove e meia, exatamente. Fechei os olhos e quando olhei novamente papai não estava mais lá. Fazia-me companhia apenas o arranhar de um galho que batia contra o vidro da minha janela. Lembrei-me da luta de mamãe no chão da cozinha.


— Senhor e senhora Barcellos, me acompanhem, por favor. Falou a recepcionista.


Aquele lugar era uma instituição séria, discreta e com tratamentos eficientes. Seus corredores eram brancos, do chão ao teto. Por possuir muitas janelas, uma brisa fresca sempre soprava dos jardins e o perfume de rosas pretas preenchia todo aquele espaço repleto de ares insanos. O quarto era o último do quinto andar, após subir quatros vãos de escadas espiraladas de ferro, que rangiam a cada passo dado por aquele simpático casal. A recepcionista mencionava para os Barcellos a progressão de seu neto, o menino estava aos poucos voltando à realidade, a frequência de seus ataques de ansiedade diminuíram. Nunca mais tentara se matar. A esperança surgiu no rosto daqueles avós por meio de um tímido riso de meia boca, a satisfação só estaria completa quando o neto, após ser recuperado, pudesse voltar para sua família e totalmente são.


O menino Daniel jamais foi o mesmo desde o seu cativeiro, longos meses ele passou nas mãos do maníaco da rodovia, apelido dado pelos policiais no caso de psicopatia praticado por Antunes Teixeira. O assassino que ceifou a vida de cinquenta pessoas, de crianças a idosos. O garoto Daniel foi levado quando tinha apenas nove anos, desde então, passou por inúmeras torturas, físicas e psicológicas, ao viver com Antunes, o maníaco. O insano assassino sequestrava pessoas e as fazia conviver com ele, presos em um porão na sua propriedade, o homem fingia ser o pai de uma família feliz, mas, noite após noite, ele escolhia dentre um de seus cativos para maltratar até sua completa satisfação. Seus métodos de tortura iam de sessões de açoite ao terror psicológico. Com as mulheres, ele praticava abusos sexuais, sendo Michella, a que mais sofreu. Ele a chamava de sua segunda esposa.


Ele nos obrigava a chamá-la de mamãe. Em certa noite de terça-feira, após voltar de seu quarto, ele a tomou pelos braços e a levou para fora da casa, amarrou-a em uma árvore e retalhou seu braço com pequenos golpes de faca.


— Que comida horrível, sua vaca! Gritava ele.


Os gritos de Michella eram sufocados pelo barulho dos trovões. Ali fora, pouco a pouco, a jovem mulher sucumbiu pela perda de sangue aliado aos maus-tratos, como privação de comida, seu corpo não resistiu ao cárcere de Antunes. Naquela árvore, Michella morreu.


A minha mulher não estava bem naquela noite, notei nos olhos dela que alguma coisa estava planejada. Meu pensamento surgiu como um átimo. Desci até a cozinha, não a encontrei por lá. Onde ela estava? Sai da casa e corri pela chuva, olhei a minha frente e vi uma árvore, para minha desgraçada surpresa, minha esposa estava encostada com seu corpo no tronco, seu braço estava todo aberto, o sangue estava misturado com a água da chuva, embaixo dela estava o instrumento de sua morte. Uma pequena faca de cortar pão. Foi terrível. Meu mundo estava acabado. Minha segunda esposa foi tirada de mim e eu não sabia o que fazer. O luto das crianças seria pior, só conseguia pensar em meus filhos.


O júri acabara de chegar com a sentença. Todos me olhavam como se eu fosse o culpado pela morte da minha esposa. Eu a amava tanto, tentei arguir com os jurados. Mas nada que eu falasse mudaria a escolha deles para mim. Meus lindos filhos foram arrancados de meus cuidados. Nem ao menos pude despedir-me deles. Foi uma injustiça. O oficial segurou em meu braço, apertando meu antebraço. Caminhei em direção à saída do tribunal, nas escadarias do prédio, olhei para o parque a minha frente e vi meu pai. Seus olhos não estavam mais negros, ele sorria para mim e acenava. Olhei para ele e sorri.


Da multidão a minha frente, surgiu um rapaz, ele veio em minha direção e sacou sua arma. O som do tiro foi seco, o calibre era de uma 38, das seis balas, duas acertaram meu peito. Todos ao meu redor se abaixaram, o guarda puxou-me para baixo, mas as balas já haviam encontrado seu caminho no meu corpo. Restou apenas um pequeno grupo. Meu corpo caiu desigual sobre os degraus. Senti o sangue subir pela minha garganta, o ar estava difícil de entrar, meu peito não respondia ao meu querer, não conseguia mais puxar o ar. Olhei para cima, para o céu.


Naquela noite de terça-feira, o jovem Daniel Romeo de Barcellos recebeu alta do hospital após dois anos de reclusão, em um tratamento para tentar recuperá-lo do trauma. Ele foi recebido em casa pelos avós, tios e primos. Todos estavam felizes pela recuperação dele. Na mesa, a alegria era uma estampa no rosto de todos os presentes. Após o jantar, um após o outro, os parentes iam se despedindo de Francisca, de Altair e de Daniel Barcellos. No domingo que viria, combinaram todos que haveria um almoço, novamente para a família e também para os amigos. Daniel foi para seu quarto depois de dar boa noite aos avós. Lá fora, a chuva começou a cair, as gotas que alcançavam a janela do menino dançavam, formando pequenas serpentes de água. Ele tentou fechar os olhos. O trovão cortou sua concentração. O rapaz olhou para o canto do seu quarto e não viu nada. Virou-se na cama e viu, ao seu lado, seu Teixeira. Ele estava com os olhos negros e sorria, sinistramente, para Daniel.

 
Autor: Carlos Oliveira

Comentários   

 
#2 Guest 08-04-2017 08:55
Bem louco 8)
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#1 Guest 20-11-2016 13:04
muito bom
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