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Linhagem

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Escrito por Renato Suttana   
Sex, 21 de Dezembro de 2012 00:00

 

 

linhagem

Linhagem

por Renato Suttana


Minhas primeiras aulas de voo foram um momento de especial delícia em minha vida. A imagem dos jovens alinhados sobre o precipício – suas asas brancas a refletir intensamente a claridade festiva do dia –, o vozerio e a alegre expectativa de nossas mentes inexpertas, tudo isso se grava em minha lembrança como um selo que nem o tempo nem a melancolia dos dias presentes foram capazes de apagar. Vínhamos dos mais longínquos recantos da Terra, trazidos por nossos pais, e era ali que – sabíamos – se preparava o fogo em que o nosso futuro arderia. Não importava quem fôssemos ou qual fosse a expectativa que alimentássemos em relação ao nosso destino: a idéia do vôo, unicamente, com seu poder de fascínio e sedução, nos arrebatava – era o que nos havia conduzido à nossa decisão e o que patenteava para nós o acerto com que a tínhamos tomado. Nem nossos pais, talvez, nem nossos mestres provincianos teriam sido capazes, por mais argumentos e razões que empregassem, de nos mover a esse sentimento. Naquele momento, de pé à beira do precipício, todas as nossas dúvidas, os nossos receios, as nossas hesitações se convertiam numa certeza. Olhávamos para o azul e respirávamos o ar das alturas. E no ar que respirávamos o passado e o futuro pareciam condensar-se num único instante, mas esse instante era tão fluido ou tão quebradiço que mal ousávamos concebê-lo em todo o seu esplendor, por medo de que um excesso de realidade viesse destruí-lo, arrebatando-o para longe de nós.

Dirão que exagero e que meu entusiasmo – do qual nem todos participam – é que me inspira tais palavras, as quais, com efeito, não exprimem toda a realidade. Mas o que posso redarguir, senão que julgamentos dessa ordem deveriam competir só a quem o experimentou realmente? E quem o experimentou com um fervor e uma profundidade que se comparassem aos nossos? Alegarão talvez que fervor e profundidade (aquilo que assim denomino) nada mais são que reflexos, reverberações de um estado de espírito que já não posso definir, que se perdeu na bruma do tempo e que agora, quando falo a respeito disso, confundo com o meu próprio estado de espírito atual – como se quisesse vestir o velho de hoje com as roupas do jovem de outrora. Calo-me, somente, e escuto, e não posso transcender eu mesmo esta melancolia. Outrora – palavra escura, repleta de sombras e nebulosidade, mas eis que o presente também se tornou incerto. Quando me volto para aqueles dias e os comparo à solidão e ao desespero de agora, sou eu mesmo obrigado a admitir que se mistura aí, nesse sentimento duplo, muito mais que a melancolia de uma velhice solitária, mas também a apreensão quanto a um futuro (que não experimentarei, devido à minha idade avançada – mas é fato que os homens-pássaros vivem muitos anos) no qual as nossas tradições e as nossas memórias se perderão. E não me refiro apenas às gerações que se sucederão imediatamente à minha, mas a toda uma linhagem de homens-pássaros fadados inexoravelmente a desaparecer.

Não é que nada soubéssemos do voo quando chegávamos de nossos rincões àquela capital elevadíssima. No entanto ocorre que, para se aventurar por sobre os precipícios ou mergulhar nas grandes distâncias, qualquer jovem precisaria de um aprendizado especial, e nessas primeiras tentativas nossa maneira desengonçada de posicionar as asas e nosso modo desajeitado de tentar manter o equilíbrio no ar não se podiam comparar à arte dos grandes voadores. Se é certo também que desde tempos imemoriais nosso povo tem dependido do vôo para prover a sua sobrevivência – e que o voo é parte de nossa natureza –, é justo admitir que pertencer à elite dos grandes voadores das alturas era o sonho de qualquer provinciano, e esse fato simples aumentava o sabor daqueles dias. O que era eu senão uma pequena máquina de voar ainda pouco experimentada – orgulhoso por certo de meus dons e de minha audácia, mas ainda tímido e pouco confiante de minhas habilidades, as quais, à medida que os dias foram transcorrendo e os treinamentos se intensificando, me pareceram tão menores e até mesmo ridículas, se comparadas à arte dos mestres? Meu conhecimento de mim, de meu espírito e de minhas forças era mínimo, dada não só a minha pouca idade, mas sobretudo à situação do provinciano ambicioso; e isso também contribuiu para acrescentar luz àqueles dias.

Posso dizer que desde então não vivi em outro lugar senão na capital, mesmo que tenha me afastado inúmeras vezes para realizar as missões e as viagens que faziam parte do meu trabalho. Mas sempre retornava, como um homem retorna ao centro de seu espírito após alguma aventura emocional que ao mesmo tempo o enriquece e o desgasta – ou como uma água retorna ao ponto mais baixo de um terreno após ter sido carregada por alguma força para o alto. Mesmo vivendo nas alturas, um homem-pássaro é ainda assim um ser cuja necessidade de retornar a determinados pontos ou de ter uma casa, não importa que seja entre as nuvens irrespiráveis, molda e determina certas feições do seu espírito. E confesso que muito cedo aprendi a amar aquelas torres e aqueles parapeitos cuja arquitetura desafiadora parecia perfurar o azul da atmosfera. Construída ali, a cidade oferecia ao visitante oportunidades ímpares de contemplação e deleite, uma vez que, assentada sobre um dos picos mais elevados, seus torreões dominavam extensões vastíssimas do silêncio e da solidão. De uma de suas torres (refiro-me às mais altas), podia-se admirar em volta uma miríade de píncaros azulados, diamantinos – e ninguém passaria incólume, sem experimentar ao menos um arrepio de beleza. De meus aposentos, cujas janelas se abriam, por cima de uma muralha, para um flanco de montanha particularmente impressionador, quantas vezes não contemplei o entardecer e, pleno ainda do meu fervor juvenil, não sonhei com o futuro glorioso de nossa estirpe?

De minha janela, contemplava-se um precipício de profundidade infinita. Até para os mais habilidosos teria sido perigoso voar ali, devido aos ventos que frequentemente varriam aquela enorme garganta. Por esse motivo, constituía-se em falta grave, mesmo para os mais experientes, aventurar-se para fora das janelas ou por cima dos parapeitos, e quem fosse surpreendido a fazer uma dessas coisas teria recebido punição severa. Mas como resistir à tentação, se aquelas aberturas não eram guarnecidas de grades ou de outro artifício que contivesse a nossa sede de desafios? Havia apenas uma frágil rótula de madeira carcomida (que apenas merecia o nosso desprezo) – e as aberturas pareciam ter sido recortadas ali para colocar à prova a nossa audácia. Eis que numa noite me aventurei também, a encoberto de meus superiores, como tinham feito muitos antes de mim e como fariam muitos outros depois. Lancei-me através da abertura, sentindo escavar-se por baixo a profundidade do abismo, bem como alargar-se à minha frente o infinito da distância – enorme acúmulo de ar silencioso e gelado que só os pulmões de um homem-pássaro podiam suportar. Correntes de ar deslizaram pelo meu corpo, tocando as asas como os dedos de um gigante tocariam as asas de uma borboleta. Um calafrio me ocorreu, que era ao mesmo tempo de medo e prazer misturados. Olhei para baixo e vi uma penumbra cinzenta se insinuando por detrás das nuvens. Vi as janelas se distanciarem e percorri um círculo completo no ar. Retornei em seguida, coberto de suor e com o coração aos saltos, para ser recebido em silêncio por meus colegas de aposento que também – os mais corajosos – aguardavam a sua vez.

Muitas vezes repeti a façanha, sem nunca ter sido descoberto ou punido. Mais tarde, com os treinos e as instruções dos professores, tornei-me um voador exímio, incorporando-me sem entraves ao corpo da guarda da cidade. Desde então minha vida se confundiu com a vida da capital: suas torres, seus nichos, seus pináculos mais elevados, tudo se tornou para mim de tal maneira familiar que era como se alguma coisa se tivesse impregnado ao meu sangue. E certamente não estarei longe da verdade ao dizer isso. Naquela capital que os homens-pássaros construíram sobre os alcantis da mais alta montanha, tudo respirava o voo e o desafio das alturas. Inclusive, aprendíamos a sorver a atmosfera inóspita e fria que há para além dos píncaros. E, depois disso, nos tornávamos de tal modo confiantes na destreza de nossas asas que muitos chegaram ao desastre por tentarem ultrapassar determinados limites. E não o digo para exaltar a habilidade de tais voadores, mas para patentear o fato de que, para onde quer que um dia venhamos a fugir, esses limites nos perseguirão, ou nós os levaremos conosco, e pode ser então que os homens-pássaros encontrem o seu destino.

Misturar-nos à raça dos seres que caminham sobre a terra, como forma de retardar o desfecho? Talvez esteja fora de cogitação. Somente nas ilusões extravagantes do maior dos sonhadores se poderia realizar tal eventualidade (conforme já ouvi uma vez, da boca de quem não conhece a verdade dos fatos). É sabido que os homens-pássaros não se misturam com os seres da terra. E isso acontece não porque os nossos mitos ou as nossas tradições o proíbam ou porque o orgulho do povo se constitua num empecilho, mas porque todas as vezes em que qualquer um de nós teve contato com os homens da terra esse contato resultou em destruição para os de nossa espécie. E por quê? Não há quem o saiba explicar. Desde tempos muito antigos tem sido assim. Mas é verdade também que desde tempos imemoriais o nosso povo tem aprendido a se recolher nas alturas, onde aprendeu a construir as suas habitações e o seu mundo. E por muito tempo também, já que nosso povo se tem mantido fiel à tradição das alturas, não tinha havido grandes desastres, porquanto os homens da terra até então não tinham conquistado as alturas. Não se sabe o que será no futuro, se haverá espaço habitável para os homens alados, porém é fato que, desde que os homens da terra se têm disseminado pelo mundo e desde que o têm dominado completamente, todos os espaços habitáveis encolheram drasticamente, forçando-nos cada vez mais a nos recolhermos nas alturas.

Que sei eu? Em minha juventude, durante longo tempo, sequer tinha ouvido falar dos homens da terra. Mas depois que novas leis – mais precisas e mais severas – foram promulgadas, proibindo aos homens-pássaros baixar das alturas e se aventurar pelos territórios onde vivem os homens da terra, uma grande e talvez profana curiosidade cresceu em meu espírito jovem. Por que a curiosidade? Não seria correto alimentá-la, bem sei. Acontece, porém, que um espírito jovem não aceita a tutela do bom senso nem da prudência. É claro: de maneira alguma lhe compete afrontar as leis – ainda mais agora, quando os sábios recomendam que nos acautelemos infinitamente –, e esse sempre foi o meu princípio. Mas uma vida de viagens, que começou cedo, nos leva com frequência de encontro ao inesperado. Lembro-me com especial sobressalto de uma ocasião em que fui incumbido de certa missão junto aos povos do Norte. É conhecido entre nós que as populações daquela região diminuíram muito nos últimos anos. Não se sabia até então a que motivo atribuir o fenômeno. Ora, os homens do Norte sempre foram os mais ousados, e sua fama de audaciosos tem corrido o mundo. Sempre se constituía, portanto, num grande prazer visitá-los, desde que isso me proporcionava a possibilidade de ter contato com suas lendas e suas histórias. Nessa viagem, visitei um dos sábios da cidade – um homem idoso que vivia numa torre altíssima da qual, segundo me informaram, já não saía mais, a não ser muito raramente, devido à idade avançada.

Como sabeis, a velhice é particularmente dura para com os homens-pássaros. A privação do voo é um dos primeiros males que nos afetam, e pode ser por isso que muitos acabam morrendo prematuramente, embora nem as doenças nem as depauperações que são próprias da idade possam ser responsabilizadas por isso. Esse ancião, em particular, eu o visitei por motivos diplomáticos. Então, conversando sobre assuntos relacionados com o acentuado decréscimo populacional das comunidades, ele me disse aquilo que eu apenas suspeitava, mas que nunca tivera coragem de admitir abertamente. Contou-me que, com o progressivo aumento das populações de homens da terra nas regiões que os homens-pássaros habitam, os números populacionais destes últimos tendiam a decair irremediavelmente, e que tal processo é irreversível. Entristeci-me. Como podia ser? Não haveriam os nossos, simplesmente, de migrar para outras terras, estabelecendo-se em regiões menos inóspitas, onde pudessem perpetuar a linhagem? Ele sorriu, ao me ouvir falar, e apenas balançou a cabeça. Disse que, aonde quer que fossem os homens-pássaros, eles encontrariam sempre os homens da terra, os quais já estão em toda parte, segundo afirmou. “Mas podemos fugir para as alturas”, aventei, com ingenuidade, e ele sorriu novamente. “Não viste” – perguntou ele – “que agora escalam as montanhas, que aprendem a viver nas alturas e que, valendo-se de suas máquinas, em breve dominarão por completo os segredos do voo?”

Essa tem sido a situação dos homens-pássaros, e talvez por isso o seu destino esteja selado. Como sobreviveremos quando os homens da terra alcançarem os píncaros e o que faremos quando, com os seus aparelhos e a sua engenhosidade, invadirem os céus que sempre pertenceram às aves e à nossa espécie? Muitos, talvez numa tentativa de aliviar as próprias angústias, insistem em crer que isso nunca acontecerá, mas o fato é que os números correm contra nós. Várias de nossas cidades têm sido abandonadas aos poucos, e diversos píncaros onde outrora habitaram os voadores estão hoje desertos, entregues às neves e ao silêncio. Devemos crer num futuro, ou é impróprio acreditar que algum futuro aguarda aqueles que um dia foram senhores dos ares e das lendas? E, caso exista, não será um futuro mesquinho, confinado à estreiteza dos cumes – por mais amados –, onde nossas cidades se comprimirão e, tornadas precárias devido à escassez de recursos e à dificuldade de obter materiais e víveres, um dia se verão forçadas a desaparecer?

Olho pela janela do pináculo onde conto passar meus últimos dias e contemplo lá adiante um horizonte que a cada vez nos pertence menos. Tomado pela ansiedade, não posso senão voltar-me para o passado, mas sei que não encontrarei nenhuma resposta. Adiante, uma nesga de sol insiste em se alongar no horizonte, incendiando o poente como os estertores de um borralho e lançando um brilho amarelado sobre os precipícios que se elevam à minha volta. Um pensamento brinca em meu cérebro, como um pássaro que não se decidisse a pousar sobre o galho de uma árvore. Revejo nele a imagem dos jovens parados à beira do abismo, a asas brancas a se recortar intensamente contra o azul. Uma brisa ligeira desalinha os seus cabelos, imprimindo suaves estremecimentos às suas asas. Olho mais uma vez e já não os vejo lá. Uma sombra difícil se derrama no céu a partir do oeste. Dentro em pouco, a noite descerá, e talvez o sono traga o esquecimento.

Dourados, 17/20-4-2007

 
Autor: Renato Suttana

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