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Expectativa

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Escrito por Gabriel do Nascimento   
Ter, 05 de Dezembro de 2017 00:00

expectativa

 

 

 

EXPECTATIVA

Por Gabriel do Nascimento

 

Sara, primeiramente, não concordou com ele. Ele havia chegado, para ser mais detalhista, arrombado a porta de seu apartamento, exigindo saber onde seus filhos estavam; é claro que Carlinhos e Samuel estavam com Sara, uma aprendiz de mãe ainda, pois seu marido, Osvaldo, andava muito violento e com atitudes assustadoras ultimamente. O casal havia se separado há 4 anos por motivos de desentendimentos e falta do precioso carinho que um casamento necessita; durante os anos que se prosseguiram, o inferno parecia ter ficado mais quente na vida de Sara e das crianças. Osvaldo não os deixavam em paz, certo que tal tinha o direito de ver os filhos e participar do desenvolvimento deles após a separação; porém, o homem, que já era parcialmente maluco, aderiu ainda mais uma parte de si que ninguém iria apreciar. Sempre que ia buscar os meninos, arranjava meios de discutir com Sara, e discutir feio, chegando até a bater algumas vezes na mulher na presença das crianças. Os meninos, depois de algum tempo, já observando as ações do pai, começaram a reclamar dos passeios a que Osvaldo os levava; sempre puxava com força o braço de Samuel, deixando marcas fortíssimas no pulso do garoto. Brigava com ambos os rapazes constantemente, enquanto iam visitar o bar de Seu Jorge ou a casa de sinuca chamada Cherry, no qual o slogan era uma moça muito bonita sentada com as pernas abertas segurando um taco de bilhar.


Naquele dia, Osvaldo chegou às 15h para buscar os filhos rumo a mais um torturante passeio; chegando lá, os meninos não aguentaram e imploraram para Sara, na frente do pai mesmo, que não queriam de forma alguma sair daquela vez. Sara, de súbito, ficou sem a mínima reação; em seguida, levou seu olhar até seu ex-marido, e logo descobriu que ele já a encarava com olhos de fúria e, curiosamente, razão.


- Nem pensem nisso rapazes – proferiu Osvaldo. – É a vez do papai ficar um pouquinho com vocês. Eu e a mamãe já explicamos isso para vocês, não explicamos?


- Não! Não queremos ir mais com você! – gritou. com lágrimas nos olhos. Samuel.


- Eu não quero mais. mamãe... – disse Carlinhos, puxando a blusa de moletom preta de Sara.


A própria encarou o marido de modo sensato. Disse:


- Osvaldo, eles não querem. Eles me contam como você os recepciona, os lugares que você os leva... deixe eles em paz. Pelo menos só hoje. Por favor.


- Eles... são... os... meus... filhos... também! EU EXIJO QUE AMBOS VENHAM COMIGO OU MINHA RAIVA VAI SER DESCONTADA EM UM DE VOCÊS DOIS! – falou o homem, fitando os garotos com sua face avermelhada e mãos fechadas.


Os garotos correram para o quarto, assustados com a exaltação do pai. Osvaldo tentou ir atrás, mas fora impedido pela mão esquerda de Sara.


- Deixe eles – disse ela.


O tapa que a mulher levou a derrubou no chão em menos de dois segundos. Ficou meio zonza e quando recuperou os sentidos seus cabelos estavam sendo puxados violentamente; ela estava sendo arrastada. Osvaldo a levou, por escadas e rampas, dores e algumas tentativas de pedido de ajuda (nenhum funcionou), para o famoso Volkswagen Up que havia comparado recentemente. Jogou Sara para o lado do banco do passageiro e logo depois assumiu o volante.


Sua cabeça doía. Podia sentir um arranhão em suas costas; toda vez que a roupa amaciava o corte, a ardência aparecia. Se ajeitou melhor no banco do carro, possuída por um susto que não sentia desde que seu pai se fantasiou de palhaço para assustá-la no dia das bruxas. Osvaldo dirigia com as mãos suadas, apertando o volante fortemente; sua expressão de guerra, angústia e persuasão eram bem distintas aos olhos de qualquer um, pôde deduzir Sara.


A mulher respirou fundo, e com sua voz fina e trêmula questionou o ex-marido:


- Osvaldo... para onde está me levando?


Sem resposta da outra parte.


- Isso é sequestro... nossos filhos ficaram sozinhos. Você é maluco? – tentou mais uma vez Sara, conversando mais com os bancos do automóvel do que com o homem que o dirigia. – Osvaldo – continuou ela –, só porque... só porque não concordei em deixar meus filhos em suas mãos por um dia? Aliás, não fui nem eu, foram eles... você mesmo os ouviu; eles não queriam. Agora, pare de se fazer de louco e dê meia-volta! Eles devem estar muito assustados... são apenas crianças. Dê meia-volta agora, Osvaldo! – exclamou em um tom claramente alto a moça, o que fez o ex-marido, logo em seguida, virar com tudo o cotovelo direito em sua face. Bateu no apoio de cabeça do banco e foi para frente com os olhos fechados. Os abriu e gotas de sangue vindas de seu nariz sujavam sua calça jeans. Gemendo e com os olhos cheios d’água, limpou com a mão a sujeira no rosto; então, Osvaldo finalmente se pronunciou:


- Eu irei criá-los. Eles são nossos filhos, mas eu irei guiá-los na vida. Eles são os meus moleques e eu irei fazer isso, sim! Você estava no meu caminho por muito tempo Sara, mas agora as coisas vão mudar. A liberdade será maior para mim quando Carlinhos e Samuel souberem do terrível acidente em que a mamãe deles se envolveu. “Mamãe foi visitar Papai do Céu, garotos. Agora, o paizão aqui vai cuidar de vocês para sempre”!


- Você é louco – disse Sara, ainda com a mão no nariz.


- Louco? Eu? Claro que não... sou apenas seu ex-marido e pai de seus filhos. Apenas acho que eles não precisam mais de uma mãe e eu não preciso de uma ex-mulher... seremos apenas eu, Carlinhos e meu querido Samuel. Para sempre, e, o mais importante de tudo, sem você – falou o homem, mirando atentamente a estrada vazia e com árvores secas de folhas preenchendo as quinas do asfalto e dando entrada a um matagal verde e malcuidado.


Sara não conseguia abrir a boca nem para pedir ajuda (o que seria inútil) ou para pelo menos tentar argumentar com Osvaldo. Estava em choque. Estava sendo dirigida para uma possível morte pelas próprias mãos do homem que um dia chegou a abraçar com alegria e calor. Retirou a mão do rosto quando percebeu que o sangue havia parado; encarou a palma ensanguentada e quase vomitou; então, as palavras que saíram da boca de Osvaldo a aterrorizaram explicitamente.


- Finalmente chegamos.


O carro parou no meio da estrada. Sara observou as redondezas que se apresentavam e nada era tão novo. As mesmas árvores e a mesma floresta. Porém, à sua frente, a estrada que se seguia não tinha curvas, era simplesmente uma pista cinza sem nem mesmo marcações ou semáforos. Deserto como unicamente era, o sombrio tom de medo destacava-se nas rachaduras expressas no concreto fumaça da estrada.


- Onde exatamente estamos? – questionou Sara.


Osvaldo desligou os motores, suspirou com um leve sorriso expressado com horror aos olhos da mulher ao seu lado e ficou com a visão fixa naquela estrada por alguns segundos antes de responder:


- Gosto muito daqui. – começou ele. – O silêncio é o que me impressiona mais. De vez em quando, é possível escutar os uivos de alguns lobos... ou cachorros, ah, tanto faz. Porém, prefiro os lobos. – O homem agora encarou a ex-mulher com um sorriso. – Não tem ninguém aqui ou por perto. Pode gritar, espernear o quanto quiser, Sara; ninguém irá ouvi-la. Você não fará parte da vida de meus filhos mais. Eu serei único para eles. O seu sofrimento irá acabar, querida, porque hoje é o dia de sua morte.


A respiração de Sara estava muito rápida. O desespero em seu coração era incontrolável. Coisas que Osvaldo podia fazer a ela e seus meninos já haviam passado por sua cabeça, mas algo como aquilo que estava acontecendo agora era um contexto difícil de se imaginar ou acreditar; entretanto, estava acontecendo.


Ela iria tentar convencê-lo do contrário com o poder do diálogo, ou pelo menos iria tentar.


- Osvaldo, escute...


- Saia do carro – proferiu ele, interrompendo a mulher.


Ela calou-se na hora. Seus olhos abertos, como se não piscassem por muito tempo. Abriu a boca uma segunda vez em uma inútil tentativa de conversa com Osvaldo, mas, antes de conseguir pronunciar a primeira palavra, o homem exigiu de novo, agora em um tom mais sério e tenebroso, que Sara saísse do veículo.


- Saia, agora, deste carro, Sara, por favor.


Ela obedeceu. Estava muito frio do lado de fora e suas pernas poderiam congelar, receou ela. Estava completamente fora do veículo, fechou a porta e ficou ali, parada no meio do nada junto ao o carro.


Percebeu que o ex-marido não havia feito o mesmo. Ele ainda estava com as duas mãos presas ao volante; por alguns instantes, Sara não disse nada. Quando bateu no vidro para chamar a atenção do homem, o mesmo abaixou o vitral e falou:


- Eu quero que você caminhe exatamente 100 passos naquela direção. – Ele apontou com o dedo a interminável estrada. À frente, uma espécie de nuvem cinza tomava conta do asfalto, deixando a visão da continuidade do caminho embaçada, curiosa e temerosa.


- O quê? – disse ela, a face de desentendimento.


- 100 passos. Siga reto. Quando completar, pare e espere. Se não o fizer, acho que sabe muito bem o que pode acontecer. Tenho seus filhos e tenho você. Apenas aceite, por que o fim de sua miserável vida é certo.


Ouviu aquilo e a cada palavra dita por Osvaldo seu coração palpitava para mais um nível de rapidez e medo. Ela não sabia o que fazer. Então, involuntariamente, abaixou para encarar a face do pai de seus filhos; não sabia o que dizer e, quando o homem lhe sorriu, o olhar de Sara desviou-se para o banco de trás do carro. Ela não havia percebido o objeto ali antes; ele trouxera para finalizá-la, talvez no final da estrada nublada.


Osvaldo ficou olhando para a face assustada e machucada de Sara por um tempo, esperando o que a mulher iria dizer, ou contestar, já pronto para mais uma bronca violenta e impaciente. Porém, o que Sara fez, em um lampejo de suas últimas esperanças, fez com que seu coração palpitasse descontroladamente; ela sentia as batidas, o sangue das veias de seus seios fervendo por baixo da roupa; então, posicionou metade de seu corpo para dentro do carro, esticou seu braço e alcançou o revolver antes que o ex-marido pudesse fazer algo. Nunca tivera antes a chance de manusear uma arma, entretanto, o que vira em filmes seria o suficiente.


Tremendo suavemente, as duas mãos tomavam conta da peça. Apontou-a para Osvaldo e ordenou, agora com a atitude começando a aflorar.


- Saia agora do carro.


- Sara, você nem mesmo sabe como...


- AGORA! – Gritou ela, seus olhos dilatados e encobertos por uma vermelhidão sanguinária de raiva.


O homem obedeceu ao comando e retirou-se do veículo.


- Eu não aguentava mais começou Sara, ainda com a arma apontada, indo tranquilamente em direção ao ex-marido. – Todas aquelas noites em que você ia pegar os meninos... todas as vezes que você demorava para trazê-los de volta. Eu sempre soube. SEMPRE! Eu nunca confiei cem por cento em você, Osvaldo; e quando você mudou... meu desespero pela minha vida e pela vida de nossos filhos cresceu em proporções imensas. E olhe onde viemos parar... e tudo por sua culpa! Eu sempre quis paz ao seu lado, mas você é louco... e isso, agora, é a prova disso. – Ela ficou frente a frente com ele. Osvaldo ergueu a cabeça, mirou a mulher seria e friamente; com isso, Sara, agora sem nenhum pingo de receio ou terror por aquele homem, disse-lhe: – Eu quero que você caminhe até o final desta estrada imunda. Vou te mostrar o que você me mostrou durante anos. Você encaixou uma expectativa dolorosa em minha mente. Todas as noites mal dormidas, querendo saber o que você estava fazendo com meus filhos; ou à espera de sua inquerida chegada. Você iria matar todos nós... sua família. Agora, está na hora de você sentir o mesmo, porque... porque que eu simplesmente não aguento mais.


Sara não tinha certeza, mas sabia o que deveria ser feito.


- Caminhe – continuou ela. – Saberá quando parar.


Osvaldo dera os quatro primeiros passos antes de pular em cima da mulher. Tentou derrubá-la e lhe arrancar a pistola das mãos, mas Sara desviou sorrateiramente e lhe deu um tiro no pé. Ele esperneou, caiu e xingou-a de nomes que nunca iria ensinar a Carlinhos e Samuel; ela fez com que ele se levantasse e encostou o cano do revólver em suas costas, obrigando-o a seguir a estrada.


Ele caminhou e continuou caminhando. Via que a ex-mulher estava ficando cada vez mais para trás; olhava para os lados, em busca de uma saída, mas sabia que Sara estava decidida, ali ou em qualquer outro lugar. Ele viu em seus olhos o que apenas conseguia ver ao se olhar no espelho. Mancando, contava os passos lentamente. A imagem de sua morte era cada vez mais detalhada em sua mente a cada pisada contada; contudo, quando completou os 100 passos exigidos por Sara, um desespero possuiu seu corpo. Uma angústia de incerteza muito grande desabrochou em seu consciente. Ele mesmo percebeu em seu íntimo que aquilo que transpassava por sua mente, procurando um caminho até os mais infinitos medos, era mais relevante e amedrontador do que a sensação de nunca mais ver os seus filhos, e sabia que realmente nunca mais iria.


Parou. Virou-se para frente, de onde não conseguia mais enxergar os faróis de seu Volkswagen Up; a névoa que encobria a rodovia agora também o preenchia. Agora, Osvaldo fazia parte da estrada da morte. Quando conseguia desviar o terror intrigante de sua cabeça, pensava no que Sara estaria fazendo a 100 passos à frente; imaginava se ela realmente sabia como usar uma arma, ou... uma outra forma de arrancar-lhe a vida. Era isso que estava corroendo o coração acelerado do homem. Nunca experenciara nada igual na vida antes, nada como aquela sensação. A certeza da morte, ao mesmo tempo que o acalmava, também o deixava extremamente aflito, pois o que causaria sua falência era indefinido para si.


Não sentiu o cansaço tomar-lhe conta das pernas ou costas; ficou paralisado ali, em pé, quase sem mexer um músculo durante torturantes cinco (ou seis?) minutos. Então, como que se fosse o pensamento mais importante e surpreso que tivera na vida, entendeu o que a ex-mulher estava fazendo. Sara também estava parada, apenas aguardando o momento certo, ou, apenas esperando, assim como Osvaldo. Lembrou das palavras de desabafo da mulher e a maldita palavra não lhe saía da mente.


Expectativa.


Expectativa.


Expectativa.


- Maldita filha da puta...


Logo após suas últimas palavras de elogio a Sara, as luzes apareceram quebrando o nevoeiro, assim como o som cortou o quieto ar assombroso do lugar e, como o mais forte corte de ansiedade, o impacto, de uma vez por todas, dera fim à relação do casal.

 

 
Autor: Gabriel do Nascimento

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