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O Capuz de Camurça Negro

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Escrito por Mário Terrabatava   
Sáb, 15 de Julho de 2017 00:00

Peixe fora d'água

 

 

O CAPUZ DE CAMURÇA NEGRO

Por Mário Terrabatava



Pouco me interessa o que levou Áureo Dourado, numa madrugada fria de agosto, a sair de casa e caminhar até o viaduto Dois Irmãos com o firme propósito de dar cabo à própria vida.


Sei apenas que este era o seu intento e isto me é bastante.


E, acaso haja nisso alguma importância, eu vos digo que, entre as sombras da noite, vislumbrava-se uma cintilação opaca em seu olhar. Talvez fossem os reflexos semiluminosos de uma derradeira e involuntária convulsão no cadáver de uma angústia pretérita, um frêmito a sacudir os restos mortais de uma aflição que, agora, já não tinha qualquer significado em sua tênue luminescência.   Tudo ficara para trás. Tudo. O que importava àquele homem franzino, de meia idade, era apressar o passo e encontrar-se com a morte o mais breve possível.


Quando finalmente estirou o olhar para o vão asfaltado do viaduto, Áureo estacou.


O que viu o surpreendeu.


À nebulosa luz do poste público, uma silhueta equilibrava-se precariamente sobre o parapeito de alvenaria.


Outro suicida?  Sim, outro suicida.


Alguém que chegara antes e alçara-se ao pilarete central.  Naquele momento, a  silhueta feminina – sim, era uma suicida! – mantinha o corpo ereto e os braços inertes.  Mas a cabeça, coberta por um capuz de camurça negro, inclinava-se, lúgubre, de encontro ao peito.  Não havia dúvida que olhava para a calçada no fundo do precipício.  Em algum momento, aqueles olhos se fechariam e o corpo seria corajosamente impelido para as goelas brumosas do abismo.


Áureo gelou. Cautelosamente, sem fazer ruído, aproximou-se da mulher, pondo-se bem atrás dela.


O que se passava pela cabeça de nosso homem? Ora, a quem isto pode interessar?   Quanto a mim, interessa-me apenas o sucedido.  Digo-vos que imaginei que Áureo iria aproximar-se da suicida apenas o bastante a dar-lhe um pequeno empurrão.  Bastaria um mínimo toque com as pontas dos dedos. Sei que ele não o faria por malvadez, senão por pura piedade. Afinal, Áureo é, no fundo, um tolo. Estaria ajudando a mulher encapuzada a cumprir o seu desiderato. Ele agradeceria se um bom samaritano fizesse isto por ele, quando chegasse a sua vez. Dispensaria o monstruoso impulso da coragem.


Mas não foi isto o que Áureo fez.  Para a minha tristeza, não foi o que ele fez.


Rompendo toda a minha expectativa, frustrando toda a minha capacidade de precognição, Áureo agarrou-se à cintura da mulher e a puxou para trás.


A mulher virou-se, assustada.  Depois, aninhando a sua bela face ao peito de seu salvador, chorou convulsivamente.


― Não faça isso, garota ― disse Áureo. ― O que lhe deu na cabeça? Você é jovem demais para morrer.  Agora vá.  E não tente isto novamente.


A mulher assentiu, exsudando uma vergonha imensa.  Depois, escapuliu para a noite, tomando a direção da ladeira donde viera.


O homem esperou que ela se afastasse até ser engolida pela neblina.


Aliviado, olhou para a calçada, para o asfalto, para o poste. Poder-se-ia mesmo entrever um breve – mas intenso –  sorriso em sua face lívida.  Então pôs-se  Áureo a andar, devagar, afastando-se do pilarete central.


Parecia meditar com satisfação. Parecia orgulhoso de si mesmo, mais feliz do que nunca.


O incidente o fizera retroceder no intento de matar-se?


Mais adiante, Áureo parou.


Subiu o último dos pilaretes e, sem olhar para baixo, sem medo ou hesitação, mergulhou placidamente para a morte.


Caiu sobre a calçada vinte metros abaixo, esmagando fatalmente um transeunte. Uma alma feminina que seguia a chorar, infeliz, sob um capuz de camurça negro.

 

 
Autor: Mário Terrabatava

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