O ciclope | CONTOS DE TERROR
Você está aqui: Home > Contos Fantásticos > O ciclope

O ciclope

PDF Imprimir E-mail
(44 votos, média de 3.14 em 5)
Escrito por Luciano Barreto   
Seg, 19 de Maio de 2014 08:50

 

O Ciclope

 

 

O ciclope

por Luciano Barreto


A Londres do final de século XIX, guardadas as devidas proporções, já sofria com a correria tão característica do mundo contemporâneo. As pessoas caminhavam apressadas e a classe operária residia junto às fábricas, ao passo que a burguesia vivia à margem do mundo operário, a quilômetros de distância. Havia um crescimento impulsionado pela revolução industrial, mas de tão desordenado, implicava ruas estreitas e vivendas extremamente pobres, onde os trabalhadores viviam.

 

Numa dessas casas londrinas, vivia John Hart e seu filho Ken Hart. John era viúvo, pois sua esposa havia falecido num acidente de trem alguns anos antes. Era tintureiro de uma indústria de fabricação de roupas e todo dia saía bem cedo para trabalhar. Voltava na boca da noite a sua residência, para onde levava pães e leite. John Hart era um homem macambúzio por natureza, mas depois do falecimento de sua esposa, achava-se constantemente prostrado perante os desígnios de Deus. A solidão era sua única companheira quando fora de sua residência. E assim os dias iam e vinham para aquele homem tão quieto quanto encanecido.

 

Diziam os vizinhos que seu filho apresentava um comportamento deveras suspeito porque desde que chegara a Londres nunca havia saído de sua pobre vivenda, tendo de depender do pai para sobreviver. Os boatos sobre a clausura de Ken Hart tangenciavam três hipóteses. Uns diziam que o jovem sofria com a lepra. Outros afirmavam que Ken Hart simplesmente não existia mais porquanto seu pai havia lhe tirado a vida e enterrado seu corpo no quintal de sua casa. Os mais inoportunos garantiam que Ken Hart, embora ainda novo, era um subversivo que trabalhava contra a Coroa, pois dois homens que vieram de Brighton juntamente com John Hart conheciam o passado corrompido deste no que se referia ao respeito pelo Reino da Inglaterra. Os homens haviam disseminado tais fatos em Londres sem ruborizarem-se.

 

À época, a polícia londrina, intitulada Scotland Yard, já investigava toda sorte de denúncias. Decerto os grupos subversivos aboletados nas paupérrimas vivendas inglesas não encabeçavam a lista de denúncias mais importantes, mesmo assim a Yard mantinha um esquadrão chamado “Os Infantes” com o fim específico de apurar tais informações. Os membros dos Infantes sabiam bater e ostentavam porte físico avantajado; por isso eram arregimentados pelo governo para a labuta menos intelectual e mais física. Era achar o grupo insubordinado e corrigir a ideologia na base da força.

 

Muito embora, John Hart fosse considerado um homem de bem pelos colegas de trabalho e principalmente pelo seu patrão, a Yard já o investigava. Em verdade, os policiais tencionavam conhecer Ken Hart e deslindar as poucas denúncias que recaíam sobre ele. Como havia vários crimes sem esclarecimento, o filho de John Hart poderia ser uma pista que inculcasse alguma solução para os delitos ainda não solucionados. Mas havia outro fator que alimentava uma investida na casa dos Hart: um dos homens que conhecia John Hart desde Brighton fora arregimentado para trabalhar como Infante. Tal homem chamava-se Adam Schultz e nutria grande curiosidade sobre o motivo do isolamento do filho de John, pois Ken Hart, na viagem de Brighton para Londres, mostrava-se irrequieto, nervoso como se estivesse escondendo algo.

 

Por entre as noites frias e de nevoeiro espesso, Schultz pervagava como uma sombra indistinta perto da simples casa, cujos donos investigava. Certa noite, já bem tarde, e após longa e enfadonha campana, vira John Hart deixar sua residência e seguir pela rua estreita e escura até dobrar a esquina e sumir de seu campo de visão. O infante sabia que aquele era o momento de entrar no casebre e descobrir o segredo que a família Hart carregava em suas entranhas.

 

Assim, o policial caminhou lentamente contra o vento até chegar ao portão. Empurrou-o bem devagar, adentrando o quintal da vivenda. Aproximou-se da porta e girou a maçaneta que, trancada, não permitiu a entrada. Logo pensou em arrombá-la, mas, num arroubo de inteligência, recuou e procurou outro acesso à casa investigada. Examinou em redor sob a penumbra e encontrou uma janela semiaberta. Levantou-a e rapidamente conseguiu entrar na residência.

 

Schultz havia entrado na pequenina sala do casebre. Após esquadrinhar o local com cuidado, sacou seu revólver e o manteve em riste. Em seguida, começou a procurar por Ken Hart. Caminhou até a cozinha e nada encontrou. Depois seguiu por um estreito corredor. Passou por um banheiro extremamente malcheiroso e outra vez nada viu. A iluminação por candelabros afixados nas paredes era débil e dificultava sobremaneira sua visão. Mas tal condição não desestimulou Adam que avançava lentamente sobre o chão de madeira da residência.

 

Ao final do corredor encontrou duas portas que julgou serem os quartos de John e Ken Hart. Uma das portas estava entreaberta. Empurrou-a mais um pouco com uma mão enquanto a outra apontava a arma com firmeza. A fraca claridade da iluminação do corredor nada mostrou aos olhos curiosos do policial.

 

Faltava a outra porta. Adam Schultz sentiu o coração bater mais rápido. Mesmo no frio negativo, ele pode sentir uma onda de calor tomando seu rosto e pescoço. Aprumou a arma na mão e meteu o pé na porta, arrombando-a. Viu um corpo coberto e estirado numa cama deletéria e outra pessoa sentada numa cadeira de espaldar apodrecida com um livro em uma mão e um lume na outra, mais ao fundo do cômodo.

 

Gritou que era da Scotland Yard e em seguida deu voz de prisão ao homem sentado na cadeira. Ao aproximar-se para revistar e imobilizar o suposto subversivo, passou pela cama e perguntou qual era seu nome. O homem simplesmente falou “Ken Hart”. Entrementes, Adam se surpreendeu com a compleição forte de Ken Hart que quase lhe alcançava em altura. Num átimo, Ken berrou um perturbador “não” e olhou por sobre o ombro de Adam, mas era tarde. A pessoa que jazia no leito carcomido levantara-se rapidamente e, antes que o infante se virasse, desferiu um soco tão forte em seu pescoço que um terrível estalo ecoou pelo quarto e fez a cabeça do invasor ser movida bruscamente para o lado contrário ao do soco, assumindo um ângulo impossível para alguém com vida.

 

A manhã seguinte foi reveladora para os londrinos, pois souberam que John Hart havia furtado, há anos, do hospital central de Brighton uma criança a qual havia sobrevivido ao mesmo descarrilamento que matara sua esposa. À época, o sobrevivente era somente um bebê com graves lesões no rosto que havia perdido seus pais no trágico acidente.

 

Os ferimentos que parcialmente destruíram a face do bebê, o qual fora rebatizado por John de Demien Hart não o mataram, mas deixaram horrendas cicatrizes e extirparam um dos olhos. As fraturas foram se consolidando com o passar dos anos, entretanto as feições do jovem foram adquirindo contornos macabros, ao ponto de deslocar quase que perfeitamente para cima do nariz, em alinhamento central, o único olho que restara. Ademais, vários estigmas sobrepunham-se numa face, cuja aparência era perturbadoramente semelhante a de um ciclope. Por tal motivo, Demien nunca havia saído às ruas de Londres. Por carinho ao irmão adotivo, Ken simplesmente também não saía de sua residência.

 

Alguns meses depois Demien Hart, que havia completado dezoito anos na noite anterior em que cometera o homicídio, fora condenado ao enforcamento pelo assassinato de Adam Schutz. Demien era um jovem extremamente forte e alto. Os ombros largos e o pescoço do calibre de uma tora espantaram até mesmo o carrasco. Levara o triplo de tempo para morrer enforcado quando abriram o fundo do cadafalso. Desde pequeno lutara para viver e ali não fora diferente. O único olho, semicerrado pela dor que o abraçava, fitou com dificuldade a multidão que o olhava com incredulidade pela demora em morrer, mas no final havia fenecido. Pelo furto do bebê em Brighton, a mesma pena fora imposta a John Hart. Ken Hart também fora enforcado como cúmplice de seu pai. Ambos morreram em poucos segundos depois de algumas vascas tão naturais à morte agônica.

 

 
Autor: Luciano Barreto

Leia outros artigos deste autor

Comentários   

 
#2 Guest 10-04-2017 14:18
Sou verdadeiramente grato рara o proprietário deste web site
ԛuem compartilhou ᥱste maravilhoso texto ɑqui .
Citar
 
 
#1 Guest 20-10-2015 17:03
pessimo
Citar
 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

 

PageRank

Pesquisa de informações

Leitores Online

 

Área de Autenticação








Após o cadastro, acesse seu e-mail e siga as instruções.
Copyright © 2017 CONTOS DE TERROR. Todos os direitos reservados.
Joomla! é um Software Livre com licença GNU/GPL v2.0.