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A Garota do Porão

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Escrito por Flávio de Souza   
Sex, 23 de Março de 2018 00:00

A Garota do Porão

 

 

 

A GAROTA DO PORÃO

Por Flávio de Souza

Moscas, ratos, abutres e toda sorte de carniceiros oportunistas disputavam arduamente cada migalha nas pilhas de restos humanos que se aglomeravam em amontoados cada vez mais altos no pátio principal do castelo. Eram pés femininos, todos destros, de diferentes contornos e tamanhos, cada qual trazia nas ranhuras da pele sua própria trajetória, uma jornada trilhada a cada passo com a antiga dona, até a extirpação gratuita. As meninas, de sonhos e corpos mutilados, tinham em comum a esperança de viver uma vida melhor, alcançando uma nova perspectiva em meio ao caos. Fome, pestilência e dor eram agentes corriqueiros no cotidiano do Principado, uma verdade imutável com a qual foram obrigadas a conviver e crescer.


Durante a árdua caminhada em busca de redenção, além dos anseios, as jovens camponesas compartilharam um triste e semelhante destino. Ao longo da caçada desumana, da qual todas foram vítimas, muitas tentaram a todo custo fugir, mas não obtiveram êxito e foram alvejadas sem piedade. Com o coração transpassado por uma mortífera e afiada seta, cada rebelde tombou sem vida, mas ainda assim não foram poupadas de um derradeiro ato bárbaro. Tal qual as que se mantiveram resignadas, cada uma teve o tornozelo direito macerado pela lâmina certeira de um machado de cortar lenha.


Sonhos despedaçados. Desejos derramados no chão. Decepções refletidas no espelho vermelho de poças pecaminosas. Os membros arrancados eram testados na forma única de um calçado improvável. As repetidas frustrações eram lançadas na hedionda coleção de carne em decomposição.


II


O Festejo Público Bimestral era o ato mais importante e esperado em toda a região. Era a ocasião em que o Príncipe oferecia um baile oficial à comunidade, oportunidade na qual uma jovem das cercanias era selecionada para fazer parte da corte. Mas a sorte grande exigia um preço: uma vez escolhidas, as moças nunca mais poderiam ser vistas em público novamente. Cerca de cento e vinte jovens já haviam sido elevadas de classe nos últimos vinte anos, desde a época em que o soberano resolvera fazer morada no castelo da província, vindo de outra parte do seu vasto domínio. Muitas eram as histórias acerca da riqueza e fartura que rodeavam as felizardas. Não havia uma só menina em todo o Principado que não suspirasse pelo mundo de sonhos escondido pelas paredes de pedra do castelo.


III


“Não há a menor possibilidade de você nos acompanhar ao baile, maldita. Você não é e nunca foi da família, nem mesmo quando o inútil do seu pai, aquele infeliz com o qual me casei, ainda dividia esse teto conosco, antes de desaparecer no mundo em suas andanças. Você, peste asquerosa, não passa de um estorvo cuja única serventia é arrastar os joelhos pelo assoalho a fim de pagar pelo prato de comida que consome.”


As palavras rudes da madrasta não doíam tanto quanto a constatação da realidade, pois, mesmo de forma perversa, a velha não deixava de ter certa razão. Desde que o pai saíra em viagem de negócios para nunca mais retornar, ela fora rebaixada à categoria de reles serviçal. Uma ninguém cujo direito de sonhar havia sido revogado por culpa das circunstâncias. Ao mesmo tempo em que sentia falta dos braços daquele que sempre a cobriu de cuidados, ela também o odiava, maldizia o dia em que ele a deixara sob o jugo de tão nefasta criatura.


Pela única entrada de ar do cômodo que chamava de quarto, mas que não passava de um úmido e escuro porão, a menina enxergava parte de um céu limpo e sereno. Os contornos amarelados e vivos da lua destacavam-se no tapete escuro e salpicado de pontos luminosos. Ela queria seguir para qualquer lugar, um porto seguro e distante, desde que fosse para muito além daquela ínfima manifestação de beleza natural. Porém a imagem projetada através do quadrilátero protegido por barras metálicas era a lembrança crua e direta da importância que sua existência significava para a madrasta e irmãs postiças: uma prisioneira, uma escrava sem direitos ou vontade própria.


A tristeza em seu coração era evidenciada pelas lágrimas que começaram a escorrer pela superfície alva do seu rosto. E, como se o céu, antes claro e intenso, se sensibilizasse com o estado de espírito que lhe abraçava naquele momento, repentinas nuvens surgiram e se espalharam de modo amplo pelo manto noturno, obscurecendo completamente as centelhas celestes. A imagem da esfera pálida ainda permaneceu por alguns segundos retida nas retinas da menina, mesmo depois de a lua ter sido engolida pela avidez da tempestade que se formava.


Não tardou para que a fúria dos céus desabasse em forma de pesadas gotas. Os gritos do vento, com açoites insistentes e violentos, atiçavam ainda mais o temor que corroía a sensibilidade cada vez mais abalada da estrutura emocional da garota. Amedrontada, ela se recolhia num canto do porão, abraçada aos joelhos, enquanto tentava conter o choro entoando uma antiga canção, uma melodia infantil que por inúmeras vezes imaginara a mãe, que não chegara a conhecer, cantando baixinhos junto a seus ouvidos.


A chuva entrava pela janela gradeada em caudalosos jatos que escorriam fartos pela parede embolorada. A menina teria subido as escadas e derrubado a madeira do alçapão que a trancafiava, mas as correntes e grilhões em seus pés impediam que se movimentasse para além dos domínios do estreito cômodo.


A chama da única vela já havia sido apagada desde as primeiras lufadas do vento gelado. A escuridão do ambiente só não era maior do que as trevas que tomavam o coração juvenil. Ela gritava, mas sua voz não conseguia competir com a violência da tormenta. Involuntariamente, a canção tornara-se uma incontida prece. As palavras murmuradas escapavam dos lábios como as folhas de uma árvore no outono. Uma vez liberto, o clamor ganhava o ar, ribombava nos tijolos expostos e, imediatamente, se dissipava, tal qual uma essência agradável sendo inalada com sofreguidão.


Nessas horas, invariavelmente, as preces são recheadas por um ingrediente muito específico: o desespero. E, o simples fato de existir alguém a beira do abismo faz com que surjam, ao mesmo tempo, diferentes meios de resgate e sustentação. Em momentos assim, o importante é saber escolher as mãos que surgem oferecendo auxílio. Mas, infelizmente, a urgência costuma nublar qualquer possibilidade de coerência ou discernimento, justamente quando se mais precisa de tais atributos.


Os olhos úmidos da menina focalizaram algo que, a princípio, ela julgou como uma espécie de miragem ou coisa do tipo. Em meio à cortina de água, que se formava na abertura incrustada na parede, era possível perceber as linhas de uma silhueta humana.


Esfregando o rosto a fim de clarear a percepção, ela teve a certeza de que não se tratava de uma alucinação. Havia uma pessoa do outro lado da janela e, com o súbito dissipar da nuvem de vapor, ficou ainda mais evidente a feição da estranha visitante.


A mulher ostentava frescor na maturidade das linhas de sua fisionomia. A beleza que exalava em cada contorno não correspondia a nenhum padrão que pudesse servir de comparação. Era algo frio, artificial, perene. Através dos círculos esmeraldas destacados em sua face pálida, era possível entender que o tempo não significava absolutamente nada para aquela mulher.


Num movimento discreto, a visitante fez a luminosidade voltar a existir nas trevas. Não só na vela solitária, mas em diferentes pontos nas ranhuras das laterais de pedra. Chamas brotaram de forma espontânea em pontos aleatórios nas paredes. As barras de ferro da janela se contorceram como se fossem constituídas pela mais maleável das matérias.


Sinuosa, a visitante atravessou o vão e caminhou até o canto ocupado pela menina. Sem dizer uma palavra, os dedos esguios da estranha deslizaram pelo ferrolho atrelado ao delgado tornozelo da prisioneira. A fechadura, sem oferecer qualquer resistência, emitiu um leve chiado antes de se desmanchar na madeira apodrecida do assoalho.


— Quem, quem é você? —A pergunta demorou um pouco a sair dos lábios da recém liberta, como se ela custasse a acreditar no que acabara de acontecer. Até então, a possibilidade real de receber ajuda de alguém era algo inconcebível.


— Uma opção, querida. Sou a sua possibilidade de salvação. Mas preciso saber se você está, de fato, disposta a ser salva.


— Eu faço qualquer coisa para ter minha vida de volta.


— Qualquer coisa?


— Qualquer coisa.


— Diga-me, você gostaria de ir ao Baile Bimestral?


— Minha madrasta jamais deixaria. Apenas membros de famílias constituídas são dignos do convite, e eu...eu...bem...ela não me reconhece como parte da família...


— Você não respondeu à minha pergunta. Você quer ou não quer ir ao baile?


— Sim. Só em ter a possibilidade de circular ao ar livre já seria uma benção em minha vida, quanto mais a oportunidade de conhecer o castelo do Príncipe.


— Ou ser escolhida por ele...


— Não sonho com tanto...


— Eu posso fazer com que você seja a escolhida, desde que você siga à risca o que eu disser.


— Sim. Eu sigo...eu faço qualquer coisa...


— Pois bem, escute...


IV


A carruagem que conduzia o mensageiro finalmente chegava à área mais isolada do Principado. Como era costume, nenhuma região poderia ficar de fora do grande evento, nem mesmo as partes menos favorecidas. As estreitas vielas de terra batida dificultavam a passagem do vagão, cujas rodas ficaram atoladas na lama produzida pela tempestade da noite anterior. O cocheiro, olhando pela pequena portinhola da cabine, meneou a cabeça de forma negativa. O mensageiro, por falta de opção, decidiu saltar da viatura e seguir a pé a fim de cumprir a missão a ele delegada.


O sujeito atarracado, de tronco espesso e olhar vazio, não hesitou em pousar as botas de couro nas poças barrentas. Poucas casas restavam na região, bem menos do que da última vez em que estivera naquele antro de decadência e penúria.


De imediato, seus olhos fitaram a menos deplorável das residências. Não que a estrutura composta por pedras cruas e madeira carcomida exibisse um diferencial digno de menção, mas a tentativa evidente de conservação fazia com que se destacasse diante das demais moradias.


Muito daquele esforço na manutenção da casa só existia pela presença da menina que passava as noites no porão, local que era terminantemente proibida de limpar, embora todos os outros cômodos devessem refletir asseio em cada recanto.


O homem não costumava guardar nomes ou fisionomias, tal fato era irrelevante em sua missão, afinal, nenhuma das moças importava além do propósito único para a qual serviam. A não ser que alguma delas fosse “a” pessoa correta. Para o resto, bastava que fossem jovens e saudáveis que já estava de bom tamanho. Era assim há bastante tempo, em todas as províncias e vilarejos visitados pelo Príncipe.


O mensageiro resolveu seguir direto para a casa em destaque. Antes mesmo de bater na madeira, a porta se abriu como se o visitante já fosse aguardado.


— Bom dia, senhorita — os olhos vazios do vassalo faiscaram diante da jovem que lhe oferecia um belo sorriso. Por mais que o homem não guardasse fisionomias, ele tinha a mais absoluta certeza de que se tivesse visto aquele rosto antes, jamais teria se esquecido.


Bom dia, senhor!


— A pessoa que responde pela casa está?


Por um instante, a menina hesitou. Os membros de cada família, desde as nobres até as mais humildes, devem exibir tatuados na pele os ideogramas que representam sua linhagem. Os símbolos são mesclados conforme os casamentos ocorrem. Somente os párias não detêm nenhum sinal, e como tal são totalmente desprezados pela sociedade.


Desde o desaparecimento do pai, seu símbolo de família fora sumariamente distorcido por uma queimadura a ferro em brasa. A madrasta não queria que os traços de sua linhagem fossem expostos na pele de uma criatura repugnante como ela, assim dizia.


— Ela não está.


— E você, minha jovem, quem é?


— Sou apenas uma criada.


— Tem alguém da família em casa?


Não. Não tem ninguém aqui.


— Lamento, mas não posso deixar os convites para o Baile Bimestral com alguém que não seja da família.


Mesmo desconcertada, a menina sabia que não havia como recuar. A estranha do porão lhe garantira que o plano funcionaria. Ela achava que poderia obter um dos cartões dourados sem ter de fazer uso do método nada usual sugerido pela mulher. Mas, de qualquer modo, ela já havia ido longe demais. A chance de ser escolhida pelo Príncipe era sua única opção. E, antes que o homem virasse as costas e fosse embora, ela resolveu agir.


— Espere! Espere, por favor.


— Sim?


— Talvez possamos fazer uma troca.


Intrigado, o mensageiro aguardou pelo desfecho da inusitada situação. O que ele não sabia era que na noite anterior, logo após o encontro com a visitante vinda da tempestade, a menina, aquela mesma com olhar cativante e angelical, subira as escadas proibidas do porão, tão silenciosa quanto um gato sorrateiro. Nas mãos, ela levava um importante instrumento, algo fundamental para a execução do plano traçado por sua salvadora.


V


Ela seguiu diretamente para o quarto da madrasta, a qual, naquela altura, dormia o sono da esperança, vivendo o sonho de ter uma das filhas escolhidas pelo Príncipe.


Uma sombra não seria tão discreta. A menina ganhou as dependências do quarto que só tinha permissão para entrar nas ocasiões de limpeza. Ela trazia no rosto uma expressão doentia, traços que jamais poderia imaginar que fosse capaz de exibir. O ódio cultivado por anos impelia seus movimentos. A bruxa maldita estava ali, indefesa e entregue, repousando diante de sua ira.


Com um único e preciso golpe, exatamente do jeito que a estranha instruíra, ela enterrou a longa e fina lâmina de um punhal na garganta da mulher. Não tardou para que o sangue jorrasse como um rio nos lençóis brancos que ela se cansara de lavar. Mas o líquido precioso não poderia ser desperdiçado. Seguindo o plano, a menina pousou um vasilhame para receber a cascata rubra. Sem perceber, ela sorria para a escuridão, não disfarçando o deleite encontrado no ato que acabara de cometer e, já sentindo a excitação tomar seu corpo, pois ainda faltavam mais duas vítimas. A noite seria longa e extremamente prazerosa.


VI


— E então, minha jovem, que tipo de permuta a senhorita tem em mente?


— Uma proposta que tenho certeza ser do seu interesse. O senhor me fornece um dos convites para o baile e eu lhe dou isto.


Os olhos do sujeito faiscaram pela segunda vez naquela tarde. Para seu completo estarrecimento, a menina, de aparência frágil e inocente, lhe estendia um cesto de palha repleto de garrafas preenchidas até a boca por um líquido vermelho e caudaloso. O homem não compartilhava da mesma natureza de seu senhor, mas ele sabia mais do que ninguém que a fonte de força e riqueza do mestre provinha da essência daquele néctar incomparável.


Apenas alguns membros de sua família conheciam a verdadeira história de vida do Príncipe. Um segredo transmitido em momentos oportunos para poucos descendentes, criteriosamente escolhidos, para guardar e defender os interesses do monarca.


VII


O Príncipe governava a área compreendida desde os pés da muralha de rocha sólida da longínqua e vasta cadeia de montanhas na região meridional do país, até as areias finas e brancas do litoral. Mas o poderoso homem, cuja riqueza nos dias atuais não poderia ser calculada, fora, na juventude, o herdeiro de um trono falido. Apesar da nobreza no sangue, seus ancestrais trataram de minar à exaustão todos os bens da família ao longo do tempo, fazendo com que toda a riqueza fosse reduzida a uma pilha de papéis com dívidas contraídas.


Em desespero, o jovem herdeiro apelou para forças inomináveis, e foi ouvido. A voz das profundezas lhe disse que para ter a eternidade e, consequentemente a possibilidade de riqueza prorrogada de forma ilimitada, bastaria que ele renunciasse a tudo em que acreditava e, o mais importante, que ele sorvesse a vida de sua única irmã, literalmente. Assim ele fez. Sem qualquer remorso, matou em sacrifício o único traço de família que ainda lhe restava e, o que era pior, provou do mesmo sangue que corria em suas veias.


Como resultado de tão hediondo pacto, o Príncipe dominou a ação do tempo em seu corpo. Daquele momento em diante, os anos pouco significariam para ele. Com o auxílio de um aliado tão importante, não foi difícil reconquistar e multiplicar o que sua família havia gasto de forma tão leviana. Mas, via de regra, atos sórdidos não são cometidos sem que sérias consequências surjam como uma indesejável companhia.


O líquido da vida, roubado e degustado com intenções execráveis, passou a ser sua salvação e perdição. O Príncipe, além de perder a alma para criaturas indignas de pisar esse plano, se transformou num escravo do néctar rubro. Para manter o corpo são, ele precisava consumir, no mínimo, aproximadamente cinco litros de sangue a cada dois meses, uma jovem mediana, tendo em vista sua predileção pela semelhança física da irmã.


Mas, o que o monarca desconhecia, era o fato de que sua irmã dera luz a uma filha bastarda na ocasião em que ficara fora pelo período de um ano, sob o pretexto de estudo numa das províncias do Principado.Desta forma, o demônio lhe garantiu que o sacrifício não havia sido concluído a contento, pois, aquela criança daria origem a reencarnação de sua irmã em alguma geração futura. Poderia demorar muito tempo, muito mais do que qualquer ser humano seria capaz de imaginar, mas a deterioração em algum momento abraçaria a estrutura corpórea do Príncipe até o seu completo desaparecimento. Assim, como ele já era desprovido de alma, também seria destituído de um corpo, sendo reduzido a absolutamente nada.


Para evitar que um destino tão aterrador lhe tocasse, o Príncipe deveria localizar a criança, impedindo assim que ela pudesse favorecer o ressurgimento da irmã sacrificada.


Ele tentou. Fez tudo que estava em seu alcance para identificar a maldita criatura dentre as inúmeras crianças nas mais diversas províncias do Principado. Chegou a copiar um rei de um tempo perdido, mandando executar todas aquelas que pudessem ser a sobrinha que não lhe agradava. O ato impensado serviu de ensinamento, algo que ele guardaria para sempre, o povo, quando acuado, pode se tornar o pior dos inimigos. Além do insucesso na busca, ele quase viu seu poder ser derrubado pelos revoltosos que surgiram contra a barbaridade dos seus atos.


Mas o Príncipe aprendeu com seus erros. Até então, ele fazia uso da violência desmedida para tomar do povo a quota de sangue que precisava para viver, mas a partir das ameaças causadas pelo medo, ele passou a executar o subterfúgio que considerou perfeito: distribuir esperança e sonho, para colher discretamente o necessário para sua subsistência. As futuras vítimas passaram a disputar a chance de desfrutar dos prazeres do castelo.


Ele nunca achou a criança. As imperceptíveis mudanças em seu aspecto físico contribuíram para que o ímpeto em buscá-la, ou no caso, seus descendentes, diminuíssem consideravelmente ao longo do tempo. Até mesmo o gosto pelo sangue se tornou algo mecânico em sua vida. Ele circulava pelos próprios domínios, e por outros, de tempos em tempos como um nômade abastado mais por conveniência do que propriamente por convicção de que acharia o sangue perfeito.


Durante anos, ele não mudou seu modo de agir: promovia os bailes, escolhia as vítimas, usufruía do seu sangue, e vivia noite após noite. Quando se cansava, procurava outro ponto e continuava sua nefasta rotina.


O povo, tolo e sonhador, nada percebia, ou não queria perceber, acerca da névoa sombria que rodeava os passos do governo itinerante. O próprio rosto do Príncipe era um mistério. Ele raramente aparecia, e quando o fazia, carregava sempre uma máscara sobre a face. Em momentos oportunos, ele assumia a identidade de filhos que não existiam. Herdeiros fantasmas gerados por Princesas que jamais eram vistas. Ele forjava a própria morte e ressurgia sob um novo numeral após o nome, uma identificação que o tempo tratou de apagar. Com o passar dos anos, o governante se tornou conhecido apenas como “ O Príncipe”, nada além disso.


Fachadas. Teatralidade. Mentiras. Enterros secretos com caixões vazios. Casamentos com cerimônias restritas. Nascimentos sem ostentação. A juventude eterna encobria as incoerências. A promessa de ouro atiçava a cobiça. Seria uma estratégia perfeita se não fosse pela ação de um agente indomável. As areias do tempo, apesar de lentas, continuavam a se mover, moldando ininterruptamente as linhas do destino.


O Príncipe sabia que se provasse do sangue perfeito, saberia. Seu paladar nunca mais provara do mesmo gosto experimentado há tanto tempo, mas ele confiava na memória sanguínea incrustada em cada célula do seu corpo.


No entanto, a lembrança, apesar de ainda resistir tal qual uma chama bravia, se mostrava cada vez mais reclusa num ponto perdido do seu existir, talvez sendo sufocada pela deterioração da mente, que, por sua vez, acompanhava o definhar do corpo, exatamente como previra o demônio. As últimas décadas foram cruéis. Pele e músculos perderam força e vitalidade. A cor deixou os cabelos. Os instintos não agiam a contento. As pálpebras não mais se abriam, selando os olhos numa escuridão irreversível. O poderoso e altivo monarca mal conseguia se manter de pé. A única salvação que lhe restava seria localizar o legado de sua irmã e finalizar de uma vez por todas o maldito sacrifício. No entanto, ele sabia que essa possibilidade se mostrava cada vez mais remota e que, talvez, o tempo que sempre lhe fora um fiel escudeiro, resolvesse, no fim das contas, se mostrar mais cruel do que ele próprio fora no decorrer de sua vil existência.


VIII


O vassalo sempre teve vontade de provar dos nutrientes miraculosos atribuídos ao sangue fresco. Mas esse desejo não poderia jamais sair do único local que lhe era permitido existir: os pensamentos. Ninguém, ninguém tinha a permissão do Príncipe para roubar uma só gota que fosse do sangue alheio, o castigo para tal afronta era a própria morte. Mesmo vendo o mestre inoperante no trono, ele já fora testemunha ocular de feitos inconcebíveis por parte do soberano. Portanto, mesmo vendo o senhor debilitado, não era uma boa ideia desobedecer a qualquer uma de suas ordens.


Porém, ele não estava prejudicando ninguém. A jovem a sua frente, sim, era quem estava lhe oferecendo de bom grado um tesouro inestimável em troca de tão pouco. Se alguém tivesse tomado à força o sangue de outra pessoa, esse alguém era a garota, não ele. De qualquer modo, o convite era para aquela casa, o mestre não faria distinção de quem fosse representando a família. Se ele tivesse sorte, a menina seria escolhida e morta, e esse segredo jamais viria à tona.


— Está bem, senhorita – disse o mensageiro, sem esconder a satisfação – estou disposto a aceitar sua oferta.


— Pois bem, meu senhor, aqui está o que tenho a lhe oferecer.


— E aqui está o seu convite. Seria atrevimento perguntar o que aconteceu com os demais membros da família?


— Seria um atrevimento desnecessário, visto que o senhor não é um homem desprovido de inteligência.


A jovem sorriu ao final da afirmação, no que foi acompanhada de forma desconcertada pelo homem. Antes de deixar o local, o vassalo ainda olhou para trás, no intuito de contemplar pela última vez a beleza sombria da mais recente convidada para o baile, mas só encontrou a madeira da porta a lhe oferecer um adeus seco e decidido.


IX


A menina atravessou os portões do castelo fascinada por cada detalhe focalizado por seus olhos. Sons, aromas e cores tão diferentes dos limites daquela prisão com a qual se acostumara. Ela mal se lembrava de como era o mundo antes da vida com a madrasta. A estranha do porão havia sido clara: os corpos das irmãs postiças e da velha maldita não constituíam uma paga suficientemente alta para manter controlados os demônios que lhe serviriam naquela noite. Portanto, antes do primeiro minuto do novo dia, ela já deveria estar de volta ao lar, pois as bestas não mais se manteriam dóceis, e não fariam qualquer distinção entre as prováveis vítimas.


A carruagem parou defronte à entrada principal da residência oficial do Príncipe na província. A menina sabia que era preciso seguir em cada detalhe as recomendações de sua protetora.


Um tecido de textura e aparência indescritíveis envolvia seu corpo num vestido de corte único. Sua presença monopolizava todos os olhares, uns com inveja, outros com cobiça, mas todos, sem exceção, foram enfeitiçados pelo magnetismo que exalava da jovem.


Durante toda a noite, ela se esquivou de investidas, convites, promessas, súplicas, ameaças e ofensas. O motivo de sua ansiedade ainda não havia aparecido.


Muitas jovens, que chegaram ao baile com o coração pleno de esperança já haviam desistido, pois a certeza de uma disputa injusta dominava suas convicções. Para estas, só restava o consolo de buscar um pretendente decente em meio aos convidados. As que ainda confiavam no próprio potencial tentavam ignorar que, se aquela garota realmente quisesse, o Príncipe não resistiria aos seus encantos.


Quando as luminárias foram apagadas de uma só vez, e toda a iluminação do ambiente passou a responder unicamente pelo crepitar do fogo vivo, que ardia numa gigantesca lareira postada na parte oposta à entrada do salão, todos os convidados se eriçaram. O Príncipe chegava ao recinto.


O velho erguido por quatro serviçais numa cadeira de madeira negra, meticulosamente entalhada e ornada por peças douradas, nem de longe lembrava a figura altiva de outros tempos. Mas, se mesmo decadente o monarca impunha respeito e reverência com a simples menção do seu nome, o que dizer da rara aparição em público?


As jovens correram em sua direção, até mesmo as que estavam acompanhadas largaram os braços dos parceiros, rumo ao sonho de luxo e riqueza. Uma fila se formou diante do monarca. A exceção era justamente a menina do porão, que se manteve altiva em sua posição, apenas observando as concorrentes.


Completamente cego, a percepção do Príncipe já não era tão seletiva ou precisa quanto em outros tempos. Ele também pouco distinguia com o olfato, outrora um instrumento altamente eficiente. Nos últimos anos, para escolher, ele fazia uso do único sentido no qual ainda confiava: o paladar.


Uma a uma, as camponesas passavam diante do Príncipe e lhe estendiam o braço. O monarca, de forma lenta e gentil, deslizava a língua áspera por sobre a pele viçosa das damas. Pacientemente, a menina do porão esperava a sua vez. De acordo com as instruções de sua protetora, ela deveria ser a última a se aproximar do soberano.


As negativas se sucediam ininterruptamente. Uma boa opção se tornava uma sorte cada vez mais rara. Resignado, o governante já cogitava selecionar qualquer uma delas. O sangue serviria para aplacar a necessidade, mesmo que não houvesse gosto algum durante o processo vital. A certeza do desaparecimento do seu existir ficava cada vez mais evidente.


Por fim, o dedo ressequido do soberano apontou para uma garota de cabelos negros e cacheados. Um dos serviçais tratou de conduzi-la pelos braços para as dependências restritas do castelo. Enquanto a felizarda era levada, a menina do porão atravessava o salão de forma decidida rumo ao Príncipe.


A debilidade do governante retardou a cerimônia além do previsto, fato que culminou com a pressa na ação a ser tomada pela última convidada a ser testada. Era quase meia-noite. O horário maldito se aproximava com velocidade contrária aos desejos da garota.


Os passos apressados a fizeram chegar rapidamente ao Príncipe, que já era levado de volta. Com a mão enluvada, ela deixou um pequeno frasco no colo do velho, voltando-se imediatamente para o salão.


Naquele momento, as passadas largas já respondiam por uma corrida desabalada. Curioso, o monarca tomou o cilindro de vidro nas mãos. Uma espécie de calor emanava do recipiente, algo que o fez tremer dos pés à cabeça.


De modo atabalhoado, ele quebrou o invólucro e levou o líquido que escorria dos cacos à boca. O velho urrou. Sua voz ecoou pelo ambiente secular como há muito não fazia.


— Peguem essa mulher! Agora!


A menina já havia deixado as dependências do castelo. As doze badaladas ressoavam forte na torre da capital do Principado. Uma horda de sombras endemoninhadas deixava as cascas vazias dos cavalos e do cocheiro que serviram à moça na condução até o baile. Os demônios espalharam o pânico e o caos entre a multidão que tentava deixar a residência do Príncipe.


A menina do porão já não exibia as linhas finas do vestido com o qual chegara. Naquele momento, ela trajava os mesmos trapos imundos que era obrigada a usar pela mulher cujo cadáver fora devorado pelas criaturas que se arrastavam pelas paredes do castelo.


A única peça do vestuário que se mantinha magnificamente enfeitiçado era o calçado do pé direito da garota, que havia se soltado no salão durante a corrida precipitada.


Como uma mendiga, a jovem se arrastou, mergulhada na enlouquecida multidão, numa tentativa vã de chegar a uma carruagem que já não existia. Em seu lugar, vermes e insetos se misturavam a ossos, pedaços apodrecidos de abóboras e outras plantas rasteiras, além de restos não digeridos de carne fétida.


Por um momento, ela se desesperou. Mas logo seu coração se acalmou quando, em meio aos gritos e mortes, seus olhos fitaram os contornos familiares que ela já tinha enxergado antes, em seu porão, durante uma tempestade sobrenatural.


Sua protetora lhe acenou, e ela seguiu o sinal, encontrando o caminho certo por entre a turba enfurecida.


X


Por pouco tempo, o Príncipe experimentou a vivacidade e o poder de um corpo indestrutível novamente, pois a ínfima mostra, recém adquirida, de sua antiga força fora totalmente consumida durante a expulsão das sombras demoníacas que haviam ousado invadir os seus domínios. Somente um demônio podia habitar esse plano: ele. E todas as outras criaturas rasteiras que se esquecessem disso deveriam ser banidas para as profundezas abissais. A visitante do porão sabia e contava com isso.


Durante vários dias, ele procurou a jovem que lhe ofertara o mais precioso dos presentes, aquilo que ele mais desejava em toda a sua vida maldita: o sangue do sacrifício. Ele tinha pouco tempo para encontrar a herdeira daquele sangue, sugar sua vida até a última gota e se tornar definitivamente vivo para sempre. Seu tesouro estava tão próximo, ele não poderia e não iria escapar dessa vez.


A antiga fúria assassina voltara mais intensa do que jamais existira. Ele já não fazia questão de manter a conduta de discrição e bom senso. Seus homens passaram a espalhar dor e morte em cada vilarejo do Principado. Caso não a encontrasse, tinham ordens para invadir os reinos vizinhos, o monarca queria aquela mulher mesmo que tivesse de proclamar uma guerra contra o resto do mundo.


O único que poderia conduzi-lo diretamente ao objeto do seu desejo já não caminhava entre os vivos. O mensageiro, o mesmo que vira o rosto da menina do porão e sabia exatamente onde localizá-la, morrera consumido pelo próprio desejo de conhecer as propriedades míticas do sangue. Um sangue de criaturas vis. Roubado de forma cruel. Sordidamente maculado por substâncias ancestrais. Um sabor que ele jamais provaria novamente.


As jovens sequestradas eram obrigadas a experimentar o sapato envidraçado largado pela procurada durante a fuga. Como resultado dos sucessivos fracassos, cada pé direito descartado era separado do corpo da vítima pela força das lâminas empunhadas pelos soldados e, em seguida, atirado no pátio. O intuito da violência era marcar, ainda que de modo estúpido e desnecessário, as moças já testadas e evitar que se perdesse ainda mais tempo com investidas repetidas.


Muitas se recusavam a seguir o séquito de sangue, e lutavam literalmente até a morte para evitar que fossem brutalmente mutiladas. Mas mesmo com toda a luta, depois de assassinadas, tinham os pés decepados para teste. Um mar de cadáveres tomava as ruas de pedra dos vilarejos.


A distância considerável em relação à capital do Principado havia garantido a paz no mais pobre dos vilarejos durante os primeiros dias de terror, mas a situação estava prestes a mudar. Desde o baile, seguindo a orientação fornecida por sua protetora, a menina mantivera-se em absoluta reclusão, alheia a tudo que acontecia. Ela confiava plenamente na mulher que havia mudado sua vida. A visitante havia lhe dado sua palavra de que a amostra de sangue tirada do seu corpo e entregue ao Príncipe seria sua passagem definitiva para a corte e, consequentemente, para um mundo melhor.


De fato, tudo que a estranha dissera havia acontecido. O mensageiro aceitara a proposta de troca. Da pequena horta, nos fundos da casa, surgira a carruagem que a levaria ao baile. Criaturas noturnas bateram à sua porta para buscar os corpos das malditas e na mesma hora se tornaram eficientes serviçais. E, finalmente, ao soar das doze badaladas da noite, o encanto terminara, liberando a horda ao seu estado natural. Agora, conforme o prometido, era só aguardar a chegada dos homens do castelo para levá-la ao convívio do monarca.


XI


O sono da menina fora interrompido pelo trotar furioso de inúmeros cavalos. O som de gritos e choro era ouvido em todas as direções. Assustada, ela tentou olhar por uma fresta na porta principal da casa, mas tudo que sua visão conseguiu alcançar foi a imagem crescente da sola barrenta de uma bota de caça vindo em sua direção.


A prancha de madeira tombou imediatamente, tamanha a força do golpe. O corpo da menina ficou preso entre a folha de cedro e o chão. Ela não obteve a ajuda que sua voz pedia, pelo contrário, uma mão pesada a ergueu pelos cabelos e a arrastou pelos cascalhos da única via pavimentada da vila.


A jovem chorava extravasando o desespero que consumia seu coração. Ela não entendia o que estava acontecendo. Não deveria ser assim. Afinal, a visitante havia lhe garantido que ela se tornaria uma princesa, que alcançaria um poder inimaginável, mas o cenário ao seu redor em nada sugeria a vida de luxo e riqueza decantada pela estranha.


Várias moças como ela eram espancadas, enquanto eram arrancadas de dentro de suas casas e arrastadas como fardos inúteis. A dor e o agonia que ela experimentava na própria carne também eram vividas pelas vizinhas que nunca tivera a oportunidade de conhecer. De nada adiantavam seus apelos, suas súplicas por piedade. Algumas corriam pela praça e eram alvejadas ser qualquer sinal de compaixão por aqueles homens que emitiam um brilho doentio no olhar.


Como um traste imprestável, tal qual se sentira e fora tratada durante boa parte de sua curta existência, a garota foi jogada na caçamba gradeada de uma carroça. Um lugar pútrido e nauseante, uma lembrança imediata do porão escuro que por tanto tempo ela chamou de lar.


Lágrimas sofridas escorriam pela maciez encardida do seu rosto. Uma visão quadriculada lhe mostrava parte de um céu estrelado e vivo, mas ainda assim melancólico e sombrio. Um arrepio gelado eriçou os pelos dos seus braços, ao passo que uma brisa úmida invadia suas narinas. Cheiro de chuva. Por que sua protetora a abandonara desse jeito? Por mais que ela se perguntasse, não encontrava respostas. Nuvens carregadas tomavam lentamente o céu...


XII


A mais recente remessa de jovens para teste aguardava no calabouço do castelo. Uma a uma as moças eram retiradas e não mais retornavam. Gritos de dor chegavam aos ouvidos das que ficavam nas celas. A menina do porão recolhia-se num dos cantos imundos do recinto. Permanecia abraçada aos joelhos, como costumava fazer quando sentia medo. Ela queria cantarolar a canção que lhe acalmava, mas não conseguia se lembrar das notas.


Todas as prisioneiras foram levadas e, mais rápido do que poderia imaginar, ela se viu só naquele ambiente de perdição, numa agonia que insistia em se alongar. Seu desejo era de que fosse levada de uma vez por todas, precisava acabar com o sofrimento. Mas, como todas as vontades que já tivera na vida, essa também não fora atendida. Seria a última a ser levada.


A esperança de que alguma coisa boa pudesse acontecer já havia se dissolvido em seu peito. E, quando ela viu a imagem carrancuda do carcereiro surgir diante da cela, uma onda de choque pareceu percorrer sua corrente sangüínea. O homem lhe oferecia um sorriso mutilado por entre a profusão de fios espessos e fartos que escondia a pele enrugada do seu rosto.


O vassalo não disfarçava o extremo prazer que sentia ao testemunhar o desespero daquelas pobres almas. Boa parte das terras do Principado havia sido maculada pela aura maligna emanada pelo soberano. Uma essência perversa como a dele, quando liberada após tanto tempo reprimida, facilmente consegue corromper a alma dos mais fracos, daqueles que não conseguem domar a nesga sombria que todo ser humano carrega dentro de si.


— Chegou a sua hora, vadia!


A menina não gritou. Não esperneou. Não se debateu. Até mesmo o choro sofrido, que a acompanhara desde o sequestro, se reduzira a algumas lágrimas absorvidas pela poeira do seu rosto. A resignação a tomava pelo sussurro que suavemente era soprado em seus ouvidos.


XIII


A menina do porão era levada na direção do altar onde estava postado o sapato de vidro. O trono do Príncipe ficava exatamente defronte ao pilar de granito. Mas o monarca não ocupava o espaço que era o símbolo de poder, não naquele momento.


A silhueta debilitada do homem quase desaparecia nas sombras de um ataúde de linhas rústicas. Em busca de vigor, o corpo ressequido era absorvido pela maciez arroxeada de tecidos seculares. O estofamento, devidamente salpicado por particulados de sua terra natal, lhe garantia apenas um consolo, pois a salvação definitiva e desejada estava nas veias de uma de suas súditas.


Não havia mais espaço para disfarces, nem necessidade de ocultação. A verdadeira natureza do monarca estava exposta para quem quisesse ver. De um jeito ou de outro tudo se resolveria. Ou ele encontraria a salvação que lhe daria o poder para expurgar de vez todos os seus temores, ou definharia até o vazio da inexistência, sendo consumido pela voracidade da própria carne.


Uma lufada mais forte espalhou o pesado ar do salão nobre do castelo. E, conforme o som dos passos se tornava cada vez mais próximo, um aroma adocicado preenchia as narinas quase inoperantes do morto-vivo, proporcionando que uma corrente elétrica percorresse cada célula adormecida do seu corpo. A criatura, que já não exibia qualquer traço humano, abriu os olhos e se levantou, sem usar apoio algum durante o ato.


Não seria preciso experimentar a forma do calçado. Ele sabia. Tinha plena certeza de que a herança maldita de sua irmã estava ali, diante dos seus olhos, ao alcance de suas garras.


O serviçal, que trazia a prisioneira, se colocou, inadvertidamente, no caminho do Príncipe, na esperança de receber algumas palavras do seu senhor. No entanto, ele nada recebera além de um golpe certeiro no pescoço, um impacto tão forte e eficiente que fez sua cabeça rolar pelo mármore do chão, deixando um rastro vivo por onde passou.


A menina não demonstrou temor, parecia estar preparada para o que aconteceria a seguir.


A língua da criatura chicoteava involuntariamente o céu da boca, enquanto uma gosma esbranquiçada escorria pelo arremedo de queixo. Finalmente, ela teria todo o poder que só a imortalidade plena era capaz de proporcionar. Para isso, bastava que rasgasse a garganta daquele frágil e inexpressivo ser, sorvendo a essência de sua vida em homenagem àquele que há muito o abraçara em proteção, tomando para si a alma que um dia tivera.


O Príncipe saltou decidido a resgatar o que lhe pertencia. Um sibilar sussurrante se transformou numa palavra límpida na percepção da menina. A voz disse com convicção: “Agora!”


Os dentes afiados da criatura não chegaram a tocar na maciez alva do pescoço de sua vítima. O Príncipe sentia um torpor irresistível dominar cada músculo do seu corpo. Não havia como se mover. Por um breve instante, ele experimentou algo que já havia se esquecido de que um dia ocorrera em seu organismo: o palpitar ritmado do coração.


No fim das contas, a menina percebeu que sua protetora não a abandonara como chegara a pensar. Pouco antes de ser levada, a voz cristalina da visitante do porão ecoara em sua cabeça lhe dizendo exatamente o que fazer.


Atrelada em sua bota esquerda, ela encontraria uma rígida seta de madeira de lei. Quando o demônio a atacasse, ela deveria ser rápida e precisa. Um único golpe no centro do peito bastaria para domar o ímpeto e a fúria da criatura. Mas o trabalho ainda precisava ser concluído.


Na bota direita, ela encontraria um pequeno punhal de prata. Fazendo uso da lâmina, a menina deveria perfurar a garganta do Príncipe, tal qual fizera com a madrasta e com as filhas desta. Mas agora seria preciso ir além, ela deveria sorver o líquido negro bombeado pelo coração recém-ressuscitado.


E assim ela fez. Com uma habilidade talhada pelos trabalhos manuais, a menina atacou a criatura petrificada, retalhando a densa casca que revestia seu pescoço. Uma fonte negra brotou do vão escancarado. Os lábios doces receberam com ansiedade o líquido gelado que escorria.


A garota do porão sentiu um turbilhão de sensações dominarem seu corpo. O conhecimento de eras vividas invadia sua mente. O poder absoluto a tocava. A imortalidade a saudava. Ao provar do sangue do Príncipe, seu irmão em outra vida, ela finalmente finalizava o sacrifício. Desta vez não haveria herdeiros perdidos. O monarca morto era um demônio, e como tal era incapaz de gerar filhos de sangue.


Ela sentia que poderia conquistar o mundo. Sim, poderia, se não fosse pela ação sorrateira de uma haste aguçada de madeira que transpassava seu tórax com violência, paralisando totalmente suas vontades.


Um par de lágrimas negras escorreu pelo rosto da garota do porão. O músculo em seu peito palpitava intensamente. Doses incomparáveis de energia vital percorriam um caminho sem volta em suas veias. Havia chegado o momento exato para o sacrifício.


A visitante noturna, aquela que costumava agir nas tempestades, devorava com sofreguidão o órgão ensanguentado arrancado do peito de sua protegida. O coração, ainda quente e vivo, palpitava nas mãos da bruxa, exatamente como lhe fora instruído durante o pacto efetuado com uma criatura inominável, a mesma que sempre se mostra disposta a atender aqueles que clamam por ela, e que, certamente, ainda teria muitos com quem negociar ao longo de uma falsa eternidade.


Logo após suas últimas palavras de elogio a Sara, as luzes apareceram quebrando o nevoeiro, assim como o som cortou o quieto ar assombroso do lugar e, como o mais forte corte de ansiedade, o impacto, de uma vez por todas, dera fim à relação do casal.

 

 
Autor: Flávio de Souza

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