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A Necromante de São Tomás

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Escrito por J B Antunes Neto   
Qui, 23 de Março de 2017 00:00

A Necromante de São Tomás

 

 

A Necromante de São Tomás

Por J B Antunes Neto


 

A pacata cidade do interior acordava lentamente com o nascer do Sol. A densa neblina que encobria as construções aos poucos subia pelos ares do vale, em direção às colinas ao redor. O clima aprazível dava àqueles que abriam os olhos a certeza de um dia bom. Os pássaros cantarolavam felizes, uns em busca de comida, outros de materiais para fazer seus ninhos. A vida era boa no interior.


Assim também pensava Adriano quando abriu os olhos. Olhou para o relógio analógico preso na parede no outro lado do pequeno quarto. Dez horas da manhã, tinha que se apressar. Na noite passada veio a informação, uma jovem criança de apenas seis anos morrera de pneumonia, hoje seria o enterro, tinha que deixar tudo muito bem preparado.


Adriano era já um senhor de 50 anos de idade, mas ele não gostava de ser chamado de senhor, menos ainda de coveiro, como se sua profissão definisse quem ele era. Quando pensava nisso sua mente divagava e não conseguia se lembrar de qualquer outro trabalho que tivera na vida. Talvez tenha nascido para ser coveiro, talvez isso fosse sua missão nessa vida, preparar tudo para que um corpo sem alma deitasse a sete palmos para o sono eterno, talvez isso o definisse.


Levantou, lavou o rosto na pequena pia que ficava no próprio quarto. Olhou para o minúsculo espelho que estava pendurado a frente. As marcas do tempo são inexoráveis. Realmente estava velho, porém nunca abatido. O povo de São Tomás dizia que ele estava sempre bem, o corpo forte, talvez por uma vida de esforços, o abdômen era duro, diziam os amigos do bar. Ah o bar! Não havia lugar que Adriano mais gostava, não havia nada mais gostoso do que trancar os portões do cemitério, após o expediente, e ir para o bar bebericar uma boa cachaça.

Foi tomar café. No bule um café aguado de três dias, não importava, tomava-o frio mesmo. No saco de pão, apenas um pão francês duro – em São Tomás era chamado de filão -, mas não importava, comia-o assim mesmo, seco, sem nada. Eram onze horas da manhã quando saiu de sua pequena casa de três cômodos, que ficava no fundo do cemitério, tinha que cavar a cova para o anjo morto.


O Sol já estava bem alto, seu calor fazia o coveiro suar dentro daquele macacão puído, todo sujo de terra pútrida, as mãos já calejadas não se incomodavam com a aspereza do cabo da pá. Adriano riu sozinho com seus pensamentos, era engraçado como em algumas cidades o coveiro não cavava, não ele próprio, manobrava uma pequena escavadeira que fazia o trabalho em minutos. Mas não em São Tomás, ali o tempo parou, mas Adriano achava que isso era o certo, máquinas num enterro retiravam todo sentimento humano pela perda de alguém. Sorriu novamente, dessa vez quase uma gargalhada, ele não tinha sentimentos humanos por aqueles perdidos que enterrava, na verdade quanto mais mortos, mais ele ganhava.


Já no início da tarde ele terminara a cova. Estava perfeita, milimetricamente retangular. Os anos de prática haviam ensinado a ele a melhor maneira de cavar uma cova. Devia dar aulas aos coveiros de outras cidades. Um sentimento cresceu dentro de si, vinha do meio do corpo, um pouco acima do estômago, sua boca ficou um pouco seca. Talvez sede? Não, Adriano não bebia água, mas era sede que sentia, sede de álcool. Iria até o bar que ficava no fim da rua, de lá também poderia fazer a ligação que lhe renderia um dinheirinho extra.


Da porta do bar viu o Seu Joaquim colocar um copo americano sobre o balcão, abrir uma garrafa e despejar seu conteúdo no copo, até quase transbordar. A boca de Adriano chegava a salivar. Era por isso que sempre acreditou que cada um deve escolher um bar durante toda a vida. O freguês era tratado da melhor maneira possível assim, pois o dono do estabelecimento já saberia de seus gostos. Seu Joaquim sabia qual a cachaça que o coveiro iria pedir, por isso se adiantou. Agradeceu pelo néctar que estava bebendo.


O coveiro bebia para tentar tornar menos dolorido o seu próximo movimento. Já fazia tempos que fazia aquilo, não se lembrava de quanto, porém havia muito tempo. Sempre antes de dar o telefonema bebia um pouco, após o serviço bebia bastante. Assim foi sua vida, alguns diziam que era alcoólatra, mas era besteira. Em seu íntimo Adriano sabia que bebia para tentar viver consigo mesmo, para olhar no espelho e não sentir nojo do homem que se tornou. Dane-se! Vou telefonar.


Pediu uma ficha ao Seu Joaquim. Foi ao orelhão que ficava em frente ao bar. Ficou sob a cúpula que protegia o aparelho. Discou o número já memorizado de tanto ligar. Dois toques e a pessoa atendeu.


– Hoje tem enterro – disse o coveiro sem se apresentar. Havia percebido que a pessoa do outro lado da linha sempre sabia que era ele quando ligava, então passou a não se importar mais em dizer quem falava.


– Tudo bem, o mesmo combinado de sempre!? – disse a voz feminina do outro lado. Embora fizesse tempos que Adriano tratava com ela, sua voz nunca mudara, permanecia estranhamente jovem e sensual, fazia com que seu membro desse sinal de vida.


- Tá, pode ser, no mesmo horário e mesmo lugar?


- Isso, meu querido, o mesmo combinado de sempre! – ela deu ênfase na última parte, fazendo o coveiro perceber que o combinado de sempre se referia ao lugar, ao horário e ao valor. Sem dizer mais nada a mulher desligou.


Adriano se despediu de Seu Joaquim, apenas por hora, pois voltaria mais tarde para o seu ritual de beber até cair. Foi para o cemitério, logo a procissão de parentes, conhecidos e amigos do anjo morto chegariam aos prantos para enterrar sua preciosidade. Ele precisava estar preparado.


Eram quatro horas quando o carro fúnebre entrou no cemitério, alguns outros carros o acompanhavam, porém a maior parte das pessoas veio caminhando lentamente. O carro parou a certa distância da cova, Adriano estava parado como uma estátua. Segurava sua pá entre as duas mãos na frente do corpo como se rezasse. A porta traseira do carro se abriu e lá estava o caixão pequeno e brilhante da criança morta. Alguns homens foram até lá e o carregaram, o show começara.


Adriano ficou em seu local de praxe, meio afastado, mas não muito para poder ouvir tudo que falavam ao redor do futuro túmulo. Os homens colocaram o caixão na tábua que ficava ao lado da cova e servia de apoio para preparar sua descida. O coveiro se aproximou e enquanto o padre fazia seu pequeno discurso, Adriano posicionou as tiras de couro para que o caixão pudesse ser colocado adequadamente em seu lugar natural. Esse momento era sempre tenso, o erro de alguém poderia fazer o caixão despencar, virar, balançar, causando desconforto nos presentes.


Findo a oração, quatro homens, talvez parentes da criança, pegaram as tiras e começaram a descer o caixão na cova. É sempre um momento dolorido para os parentes, pois cresce a sensação de perda. O choro fica mais forte, alguns berram, alguns perdem as forças e as pernas se dobram, os outros seguram e esperam que aquilo acabe logo. Com o caixão já posicionado, alguns dos presentes atiram flores, outros um punhado de terra, mas os pais da criança derramam apenas lágrimas.


Adriano espera o fim do espetáculo com ansiedade. Gostava quando as pessoas logo davam as costas, mas parecia que hoje seria diferente, pois algumas pessoas, com certeza as mais próximas da criança e dos pais, ficaram além do desejado. Ele teve que começar a cobrir a cova na presença deles e isso o deixava irritado. Irritado porque depois teria que tirar toda essa terra novamente. Somente quando a cova estava na metade é que todos foram embora, o coveiro sentiu-se aliviado. Largou a pá e foi até o ossuário. Voltou com um saco cheio de ossos. E recomeçou seu trabalho, mas agora retirando a terra da cova.


O Sol já estava baixo quando Adriano abriu o caixão. Apenas as pontas das colinas estavam luminosas ainda. Era um rapazinho loiro, devia ter olhos claros, mas Adriano não ficou curioso aponto de abrir seus olhos. Estava com um pequeno terno, feito sob medida, talvez em nenhum outro momento de sua breve vida tenha se vestido tão bem. Adriano posicionou suas mãos por baixo das axilas do menino e o levantou, era leve até. Em seguida o tirou da cova com certa facilidade. Tentava não pensar no que fazia. Havia sempre o medo de ser pego, embora fosse difícil alguém ir até o cemitério àquela hora.


Pegou o saco de ossos e os despejou no caixão. Não fez questão de posicioná-los corretamente, já que era ele mesmo que o abriria num futuro não tão próximo. Fechou-o e começou a encher de terra a cova. Terminou já no início da noite. Pegou o menino no colo e o levou até a caminhonete do cemitério. Era uma lata velha, porém funcionava sem problemas, os carros antigos funcionavam melhor que os novos, sem dúvidas. Eram veículos feitos para durar. Colocou o corpo morto na caçamba, cobriu-o com uma lona, ajeitou bem para não correr o risco de ela sair durante o trajeto.


Alguns minutos depois já estava saindo do perímetro urbano da cidade, ia em direção ao leste, por uma pequena estrada vicinal que levava até um distrito rural. Ligou o rádio para deixar o ambiente menos tenso. Era a hora das notícias locais dadas pela rádio local. Entre elas havia a informação da morte da criança que estava na caçamba, a notícia dizia que ele estava enterrado no cemitério municipal, não mais pensou Adriano. Agora ele estava rumo às colinas.


A estrada ficou íngreme. A caminhonete ia rápida pela estrada estreita, os faróis amarelados iluminavam a pista abandonada. Algumas casas cobriam os cantos da estrada, porém a maior parte era coberta pela mata de São Tomás. Uma curva leve à esquerda indicava o fim do caminho, pelo menos para o menino morto. Na curva havia uma pequena saída à direita que levava para uma casa relativamente grande. Era uma casa velha, com aspecto de abandonada, porém algumas luzes estavam acesas. Adriano parou o veículo bem em frente da porta de entrada. Mal desligou o veículo e a porta se abriu.


–Já não era sem tempo, senhor coveiro – disse a mulher saindo pela porta. Vestia um vestido longo preto, andava um pouco curvada, os cabelos brancos estavam desalinhados, seus olhos eram vidrados, tinham um brilho esquisito.


– Desculpe, é que os familiares demoraram a ir embora – disse o coveiro se dirigindo para a traseira da caminhonete. – Tive que enterrar e desenterrar este aqui – finalizou, abrindo a caçamba.


- Tudo bem, sem conversa, mais ação – disse a mulher impaciente – Traga logo para dentro – ela já foi entrando na casa novamente.


Adriano pegou o cadáver no colo, jogou-o por cima do ombro direito e foi caminhando até a casa. Aquela parte era a pior para ele, tinha medo daquela mulher, voz de jovem, corpo de velha. O coveiro entrou na casa. Parou logo após, estava numa sala de médio porte, havia uma lareira, os sofás eram antigos e todos empoeirados, como se ali ninguém se sentasse há anos, algumas mesas de canto finalizavam a modesta decoração. A senhora estava no cômodo adjacente, era uma cozinha.


– Venha, senhor coveiro, coloque o menino na mesa – disse a senhora olhando para ele. Adriano colocou com o maior cuidado possível o cadáver sobre a mesa. A cozinha era encardida, tinha azulejos por todas as paredes, porém já estavam amarelados, assim também o balcão da pia. A geladeira era muito antiga, pequena, com as pontas arredondadas, porém robusta, devia pesar bastante.


A velha, com voz de jovem, foi até o menino morto e o examinou.


– Excelente, senhor coveiro, os jovens são os melhores – disse, dando um pequeno riso, seus dentes podres ficaram à mostra, tinha apenas quatro.


– Pois é, agora a senhora pode me pagar, tenho outras coisas para fazer – disse Adriano, queria sair dali o mais depressa possível.


– Claro, claro – disse ela tirando um pequeno maço de dinheiro do busto flácido. – O senhor tem assuntos para tratar no bar do Seu Joaquim, não é!?


– Tenho mesmo – disse Adriano, não escondia de ninguém que precisava beber às vezes. Ela estendeu a mão com o dinheiro, quando ele foi pegar ela contraiu o braço, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e fosse para bem próximo dela. Ela o agarrou pelo queixo com a outra mão.


– Escute aqui, senhor coveiro – disse ela com o rosto bem próximo ao dele, seu hálito fedia –, o senhor não deve contar a ninguém sobre isso, o senhor sabe que pode nos trazer problemas. Se me pegarem o levo junto para o inferno. – Adriano sabia que ela não brincava, algo em sua voz e em seus olhos o fazia acreditar em cada sílaba, aquela mulher parecia ter um contato direto com o diabo.


O coveiro apenas balançou a cabeça concordando. O suor brotava de sua testa como água da bica. Seu corpo estava paralisado, aquela velha tinha uma força inacreditável. Em seguida, ela o empurrou e jogou o maço de dinheiro para ele.


– Agora saia, vá! – ela se debruçou sobre o cadáver do menino – e me traga outro quando tiver.


O coveiro se apressou, saiu da casa e entrou na caminhonete. Procurou as chaves, não estava no contato, nem em seus bolsos, devia ter deixado cair lá dentro da casa. Olhou para a porta ainda aberta, pela qual havia saído da residência da mulher. Seu coração se apertou, tinha medo, medo de entrar e não poder mais sair. Medo do que aquela mulher iria fazer com aquele cadáver. Mas tinha que entrar, não podia deixar o veículo do cemitério ali, traria suspeitas para a mulher e para ele.


Foi novamente até a casa. Andava a passos lentos e temerosos. Esticou o pescoço para dentro da sala. Não havia ninguém, estava exatamente do mesmo jeito que antes. Andou pelo assoalho velho, buscou com os olhos alucinados pela chave, não a encontrou ali. Tinha que ir para a cozinha. Caminhando, ainda temeroso, chegou à soleira que separava ambos os ambientes e a cena que viu lhe deu a certeza de que deveria ter abandonado o veículo ali.


A mulher estava em pé, ao lado da mesa, tinha o rosto feliz, os dentes podres à vista, olhos mais brilhantes do que nunca. Na sua frente, sentado sobre a mesa, estava o cadáver do menino. A princípio o coveiro pensou que a mulher tinha colocado o corpo daquele jeito, porém, rapidamente percebeu que ela não o segurava em nenhum lugar. Um gemido, parecia mais com uma gata no cio, saiu da garganta do coveiro. A mulher o encarou com raiva, seus olhos fuzilando o intruso. Porém, o que fez Adriano sair correndo pela porta, abandonando o veículo do cemitério na frente da casa da mulher, correr por mais de uma hora sem olhar para trás, esquecer-se de ir até o bar de Seu Joaquim, entrar em seu cemitério e se trancar em seu quarto pequeno, foi saber que os olhos daquele menino, antes cadáver, eram verdes.

 
Autor: J B Antunes Neto

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