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A Geometria do Ser

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Escrito por Luciano Marinho   
Qui, 31 de Janeiro de 2013 00:00

 

 

 

 

Geometria do ser

 

 

A Geometria do Ser

por Luciano Marinho

 

Nem havia saído dos braços daquela mulher, sentiu-se arrependido. Esperava saciar os instintos. Mas, não. Só deitando, no mínimo, com duas ou três fêmeas. Carecia de usufruí-las simultaneamente, na sua masculinidade essencial. Talvez, assim, tivesse paz de espírito e fleumática existência. Desde púbere, reconhecia-se um esquizoide. Com relação às atrizes do cinema e da televisão, sentia ímpetos estranhos. Almejava mordê-las e tirar-lhes sangue; ou esfolá-las de vez, com objeto contundente. Pegava fotos de revista e recortava-as com a ponta afiada de um punhal, que ganhara de presente de aniversário, do pai. Mas, reprimiu a sádica mania. O propósito ficaria para mais adiante. A própria mãe, separada do pai, já pensava mal dele. Terrível injustiça, esse pré-julgamento materno. Tinha, no entanto, sentimentos nobres; não era psicopata nem pervertido.

Ainda adolescente, sentia um obsessivo desejo pelas mulheres das redondezas. As casadas, fisicamente atraentes, conseguiam deixá-lo transtornado e alteravam-lhe a nitidez de consciência. As solteiras, nem tanto. As mais moças não conhecem os segredos do prazer. Aquelas, sim. Aprenderam com seus maridos as veleidades do mundo. A todas, apelidava mordazmente com nome de animal. A gata. A leoa. A cadela. A raposa. De outras se recordaria, se por acaso tornasse a vê-las no zoológico da vizinhança.


Designou a mãe de coruja. Abandonado pelo pai, tornou-se mais protegido dela. Mimava-o nos desarranjos da puberdade. Na infância, era saudável, teve apenas alterações de fala. A fonoaudióloga esclareceu que a mãe lhe adivinhava os desejos mais elementares, impedindo-o de que desenvolvesse as suas naturais potencialidades, até de expressão. Daí em diante, a mãe conteve-se, para que a criança crescesse sem as sequelas protetoras de suas garras. Nessa época, enfrentou dificuldades na vida social. Foi expulso de vários colégios. Concluiu o curso fundamental, por milagre. Não tinha vocação para frequentar faculdade. Os docentes, uns castradores. Acedia, apenas, às ponderações das mulheres. Não era fácil, contudo, convencê-lo por meio de argumentos lógicos. Ao gênero masculino, repugnava. Ouvia as mulheres. Nelas, prestava atenção. Bajulava-as. Mesmo se não as entendesse, mentiria, dizendo reverenciar a condição feminina.


A gata era a mulher do vizinho, que morava à direita de sua casa. Mulher dengosa. Quando não vencia as dificuldades práticas da vida, contornava-as com a fluidez de sua persuasão linguística, ao lidar com homens. O marido se locupletava com a diplomacia da esposa. A mulher tinha a mania de lamber os próprios lábios, à medida que ia pronunciando os vocábulos. Ao fim das primeiras frases, já enfeitiçava o interlocutor. Andava na moda, bem vestida. As contas do crediário, porém, ficavam ao deus-dará. Pouco se importava com os boletos de cobrança que lhe chegavam pelo correio. Jogava-os no lixo. Passava as tardes no shopping da cidade. Voltava à noite. O companheiro, aposentado, aprontava a ceia. Ela jantava. Exausta de perambular e exibir-se, ia dormir. Após o jantar, o dono da casa lavava os pratos e passava, no chão da cozinha, pano úmido com produto de limpeza. Não era uma mulher discreta, que preservasse a sua privacidade. Uma banda da janela do quarto ficava aberta. Pelas frestas da persiana, ele a espiava deitada toda nua, sob a luminosidade inclinada do abajur. Parecia que emitia grunhidos melosos, enquanto ressonava. Tarde da noite, o cônjuge vinha fechar a cortina. Dali em diante, por mais de hora, dava para ouvir miados descompassados.


A leoa morava defronte de sua casa. Aguava as plantas do jardim todas as tardes, de saia curta e camiseta. As coxas roliças e os seios pontudos, de fora, deixavam-no alquebrado. O rapaz ficava de pé, rodopiando de lá para cá, escolhendo o melhor ângulo para contemplá-la, ora sentada em cima do muro, ora caminhando por entre os canteiros. Havia se separado do segundo aventureiro. A leoa expulsou o macho a patadas. Ultimamente, andava recebendo, de seis em seis meses, um marinheiro bonachão que a visitava, quando o navio ancorava no porto. Espalharam que o homem do mar sustentava-a de tudo. A ela e aos dois filhos menores de idade. Pouco saía de seu território. Ou encharcava os jardins de água, ou ficava colada diante do aparelho de televisão. Dormia o resto do dia. A sua irmã, tísica de compleição, é quem cuidava dos afazeres domésticos e das crianças. A mulher o encantava pela exuberância do corpo. Agredia, com mugidos de baixo calão, a quem lhe fosse perturbar a paciência com reclamações aleatórias. Os filhos viviam atirando pedras nos telhados circunvizinhos. Ninguém, contudo, ousava contrariá-los. A mãe promoveria um escândalo ignominioso. No sábado de manhã, ia à feira no pátio da praça. Ao andar por entre os toldos, rebolava as ancas, deixando os feirantes de água na boca. Quem a conhecia, afastava-se dela. Os intrépidos eram vilipendiados com desaforos públicos. A mulher regozijava-se por fazê-los passar vergonha. Certa vez, surpreendeu-o bolinando o genital, quando olhava fixamente as suas pernas. Desta feita, dissimulou o desagravo. Perdoou-lhe. O sem-vergonha era muito tolo e acriançado. “Que se danasse na masturbação...” – pensou.


A cadela vinha à sua casa a fim de desabafar com a mãe dele. Lá, depreciava o marido. Queixava-se de que havia casado com um cão raivoso. O animal, ao chegar do trabalho, ia logo lhe tirando a roupa, montava-lhe por trás, até que se cansasse ou lhe ferisse as entranhas. Nem importava que o mênstruo escorresse pelas coxas, nem que a filha chorasse no berço. Também ignorava se uma visita batesse palmas ao portão. Só se desprendia, quando derramasse a goma pastosa do líquido seminal. De tanto procurá-la, o marido condicionou-a no exercício repetitivo da intimidade conjugal. Batesse o relógio seis da tarde, ela já se debruçava na cama, de ventre melado. Retardasse o cão, enraivecia-se, enxugando o corrimento da vagina nos lençóis e, de propósito, pegava no sono. Por trás da porta de seu quarto, ele próprio se contentava em ouvi-la. De menos valia, era o corpo da visitante queixosa. Com ela, aprendera as sensações do prazer auditivo. Ficava ali, por horas inteiras, em silêncio, com o ouvido à porta. A mãe pouco ou nada dizia; e se dissesse, o filho ensurdeceria à censura. Por vezes, excitava-se. A mulher descia em minúcias os degraus do escrúpulo. Detalhava as sensações que sentia, de nojo, quando o cão obrigava a que lhe lambesse o membro.


A raposa era a melhor de todas. Volúvel e dissimulada. Bela e exibicionista. Abria a cumbuca. Aquele que metesse a mão lhe cravava dentes de injúria. O marido surpreendeu-a, suspirando de desejo, lambendo o pescoço do amante em sua própria alcova. O desengano doeu-lhe mais, porque, na data de seu aniversário, lhe dispensaram do trabalho, vindo cedo para casa. Lembrou-se de trazer uma garrafa de champanhe, para comemorar. Viu-a possuída pelo demônio. Fez as malas e desapareceu, sem uma interjeição de repulsa ou ira. A raposa tinha olhos penetrantes. Feria a alma de um homem, antes de golpeá-lo. Por ela, o mais discreto de seus pseudoamantes passou muitas noites mal-dormidas. A imagem da fêmea tremulava no seu cérebro. Levantava-se. Tomava água com açúcar. Voltava à cama. Levantava-se, de novo. Mais água. Mais açúcar. A efígie vulpina não lhe permitia conciliar o sono. Tocava-se, imaginado possuí-la como canídeo de sua laia. Os braços morféticos apenas o embalavam. Só adormecia nos primeiros raios de sol. A mulher era sutil. Flagrou-o durante noites e noites, olhando-a pela vidraça da janela. A pele, amarronzada. Os cabelos, compridos. Os peitos, pequenos e duros. As pernas, delgadas. As coxas, esculturais. Até as unhas, pintadas de grená-escuro, emprestavam-lhe um esboço de maciez e luxúria.


Por elas, o rapaz adquiriu uma ansiedade crônica. Urgia que encontrasse uma mulher polimórfica. Em sua consciência, as qualidades daquelas fêmeas constituíram um compacto ideal. Era canino, com as cadelas; e leonino, com as leoas. Experimentou a todas, de vista, quanto pôde. Quando a mãe faleceu, já beirava os quarenta anos. Ainda não encontrou um modelo ideal de mulher. Não lhe adiantou carro do ano, dinheiro no bolso, roupas de grife, subsidiados por homossexuais aos quais servia por dinheiro. A ele, moças de família continuavam inacessíveis. Perto delas, rareavam as palavras; as mãos tremiam; um suor frio porejava pelo corpo. Ao aproximar-se delas, tomava-se de uma timidez quase patológica. De perto, o sexo feminino o paralisava. Aprendera, por ensaio e erro, a preferir as mulheres feias, gordas ou defeituosas; de modo que não fosse rejeitado.


A sua família era pobre e decadente. Praticamente não conhecera o pai. Um homem irresoluto, avaro e preguiçoso. Jamais lhe serviria de modelo. A mãe, ainda viva, condescendia às suas vontades. Até hoje, perspicaz no seu empirismo existencial, ainda não aprendeu a lidar com uma mulher. A formação evangélica não lhe reformou o comportamento moral. As noções consequentes, de culpa e castigo, se diluíram na maturidade. Permaneceu infeliz. Mais tarde, casou-se com a primeira que se dispôs a aceitá-lo. Para isso, sempre há mulheres dispostas. O sacramento do matrimônio, porém, não lhe mudou o sentido da vida.


De uns tempos para cá, a esposa, enciumada, deu para persegui-lo. Media as horas que ele passava fora de casa. Telefonava-lhe sem motivo. Cheirava-lhe a cueca. Perscrutava a agenda e remexia nos bolsos da calça. O marido teve a prosaica inspiração de chamá-la de pulga. A esposa, porque não era amada, envelheceu depressa. De um dia para a noite, tornou-se melancólica e derrotista. Vestiu-se de preto e fez do silêncio a sua vingança derradeira.


Ele, então, batizou-a de corva.

 
Autor: Luciano Marinho

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