Homens Mortos Não Contam Histórias | CONTOS DE TERROR

Homens Mortos Não Contam Histórias

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Escrito por Lino França Jr.   
Sex, 04 de Janeiro de 2013 00:00

 

 

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Homens Mortos Não Contam Histórias


por Lino França Jr.


O marulhar tranquilo das águas batia no casco do navio provocando um leve balanço. Spirit of the sea, era o nome do grandioso barco de passageiros que fazia a viagem Nova York – Londres. O capitão Willians não conseguia esconder seu contentamento com aquela que era a centésima travessia do Spirit. Para comemorar tal façanha, o orgulhoso capitão trouxe a bordo, toda a sua família: mãe, esposa, os dois filhos, além do casal de sogros. O homem não cabia em si de tanta felicidade com o feito.

As águas perigosas do Atlântico ainda não haviam dado motivo para temor ao barco do capitão Willians. Mesmo com os inúmeros relatos de ataques piratas à outros navios, o Spirit of the sea, continuava incólume, o que trazia ainda mais satisfação ao capitão.

Já seguia-se o terceiro dia de viagem, e tudo corria perfeitamente bem. A tripulação cuidava dos afazeres do navio com distinção, enquanto os passageiros aproveitavam todas as mordomias proporcionadas pela equipe do navio.

Em meio a festa, programada para o salão principal naquela noite, ouviu-se o primeiro estrondo. O navio balançou assustadoramente. Os passageiros olharam-se entre si sem nada entender. Não tardou muito para que os primeiros tripulantes descessem a escadaria do salão, berrando a plenos pulmões que estavam sob ataque de um enorme navio negro.

Ainda aturdido com aquela notícia, o capitão Willians parecia estar sem ação. Por mais que soubesse que navegava por águas perigosas, a sorte sempre o acompanhou em todas as suas viagens, e assim, imaginando que apenas a boa ventura do destino fosse suficiente para permanecer ileso aos perigos do mar, jamais se preparou para um ataque como aquele.

Ivan, o primeiro-oficial do navio, desceu as escadas, mais branco do que papel, e gaguejou algumas palavras para o capitão que esforçou-se para entender:

— Senhor, é um... um enorme na-navio negro. – parou um pouco para puxar o ar aos pulmões antes de prosseguir – Não conseguimos identificar qual a sua bandeira, por isso, não imaginamos o motivo do ataque.

O capitão Willians, tirou o quepe da cabeça, e passou a outra mão pelos cabelos grisalhos.

— Vamos ao tombadilho. – disse.

Subiram os degraus a passos largos, enquanto as explosões espocavam do lado de fora. Os passageiros assustados eram orientados a permanecer em suas cabines até que o problema fosse identificado e resolvido.

Chegando à popa, o capitão dirigiu-se a bombordo apoiando-se na amurada do navio. Olhou para o barco inimigo, que vinha em velocidade ao seu encontro, tentando reconhecer sua nacionalidade. O mastro principal estava encoberto pela fumaça que subia proveniente dos canhões. O capitão Willians apertou os olhos e finalmente viu o topo do mastro, mas a bandeira estava totalmente enrolada e encharcada pela chuva fina que caía sem parar. Em meio a outro estrondo de canhão, que por muito pouco não atingiu o casco do navio, Ivan percebeu que quase todos já haviam se recolhido aos seus aposentos, o que evitaria maior caos no navio.

Uma forte lufada de vento trouxe ondas enormes no meio do oceano, e esse mesmo vento foi responsável por desenrolar a bandeira do grande navio negro.

— Meu Deus. – disse o contramestre que acabara de se juntar ao capitão – É a Jolly Roger, senhor. – completou com a voz trêmula.

A bandeira negra com a inconfundível caveira branca com ossos cruzados tremulou imponente e assustadoramente no céu escuro.

Cerca de cem metros separavam os dois navios, e então, o capitão Willians pode ler o nome do navio pirata que vinha com sede mortal ao seu encalço. Em letras grandes e acinzentadas, feitas com ossos humanos, e encravadas no casco do navio negro, lia-se claramente: Colossus.

Sem nenhum plano de defesa ou contra-ataque, o capitão Willians só pode esperar para a inevitável tomada de seu navio.

As primeiras cordas foram lançadas com ganchos, que serviriam de ligação entre as duas embarcações. Os homens do barco pirata invadiram rapidamente o convés. Pouco mais de uma dezena de tripulantes aguardavam os invasores, que chegaram gritando impropérios, e imobilizaram os homens rapidamente. O último pirata a descer ao barco, nitidamente, era o líder. Um chapéu alto e preto, gasto pelo tempo, contrastava com brincos de argolas dourados e correntes no pescoço e pulso que brilhavam intensamente. Uma densa barba ruiva cobria-lhe quase toda a parte inferior do rosto, que ainda exibia uma grotesca cicatriz que descia pelo olho esquerdo e morria numa curva em direção à orelha. Com um andar claudicante aproximou-se do capitão Willians, que afastou-se ao sentir o mau cheiro que exalava do homem. Um odor rançoso de suor sobrepunha-se ao característico hálito de rum azedo, e invadia-lhe as narinas.

— É o capitão deste navio? – disse o pirata dando uma grossa cusparada no chão de madeira.

— Sim. Sou o capitão Willians, comandante deste navio. – respondeu o outro.

— Pois bem, está sendo muito esperto em não tentar nenhuma reação. – disse o pirata emitindo uma risada desdenhosa – Esse arremedo de tripulação que lhe faz companhia, não seria mesmo páreo para meus homens. – prosseguiu, olhando ao redor.

Os demais piratas soltaram risadas abafadas.

— Sou o capitão Horner, conhecido por esses mares, simplesmente como, Maldito. – completou o pirata.

— Pois pra mim você não passa de um reles ladrãozinho covarde, que não merece ostentar a alcunha de capitão. – disse, disparando uma cusparada certeira nas fuças do ameaçador pirata

O homem que estava imediatamente atrás do capitão Willians, levou seu afiado cutelo à sua garganta, fazendo-o estremecer.

Maldito limpou a cara suja, e aproximou-se perigosamente do capitão. Seu hálito nojento desceu pela garganta do homem, quando o velho pirata sentenciou:

— Levem o corajoso capitão para o Colossus. – disse piscando o olho circundado pela cicatriz – Terei com ele mais tarde. – virou-se e seguiu pelo convés.

— Não! – gritou o capitão em desespero – Não abandonarei meu barco sem minha família!

— Sua família está a bordo? – perguntou o pirata sem nem mesmo virar-se.

O capitão Willians se deu conta que cometera um erro fatal.

Os comandados do capitão Horner arrastaram o homem desesperado, que se debatia sem êxito, em direção ao navio pirata.

A pilhagem seguiu-se como deveria ser, ou seja, com muitas mortes, derramamento de sangue, estupros, e covardias tamanhas, das quais a horda de piratas assassinos, já estava mais do que acostumada.

Não fora difícil persuadir a tripulação a indicar quem fazia parte da família do capitão Willians. O delator, em vez de ter sua vida poupada, ganhava como prêmio pela informação, um talho na garganta que ia de orelha a orelha.

Ninguém foi poupado. A carnificina no navio foi terrível e os requintes de crueldade foram guardados especialmente para a família do capitão Willians.

O caixa forte do Spirit of the sea foi levado para o Colossus, bem como todos os objetos de valor dos passageiros. O capitão Horner assistia ao carregamento de seu barco, impassível. Seus pensamentos estavam longe, pois aguardava ansiosamente pelo reencontro com Willians, que ousara desafiar sua liderança perante seus homens.

O pirata Maldito tinha a fama de ser extremamente violento em todas as pilhagens. Seu nome era tido quase uma lenda; uma verdadeira assombração. Eram poucos aqueles que conseguiam fugir de suas mãos. Mas, outra fábula acompanhava a história daquele terrível pirata. De acordo com relatos de alguns poucos sobreviventes de navios atacados por seus homens, Horner era obcecado por um determinado tesouro, e que este ainda não havia sido encontrado pelo pirata. Diziam ainda, que o homem assassinara o próprio pai, antes de completar dezoito anos, pois o velho também era fascinado pelo tal tesouro misterioso. Seu pai levava tatuado no braço esquerdo, o mapa onde uma pequena ilha na costa europeia indicava o local exato onde o tal tesouro estava escondido. Após o assassinato, Maldito ordenou que também lhe tatuassem o antebraço esquerdo com o mapa. Enquanto não encontrava a exata localização da ilha, o Colossus seguia pilhando todos aqueles que cruzassem seu caminho.

A história era conhecida por todos os capitães que singravam aqueles mares, inclusive o capitão Willians.

Os piratas ainda regozijavam-se pelo sucesso da empreitada com a abertura de várias garrafas de rum, quando Horner vociferou:

— Seus cães miseráveis! Tragam imediatamente o tal Willians à minha presença.

Em pouco tempo, lá estava o capitão do navio, que agora não passava de um gigantesco cemitério à deriva pelo Atlântico.

Willians exibia no rosto toda a fúria dos terríveis piratas. Seu olho esquerdo era uma massa de carne disforme. O direito estava inteiramente roxo e coberto de sangue quase coagulado. Poucos dentes ainda lhe restavam na boca, que de tão inchada, dificilmente poderia pronunciar palavras compreensíveis. O restante do rosto, pescoço e braços exibiam pequenos hematomas escuros. Com os pulsos presos por velhas cordas, que rasgavam-lhe a pele, o capitão Willians foi jogado de joelhos perante o pirata Maldito.

— Então, capitão, está satisfeito com o que sua audácia em me enfrentar diante de meus homens lhe custou? –  indagou o pirata.

Willians nem se atrevia a responder, até mesmo porque não possuía condições para isso. Mantinha a cabeça baixa e respirava com dificuldade.

— Olhe pra mim enquanto falo com você, seu cão do inferno – gritou Horner, antes de acertar um violento chute no já estraçalhado rosto do capitão.

O homem caiu para trás, mas foi rapidamente colocado na posição anterior pelos outros piratas.

Willians levantou um pouco a cabeça tentando enxergar o rosto de Horner. Assim que visualizou o pirata, cuspiu uma poça de sangue nas botas do homem à sua frente.

— Desgraçado! – limitou-se a dizer entre dentes, o pirata que exalava ódio pelos poros.

Olhou para seus homens imediatamente atrás de Willians, que rapidamente entenderam o significado daquele olhar, e saíram em direção à popa do navio.

— Se a lição ainda não foi entendida pelo capitão, farei com que arrependa-se de uma vez por suas ações. – disse Horner num tom ameaçador.

O capitão Willians sentiu um arrepio subir pelas costas ao imaginar a surpresa que o pirata havia lhe reservado. Ouviu os passos dos piratas que retornavam às suas costas, e em seguida ouviu a ordem do capitão pirata:

— Joguem-nas aqui à frente.

Ao escutar os baques surdos no chão de madeira, Willians encolheu-se e tentou não olhar, mas seria impossível não constatar o óbvio.

Aos pés do pirata Maldito, que ria com satisfação, Willians reconheceu as cabeças decepadas da esposa, filhos, mãe e sogros.

O homem não conseguiu gritar. Não daria esse gosto ao desgraçado pirata, mas não pode evitar que uma lágrima de sangue escapasse de seu olho bom.

Notando a atitude do homem, Horner não perdeu mais tempo, pois a coragem do homem seria posta a prova definitivamente.

— Preparem a prancha! – gritou ele – É hora do nobre capitão fazer companhia aos tubarões.

A prancha foi rapidamente colocada na amurada do navio e o capitão foi levado aos empurrões até sua borda.

— Quer dizer mais alguma coisa antes de morrer, meu caro? – perguntou o pirata, levando a mão para dentro do casaco e puxando um cachimbo antigo.

— Sim, tenho. – respondeu com dificuldade o capitão, para surpresa de Horner.

— Pois diga. – retorquiu o outro.

— Pelo menos me dê a dignidade de encontrar a morte com as mãos livres. – pediu o capitão erguendo os braços, e mostrando os pulsos amarrados.

Indiferente ao pedido de Willians, Maldito ergueu o queixo num sinal para um dos seus homens, enquanto acendia seu velho cachimbo.

O pirata cortou as cordas que prendiam o capitão Willians, que num último gesto antes de se lançar à morte, tomou a espada que pendia da cinta do pirata, e num movimento vigoroso, cortou o braço de Horner na altura do cotovelo, agarrando o membro decepado junto ao corpo, antes de mergulhar para o mar escuro.

O pirata, de olhos arregalados, assistia inerte o nobre capitão Willians desaparecer perante sua vista, levando consigo o mapa tatuado do único tesouro que o pirata jamais conseguiria obter.

 
Autor: Lino França Jr.

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