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Sangue e Areia

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Escrito por Flávio de Souza   
Ter, 28 de Agosto de 2018 00:00

Sangue e Areia

 

 

SANGUE E AREIA

Por Flávio de Souza


"Defunto é a minha lavoura

Esse rifle é a minha enxada

A chuva é esse facão

Eu sou filho do sertão

Nunca errei uma caçada!"

Literatura de Cordel

Era sempre assim, ele fazia questão de estar lá. Não importava o fato de ter de percorrer muitos quilômetros de terra batida. Se ainda havia uma alegria em sua longa existência, a alegria era essa: presenciar a representação daquela velha história. Cenas que o faziam refletir. Lembranças que o levavam a vagar. Imagens que transportavam sua mente para um lugar distante. Na verdade, era como se ele voltasse no tempo. Por isso, uma vez ao ano, ele cruzava o país em busca dessa experiência. Não media esforços para estar lá...


Recostado numa velha cadeira de bambu, ele tentava se proteger da chuva fina que caía insistentemente. O que era uma benção para a maioria esmagadora do semi-árido nordestino, para ele era mais um ingrediente no turbilhão fervente de suas memórias. Naquela madrugada, há mais de setenta anos, também caía um chuvisco de águas quentes, tão similar a esse que escorria pelos sulcos do seu rosto cansado.


No entanto, diferentemente dos tempos de menino, seus olhos já não desempenhavam plenamente a função que deles era esperada. Lentes grossas, numa armação polida de contornos arredondados, lhe enfeitavam a face. Parecia que, inconscientemente, ele imitava o antigo patrão, o homem rústico, mas com aparência intelectual, que ele aprendera a admirar e respeitar.


Um cancioneiro entoado sob o acompanhamento do som estridente de um triângulo dava início ao espetáculo. Em seu peito, o ritmo parecia antever o toque da zabumba. O trotar repentino dos cascos fez o sangue circular com maior velocidade em suas veias. O tempo parecia retroceder. O peso do mundo estava em suas pálpebras. A imaginação flertava com a realidade...


Supostamente, o refúgio em Angicos deveria proporcionar tranqüilidade em forma de segurança. Por conta disso, a maioria do bando conseguia permanecer mergulhada nas profundezas mais abissais de um sono sem culpa. Até mesmo os animais abriam mão do constante estado de alerta inerente a seus instintos mais primitivos.


A morte, companheira tão fiel daqueles indivíduos, parecia uma dama temperamental, uma força disposta a exigir o máximo de cada um deles em certas ocasiões, mas que se deixava levar pelo marasmo, quando lhe era conveniente. Assim, a certeza de que um novo dia sempre surgiria se mostrava como a mais absoluta das verdades no coração corrompido daqueles homens. Parecia que eram indestrutíveis e inalcançáveis. Parecia.


As imagens se mostravam como uma cascata cristalina na frente do velho. Os atores, o cenário, o enredo. Era como se ele vivenciasse tudo novamente. Era como se estivesse lá mais uma vez...


Quando a Força Volante surgiu, tão silenciosa e traiçoeira quanto uma brisa espectral, apenas alguns homens estavam de pé, devido ao ofício das rezas e dos preparativos para o desjejum. Eles foram os primeiros a experimentar o chumbo em brasa despejado pelo cano avassalador das espingardas e rifles do grupo invasor.


O couro dos coletes e casacos, tão eficaz como proteção contra os arbustos e espinhos da caatinga, expressou a fragilidade de uma folha de papel perante a vontade inabalável do metal. Vontade essa que rompeu com sofreguidão os limites da carne, irrigando o solo agreste com um rubro pecaminoso.


Os olhos adolescentes do velho, como testemunhas mudas, não conseguiam compreender a dimensão do espetáculo sangrento que se desenrolava. Talvez, mesmo hoje, tantas décadas depois, ele ainda buscasse tal compreensão. Uma resposta que o delírio dos sonhos não conseguia obter.


Tomado pelo assombro, ele viu o líder do bando ser pego pela incredulidade da situação. Como não poderia ser diferente, o renegado artesão tentou empenhar uma tola resistência. Mas nem mesmo toda a audácia e a inconseqüência cega, características que o acompanhariam como uma chaga ao longo da imortalidade, se mostraram suficientes para lhe assegurar um novo amanhecer. O rifle adaptado, instrumento que lampejava quando acionado, sintoma inconfundível que lhe valeria a identidade, exerceu bravamente sua função. Mas, a valentia mostrou-se inútil, não tardando para que seu coração fosse transpassado pelo fogo revestido pela ira lançada pelos policiais.


Antes de cerrar seus olhos pela última vez, o famigerado bandido ainda pôde experimentar os nuances frios do horror absoluto. Pela primeira vez em sua vida, ele compartilhava do emaranhado de sentimentos que costumava infligir em suas vítimas durante os atos de vandalismo, violência e pilhagem. Sua esposa, aquela que trazia a beleza no próprio nome, fora mortalmente alvejada pela fúria inimiga. Porém, a mulher ainda respirava quando a lâmina serrilhada de um dos Volantes deslizou sinuosa em seu pescoço.


O bandoleiro das selvas nordestinas via a garganta do seu maior tesouro se perder num mar de sangue. A vida da infeliz fluía como um rio pelo sulco aberto. Alguns diriam que ele chorou por desespero, mas quem o conhecia não se enganava. Os olhos protegidos pelos círculos de vidro vertiam lágrimas sim, mas eram sinais inequívocos do mais puro ódio. Ele teria sua vingança. Mataria cada um daqueles malditos, se sobrevivesse. Mas, não sobreviveu...


Ele, a esposa, e mais nove dos seus mais fiéis seguidores, aqueles que não fugiram diante do inimigo, perderam a vida nas areias úmidas naquele amanhecer. Os corpos decapitados serviram de alimento para as aves carniceiras. As cabeças seguiram pelo sertão num cortejo intimidador. Quem viu o terror, em forma de troféu, exposto nas escadarias da igreja, viveu por muito tempo sob a influência dos mais nocivos pesadelos.


O garoto, que hoje, como um velho, carrega o peso do tempo nas costas, acompanhou cada momento. Ele não sofreu com noites mal dormidas por conta disso. Na verdade, ele gostava de reviver cada uma daquelas terríveis cenas, as quais romperam as barreiras da história e se infiltraram no imaginário popular. Ele fechava os olhos e vencia o tempo.


Em seus devaneios, ele não era o traidor. Ele não era aquele que entregava o bando em troca de alguns adornos de ouro tomados do antigo chefe. Em seus sonhos, ele dava o alerta e salvava os companheiros, ganhando a admiração e a estima do líder.


Esses sonhos faziam brotar um sorriso nos lábios enrugados do velho. No entanto, vez ou outra, ele era assaltado por pensamentos nebulosos. Nesses pensamentos, o homem de óculos e a mulher de pele morena não o parabenizavam, longe disso. Durante esses pesadelos, eles traziam o ódio no olhar e a sede de vingança na ponta afiada do aço.


Mesmo nos sonhos, ele sentia a dor causada pela lâmina quando esta perfurava incessantemente seu tórax. O gosto amargo na boca. O sangue espirrando no chão. Tudo era tão palpável. Mas se há algo de bom nos pesadelos, é que eles sempre acabam. Na maioria das vezes, a luz do dia sempre traz a tranqüilidade. Na maioria das vezes, mas não em todas...


Quando a população simples do agreste encontrou a cabeça do velho largada entre os mandacarus, foi impossível evitar a lembrança dos tempos sombrios que costumavam varrer a região...


 

Ilustração: Adilson Laranjeira

 
Autor: Flávio de Souza

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