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Predador. – Vielas Esquizofrênicas.

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Escrito por Igor E. Moreira   
Sex, 08 de Setembro de 2017 00:00

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PREDADOR. – VIELAS ESQUIZOFRÊNICAS

Por Igor E. Moreira


É engraçado como a vida funciona. Lá estava eu sentado, enquanto meus amigos falavam sobre o quão malvados eram os psicopatas. São doentes os que transam com cadáveres, os que matam pelo prazer de matar. Estariam eles errados? Estaria eu errado? Foram todos os meus pensamentos antes de deixar o bar.


Eu nunca fui muito do tipo que tinha quaisquer escrúpulos. Eu nunca dei muita atenção ao que é errado ou certo. Eu só faço o que eu quero, porque eu quero. Pelo meu prazer. Acho que a única coisa que tem qualquer importância no mundo é o meu bem-estar. Eu como e como pelo prazer da comida, eu transo e transo pelo prazer de transar. Eu bebo e bebo pelo prazer de beber. – E se essas coisas diminuírem minha vida? – Então que diminuam. Por que pensar em como eu vou morrer? Minha existência é a única coisa de importância e se eu vou morrer um dia, por que hei de me importar com qualquer outra coisa se não meu período vivo?


É importante escolher quem é minha vítima. Eu sou tudo. Sou o começo e o fim de minha própria existência. Mas acima de tudo eu sou um predador. Sim, um predador. – É mesmo um predador? – Como poderia não ser? Um predador que espreita e observa a sua presa por um bom tempo, planeja um bote único e certeiro que encerra, sem dúvida, ou chance a vida da presa.


Encerrar a vida não é sinônimo de morrer. O olhar nos olhos da presa antes da morte são os últimos suspiros de vida. Os últimos sinais de humanidade. Medo. Frios e com um brilho ofuscado, molhado, lacrimejando os últimos pensamentos. Uma leve esperança que morre. Sim. Tire os dedos de um homem e ele chora. Corte-os bem devagar. Veja como ele chora. O mais bruto e rudimentar dos neandertais modernos chora. Chora. Mas há sempre uma esperança. Uma súplica. Um jogo emocional. Uma chantagem. A esperança de que eu os poupe, seja pela vida dos filhos ou a vida da mulher, pelo emprego, pelo trabalho, por Deus  e pela mãe dele (de ambos), pela minha. Pelo meu Deus (eu mesmo?). Depois vem o olhar. Eu consigo ler seus pensamentos através do reflexo em seus olhos marejados – Por que eu? – E por que eu a matá-lo?


Ele poderia morrer atravessando a rua, ou eletrocutado, mas eu escolhi como ele vai morrer. Escolhi enfiar todos os palitos de dentes Gina abaixo das unhas dele. Escolhi o quanto ele sofre. Eu escolhi. Eu decidi como ele morre. Eu sou Deus, certo? – Certo. – Certo.


Mas aonde estávamos? – Os olhos da presa.


Sim, os olhos da presa. Eu escolhi minha presa pelos olhos. A primeira vez que a vi foi do lado de dentro de um táxi. O vidro fazia um jogo de reflexos. Eu. Ela. O prédio atrás dela. O poste na diagonal, o ponto de ônibus em perpendicular, as pessoas passando. Os carros na contramão que agora ganhavam tom no meu ouvido esquerdo. Ela era linda. Perfeita. Delicada. Minha vitela. Minha doce vitela, cara, pedida por mim e preparada para mim. Pelo chefe o melhor dos chefes – Deus?


Bela, branca, baixa, boca larga, bocejava, B – B? – Tinha um cordão com B. Barbara? Bianca? Bela? Branca? Busto. Busto avantajado. Basta. Olhava o telefone. Eu segurava o meu. Ela me olhou pelo vidro do carro. Eu a olhei e vi seus olhos. E ela viu os meus. E eles eram brilhosos como uma criança que via o mais belo brinquedo. – Brinquedo. – Eu preciso descer.


– Eu preciso descer.


– Mas não chegamos no desti… – Eu preciso. Vi alguém que conheço. Não o vejo a muito tempo. Desculpe.


Desci. Bela. Ainda estava parada no mesmo local. Circulei por longe. Ela não poderia me ver. E não me viu. Óculos escuros. Vejo todos mas ninguém vê o que eu vejo. Allstar. Ela é simples.


– Com licença, qual ônibus que eu pego para chegar no bairro da Liberdade? – Olhe nos meus olhos, ovelha.


Ela olhou. Sorri discretamente. Eu sou bonito? Sorria de volta e diga que sim. Ela sorri.


– Oi, pode ser o 1033B. – Riu.


– Ah é? Eu sou novo aqui, meus amigos me soltaram e fiquei sem jeito. – Olhe nos meus olhos, ovelhinha.


– Acontece. – Sorriu.


– Aceita uma bala? – Ovelhinha.


Tempo passa. O ônibus não chega. A vantagem das cidades grandes. O atraso é recorrente. Atraso quebra rotina, facilita a caçada. Ela conversa demais. – Meu Deus, elas sempre falam demais. Por quê? – Mulheres. Elas gostam de conversar. – Hora de matar esses belos olhos. – Não ainda. Não até tudo estar no devido lugar.


– Meu celular não tá funcionando. Posso usar o seu?


– Claro. – Mulheres são bobas.


O tempo que eu precisava. O disfarce. Uma ligação falsa. Um monologo. Uma distração. Um olhar repentinamente mudando de direção. A presa inevitavelmente acompanha meu olhar. Franzir a testa ajuda. Ela se distrai. O tempo preciso. A prática leva à perfeição. Um dispositivo encaixado no “mini-usb”. Um celular clonado. Apenas 10 segundos. Outro desvio: – Gosto dos seus tênis.


– Obrigado! – Inevitavelmente ela os olha também. Idiota. Como pode ser dona de um objeto e ter que conferir ele de novo quando alguém elogia?!


Pronto.


“Apagar o número discado”. Faz acreditarem que a ligação era real. Movimento rápido de mão e tudo pronto. Espero o ônibus calado. Não há porque falar mais. Deixe que pense que apenas era uma pessoa simpática que precisara de ajuda. – Pobre ovelhinha.


É assim que você conhece pessoas. Usando o telefone delas. Agora eu tenho tudo. Nomes. Números. Conversas. Nudes. Localização. As maravilhas do mundo moderno. Monitoro meus rebanhos do meu escritório. Minhas ovelhinhas. Esperando pelo momento certo. – Aria. Nome bonito.


O momento certo é uma festa. Por que está indo sozinha, Aria? Não sabe que é perigoso? Não sabe que alguém pode querer machucá-la? Não posso deixar a oportunidade passar. Aria é minha. Você é minha. – Minha. – Minha.


Está frio. Mas ela não percebe. O álcool já alterou a capacidade dela de distinguir temperaturas com acurácia. Eu sou mais um na multidão. O bom predador é bom também em se camuflar. Meus movimentos são iguais. São inconspícuos. São coordenadamente bêbados. São rápidos. São tudo que eu preciso para por uma pilula em seu copo, Aria. – Aria. – Aria.


Está tudo bem. Dançamos juntos. Nunca nos vimos. Ela me reconhece de alguma forma. Sou familiar.


– Oi.


Sorrio mas fico calado. Vamos dançar. Dance, dance little lier.


“I heard the truth was built to bend”


Sorria. Sorria comigo, Aria.


“I heard the truth was built to bend”


Sorria para mim, ovelhinha.


“A mechanism to suspend the guilt”


Se entregue para mim, ovelhinha.


“Is what you will require”


Você é minha. Seus dedos estão entrelaçados aos meus.


“And still you've got to dance little liar”


Você é minha.



“The liar takes a lot less time”


De repente tudo fica escuro. E começa o ato dois. Aos as pedras viram e o fósforo apaga. O  péssimo gosto amargo do batom. Ela não abrirá mais os olhos. Agora ela vai dormir.


Saio carregando-a. É minha irmã. Ou minha prima, ou uma amiga. Não importa. Está segura. Todos acreditam. Ela é minha e só minha. Fecham-se as cortinas. O jogo da sedução chega ao fim. Um bom predador leva a presa para o esconderijo. É seguro. Ninguém vai atrapalhar o meu prazer.


Ela acorda amarrada a uma única barra de ferro fincada ao chão. Suas mãos amarradas, seu corpo deitado sobre o chão frio. Eu estou de joelhos ao seu lado. O caçador precisa contemplar a caça.


Ela me olha assustada e fecha as pernas. Trava as pernas. Como ousa!


– Eu não quero o seu sexo. Um Deus não precisa de coisas vãs. Eu quero algo muito mais íntimo. Muito mais profundo. – Profundo. – Eu quero ser a sua dor e o seu prazer. Quero estar dentro da sua mente como um pedaço do seu cérebro. Aquela mágoa de amor que insiste em persistir e aparecer para sempre. A eternidade do quanto você sobreviver pertencem a mim.


Ela se apavora quando monto encima dela. Ela tenta gritar quando eu tiro a mordaça. Ela tenta morder, gritar, implorar e chorar em vão enquanto instalo em seus belos lábios carnudos o meu abridor de boca Jennings. A muito a fazer. Existem 6 molares expostos e um prego para cada um.


Quanto eu termino, destruí tudo que ali havia. Perfeita. Os pregos estão bem colocados no core de cada dente. Odeio as obturações. Elas são mais duras. É mais difícil para os pregos entrarem. Ela está em choque. Não grita mais. Não bate mais as pernas. Só treme.


É agora. Seus olhos choram. Maquiagem borrada. Ela sente frio. Ela sente tudo. Ela tem esperança ainda. Até meus dedos ensanguentados e minha mão trêmula alcançarem meu bolso… – O que é isso? Esse cheiro? – A bela moça não se aguentou. Está toda molhada. Aconteceu quando eu estava concertando seus dentes.


Tiro uma única navalha. Nova. Ela continua inerte. Continue inerte. Até eu abrir suas pálpebras. O desespero volta. – Eu disse. Ainda havia esperança. Nem toda a dor que eu a causei foi suficiente para destruir a esperança humana que ali existia.


Sua íris era um verdadeiro terremoto! Não ficaria parada. E quem ficaria? De encontro ao fio da navalha. Todos os movimentos e esforço dela são em vãos. Eu sou pesado demais para sair de cima dela. Minhas mãos são sedentas demais para errar seu olho. E assim eu corto seu globo ocular e deixo vazar todo o cristalino. Ela inevitavelmente fecha as pálpebras e chora. Tive a impressão de que chamava pelos pais.


E ali ela contempla. Contempla a seus novos 7 Deuses. Eu e as 6 pessoas que vivem dentro de mim. Todos em pé, olhando de cima para baixo a uma mera mortal. Você entregou a mim o que eu queria, ovelhinha. É hora de dar adeus. Obrigado pela sensação única de tirar tudo de alguém. Desnuda de todas as suas emoções falsas e construções. O ser nato.


Adeus.


No outro dia o telefone tocou. Era a mãe dela. Atendi. Deixei que ela ouvisse a minha respiração. Eu estou aqui. – Estamos todos aqui. Enquanto ela aumenta o tom de voz pelo telefone, perguntando aonde está a filha. Meu forno apita anunciando que o meu almoço está pronto. – Ela está aqui – Digo – Quer falar com ela? Amor, sua mãe está ligando. Ela saiu do banho agora mesmo.


– A mãe? – Me pergunta as coisas mais obvias, como toda boa mulher faz.


– Sim. A sua mãe. – Digo, passando meus dedos sobre minha aliança.


– Ah, oi Mãe… – A voz fica distante.


Da sala, Camila me grita:


– Que cheiro é esse? Tá muito bom.


– Não lembra que te falei que um amigo meu havia me conseguido um belo vitelo? Ontem a noite fui buscar. Vamos comer carne de vitela. Vitela. – Vitela.


– Vitela.

 
Autor: Igor E. Moreira

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