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Que Horas São?

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Escrito por Ramon Bacelar   
Sex, 04 de Janeiro de 2013 00:00

 

 

que-horas

Que Horas São?

por Ramon Bacelar

— Atrasado, meu DEEEUUUSSS!!!

 

 

Acordo afogado na luminosidade solar inundando meu quarto de pensão, vôo escada abaixo e alcanço o passeio:

 

 

— Que horas são?

 

 

O idoso olha para mim de braço estendido: no pulso um velho Rolex sem ponteiros me avisa que é hora de correr!

 

 

Disparo pela calçada e me aproximo do primeiro táxi da fila:

 

 

— Que horas são?

 

 

— Hummm...- O taxista olha atentamente para o relógio mordendo os lábios

 

 

— Hora de pegar minha cliente!! Muito obrigado pela lembrança!!!

 

 

Vuuuuummmm ...

 

 

Preciso correr, correr, chegar... Eu preciso, preciso e resisto; entro em uma relojoaria cercada de sucata e ponteiros estáticos... Não resisto:

 

 

— Que horas são?

 

 

O relojoeiro sorridente aponta para a torre da praça principal: no topo, um zelador polindo os ponteiros me dá língua fazendo buúúúú como um garotinho encapetado, só me resta....

 

 

Contorno o jardim com a rapidez e elegância de uma avestruz embriagada, e visualizo ao lado da igreja uma aglomeração cercando um palhaço:

 

 

— Que horas são?

 

 

Direciono meu pedido a quem quer que me escute, mas o palhaço me fulmina com os olhos: sinto-me como um bisbilhoteiro atravancando o espetáculo, um quebra-molas inútil, deslocado e desconexo empacando o trânsito e os pedestres.

 

 

— Que horas sããããooo???- Curioso, o palhaço me pergunta retirando do peito um relógio gigante: as mesmas de ontem AHAHAHAHAHAH!!!!!

 

 

A platéia explode em sonoras gargalhadas, enquanto me retraio como uma bexiga murcha de pescoço caído e sorriso chocho.

 

 

— Desculpe... Não quis ofender. – O palhaço, de cabeça baixa, suspende a manga olhando para o pulso: Agora são... Um pouquinho pra mais logo!!! UHUHUHUHUHAHAAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!!

 

 

— Socorroooo!!!

 

 

Preciso seguir, prosseguir...Chegar a tempo para, para ...eu paro:

 

 

A batina entrelaça minha visão em sua monotonia bicolor... Apazigua meu espírito:

 

 

— Padre... Pelo amor de Deus, que horas são?

 

 

Vazio: o Silêncio do Silêncio.

 

 

— Para se encontrar com o Senhor...Toda hora é hora meu filho.

 

 

Eu tremo, ofego, transpiro, suspiro:

 

 

— Nãããooo!!!

 

 

Eu corro, corro, persisto, não pergunto, não desisto, resisto e finalmente desembesto escada à cima, mas um degrau em falso me impulsiona para a porta (blaaaammm) e me arremessa aos pés do meu chefe...Suspendo o pescoço:

 

 

— B-bom... Bom dia c-chefe, que horas são?

 

 

— Hora... da demissão, chegou CEDO DEMAIS!!!!

 

 

Ouço a última ordem (não entendo!) no mesmo instante que seus dedos direcionam minha visão aos velozes ponteiros do relógio de parede... Andando para trás!!!!

 

 
Autor: Ramon Bacelar

Comentários   

 
#1 Pâmela 26-01-2013 08:30
:-x
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