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O rebento de Pã

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Escrito por Rogério Silvério de Farias   
Qua, 17 de Abril de 2013 00:00
O rebento de pã
O rebento de Pã

por Rogério Silvério de Farias


A noite era fria como um morto num velório. O inverno chegara àquela cidade antiga e estranha, nos rincões recônditos do sul do mundo. Maremontes, a cidade sombria e costeira, com suas casas antigas, com sua gente estranha, com suas colinas sinistras, pântanos enevoados e florestas misteriosas. Batizada com as brumas que vinham do mar, a cidade era como uma pérola rutilando de segredos arcaicos e abomináveis.


A casa era pequena – não um bangalô ou chalé à beira-mar, mas sim um casebre hediondo surgido das necessidades prementes que a miséria evoca.


Torrencial chuva a desabar, e vez por outra a velha encarquilhada olhando ansiosa através dos vidros sujos da janela aquelas árvores da Floresta Sussurrante, iluminada precariamente pelos relâmpagos fortuitos e céleres, e tornada fria pela umidade que vinha pairando desde o mar. A noite nascera com ventos, trevas e raios. E a ligeira fedentina descendo do pântano, não muito longe da mata sinistra, como um eflúvio de mau agouro flutuando, miasmático.


A filha da velha na cama. Jovem pálida – bela como uma rosa branca ou uma vela acesa na escuridão, assim era Ismália... Ou fora – antes de enlouquecer.


E a velha Ambrósia ajeitando o candeeiro, vendo a filha gemendo na cama, anunciando a eclampsia.


E logo a pálida Ismália a gritar, nas dores do parto e da loucura. Mas ela só deu à luz  lá pelas bandas da madrugada –  foi só aí que a tempestade amainou, como a assinatura de um pacto sinistro.


O filho viera ao mundo, afinal, no exato instante em que sua mãe morria subitamente.


Nascera ao amanhecer, quando uma estranha estrela brilhava solitária na aurora, uma estrela funesta que cintilava como o olho da grande Aranha Negra que mora numa das masmorras do Além.


O rebento, o fruto do conúbio carnal que Ismália tivera com o estranho numa noite, nas entranhas da Floresta Sussurrante, aquela perto do pântano, onde os demônios verdes, escamosos e fétidos cabriolam invisíveis em festins azucrinantes ao som de músicas do inferno.


A criança, a velha Ambrósia a pegou no colo. Era um lindo bebê, não fossem os chifres minúsculos e hediondos na fronte, a cauda terminada em ponta de flecha, os longos caninos, os olhos chamejantes como as áscuas do inferno, os pezinhos bipartidos como os de um bode...


O grande pai Pã devia estar feliz agora, com o novo rebento, mais um entre tantos, e a velha sorriu por ter agradado ao seu mestre em uma de suas constantes peregrinações pela terra e pela noite, quando ela, a velha, dera a própria filha como oferenda e cortesã, em troca de poderes de magia negra!


 
Autor: Rogério Silvério de Farias

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