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O Diabo e o Pedreiro

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Escrito por Paulo Soriano   
Qui, 14 de Março de 2013 00:00

 

O Diabo e o Pedreiro

 

 

O Diabo e o Pedreiro

por Paulo Soriano

(Lenda Medieva)


Havia em Santiago de Compostela,  em tempos imemoriais, uma viela  na qual  os antigos puseram o singular nome de “Travessa do Cego e do Caolho”.  Tal minúsculo logradouro,  não mais que  uma passagem curtíssima entre duas ruas de mediana expressão,  abrigava apenas duas casas pequenas, uma de cada lado,  cujas janelas  e portas se entreolhavam preguiçosamente.  Embora estreita  a viela  – mal podiam  passar pelo escaninho  duas pessoas magras lado a lado –,  muitíssimos transitavam  por ela, apesar da perene escuridão que  lhe tornava limosas as pedras desgastadas,  porque era uma via que encurtava  abençoadamente   o caminho dos romeiros, já  tão  cansados, que rumavam  à Catedral.   E o excêntrico nome da minúscula  rua   atraía a curiosidade dos viajantes, que  estavam sempre a indagar sobre a sua origem.  Mas os de Compostela não gostavam de saciar o desejo dos transeuntes.  Ficavam  eles quase sempre sem resposta,  visto como  teriam de ouvir  falar do Diabo,  e isto  não era apetecível   a  uma cidade sagrada, cujo solo servia de  repouso eterno  ao  Apóstolo do Senhor.


Hoje, a ruela não existe mais. Mas é possível que  ainda permaneça na  memória  de alguns dos  anciãos  o fato  que deu origem a um  nome tão singular.  Rico em anos, a vós contarei a história, conforme  ouvi de meus antepassados, infelizmente mortos há  mais de meio século.


Muito antes de tombarem os castelos aos rudes golpes dos Irmandinhos,  já existia a rua de nossas preocupações. Nela morava, com  mulher e filha, um homem sem dúvida esforçado, trabalhador incansável e  pedreiro de profissão, mas não bem aquinhoado pelo Destino como seria de justiça e de mister.


Após um dia de árdua faina,  resolveu  Anselmo Carvalho  –  assim ele se chamava – gastar um pouco do que ganhara  entornando uns bons copos de vinho numa das muitas tabernas  que abriam as portas  ao cair da noite.


Tendo entrado numa bodega,  a dedo escolhida, porque o vinho  não era batizado, e custava o que de fato valia,  desceu uma escada em caracol e recolheu-se  a uma mesa no porão,  à frente do corredor abaulado  que levava à  adega embolorada.


O nosso homem, que não era de muita conversa, e vivia sempre carrancudo, sentia-se bem quando sozinho, porque assim podia padecer sossegado a própria amargura, saboreada a cada gole e juntamente com o azedume do vinho.  Sacou do bolso  um par de dados e ficou a jogar consigo mesmo, entediado.


De cima vieram  os acordes de um alaúde. A  voz que o  acompanhava tirou-o, sim,  da melancolia, mas o  lançou  num profundo aborrecimento. Reconheceu aquela voz repugnante. Era a do execrável   Francisco Carreira,  seu vizinho de porta,  a quem odiava secretamente, por ser ele justamente   a  origem de toda sua infelicidade.


Anselmo  ouviu os passos que vinham do cerne entenebrecido da adega  e supôs que era o taberneiro retornando, como sempre trôpego.  Mas, cabisbaixo, nem notou que alguém se sentara suavemente  à mesma mesa.  Apenas ouviu  o  comentário:


– Quem joga só, brinca com o Diabo.


O jogador estava prestes a enxotar o intruso, mas as palavras se imobilizaram na pontinha dos lábios, que se abriram num sorriso satisfeito,  quando o recém-chegado prosseguiu:


– Francisco Carreira é mesmo um pedante.  Vejo, pela sua reação, ao ouvir a voz tão desagradável,  que vossa mercê também não gosta dele,  e com justas razões.


–É verdade  –respondeu Anselmo.


– Pois lhe digo que,  apesar  da indolência, ele  tem muita sorte na vida. Órfão de um pai vagabundo e abandonado por uma mãe rameira, encontrou abrigo num mosteiro  onde, em troca de uns serviços leves, teve esmerada educação. Depois, casou-se com uma bela mulher e fez-se  feliz com ela  e com  os dois filhos pequenos. Trabalha leve e ganha muito.


–Muito  mais sorte do que ele merece, tenho dito – concordou Anselmo.


–Acho que Deus  quase nunca  é justo – afirmou o outro, muito convicto do que dizia.


–Eu também – resignou-se Anselmo a dizer.


– Veja bem – prosseguiu o desconhecido.  – Enquanto vossa mercê  dá duro preparando a argamassa e assentando pedras pesadas, uma após outra, sob a fúria do Sol,  ele, seu vizinho folgado, apenas por ter aprendido a ler  e a escrever com os malditos monges cistercienses de Monte de Ramo,  passa o  dia todo na moleza,  a garatujar  cartas nas feiras, à sombra de uma tenda confortável e arejada.  E, com esse trabalho suave e alegre,  ganha ele, num só dia, porque cobra dos incultos os olhos da cara, o que vossa mercê, pingando de suor,  leva uma semana inteira  para ganhar. Não é justo.


– Isto mesmo. Não é justo.


– Enquanto ele tem uma linda mulher, uma  morena de corpo voluptuoso,  capaz de pôr em tentação  até mesmo  o santo arcebispo de Braga,  a sua esposa  engordou como uma porca,  e é motivo de mofa até para os mendigos que  se acumulam e infestam as escadas da Catedral. Vossa mercê sabia  que todos a chamam, às escondidas, de leitoa?


– Sabia.  Pura verdade. Onde está a justiça de Deus?


– Enquanto ele tem dois filhos varões, assegurando que se perpetue o  nefasto nome de família, vossa mercê tem apenas uma mocinha tola, que come como um javali,  e está fadada a enfear, ainda bem cedo,  assim  como a mãe.  Decerto que, de tão gorda, não arranjará marido.


– Verdade absoluta.   Como eu odeio esse homem!  Se não temesse o cárcere, já o teria matado. E o pior é que, por morarmos frente a frente, tenho que suportar todos os dias a visão de sua vitória fácil e amargar a minha derrota sofrida.  Acho que Deus é cego, porque não vê o meu merecimento.  E é surdo, porque não ouve as minhas preces.


–Não, não é cego.  Nem surdo.  Ele vê e ouve tudo.  Ele é apenas injusto. Mas podemos  amenizar um pouco essa inconveniência.


– Como? Só se tu fores tão poderoso quanto Deus.


– Bem,  não chego a tanto – disse humildemente o homem,  embora  o sarcasmo modulasse o seu tom de  voz . – Mas tenho cá os meus poderes.


– És o Diabo? O Demo? O Dianho?


– Vossa mercê o diz.


– Se é a minha alma o que queres, não farei nenhum acordo contigo.


–Ora, ora...  A sua alma não me interessa.   Não posso fazê-lo feliz, mas posso, ao menos, fazer de vossa mercê um  homem rico ou poderoso.


– Qual é o  trato?  Coisa boa não pode vir de ti.


–Peça-me vossa mercê  o que quiser. O que lhe aprouver.   Realizarei o seu desejo prontamente.  Mas o que eu lhe der, darei em dobro ao seu inimigo.


Anselmo sorriu com a astúcia do Diabo.  Se pedisse cinquenta mil moedas  de ouro, cem mil reais tilintariam  nos alforjes dourados  do inimigo; se exigisse uma mão repleta  de diamantes, o Diabo encher-lhe-ia as duas  com grandes  pedras  cintilantes, de magnífico e dobrado valor; se pedisse um condado,  o rival  teria todo um reino para explorar.  E, malgrado rico, malgrado poderoso,  a sua amarga inveja seria ainda maior, mais intensa e  insuportável, porque o rival  gozaria o dobro da riqueza, do poder e do intolerável e ofuscante esplendor. Mas Anselmo  vislumbrou,  num lampejo,  uma oportunidade de,  sobrepujando  o demônio em  argúcia,   vingar-se  plena e definitivamente do desafeto, atirando-o  à miséria irremissível. E pouco lhe importava o  enorme – portentoso –  preço da escolha.  O brilho inefável da  própria astúcia e o desejo nefando de uma vingança crua  e desalmada falavam mais alto.


– O que ganharei, ele ganhará em dobro...


–Isto mesmo.


– Então te peço, solenemente,  que me fures um olho.


O Diabo,  embora surpreso com o estratagema do  pedreiro,  cumpriu a promessa.  Eis o porquê do nome que foi dado à  outrora famosa e útil  travessa de Compostela.


 

Comentários   

 
#2 Guest 17-03-2017 14:22
Muito bom. Leitura de valor.
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+1 #1 José Manuel Barbosa 06-05-2013 15:23
Outro conto no que as misérias humanas são as protagonistas e linda memória da nossa Compostela.

Abraço
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