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Dezoito

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Escrito por Annie Bitencourt   
Sex, 03 de Novembro de 2017 00:00

dezoito

 

 

DEZOITO

Por Annie Bitencourt


 

Nunca me senti perturbado ou assustado por qualquer coisa que fosse. Já vi pessoas morrendo. Muitas delas. Homens, mulheres, velhos e crianças. Muitas vezes minha reação foi considerada inadequada em casos assim.


Minha primeira vez foi usando um estilete, no meio do expediente. Trabalhava como empacotador de uma loja e então vi aquele estilete vermelho em cima de um dos balcões do depósito. Ela não parava de falar. Ordens para lá e para cá. Vozes histéricas e desesperadas. Entenda leitor, eu precisava fazer aquilo.


Foi tão rápido e até um pouco acidental. Ela se virou bruscamente e encaixou perfeitamente na minha mão parada que segurava o estilete.


Ela foi caindo lentamente. Os olhos abertos brilhantes. Eram de um azul profundo e hipnotizante. Qualquer estrela sentiria ciúmes daquilo. Foi nesse momento que percebi que ela era bonita.


A realidade socou-me no estômago. Ouvi barulhos na escada. Pouco me lembro do que houve depois apenas sei que quase ninguém derramou uma lágrima sequer. Parecia que todos tinham olhos secos. Com certeza não tinham o brilho dos olhos dela daquele momento.


O funeral foi quieto, um pouco entediante eu diria. Fixei minha visão e atenção nela. Estava mais bonita agora. E eu era o culpado.


Naquele dia voltei para casa um pouco irritado. Seria a última vez que a veria. Assim eu pensava.


Me deitei exausto no sofá da sala. Na TV estava passando um filme sobre pássaros. Vários deles. Fiquei um bom tempo naquele mundo preto e branco. Devo ter cochilado depois. Quando abri os olhos vi aquele rosto branco com grandes, brilhantes e profundos olhos azuis.


Um silêncio demorado. Era ela. Veio novamente para mim. E então sumiu. Tão rápido. Mal pude tocá-la. O telefone tocou:


"Alex, é o Bonnie da loja. Quer participar da homenagem?"


Neguei. Ela ficou mais bonita, sim. Mas ainda não era digna de homenagem. Falava muito. Histérica. Seu nome, mal lembro.


Graças a ela salvei novamente. Esse era de fato o meu dom. Conseguia deixar todas mais bonitas no final. Os olhos sempre ficavam mais brilhantes. E cada uma voltava pelo menos uma última vez.


Hoje após um grande salvamento que fiz fiquei satisfeito de ver todas as dezoito paradas ao meu lado. A primeira de mãos dadas com a segunda e assim faziam um círculo. Todas me olhavam. Mas algo estava diferente. Elas sorriam. E seus dentes apagavam o brilho dos seus olhos.


"Não!" Gritei.


A primeira pegou algo nas suas costas. Quando olhei percebi que o estilete vermelho estava na sua mão. O punhal surgia das mãos da segunda. E pouco a pouco foram tirando partes de mim. Dezoito partes.


A primeira tirou meus olhos, sussurrou algo em meu ouvido que não pude entender. Não senti dor alguma. Nunca me senti perturbado ou assustado por qualquer coisa que fosse. Vi todas morrendo e me vi morrendo pouco a pouco. Parte por parte. Agora estou mais bonito. Fui salvo.

 
Autor: Annie Bitencourt

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