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Encontros

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Escrito por Gabriel Rodrigues   
Qui, 15 de Junho de 2017 00:00

Encontros

 

 

ENCONTROS

Por Gabriel Rodrigues



O plástico do pacote de biscoito faz um chiado grosso enquanto eu o amasso e o aperto com uma certa quantidade de força. O imagino sendo a cabeça de alguém, e isso me faz apertar com mais força. Não vejo nenhuma lata de lixo então jogo o plástico dentro do bolso da minha calça. Caminho pela rua acinzentada e esbarro nas pessoas que acham que eu vou sair dos seus caminhos, e eu também acho que elas vão sair do meu caminho. Ninguém sai, então esbarramos.


Imagino se devo ir para casa e dormir um pouco, mas sou atingido por algo e caio violentamente no chão de cimento da calçada. Por sorte bato somente a bunda no chão, e o mesmo acontece com a mulher que esbarrou comigo. Ficamos parados nos olhando com um ar de surpresa com vergonha e um pouco de raiva.


- Desculpa – eu falo e me levanto para ir até ela e ajudá-la a levantar.


- Desculpa também. Eu estava distraída – a voz dela é como um pano de seda se rasgando.


Assim que nos levantamos a mulher bate as mãos na calça jeans preta e me olha meio emburrada.


- Desculpa mais uma vez – digo.


- Não, não precisa – ela suspira. – Meu dia não está muito bem. Acho que o meu carma está me perseguindo.


- Então você anda fazendo coisas más, hãm?


Ela me olha surpresa. Mas logo ri.


- Talvez – diz. – Meu Deus, preciso ir.


Ela dá um passo, mas eu a seguro pelo braço.


A mulher não faz nenhuma resistência.


- Então que tal fazermos algo bom – digo. – Como ir tomar um café?


Ela me olha, olha para frente, olha um pouco para cima, e depois novamente para mim.


- Pode ser.


Vamos a uma lanchonete na esquina do outro lado da rua. O movimento no seu interior está como em qualquer dia durante a semana. Algumas pessoas sentadas à mesa, enquanto algumas tomam café no balcão. Vamos para uma mesa que fica próxima à janela onde se pode ver o movimento no lado de fora. O dia ensolarado e o céu azul faz tudo parecer mais alegre e brilhante, mesmo com os barulhos e xingamentos que os motoristas fazem no engarrafamento que se forma.


- Qual o seu nome mesmo? – a mulher pergunta, do mesmo modo que alguém questiona algo que não entendeu.


- Que tal não falarmos os nossos nomes?


A mulher me olha desconfiada.


- Já estou ficando assustada – brinca.


Eu sorrio.


- Sério. Tipo, nós conversamos, se não gostarmos da conversa ou algo assim, nós vamos embora e pronto. Nunca mais sabemos nada um do outro – sorrio mais. – Nem o nome.


Ela me olha e fica balançando a cabeça devagar.


- Está certo.


Quando o café chega, a conversa começa sobre as coisas do que cada um de nós gosta e depois já estamos na terceira xícara de café falando sobre a mata atlântica.


Então depois do que parece ser uma hora, ela olha o relógio prata no braço direito e diz:


- Hora de ir – e põe uma mão em cima da minha. – Sou Isabella.


- Sou Thiago – digo.


Abraçamo-nos na saída e ela me dá o seu número.


- Vê se me liga – diz, e pisca um olho para mim.


- Com certeza – respondo.


No caminho para casa começo a assoviar e lembro o que eu tinha ido fazer na rua. Corro para o mercadinho mais próximo e compro uma blusa rosa de dez reais, um absorvente e alguns salgados para comer.


Deve servir por enquanto.


O bairro onde moro fica perto da parte da mata, um pouco afastado da zona urbana, logo demoro meia hora para chegar lá, mesmo andando muito rápido. Quando chego em casa minha testa está toda molhada, assim como meu pescoço e minhas axilas. Abro a velha porta que um dia foi vermelha, mas que agora está parecendo um rosa claro, e olho ao redor para ver se há alguém por perto. Apenas árvores.


Vou até a cozinha e abro a geladeira para pegar um copo de suco de laranja para tirar o gosto de café da boca. Odeio café.


Olho para a porta que vai para o porão que fiz. Demorou quase um ano, mas consegui deixar do jeito que eu queria. Paredes acolchoadas, ar-condicionado e outras coisinhas. Pego a chave no bolso e abro a porta. Ela é um pouco pesada mesmo com o acolchoamento sendo de espuma. Desço a escada em espiral com a sacola do supermercado em mãos.


Ela está do outro lado do porão, perto da estante com alguns livros. Jogo a sacola em cima da cama box.


- Está aí – ela apenas me olha com os olhos assustados do mesmo jeito de todas às vezes que desço aqui. – Não fique tão assustada.


Seus olhos redondos se estreitam e depois ficam redondos de novo.


- SOCORRO! – ela grita com todas as suas forças, mas logo cai no chão.


- Ninguém vai ouvir – repito pela milésima vez. – Não se preocupe, você logo terá companhia.


Subo a escada e fecho a porta.


Vou até o meu celular que fica na primeira gaveta do meu guarda-roupa e disco o número que Isabella me deu.


Ela atende no segundo toque.


- Olá – digo. – Já estou com saudades.


- Eu também – ela responde com uma risadinha.


- Quer sair amanhã à noite? – pergunto.


Ela demora um pouco a falar. Minha mão treme.


- Eu adoraria – diz por fim.


Apenas sorrio.


 
Autor: Gabriel Rodrigues

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