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Catalepsia

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Escrito por Anônimo do séc. xix   
Sáb, 14 de Abril de 2018 00:00

expectativa

 

 

 

CATALEPSIA

Anônimo do séc. XIX


Poucas doenças apresentam sintomas tão extraordinários como a catalepsia. Tem por causa ordinária o excesso de trabalhos intelectuais, o abuso de licores fermentados, ou qualquer alteração ou desarranjo na economia animal e, particularmente, nos órgãos do cérebro.


A catalepsia é uma doença letárgica, uma imobilidade absoluta unida à grande rigidez dos membros, que conservam a posição que tinham no momento do acesso, ou naquela em que alguém os coloca. O pulso torna-se mais fraco, sem deixar de bater; a respiração é quase insensível; o queixo fica num estado convulso, a pele esfria e os olhos conservam-se abertos, mas com imobilidade completa da pupila, e sem que a luz a faça contrair, prova de que o doente nada vê.


Embora o paciente ouça e não perca o olfato, nem os perfumes mais enérgicos podem pôr termo ao acesso. A pele perde toda a sua sensibilidade, e os ataques desta doença, que apresenta todos os sintomas de morte, duram muitas vezes doze horas. Termina quase sempre por suspiros, bocejos e por uma espécie de delírio. Os seus ataques são súbitos e imprevistos. É à catalepsia que cumpre atribuir os enterros muito numerosos de pessoas ainda vivas. Eis os pormenores de um enterro destes, narrados por um inglês que quase foi vítima dessa terrível enfermidade, e que escapou por um acaso dos mais felizes:


“Sofri por algum tempo um ataque nervoso, as minhas forças diminuíam gradualmente, mas o sentimento da vida parecia tornar-se cada vez mais ativo, à medida que as minhas faculdades corporais diminuíam. Conheci pelos gestos do médico que havia perdido a esperança de salvar-me, e a dor muda, mas expressiva, dos meus amigos, dizia-me que todos os esforços da arte eram inúteis.


“Uma noite veio a crise. Fui atacado de um tremor geral, e de um zunido que me atordoava. Vi em volta de minha cama grande número de figuras extravagantes. Eram brilhantes, vaporosas e sem corpo. O quarto estava iluminado e apresentava um aparato solene. Procurei mover-me, mas não o pude conseguir. Uma confusão terrível me perturbou então os sentidos. Mas quando, passados alguns instantes, tornei em mim, recordei-me de tudo o que havia passado, possuía toda a minha inteligência. Em uma palavra, gozava de tudo o que pertence à vida, menos a faculdade de agir e de falar. Ouvi alguns gemidos e a voz do enfermeiro pronunciar: “Está morto!” Impossível me é descrever o que senti ao ouvir estas lúgubres palavras. Quis tentar um último esforço para mover-me, mas nem pude mexer a pálpebra. Após um curto intervalo, aproximou-se um amigo ao meu leito, agitado pela dor, e com o rosto banhado em lágrimas. Pôs-me a mão na cara e fechou-me os olhos. Fiquei, então, nas trevas. Mas podia ainda ouvir, sentir e sofrer.


“Depois que me cerraram os olhos, conheci, pelos discursos das pessoas que ficaram no quarto, que o meu amigo me tinha deixado e, pouco depois, senti os agentes funerários amortalharem-me. A sua frígida indiferença era-me mais penosa do que a dor dos meus amigos. Viravam-me de todos os lados, riam-se e tratavam com a maior brutalidade aquilo que chamavam cadáver.


“Quando esses miseráveis acabaram, retiraram-se, e então começou a formalidade das honras funérias. Por espaço de três dias, foi grande o número de amigos que veio ver-me. Eu os ouvia falar em voz baixa das minhas boas qualidades, dos meus defeitos, e sentia os dedos de muitos deles apalpando-me o rosto. No terceiro dia, falavam do mau cheiro que havia no quarto.


“Veio o caixão, meteram-me dentro, e senti as lágrimas do meu amigo caírem sobre o meu rosto.


“Passados alguns minutos, conheci que se retiravam todos os meus amigos e conhecidos, e que entravam os carpinteiros para fechar o caixão. Eram dois: um saiu antes de acabada a obra. O outro eu ouvia assobiar ao furar com a verruma, parar, calar-se, e, por fim, meter o ultimo prego.


“Fiquei só. Todos fugiam do meu quarto. Sabia, porém, que ainda não estava enterrado. Suposto estivesse imóvel e nas trevas, tinha ainda alguma esperança. Mas ela se desvaneceu bem depressa. Chegou o dia do enterro. Senti levantarem e levarem o caixão. Percebi que o colocavam no coche, e que era muita a gente que o rodeava: algumas pessoas falavam de mim com afeição. O carro principiou a andar. Sabia que me levavam para o cemitério. Parou o coche e tiraram o caixão: pela desigualdade dos movimentos, notei que era levado sobre os ombros de algumas pessoas. Houve uma pausa. Ouvi o atrito das cordas, moveu-se o caixão, e senti pouco depois que balançava. Foi descendo e parou no fundo da cova. Ouvi cair as cordas sobre o ataúde. Fiz um esforço terrível para mover-me, mas todos os meus membros ficaram imóveis.


Logo depois, lançaram alguns punhados de terra sobre o caixão, e houve uma segunda pausa. Passaram-se alguns minutos, e ouvi o som da pá. A terra caía sobre mim, e o ruído da sua queda, mais terrível que o estrondo do trovão, enchia-me de horror. O ruído diminuiu gradualmente, e, pela surdez do som, reconheci que a cova estava cheia. Terminada esta operação, ficou tudo no mais profundo silêncio.


Não tinha meio algum de conhecer o tempo que passava assim; o silêncio continuava. Eis, pois a morte, dizia eu, e ficarei debaixo da terra até o dia da ressurreição. O meu corpo vai corromper-se, os vermes virão fartar-se nos meus membros. Enquanto me ocupava com estas horríveis reflexões, ouvi sobre a terra, por cima da cabeça, um som surdo e prolongado; julguei que eram os bichos e os répteis da morte que vinham reclamar a sua presa.


“O ruído aproximava-se e aumentava. Seria possível que os meus amigos se lembrassem que me tinham enterrado antes de tempo? Fiquei cheio de esperança.


“Cessou o ruído, e senti uma mão apalpar-me o rosto. Tiraram-me do caixão pela cabeça. Senti o ar. Fazia um frio glacial. Levavam-me furtivamente talvez para o tribunal terrível! Talvez para as chamas eternas!


“Passados alguns minutos, atiraram comigo como se fosse algum fardo, mas não no chão. Um momento depois, reconheci que estava em uma carruagem e, por algumas frases soltas, soube que estava em poder desses ladrões noturnos, chamados homens da ressurreição, que profanam os túmulos para fazerem um trafico sacrílego com os cadáveres que desenterram. Logo que a carruagem principiou a rodar, começou um desses homens a assobiar e o outro a cantar algumas cantigas obscenas.


“Parou a carruagem, pegaram-me, levaram-me, e percebi, pela densidade do ar e mudança da temperatura, que estava em um quarto. Arrancaram com violência a mortalha em que estava envolto, e puseram-me cima de uma mesa. Pela conversa que ouvi desses dois homens e de outro que ali se achava, soube que devia ser dissecado essa mesma noite.


"Os meus olhos estavam ainda cerrados. Nada via, mas concluí, logo depois, pelo tropel que ouvi, que haviam chegado os estudantes de anatomia. Alguns deles aproximaram-se da mesa e examinaram-me minuciosamente. Por fim, chegou o lente.


“Antes de começar a dissecção, propôs que se fizessem no meu cadáver algumas experiências galvânicas, e preparou-se um aparelho para esse fim. O primeiro choque abalou todos os meus nervos, que ressoaram e vibraram como as cordas de uma harpa. À vista deste fenômeno, testemunharam os estudantes a sua admiração. O segundo choque fez-me abrir os olhos, e a primeira pessoa que vi foi o médico que me tinha assistido na minha enfermidade. Estava eu, porém, como um morto, ainda que pudesse distinguir entre os estudantes algumas caras que me não eram desconhecidas. Logo que os meus olhos se abriram, ouvi pronunciar o meu nome por muitos dos circunstantes em tom de compaixão, e ouvi dizer a muitos que teriam desejado que as suas experiências não fossem feitas sobre o meu cadáver.


“Logo que terminaram as suas experiências galvânicas, o  mestre tomou  o bisturi e fez-me uma incisão grande no peito; senti uma sensação terrível em todo o corpo; um tremor convulso se apoderou de mim, e todo o auditório começou a dar gritos horrorosos. Os laços da morte estavam quebrados; a letargia tinha cessado. Prestaram-me todos os socorros, e, passada uma hora, recuperei todas as minhas faculdades.”


 

Fonte: Museo Universal, 1838. Fizeram-se breves adaptações textuais.

 
Autor: Anônimo do séc. xix

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