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A primeira cruzada

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Escrito por Olavo Mattos   
Sex, 31 de Janeiro de 2014 00:00

 

A primeira cruzada

A primeira cruzada

por Olavo Mattos

 

(Da série - “ Olaff Palmer: O viajante do Tempo. ”)

 

“Uma vez que a terra que vós habitais, fechada de todos os lados pelo mar e circundada por picos e montanhas, é demasiadamente pequena para a vossa grande população, sem que riqueza abunde, mal fornecendo o alimento necessário aos seus cultivadores..., tomai o caminho do Santo Sepulcro; arrebatai aquela terra à raça perversa e submetei-a a vós mesmos. Essa terra em que, como diz a Escritura, jorra leite e mel, foi dada por Deus aos filhos de Israel. Jerusalém é o umbigo do mundo; a terra é mais que todas frutífera, como um novo paraíso de deleites.” O Papa Urbano II terminava seu discurso em 27/11/1095. Os prelados, barões e cavaleiros, que o assistiam no concílio de Clermont, ergueram-se num brado uníssono: “Deus assim quer.”


Quem nascia camponês iria morrer servo e escravizado, lutando apenas pelo pão, feito dos restos dos cereais da mais baixa qualidade, onde a fome estava sempre por perto, quando se comia hoje a fome esperava o próximo dia. Era comum a nudez sem pudor, pela falta de pano e agasalho. Um homem nu era tão comum quanto sua fome. Para esses personagens, a saída do continente para a Cruzada  era uma alternativa econômica e social, achavam.


Perto do colapso rural e sem mais motivos para ordenhar uma população fraca desnutrida e pobre, o poder da Igreja se abala, seus cardeais preconizam uma mudança de estratégia. Muitos fanáticos andam por países e terras distantes... Espalhando a notícia de que o mundo vai acabar! E a igreja vai junto, uma temeridade, algo tem que se fazer, prelados gordos assustados, a pequena nobreza revoltada, pobres sem nada e com fome... O caos estava instaurado, o continente estagnado, sendo engolido por rumores catastróficos e pela própria ignorância. Um conteúdo sujo, precário e desprovido de tecnologias de criação e cultivo.


O entusiasmo popular não esperou que Urbano II se organizasse. Numerosos pregadores conclamavam a população a ida imediata para Jerusalém. Pedro, o eremita homem humilde mas eloquente, congregou mais de 20 mil pessoas. Homens, mulheres e crianças, tão humildes quanto ele. A voz de Pedro soava alto, encorajando a todos numa missão católica em busca de Deus. E ele gritava: “Vamos todos pagar nossos pecados, remissão total numa terra que abunda riquezas e como disse o emissário de Deus, o Papa Urbano ll -- montanhas de mel, terras de trigo e rios de leite  à nossa espera...!!!” Envolvidos por um furor místico, começou a marcha do exército maltrapilho sem rumo certo, pois nem sabiam onde se localizava Jerusalém.


Aquele desfile tétrico percorrendo a Europa do centro ao leste, passando pela Hungria, Bulgária, em viagem cheia de imprevistos e peripécias com o contingente se renovando sempre, pois, tantos outros que se engajavam substituíam tantas perdas pela morte causada por fome, doenças, desgaste, conflitos e o rigor do inverno.



Após dois anos de caminhada, são recebidos como indigentes em Constantinopla e logo foram transladados para os limites orientais da cidade, o próprio Bispo tentou dissuadi-los, em vão. Estavam determinados e impacientes às riquezas e glórias da retomada de Cristo à Igreja. O imperador Aleixo I mandou alimentar e expurgá-los com rigor, Pedro continuou em direção a Ásia quando próximo a Nicéia, mesmo antes de chegar, notaram uma movimentação estranha à frente, mas sem tática militar continuaram a furiosa marcha de guerra.


De repente, entraram em guerra com os turcos que, com flechas e exército treinado, começaram o ataque aos mendigos andarilhos, valentes e sem nenhum preparo militar.


“Tudo desejar e nada entender, só era capaz de aguentar o meu sofrimento; quando vi a angústia dos meus pares, tive aquela sensação de não poder...quando não se tem poder, o desejo de vingança e ódio  parece que aumenta a níveis completos, uma mácula na mente obstrui a razão. Um homem de Deus não pode curvar-se a esses sentimentos.”


“E quando me vi cercado por todos os lados, não tinha na minha visão mais nada que não fosse atacar... Atacar sem restrições... Mas em pouco tempo, já sem nenhum pudor mandei correr do inimigo pagão... Na minha memória só restava o fardo de viver com uma razão que já nem sabia qual... Gritava: ataquem!... corram!... Lancei meu corpo numa nuvem de sangue como um vampiro, sem saber o que restaria daquilo. Aos braços do chão imundo, como um animal rastejei e nem mesmo tive forças para levantar, por fim, de quatro, caí de novo... Eu era um simples animal ferido na alma... Que fim para uma fé que parecia remover montanhas, lépidas e desgraçadas, flechas como nuvens numa tempestade desciam do céu, do nosso Senhor... Fomos abatidos sem ter a oportunidade de reconhecer o inimigo... A areia, o vento, a sede, fome e o tempo, a obra de satã. Não podia mais ouvir aquelas crianças gritando pela mãe, não tinham mais que 12 ou 13 anos, vendo aquelas senhoras mal vestidas, com lenços vermelhos de sangue, como porcos iam se calando às centenas, milhares, atravessados pelas nuvens que caiam do céu. Eu na areia sem poder levantar... Dois anos de caminhada me transformaram num pobre velho decrépito, como tantos no chão, nesse momento gritei: que Deus é esse! Cadê o Senhor? Onde estão os raios impiedosos para os infiéis? A hora chegou! Podia imaginar que naquela momento, os anjos desceriam para acudir-nos... Eles não tinham Deus, nós sim... O Deus é nosso Urbano, Urbano! Onde está o nosso Deus? Córregos de sangue à minha frente, ao meu lado. Cadê o socorro divino?”


Mais de vinte mil pessoas, restaram menos de duas mil, praticamente mortas de fome e sede...desorientadas, feridas e abaladas, entre elas Pedro, o eremita.


“Quando tudo acabou só vi sangue e abutres comendo corpos em carne viva, um fedor nauseabundo, impregnado nos corpos ainda vivos ou quase, se mexendo ao serem arrancadas as tripas pelo anus, com gritos de desespero e dor...vi o horror do inferno, pelo qual, sempre rezei para não ir...”


Abandonando o campo de batalha a imagem era de pessoas sem os membros, sem olhos, bebendo o sangue dos moribundos, disputando com os abutres a própria sobrevivência.



“Fugi em retirada e algum tempo depois vi uma cavalaria em sentido contrário, passando ao lado em marcha, quando um certo Barão(Godofredo de Bulhões) parou e perguntou a um infeliz quem éramos e o que houvera. Eu mesmo lhe respondi... Foi a última vez que ouvi a minha própria voz – Sr., houve uma batalha, onde os homens venceram a Deus! Ele levantou a cabeça, balançou para os lados, com orgulho e altivez disse: Haverá uma outra, entre homens, apenas entre homens. E seguiu.”


Sem Deus, sem voz e sem autoridade Pedro, o eremita voltou para a Europa. Dizem que nunca mais proferiu uma só palavra durante o resto da vida. Apenas no leito de morte que achou forças para um último suspiro: “Salve Cristo, nosso Senhor! E salve os homens que matei, por Ele...”

 

 

Nota do autor:  Aguardem  “ Grandes Navegações Piratas – Adendo a René Duguay-Trouin ”

 

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