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A Fazenda das Almas

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Escrito por José Bonifácio Reutemann   
Sáb, 25 de Março de 2017 00:00

A Fazenda das Almas

 

 

A Fazenda das Almas

Por José Bonifácio Reutemann


 

Noutro dia um amigo estava comendo um churrasco aqui em casa. A carne foi devidamente acompanhada de muita cerveja forte e de qualidade. In vino veritas, gente culturalmente limitada fica gritando e fazendo confusão com bebida na cabeça. Eu escolho melhor meus amigos e o álcool liberou o lado filósofo, meu e do meu comensal.



A lucubração filosófica começou justamente pela carne, a atriz principal do nosso almoço-e-jantar (pois o almoço começou tarde e foi se puxando até tarde da noite). Na verdade, não era a carne o nosso objeto de discussão, mas sim os animais de onde ela vem. Como se sente um animal criado, muitas vezes em condições aviltantes, só para ser comido? É aceitável fazer isso?



Ou seria melhor ter extinto as espécies na pré-história? Para quem não sabe, os cavalos existiam na América antes das Grandes Navegações, pois os cavalos podiam atravessar o Estreito de Bering, tal qual o homem fez; mas na América ele foi caçado para ser comido, até a extinção. Da mesma forma, o cavalo era fonte de alimento na Eurásia até que se descobriu que ele era domesticável e útil para outras coisas. Certamente bois e ovelhas teriam desaparecido da Terra há muito se não fossem domesticados e criados pelo homem. De alguma forma, essas espécies devem ao homem a continuidade de sua existência, pois elas poderiam ter desaparecido inclusive por outros motivos, como uma das tantas mudanças climáticas que já extinguiram tantas outras espécies.



Se é ético criar animais para proveito próprio, não seria lícito criar gente? Um humano não nasce humano, ele torna-se humano. Um homo sapiens criado isolado teria características animalescas. Não seria uma pessoa, embora poderia aprender a ser uma pessoa quando ou se ganhasse a liberdade. Não sendo uma pessoa, eu poderia fazer o que quisesse com essa pessoa.



Criar homo sapiens para comer a carne seria meio ineficiente; homens e porcos precisam de alimentação semelhante, já bois e vacas podem comer capim e ocupam-se o dia inteiro de pastar tranquilamente e ruminar, enquanto os porcos tendem a fuçar tudo (e não ganham peso) quando criados à solta. Homens certamente fariam pior ainda.



Criar gente para comer a carne seria anti-econômico e estranho, e mesmo repulsivo. Mas já pensou nas possibilidades de criar um harém, ou serviçais perfeitamente obedientes? Mas nesse ponto a nossa disgressão filosófica encontrou um beco sem saída, já que esse tipo de coisa já existiu: na forma de escravidão. De alguma forma a humanidade já concluiu que esta não era a melhor forma de organização humana. Criar pessoas livres para depois usá-las sexualmente com o consentimento delas, ou para trabalhar por uma miséria, é mais eficiente.



Aí nossa conversa tomou um outro rumo. E se o mundo em que vivemos fosse uma simulação? Se fôssemos brinquedos ou mesmo gado sendo criado por outros seres, mas num outro nível, tal como Matrix, uma prisão que não podemos ver, tocar ou sentir?



O grande filósofo e matemático Descartes nos disse que toda a percepção que temos do mundo pode ser falsa, o famoso "demônio de Descartes" que intermedeia todas as nossas percepções e pode nos dar uma ideia completamente falsa do mundo. Mas uma coisa nem o demônio pode fazer: proporcionar a ilusão do pensamento. Se eu penso, logo existo, independente da percepção de mundo.



Ou seja, se vivemos numa simulação, o que realmente existe de valioso dentro dela são as nossas consciências. Elas são a única coisa que temos certeza que existe, e se o mundo em que vivemos é uma simulação, pelo menos nossas consciências têm de estar ancoradas em alguma substância ou substrato real, do "mundo real": do mundo onde estão os criadores e supervisores desta simulação.



Dessa idéia nasce aquele enredo típico de filmes e textos de ficção científica, onde alguém que vive numa simulação, um belo dia "acorda" num lugar totalmente diferente e inesperado.



Mas aquele meu amigo precisava ir embora, apesar de estar muito bêbado pegou o carro e saiu dirigindo ele mesmo. Tudo bem, estava acostumado a fazer isso sem nunca ter se acidentado. Eu resolvi dar uma caminhada, porque os excessos de carne gordurosa, bebida, fumo (isso quando o amigo não trazia duas companhias femininas para testar os limites dos nossos organismos) estavam impondo um bocado de carga a meu corpo. Há tempos deveria ter ido ao médico para fazer um check-up, mas tinha medo do que ele pudesse achar.



Andei por quatro quarteirões, a tontura que senti, pensei ser algo benigno que dissiparia depois de andar os proverbiais mil passos depois da refeição. Mas não passou, e a paisagem da rua começou a ficar cada vez mais psicodélica, até que tudo se apagou.



--



Me vi num lugar completamente branco e vazio, como naqueles filmes onde o personagem cai num mundo ainda não desenhado. Não havia nenhuma graduação de cor ou marco de referência para distinguir alto de baixo, esquerda de direita.



Logo notei que não tinha um corpo. Eu "via" branco na minha frente, mas ao tentar andar, não sentia movimento e quando procurei saber o porquê, notei que não tinha pés, pernas, nada. Minha consciência varreu todas as possíveis partes do corpo que estava acostumada a sentir, mas nenhuma estava lá.



E também não podia falar. Não havia uma boca para abrir ou uma língua para movimentar. Nem pulmão para exalar. Mas quando pensei "em que lugar estou afinal?" um pensamento estranho "respondeu" algo como "ei você, de onde veio?". Sabia imediatamente que era um pensamento vindo de fora, de outra alma ou consciência. Apesar de me ver num lugar vazio, parecia que podia me comunicar com pelo menos uma alma separada da minha.



Não tivemos tempo de encetar uma conversa. Me vi imediatamente num salão ricamente decorado, com motivos egípcios. Assim que tive noção de espaço, o antigo hábito me fez olhar para os lados, e o fato de poder executar este movimento do pescoço me fez notar que, nesse momento, eu habitava novamente um corpo.



Mas que corpo? Tive de fazer algo muito estúpido: olhar detidamente meu próprio corpo para saber se era eu mesmo. Mas não era. A cor de pele era diferente da que eu esperava, e o tamanho relativo de objetos domésticos, cadeiras, mesa, etc. me fez deduzir que eu estava num corpo infantil. Olhando de novo para meu corpo com mais atenção, descobri que era um menino com uns 10 anos de idade, não mais.



Logo depois que me senti orientado e conseguia controlar meu novo corpo com um mínimo de desenvoltura, apareceram dois homens enormes, gigantes de mais de dois metros de altura, fortíssimos, nus. Eles vieram em minha direção com expressões faciais distorcidas pelo desejo.



Sem entrar em detalhes, os dois gigantes me torturaram horrivelmente. Minhas chances de auto-defesa eram ainda menores do que o esperado, quando tentei morder um deles, descobri que minha boca não tinha dentes. Perdi e recobrei os sentidos várias vezes, até que tudo se apagou.



Recobrei a consciência uma vez mais, e estava novamente naquele espaço branco e adimensional que tinha experimentado um pouco antes. Novamente sem um corpo. Nenhuma sensação, nenhuma dor.



Fiquei nesse espaço por um tempo que me pareceu vários dias, na minha sensação subjetiva. Ao "pensar" palavras, às vezes recebia respostas telepáticas de outras "pessoas" que estavam por ali.



No início demorava muito para estabelecer qualquer comunicação. Era muito frustrante. O sentimento de frustração não depende de você habitar um corpo - uma das tantas observações que fiz a fim de me distrair, e de não enlouquecer, naquele breu.



Conseguia obter, muito raramente, apenas uma mensagem de outro ente, como alguém que grita algo para um pedestre enquanto passa de carro numa auto-estrada, para nunca mais voltar, sem nunca ouvir uma réplica e muito menos treplicar.



Quando "ouvia" alguém e tentava dizer algo de volta, não havia mais ninguém "lá", ou ainda outro ente, diferente do primeiro, respondia depois de muita insistência. Era muito cansativo e frustrante, por incrível que pareça, uma consciência pura, livre de qualquer corpo, também se cansa e se frustra. Acho que já disse isto, estou frisando porque foi algo realmente espantoso descobrir. Vou elaborar um pouco a ideia adiante, para não perder o fio da meada da história.



Ao final de um período moderadamente longo, novamente me vi habitando um corpo, desta vez uma mulher adulta. Não tive muito tempo para sentir em primeira mão como é estar no corpo de uma mulher. Apareceu outra mulher, gorda, repugnante e conforme descobri logo, malcheirosa. Me mandou fazer coisas… Até tentei, mas vomitei com o fedor. Então ela me castigou com um chicote, tinha uma energia ilimitada e me açoitou até me fazer em pedaços, quando finalmente "morri" e voltei ao espaço vazio para mais alguns dias de “descanso".



Embora estar num não-lugar adimensional, sem nunca dormir, não possa ser chamado exatamente de descanso. Mas ficou um milionésimo de curiosidade sobre como seria habitar um corpo feminino mais longamente, para sentir todas as partes.



Com o tempo, e bastante treino, estava conseguindo entabular uma "conversa" telepática com as outras almas que ocupavam o espaço em branco. No início conseguia trocar duas rodadas de mensagens para nunca mais achar a mesma "pessoa" novamente; depois três, quatro, até chegar ao ponto de conseguir manter uma conversação com uma mesma alma por todo o tempo que quiséssemos, e retomá-la mais tarde. Nunca era realmente fácil, mas como não tínhamos realmente outra coisa para fazer…



A interação entre consciências acabava servindo a um outro propósito: nos dava uma espécie de orientação ou localização dentro do nada. Determinávamos o "lugar" em que estávamos em função de quem conseguíamos contactar à nossa volta.



Muitos anos se passaram, ou pelo menos eu senti que foram meses, no tempo que estava acostumado a contar durante a vida terrestre, e eu até conseguia "locomover-me" no éter a fim de buscar companheiros com quem já tinha conversado.



Essas conversas, como disse antes, eram telepáticas, e não tinham um idioma definido. Trocávamos idéias, não fonemas. Ainda me imaginava raciocinando no meu idioma nativo, porém descobri logo que meus interlocutores tinham falado um sem-número de idiomas em suas vidas terrenas.



Aquela brincadeira que alguns espíritas fazem, de deixar um gravador rodando e depois captar vozes em línguas mortas ou exóticas, é completamente fora de propósito; uma piada para enganar incautos. Tivemos oportunidade de falar disso, e rir muito disso. Era uma das nossas diversões prediletas, na verdade nossa única diversão: ridicularizar as crenças que a humanidade acalenta a respeito do além-vida.



Aprendemos que, em raríssimas ocasiões, era possível comunicar-se com uma consciência ainda encarnada na Terra, e quando isso acontecia, era sempre uma troca direta de mensagens de alma para alma, de consciência para consciência, o receptor entenderia a mensagem imediatamente seja qual fosse o(s) idioma(s) que falasse.



Mais uma convocação para sofrer e morrer na “arena”. Desta vez, algo mais convencional: uma luta de gladiadores. Certamente meu adversário tinha vivido numa época mais bruta e tinha bem mais prática que eu, manejando seu musculoso corpo de aluguel e suas armas medievais. Morri logo com uma lança atravessada na barriga. Na próxima eu te pego, safado.



Trocávamos essas impressões e nos dedicávamos a descobrir estas coisas como forma de distração enquanto "vagávamos" no espaço adimensional, no intervalo entre um show de horrores e outro. Porque a existência suspensa também é sofrida. Aqueles com as consciências mais avançadas, entre as quais consegui me inserir com o tempo, procuravam formar essa rede de comunicação a fim de minorar o sofrimento do ócio eterno sem o bálsamo de uma noite bem dormida. A maioria das outras almas não conseguia fazer nem isso; nós "víamos" essas pobres almas penadas passando a gritar, em desespero puro, tão agoniadas no éter quanto nas "arenas".



Fui novamente "convocado". Uma longuíssima leitura de sentença de morte, feita sob medida para fazer sofrer por tédio; tinha esquecido o quanto era tedioso ficar esperando enquanto encarnado. Por fim, a execução: ser jogado numa máquina gigante de moer carne.



"Arenas" foi o nome que demos àqueles momentos em que éramos metidos num corpo, que podia ser de humano ou de animal, e colocados a sofrer, até a morte do corpo de empréstimo, evento que nos devolvia ao éter. Quem quer que estivesse fazendo isso conosco, tinha a tecnologia ou a mágica de encarnar e desencarnar almas em corpos ao seu bel-prazer, além é claro da capacidade de construir os corpos aparentemente orgânicos em que as almas eram temporariamente encarnadas.



Uma vez, outra alma mais experiente me instruiu e fazer um exercício mental enquanto encarnado. Não havia muito tempo para isso em cada "show", mas na segunda ou terceira vez eu consegui realizá-lo.



Quando éramos encarnados, estávamos sempre ocupando um espaço delimitado. Uma sala ou quarto, podia ser maior ou menor, mas era sempre um espaço limitado. Não era um espaço como uma cidade. Era no máximo um quarteirão ou dois, quando o "show" constituía de um jogo de guerra ou briga de gangues até o último homem, e mesmo assim era raro. Talvez porque proporcionasse o prazer de viver uns momentos num espaço físico amplo e não havia muito interesse em que tivéssemos prazer…



O truque era tentar focalizar a visão para além do espaço limitado onde se estava. Numa sala com 3 metros de lado, tentar focar a 10 metros ou mais. Olhar "além", como quem tenta imaginar o que há por trás da cortina do teatro. Quando conseguia  fazer isto, conseguia ver formas humanoides, nada mais que cabeças ovais com dois olhos brilhantes, mais ou menos como desenhavam os E.T.s nos anos 1960.



Então o que acontecia nas "arenas" tinha um público, tinha observadores! Quem seriam eles?



Estavam à volta de toda a "Arena", fosse um quarto ou espaço maior, como torcedores de uma partida esportiva num estádio à volta de um campo. Com o tempo conseguia vê-los a cada "show" em arenas de diferentes tamanhos. Eles nunca demonstravam nenhuma reação de alegria, raiva, tristeza, aprovação ou repulsa. Nada. Apenas olhavam. Nunca falavam conosco, nem por meios físicos (já que, enquanto estávamos encarnados e numa arena, as leis da Física tais quais as conhecíamos pareciam funcionar normalmente) nem por telepatia.



Nenhuma das bilhões de almas no éter sabia realmente onde estávamos, e por que esses outros seres conscientes nos observavam impassíveis enquanto sofríamos.



Mais uma "apresentação" na "arena". Finalmente um "papel" do lado bom do chicote. Minha função era fazer doze pessoas trabalharem arrastando uma enorme rocha até morrerem por exaustão.



A conclusão mais avançada a que conseguimos chegar, em nossas lucubrações, era que funcionávamos como atores de um filme. Enquanto estávamos encarnados, representávamos um papel, para deleite de quem assistia à apresentação.



Isso tinha um paralelo, ainda que de leve, com a indústria cinematográfica, ou o teatro. Com a tecnologia atual terrestre, já é possível fazer filmes inteiros usando atores e atrizes digitais, com corpos perfeitos e beleza inaudita. Mas por algum motivo as multidões preferem filmes com atores de carne e osso, apesar dos custos e do desempenho errático.



A fama do ator seria uma explicação, mas não é a explicação completa. Todo mundo conheceu um determinado ator vendo um filme em que o mesmo atuou. Depois outro, depois um terceiro... e forma uma opinião a respeito do ator. Em geral a primeira impressão é que fica e você passou a gostar, ou não, do ator já na primeira obra. Mas ele não tinha uma "fama", não para você, até aquele momento. Mesmo assim, mesmo que cada filme que você visse na vida tivesse um elenco completamente novo e que nunca mais apareceria em outros filmes, você ainda preferiria filmes com atores de verdade.



Alguma coisa análoga estava acontecendo conosco. Só que a civilização ou grupo que tinha escravizado nossas almas não tinha interesse no nosso corpo terreno, já que eles podiam fabricar qualquer corpo. O que eles não podiam fabricar, mas podiam de alguma forma capturar, era a nossa alma ou a consciência. E assim como nós gostamos de atores de carne e osso, eles também pareciam gostar de ver seres vivos dotados de alma, capazes de pensar, e principalmente capazes de sofrer, e colocá-los para digladiar-se nas "arenas".



Nova "apresentação": brincar de médico. Numa sala com ferramentas e disposição que lembrava aquelas experiências médicas de Auschwitz. Infelizmente, desta vez não foi um papel de dissecador; eu era uma das cobaias. Uma corrente elétrica que não matava imediatamente, mas fritava por dentro...



Assim tínhamos descoberto, da forma mais abjeta possível, o que quase todas as religiões já previam: a alma nunca morre. Assim como Descartes tinha concluído, quem pensa existe; e o pensamento nunca cessa, porque ele está num plano diferente do físico. Na verdade, o pensamento já é uma conseqüência de um efeito sobrenatural ainda mais subjacente: a capacidade de sofrer de uma consciência nunca cessa. Isso é o que define uma alma ou consciência.



É claro, todas as religiões prescrevem um Paraíso, onde as almas encontram uma reencarnação num corpo perfeito, e a paz eterna. Mas parece que nesta parte elas estavam redondamente enganadas.



Não tínhamos a menor idéia como; mas essa civilização que nos usava nas arenas tinha conseguido arrumar um jeito de capturar e usar à vontade as almas que de outra forma jazeriam no descanso eterno sobrenatural.



Na verdade as religiões até tinham farejado corretamente o paraíso, mas preposteraram a ordem das coisas. O paraíso prometido pela religião era a própria Terra, onde a maioria das almas encarnadas vive uma existência razoavelmente feliz. O verdadeiro vale de lágrimas é o que vem depois. A Terra era o paraíso, porque lá éramos donos dos nossos próprios corpos.



Mesmo um escravo terrestre tinha um certo grau de livre-arbítrio. Podia tentar fugir, ou podia tentar despertar sentimentos de fidelidade ou compaixão em seu dono. Falei com alguns ex-escravos, viventes de séculos antes de mim, que encontrei no éter. O tipo de “oportunidade” que você só tem nesse plano… Todos ansiavam pelo presente supremo de voltar à existência anterior. Todos nós ansiávamos por isso, mesmo os mais desafortunados, porque algum grau de controle sobre nossa existência todos tinham, e agora não tínhamos nada.



Não tínhamos a menor idéia se nossos captores sobrenaturais eram humanos cuja civilização avançou no futuro a ponto de acessar o poder espiritual, ou se eram extraterrestres, ou talvez deuses/demônios.



Também estava completamente em aberto a questão de a própria Terra, digo, a existência terrena, já não ter sido uma gigantesca "Arena" onde nossos algozes nos mantinham por algum tempo, encarnados como humanos, na ilusão de que vivíamos num mundo físico com regras bem definidas e onde a felicidade estava ao alcance.



Alguns dos meus companheiros achavam que sim, outros opunham a seguinte antítese: o nascimento de um bebê representava a criação de uma alma nova. Pelo menos nenhum de nós podia lembrar de nada antes do nascimento, o que contradizia a teoria espírita que uma alma já reencarnou "n" vezes na Terra. Então, salvo melhor juízo, o nascimento era o início de tudo.



Então os extraterrestres ou seja lá o que fossem, não controlavam a Terra, o planeta Terra não era sua arena afinal de contas; era simplesmente uma fonte de almas e mais almas. Também não chegamos a conhecer nenhuma consciência que não tivesse vivido na Terra em algum momento, então podíamos presumir que a vida não tinha evoluído a fim de produzir seres sentientes em outros lugares do Universo. Uma desilusão para os ufólogos, certamente.



Como eu disse antes, éramos atirados na "Arena" apenas para desempenhar um papel de sofrimento. Nunca os seres que nos observavam do lado de fora davam sinais de aprovação ou respeito pelos "jogadores", e nem desaprovação nem desrespeito tampouco. A única coisa que notamos é que, na medida em que aceitávamos nosso destino cruel, podíamos ser destinados a papéis mais variados. Digamos, se o "teatro" du jour era um verdugo executando alguém, as consciências que aprendiam a aceitar o jogo tinham uma chance de 50% de assumirem o papel de verdugo. Que também morria ao final do "teatro", mas instantaneamente.



Era um grau minúsculo de controle sobre o próprio destino, porém infinitamente melhor que zero controle.



Já as almas desesperadas, que choramingavam e vagavam, estas sempre caíam no papel mais sofrido. O que as desesperavam ainda mais, entrando num círculo vicioso difícil de quebrar. Consciências inicialmente capazes de sofrer e pensar, decaíam até chegarem num estágio de sofrimento puro, sofriam porque sofriam e continuariam sofrendo mesmo que não fossem mais para as “Arenas”. O inferno dentro do inferno, certamente o deleite máximo dos que nos observavam.



Do meu ponto de vista, se era tudo um teatro, imposto pelo público desse teatro, o jeito era entrar na brincadeira. Os "conformados" como eu tentavam aproveitar como podiam essa "vantagem" daquele limbo espiritual: cedo ou tarde conheceríamos todas as sensações de prazer e dor que um ser pode experimentar. E completamente livres de considerações morais.



Confesse o leitor: nunca teve curiosidade de conhecer uma sensação proibida?



Por exemplo, você abre o jornal aí no seu mundo físico, do qual você reclama tanto, e vê as notícias: mulher estuprada por seis. Homem torturado por três dias por traficantes. Motorista distraído atropelado por um trem. Num cantinho dessa sua mente suja, você desejou conhecer todas essas sensações, tanto do lado ativo quanto do passivo.



Qual é a sensação de torturar, de matar? O maior empecilho que a maioria das pessoas vê não é moral; é o medo da punição. Não fosse por isso, muito mais gente experimentaria pelo menos uma vez. Vide o que os nobres na época do Marquês de Sade faziam aos seus servos.



Você já surrou um animal por prazer? Talvez matou? É relativamente fácil fazer isso sem que ninguém esteja olhando, e sem conseqüências. Mas alguém está olhando, sentindo e sofrendo: o próprio animal. E isso fica registrado no mundo sobrenatural. E a civilização que consegue "pescar" almas e consciências sencientes também pesca essas experiências - e diverte-se em repeti-las.



Uma coisa que aprendi nas arenas: o prazer não emerge do ato em si, mas da sensação de controle, de estar manipulando um poder transcendental, que é o sofrimento de uma alma. Quando o outro corpo está à sua disposição, você é invadido por uma sensação semelhante ao desejo sexual, ou um vício de droga potente: não é questão de querer, é questão de precisar de mais uma dose. A sensação que resta depois do ato não é prazer, nem satisfação; é o espanto com o poder que manipulou.



E é claro, sempre existe a curiosidade da sensação passiva, de ser torturado. Ninguém quer passar por isso, mas gostaria de ter passado, seja para ter a noção do sofrimento alheio, seja por masoquismo. O sádico só pode satisfazer-se torturando porque ele tem uma imaginação suficientemente boa para vislumbrar o sofrimento da sua vítima. E quando você já teve oportunidade de sofrer, o fazer sofrer é algo muito palpável.



Neste "mundo", ou plano, ou dimensão, todas essas sensações estão ao nosso alcance. Aprendemos a desejá-las porque não temos outra alternativa; seriam impostas a nós de um jeito ou de outro. Com o tempo, preferíamos estar na arena, mesmo sofrendo, do que no vazio adimensional. Porque o sofrimento na arena era mais palpável, e de alguma forma sentíamos que existíamos mais intensamente enquanto sofríamos.



Os papéis "ativos" eram mais escassos que os "passivos". Às vezes, raramente, notávamos que uma alma "diferente" encarnava o papel "ativo", do indivíduo que ministrava o sofrimento na arena. Notávamos isso pela expressão: sem pudor, sem hesitação, nem mesmo exibição de prazer ativo. Acreditávamos que se tratavam dos seres que nos escravizavam; um deles resolvia fazer mais que assistir ao espetáculo e resolvia encarnar o papel, como aqueles teatros moderninhos onde convidam alguém do público para interagir. Diziam que às vezes eles até encarnavam um corpo que seria destinado a sofrer, mas isso era incrivelmente raro e eu mesmo nunca tive a oportunidade de ver isso acontecer.



Eu mesmo não cheguei neste nível, mas algumas almas experimentadas conseguiam desempenhar com tal maestria os papéis passivos dos "jogos" nas arenas, que conseguiam escapar da morte amarga no final da sessão: as luzes se apagavam e as almas eram imediatamente devolvidas para o limbo adimensional. Imaginávamos que os corpos eram instantaneamente destruídos, por uma explosão nuclear, raio de nêutrons, ou qualquer processo instantâneo e indolor. Os espectadores, fossem o que fossem, ficavam tão plenamente satisfeitos com a performance que a encerravam prematuramente. Não se tratava de consideração ou prêmio, era questão de ter satisfeito a audiência a ponto dela perder o interesse.



Óbvio que isso num contexto de total sujeição e humilhação. O leitor deve ter sempre em mente que estávamos num limbo sem sentido, sendo usados para uma diversão sem sentido observados por seres cujas motivações nos eram herméticas. Então não me condene por relativizar o sofrimento. Foi sofrimento que percebi em primeiríssima mão. Tudo que eu tenho para me defender dele é usar meu pensamento para relativizá-lo.



Talvez, depois de milhares ou milhões de anos conseguiríamos descobrir o real sentido daquilo tudo, talvez houvesse alguma saída. Talvez fôssemos convidados para a platéia, em vez de permanecer na arena? Algumas histórias sobre o Inferno contam que, depois de torturar uma alma durante séculos, ela torna-se voluntariamente um demônio ou anjo do mal.



Seria isso, ou algo parecido com isso, nosso ingresso para uma outra existência?



Afinal, era possível escapar desse "mundo"?



Ninguém sabia.



Havia rumores que uma e outra alma tinha desaparecido. Se tinha escapado, ou tinha sido movida para outro espaço sobrenatural, ou se tinha reencarnado definitivamente na Terra ou mesmo em outro mundo -- só podíamos conjecturar. Também havia comentários que havia almas que tinham desaparecido e depois voltado. Por que alguém desejaria voltar? Como eram bilhões de almas, não cheguei a encontrar uma que tivesse passado por essa situação e que se dispusesse a me esclarecer.



--


De repente, me vejo deitado num piso duro, olhando para um pano azul, da cor do que costumava conhecer como o céu. “Arenas” a céu aberto eram muito raras e nunca tinha reparado se o “céu” delas tinha alguma cor.



Mas a cor era tão parecida com o céu, que... dava prazer só de olhar. Só podia ser o céu de verdade! Reparo então que diversas pessoas estão a minha volta, olhando de cima para baixo, curiosas. Dois homens uniformizados pedem que se afastem. Eram bombeiros ou socorristas.



Tinham conseguido me ressuscitar, fazer meu coração bater de novo. Porém isto foi só o começo. Teriam de me levar ao hospital para tratar a síncope, provavelmente fazer um cateterismo e quiçá umas pontes de safena.



Tive medo de perder a consciência novamente, e voltar para aquele outro plano horrível. Mas a anestesia da cirurgia funcionou do modo usual. Apaguei depois da injeção preliminar, e imediatamente após me vi na sala de recuperação. Mas olhei bastante para ver se era mesmo uma sala de hospital e não outra “arena”.



Com as vias coronárias recauchutadas, estava a salvo por mais alguns anos. Isso se não me acontecesse outra coisa, tipo ser atropelado, acidente de carro, levar um tiro.



Mas, cedo ou tarde, eu morreria para valer. E minha consciência ou alma seria definitivamente capturada, para sofrer eternamente.



Não devia mais beber, o médico proibiu terminantemente, mas não consigo dormir sem beber uma dose dupla. O medo de ter minha consciência recapturada durante o sono causa insônia.



Fico pensando se os sonhos bizarros que toda pessoa tem de vez em quando, são períodos em que nossas almas são jogadas na arena. Breves e infelizes momentos em que nossas consciências deixam o corpo e fazem uma visitinha rápida ao lugar de não-descanso eterno.



Dizem que a experiência de quase-morte modifica radicalmente o modo de vida de quem a experimenta. O mesmo aconteceu comigo, porém no meu caso não foi a agradável ilusão produzida pelo cérebro privado de oxigênio, que as pessoas presumem ser o túnel que leva ao Além. Eu não: realmente morri e voltei, estive mesmo no outro lado, e lá não há nada de bom. Não para nós.



Nossa existência terrena não passa de uma fazenda ou granja de almas. Quanto mais pessoas nascem e morrem, mais gado senciente para sofrer e dar prazer aos donos do próximo plano de existência.



Todas as noções típicas de moralidade ou decência perderam completamente o sentido para mim. O hedonismo extremo tornou-se minha filosofia de vida, só evito praticar atos que poderiam me levar à cadeia ou que possam diminuir minhas possibilidades de usufruir do que resta da vida. Considero que estou fazendo um ato da mais alta caridade quando ofendo ou prejudico alguém. Estou apenas preparando essa pessoa para o além-vida que nos espera a todos.

 
Autor: José Bonifácio Reutemann

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Comentários   

 
#1 Guest 19-04-2017 19:00
Muito bom. Muito embora nao tenha conhecimento literàrio profundo, comparo, sem medo de criticas ou chacotas, este conto aos de Edgar Allan Poe.
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