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Em Meu Quarto

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Escrito por Reginaldo Ferreira   
Ter, 05 de Dezembro de 2017 00:00

OS olhos

 

 

 


Prezado leitor,

Passo agora a narrar uma história inquietante e misteriosa que aconteceu comigo; se a lerem, tenham o bom senso de não me julgar, pois acho que já fiz isto o suficiente para entender que não tive culpa. Dela, tirem suas próprias conclusões.


EM MEU QUARTO

Por Reginaldo Ferreira

 

Por muito tempo lutei contra mim mesmo. Por muito tempo eu sabia que não era um indivíduo comum, partícipe daquele grupo que frequenta bares, praças, boates, festas e bailes de caridade. Eu não era assim.


Vivi alheio ao mundo exterior, aproveitando ao máximo o silêncio e a penumbra de meu quarto. Li tantos livros que não os recordo totalmente, e ainda sinto que não li tantos quanto eu gostaria. Havia tanta vida dentro daquelas quatro paredes quanto há ao seu redor, do lado de fora.


Tentei diversas vezes persuadir-me da infeliz necessidade da reclusão. Procurei psicólogos, videntes, cartomantes e amigos. Mas nada puderam fazer. Eu estava metido num estado mental confuso e introvertido. Para mim, tudo não passava de uma mera opção de passar a vida. Há tantas pessoas que bebem, dançam, fornificam, inventam mentiras, roubam e matam; eu era apenas mais um fazendo coisas que me agradavam.


Por diversas vezes, em meio a uma conversa, eu queria fugir. Eu queria entrar nos meus aposentos onde a minha cama – única companheira da minha alma – estava me esperando, ávida por envolver-me com sua maciez e encanto. A escrivaninha onde eu passava metade do meu tempo, uma escrivaninha velha e desbotada, dava-me a feliz impressão de que ficava triste quando eu, solicitado por meus parentes, ausentava-me do quarto e eu a encontrava, quando de volta, mais desbotada do que da outra vez.


Tudo para mim naquele quarto era vital. Fazia parte de mim. Eu conversava com os móveis e com os passarinhos que se recostavam à minha janela. Estas aves eram a única companhia animal que eu gostava, pois não me apontavam o dedo; não denunciavam meu estado antissocial, nem tagarelavam como as minhas tias.


Neste quarto, que eu alugara depois de uma discussão com meus pais por conta de meus hábitos excêntricos, tudo era limpo e perfeitamente arrumado. Pois o único lugar em que eu amava perder-me em meus devaneios deveria ter a aparência qual eu me sentia por dentro.


Nada mais para mim importava.


Porém, certo dia, quando numa tarde de sábado eu fazia minha caminhada costumeira à livraria mais próxima, vi aquilo que seria o tormento de meus sonhos. Ela pintava um quadro de uma árvore; tal quadro era imponente, perfeito em tons de cinza e verde. Havia uma ternura no rosto da mulher quando pincelava que me deixava maravilhado por longos minutos; havia beleza e sabor em tudo aquilo.


Fiquei parado observando aquela magnifica cena; prestando atenção em cada pincelada e o doce olhar da mulher, dona de beleza e encanto. Seu sorriso, fresco e angelical, tocava-me como jamais eu sentira; era como se eu estivesse sentindo a minha alma ferver-se e sacudir-dentro de mim, numa perfeita sincronia com os batimentos de meu coração.


Voltei angustiado para casa. Meu estômago parecia querer volver tudo aquilo de que me alimentei nas últimas horas. Minhas mãos, pálidas e frias, tremiam enquanto tentavam alcançar a escrivaninha perto da cama. Sentei-me e fiquei algum tempo absorto, sem saber ao certo o que me tocava com tanto fervor.


Depois de um tempo, chegando a conclusões vagas a respeito de tudo aquilo que me afligia, fui tomado de uma dor de cabeça pungente. Ao abrir os olhos percebi que o quarto não tinha o mesmo aspecto de antes. Eu flutuava entre as quatro paredes, cujo piso de cor amadeirada desaparecera.


Olhei para baixo e vi um fogo que parecia vivo vindo em minha direção. Dei passos para trás na tentativa de fugir das chamas, mas fui imediatamente engolido por elas. Quando abri os olhos depois de tê-los fechado em virtude do ar quente, um espelho materializou-se em minha frente. Mas para meu espanto eu não via o meu reflexo. Assim como um fantasma eu não estava refletido no espelho! Tomado de grande confusão mental tentei tocar o objeto.


Quando o toquei e passei meus dedos pela superfície, surgiu um ser que parecia eu, mas eu não me reconhecia ali. Era como se um gêmeo idêntico, mas com sua personalidade e olhar sinistro, tomado pela fúria, fitasse-me por algo de ruim que eu havia feito.


Retirei a minha mão na mesma hora e tudo desapareceu como se nunca tivesse acontecido. O quarto voltara a sua forma habitual.


Ainda horrorizado por tal visão, tentei dar razão a tudo aquilo, mas não havia nada que lançasse luz ao que se passara. Nem em minhas leituras diárias eu havia me defrontado por isto.


Saí do quarto e caminhei até a praça onde estava a mulher que pintava. Avistei-a já guardando o material de pintura e vi, ao seu lado, a mesma figura do espelho. Meu espectro olhava para mim atentamente, com a mesma expressão que eu vira no espelho. Seu rosto era sombrio e cruel.


Minhas pernas não conseguiram manter-se de pé diante da visão e cambaleei para a rua. Se eu não tivesse desviado um único centímetro que fosse, um automóvel teria batido diretamente nas minhas pernas, teria me jogado para cima e eu teria caído, desfalecido.


E quando saí daquele estado de semiconsciência, ainda digerindo as informações do meu quase atropelo, olhei para a moça que pintava e não vi mais ninguém, nem o espectro que a acompanhava.


Voltei para o quarto, convencido de que eu estava louco. Sentei-me com um livro nas pernas, passando as folhas sem dar conta do que estava impresso. Meu olhos passavam em cada pagina rapidamente e as lembranças do homem na praça e do quarto em chamas corroíam a minha mente. A poucos metros o espelho permanecia ali, faltando-me coragem para encará-lo.


Dois dias depois, já não dando mais a importância que dera aos últimos acontecimentos, fui à mesma livraria buscar um livro que encomendei. Quando de lá saia com o livro na mão, topei com a pintora segurando seus pincéis.


Ela fitou-me com expressão curiosa e eu, rudemente, abaixei a cabeça. Ela olhou-me com nítida surpresa e disse:


- Desculpe. Não foi minha intenção!


- Tudo bem – disse eu, e saí.


Por algum motivo eu sentia que conhecia a mulher. A pele fresca e o perfume de flores inebriaram-me de tal forma que um sorriso brotou de meus lábios. A partir daquele momento eu desfrutava de um sentimento há muito tempo esquecido: a paixão por uma mulher.


Corri ao meu quarto para fazer um soneto à altura da minha amada. Mas quando abri a porta fui tomado pelo mesmo fogo que eu experimentara no dia anterior. Fui puxado para dentro e arrastado pelo chão. Senti mãos firmes erguer-me até o teto e a figura do homem da praça surgiu no espelho.


- Deixe-a – disse ele, com uma voz espectral, trazendo-me arrepios.


- Deixar quem? – perguntei eu.


- Deixa-a – disse ele, e desapareceu.


Caí como uma pedra no chão. O quarto voltara a sua aparência habitual e senti-me cansado como se tivesse caminhado por toda a cidade. Arrastei-me até a cama e dormi.


Acordei no outro dia e observei atentamente o quarto, esperando que fosse encontrar o mesmo espectro e as chamas, mas vi apenas o espelho. Tomado por fúria, agarrei tantos livros quanto pude e os atirei contra o objeto, quebrando-o em mil pedaços. Quando enfim liberei a raiva, chorei. Soluços subiam a minha garganta e desejei estar morto.


No entanto, como se pesadas correntes houvessem sido arrancadas de meus pulsos, meu coração e minha alma dançaram uma alegre valsa, e eu quis correr para a praça e beijar aquela desconhecida de quem eu estava perdidamente apaixonado.


Saí esfuziante. Comprei flores: margaridas e jasmins. Supôs que ela gostasse dos versos de Gonçalves Dias e recitei alguns enquanto chegava ao meu encontro. Mais para perto, dobrando a esquina que dava para a praça, concluí os versos:


“O que é belo, o que é justo, santo e grande

Amo em ti. Por tudo quanto sofro,

por quanto já sofri, por quanto ainda

me resta sofrer... por tudo eu te amo!"


Ao terminar, um automóvel veio rápido em minha direção. Fiquei imóvel naquele momento e o sorriso se foi de meus lábios. O veiculo passou raspando no meio fio e chocou-se contra o poste mais a frente. Diante do susto, deixei cair o ramo de flores. Corri para ver o que havia acontecido ao motorista e ao olhar para dentro, ele ainda vivo, me disse:


- A moça... por favor... o que aconteceu? – e deixou a cabeça cair para um lado, provavelmente morto.


Batendo rápido o coração, olhei para a praça e vi uma mulher caída. Para meu espanto, também vi uma miscelânea de cores espalhadas pelo chão próxima a ela. Pincéis e telas juntavam-se aquela visão macabra, compondo junto com o sangue o ápice de meus pesadelos.


Demorei para juntar os fatos, demorei para soltar o grito que estava estancado em minha garganta. Com os olhos enevoados pelas lágrimas, percebi que algumas pessoas juntavam-se a redor da pintora e ficavam perturbadas com o ocorrido. Eu estava do outro lado da rua, ainda preso aos meus devaneios quando alguém apontou para mim.


- Foi ele. Ele a matou. Eu o vi atirar-se contra ela e jogá-la na rua! Prendam aquele maldito!


Eu mentiria se narrasse as primeiras horas depois disso. Não me lembro de coisa alguma que me ocorreu.


Hoje eu estou aqui, preso neste quarto de hospício. A justiça condenou-me por vários anos por duplo homicídio qualificado, pois o promotor alegou que minhas ações premeditadas e cruéis deram cabo da vida da jovem e do motorista também. Não adiantaram os tantos recursos para libertar-me por meu advogado, bancado pela minha família.


Depois de uma serie de consultas fui dado como louco, pois eu dizia varias vezes que não fora eu quem fizera aquilo, mas um espectro de mim. Minha única tristeza, no entanto, é que não tive tempo de declarar-me para a pintora, tampouco tive o prazer de sua companhia. Ela está morta e nada mais tem sentido para minha vida.


Estou liberto daquele quarto. Mas a que preço?

Ildo Alcântara, 13/12/2015

 
Autor: Reginaldo Ferreira

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