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Amarelinha

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Escrito por Adela Figueroa   
Qua, 21 de Maio de 2014 00:00

amarelinha

 

Amarelinha

por Adela Figueroa


Imbo Cachimbo

Ambo Descanso

Pi-piri - Glória

Fora.



A canção ouvia-se com freqüência a saltar desde as pedras dos passeios até o ar em calma da Ilha acompanhando as brincadeiras das meninhas. Os pés a saltar e as bocas a  cantar  na rua jogando a sua pedrinha  por entre os quadros pintados no chão com os que construíam a sua “Amarelinha”. Vai o “peletre”! e a pedrinha ia de quadro em quadro, de casa em casa.



Uma brincadeira sem principio nem fim. Como era a vida dos seres humanos: Sempre a alastrar pedras . Sempre na procura da Gloria que era atingida quando o “peletre” dava alcançado o último quadrinho.



Neste dia prodigioso, Nimbwana saltava brincando na sua[1] “amarelinha” pintada no chão do passeio.



Mas ela hoje tinha na boca outra canção que saia do fundo da sua memória inconsciente, sem que a miúda bem compreendesse o seu significado:



Amiga que vais p'ra longe

Admira-me teu passo certo:

Pegadas após do vento



E Ninbwana assim cantava em quanto brincava ela sozinha na esplanada diante das casas. Segura entre as ruas do bairro de pescadores em que vivia com a sua mãe.



Ia condizendo os seus pulinhos dum só pé com a música que ela própria tirava do fundo da sua memória, em quanto alastrava uma pedrinha de mármore em meio dos quadros.  Brincava com grande concentração cuidando em não calcar nas raias que definiram a macaquinha que tão cuidadosamente pintara.



Interessada no seu jogo,marcava o ritmo do canto com o bater  dos seus pés no chão.



A menina  Lilia andava devagar pela rua na procura doutras amiguinhas. Era sábado á manhã e não havia escola. O bom tempo, que acompanha normalmente a vida na ilha, dava para o lazer na rua ou na praia. Ouviu o canto de Nimbwaninha e veio logo junto dela.



-Olá  Nimbwana, Deixas-me brincar contigo? Posso eu brincar na tua amarelinha?



Nimbwana concordou e Lilia atendeu o brincar da sua amiga na espera que ela desse em falso ao atirar a pedra ou a pisar alguma das raias desenhadas por ela própria.



E o canto misterioso da meninha continuava :



Amiga que vais para longe

Cuida que teus pés morenos

Não afundem nos lameiros

Fedorentos dos lamentos



Sempre a brincar, a menina calcou, com a ponta do pé numa das raias da macaquinha.



-Erraste! - brotou Lilia com voz alegre- Agora é a minha vez! Vou ser eu que brinque. Já tu vais ver! Mas canta tu que eu não conheço a canção que tu cantavas.

"Minha amiga de olhar longo

No horizonte do incerto

Pensamento, Ru-u-u-mo certo."



Recitou ainda Nimbwana. Obediente ao mandado da sua amiguinha.



E Lilia saltava seguindo o ritmo da canção com os seus pés a pular entre as raias da Amarelinha.



Tão concentradas estão as meninas com a sua brincadeira que não percebem o passo do tempo.



Vê-la ai vem Milena desde o fundo da rua. Anda na procura da filha que são já horas de almoçar e a menina ainda não viera a casa.  A mãe sabia:  Nimbwana era brincalhona e esquecia de comer antes de abandonar as suas brincadeiras.



Mal chegava junto das miúdas, escutou o canto da sua filha. A mulher sentiu logo um calafrio dentro de seu coração. Todos os pelos ouriçaram embaixo da camisola fazendo-a sentir completamente arrepiada e os cabelos pareciam querer pôr-se de ponta na sua cabeça. Um terror imenso percorreu todo o seu ser.



Ficou paralisada a escutar sua filha cantar:



"Deixa as tuas pernas treinadas

Levar-te onde o mar beija o Céu.

Palavras, contra silêncios"

Tris – trás

Bico não dás”



- Ganhei! Foi o grito da Lilia que tinha conseguido levar o “peletre” até o fim com todos os seus passos certos sem ter calcado nenhuma raia em quanto saltava e alastrara corretamente a pedrinha por entre as casas da amarelinha.



As miúdas estão absortas em seu jogo sem darem pela presença de Milena que está em pé diante de elas, paralisada, sem poder dar um passo:



A mulher não podia acreditar o que seus ouvidos estavam a ouvir. Olhava pasmada para a sua filha



Nimbwana, em seu mundo de brincadeiras, tem ar contrariado e abaixa-se para apanhar a pedrinha que fabricara para ela o Sr. Joseéda doca. Era mesmo uma bela pedrinha, lavrada em mármore grisalho com uma figura de ancora adornando a superfície. O Sr. José queria muito a menina. Conhecera-a desde pequenina, quando a sua mãe ia fazer os trabalhos da casa para ele.



Desde que ficara viúvo Milena era quem tratava dos seus assuntos domésticos.



Tinha de levar consigo à bebê que nascera ao pouco tempo dela chegar á ilha. Mas o Sr José não se importava por isso. Ainda gostava de crianças, depois que ele e a sua defunta Idalina nunca tiveram filhos.



O Sr José trabalhava todo tipo de pedra, quer para lápidas do cemitério quer para alguma obra dentro das casas de Porto Santo ou das aldeias da contorna. Isso fazia que tivesse uma economia saneada. Ele e a sua esposa queriam muito a menina que foram vendo crescer e, ainda ajudaram a criar.



Fazia-lhe os “peletres” a Nimbwana bem lavradinhos para que ela brincasse na amarelinha. Perto da casa onde a pudessem ver.



As ruas lá eram seguras e a miúda passava muito tempo a brincar com outras meninas nas horas do dia em que não estava na escola.



Hoje a Nimbwana está algo contrariada:



Ela era a dona da pedrinha, por sinal lavrada e bem distinta de qualquer outra e, ainda, tinha sido ela quem tinha começado a brincar e, ainda foi ela quem pintara a macaquinha no chão. Agora a Lilia tinha-lhe ganhado aquela partida e ela tinha perdido. Pegou na pedra de ar pensativo, todavia sem dar pela presença da mãe que a olhava dum ar preocupado.



Milena agarrou sua filha pelo braço e falou para ela com ar de desespero:



- Que era isso que estavas a cantar?  Quando foi que você aprendeu essa canção? Quem foi que lhe ensinou? - As perguntas saiam da boca da mãe atropeladamente, num arrebato de medo.



- O que é que acontece, mãe? É apenas uma canção para brincar. Eu não sabia que isso te iria incomodar assim.



-Não é o incomodo. Quero saber quem te ensinou essa cantiga.



-Foi anteontem. “Tava” no cais a brincar com a Ildara e havia lá uma velhinha sentada á beira da porta da Sinhá Mina. Ela cantava e cantava. Ildara e eu fomos junto dela escutar. Tantas vezes dizia a sua canção que deu para aprender as palavras e a música.



A mãe sabia o significado de aquela canção. E ficou espantada a conhecer que alguém mais sabia. E que , ainda, andava pela sua ilha. A que agora considerava seu lar. O seu porto seguro. Aonde ela chegara em condições tão precárias.Tão ferida e vulnerável.



O que nunca imaginou era que um dia iria escutar a sua filhinha cantar aquelas músicas.  Menos ainda a brincar ao ritmo daquele som. Um cantar que lhe trazia o som do mar triste. Do pular da maré. E das Orixás inimigas que habitam nas águas profundas.



Do mar perigoso e ameaçador. Um mar preto e inimigo que ela já conseguira esquecer, porque o trocara na sua mente, para outro:. Para um mar amigo, caminho de passagem, e de comunicação. Um mar que outrora fora para ela uma tumba era hoje um oceano vivo e atraente. Uma massa de água amiga que guardava para ela  os mistérios da sua origem africana .Tão longe hoje da Ilha em que agora vivia.



Pegou no braço da filha e, não disse nada. Apenas dirigiu a olhada para o infinito com ar preocupado. Depois, se virando para a pequena, dize um simples:



-Vamos comer que já é tarde.



A angustia e a ansiedade foram-se apoderando dela pouco e pouco. Não pude passar alimento nenhum durante o almoço. Apenas fez que comia mas, realmente, movia os talheres sobre o prato, em quanto vigiava que a sua filha comesse ajeitadamente.



Depois do almoço acabado e a cozinha arrumada resolveu ir para a doca. Iria procurar a mulher misteriosa que ensinara aquela canção à  sua filha. Nimbwana. Mas ia tão irrequieta e com o pensamento posto noutros lugares longínquos .Bem distantes da paz que hoje usufruía naquele cantinho de terra da esperança.



Tinha de resolver aquele mistério e acalmar os seus nervos e a sua angustia. Necessitava saber quem era aquela mulher misteriosa que sabia a canção do mar triste.



Com desespero mal dissimulado, percorreu o molhe, mas não viu nenhuma pessoa que lhe parecesse ser aquela da que sua filha lhe tinha falado.



Um grande barco, daqueles que vêm carregados de turistas, acabava de atracar. Uma multidão de pessoas começou a sair da sua barriga e invadiram os passeios, de maneira que a procura duma mulher, duma individualidade, quer fosse ela peculiar ou não, fazia-se difícil.



Os turistas ficaram a encher ruas e passeios até o fim da tarde. De maneira que Milena não dava enxergado nada particular a meio da multidão.



Todavia ela queria saber. Necessitava-o mesmo. Mil perguntas nasciam no seu cérebro como faíscas a torturá-la, produzindo-lhe grande angustia e uma forte dor na sua alma.



Sempre, sob este estado de ansiedade, foi bater na porta da Snhá Mina por ver se ela lhe podia dar alguma informação que lhe ajudasse a resolver o mistério da mulher que cantava a canção e o som do mar triste.



A “Snhá” Mina abriu logo a porta. Gostava de visitas e sempre estava bem disposta para receber á vizinhança.



-E então, Milena, - diz-lhe com o seu costumado ar amistoso. – Estás boa?Que é o que te traz á minha casa? . Já viste os turistas que acabam de desembarcar? Parece-me que de cada vez vêm mais. Logo vão encher todo Porto Santo.



Sempre a falar, a senhora Mina que percebeu logo a preocupação que a vizinha mostrava na sua cara, deixou-lhe passo para facilitar-lhe a entrada.



-Boa tarde. Estou mais ou menos. Muito obrigada minha Senhora. - A Mina passou logo ao assunto que a trazia ali:



-Olha lá Mina, eu queria era falar com você se tiver um momento que me dar.



- E como não! Para isso é que estão as vizinhas. Não achas Mileninha?Passa. Vais tomar um cafezinho comigo e falamos. Ta sim?



A Milena entrou querendo saber de seguida tudo acerca da mulher misteriosa que tinha cantado a canção do mar triste á porta daquela casa. Mas a Snha Mina não era mulher de andar as presas e disse assim:



-Calma, minha amiga. Vamos preparar esse café e logo falamos. Senta cá, e aguarda um pouquinho.  Vamos ver: mmm..., ponho neste lado a água, deito três ou quatro colherinhas de café moído neste outro, fecho bem, prendo o fogo e a esperar.



A Senhora Mina sentou numa cadeirinha e olhou para a sua amiga dum ar expectante:



-E agora, conte logo, Mileninha: Que é isso que lhe preocupa?



Milena foi direta ao assunto:



-Conhece uma mulher que estava anteontem a cantar diante da sua porta?



Ela fervia por saber da misteriosa cantadora. Mas teve que se agüentar e armar-se de paciência. A Mina tinha seu ritmo. Por sinal lento e calmo.



Isso era conhecido pela vizinhança o que fazia que não fosse freqüente a gente da vila ir ter com ela. As pessoas acabavam por se desesperar com aquele ritmo zumbóm e tropical que lhe era característico.



Viera para a ilha de Porto Santo em criança chegada desde o continente africano. Os pais morreram na travessia. Uma senhora da vila acolheu-a para ajudar na casa e a menina foi crescendo até que casou com o Francisco. Um pescador que o mar levou ao pouco tempo de nascer à sua única filha, Carolina.



Para Mina não existia mais Universo que o que tinha a ver com a criança que a tinha ligado por sempre a aquela pequena terra que era como uma língua a sair no meio do Oceano Atlântico.



Agora a filha andava por esses mundos fora e a pobre Mina sentia-se sozinha. Gostava de falar, de maneira que aproveitava a primeira ocasião para enfiar todas as palavras que pudesse com quem tiver a paciência da escutar.



- Ora bem, antes de tomarmos o café vamos pôr esta toalhinha de mesa que me ofereceu a minha filha Carolina. Não gostas? Eu acho-a muito bonita. Tu sabes a minha filha? Foi estudar á Universidade dos Açores e tirou o curso de professora. Sempre foi boa estudante. Agora já tem trabalho e leciona numas escolas da África. No Continente! Estas a ver! . Já tem estado a dar aulas na Camacha e, ainda, na Madeira. Repara!



Lá ensina a ler e escrever a crianças e também ás pessoas como tu e como eu. Vai com um programa de alfabetização para os países de fala portuguesa. Olha lá, Milena! . Tu vês que bom! Saber ler e escrever. Já lhe disse eu:



-Quando tenhas férias vais ficar uns dias cá em Porto-Santo, com a tua mãe e vais-me ensinar. Se tu quiseres, Milena, também podias aprender...



Milena estava no ponto de perder toda a sua paciência. Embora já conhecesse a Snhá Mina e soubesse da sua afeição a falar e falar, aquilo era de mais, de maneira que tomou fôlegos e interrompeu o discurso da sua comadre que visava nunca acabar. Ela queria era saber da mulher da canção. Quem era. Como sabia aqueles tristes versos e porque se tinha molestado em cantar-lhos a sua filha.



Infelizmente, a Snhá Mina não soube lhe dar nenhuma noticia acerca da misteriosa senhora.



-Olha Mileninha , eu é que não sei. Anteontem não esteve por cá. Tu sabes... Fui de barco para a ilha grande da Madeira. Levou-me Pedro na sua barca de pesca que é um patrão muito bonzinho. Ele tinha de ir lá arranjar papeis e fazer varias encomendas que lhe fez a sua mulher, Matilde. Não me quis cobrar nada pela viagem. Disse assim:



-Não minha Senhora. Eu tenho de ir  obrigatoriamente. De maneira que não vou cobrar coisa nenhuma. Ainda fico obrigado por me dar companhia. Tas a ver! Obrigado ele!



- Não, não, disse-lhe , obrigada eu. Por amor de Deus!



-Eu queria ir lá para comprar uma teia para fazer-lhe os lençóis da cama para a minha Carolininha. Quero que tenha um bom enxoval. Para ela tudo é pouco. E, a boa fé, que comprei uma peça bem linda. Queres vê-la?... Agora já aprendi a coser na máquina elétrica porque fui aos cursos que faz a Câmara. Não tens ido a nenhum, Milena?



A Milena murmurou qualquer desculpa e foi para a porta. Ainda a Mina continuava a falar trás dela acerca das oportunidades que lhe dava ter ido a apreender a coser e, ainda que Milena deveria ir também se queria encontrar melhores trabalhos.



Conseguiu abrir a cancela, disse um “adeus Snha Mina” rápido e saiu para a rua. Em seus ouvidos seguia sempre a escutar a voz da outra que continuava com o seu relatório acerca das bondades do Pedro, dos cursos de costura da Câmara, do lenço que tinha comprado e da inteligência da filha que era professora lá nas partes do Continente.  Na África.



A Carolina! A trabalhar naquele continente que lhe trazia lembranças dozes e também amargas, e sinais de outros tempos bem mais difíceis para ela dos que os atuais naquela tranquila ilha em que agora morava. Falou para sim:



- A vida prece querer fazer um círculo. Umas pessoas tinham ido embora, fugindo duma Terra dura e hostil, e outras jovens e preparadas vão lá para trabalhar na ajuda dos que lá ficaram.  Daqueles que não tiveram ( ou não puderam na altura), a coragem de se arriscar na procura duma vida melhor e mais justa. Ainda com o risco da sua vida.



Qual o preço de tanto movimento?  Teria sido melhor ter eu ficado a viver lá entre a fome e a guerra? Ficar ainda na minha Terra. Junto dos meus. Morrer ou viver com eles. Nascer e morrer. Só algumas pessoas neste mundo tão injusto, conseguem que isso aconteça na mesma terra.



Uma vez contaram-lhe a estória dum Ulises que tinha viajado dias sem conto até que conseguiu voltar ao seu País . Ela nunca voltaria ao seu lar . Á sua aldeia  Seu lar estava agora cá , nesta ilha calma ,chantada a meio do Oceano entre América e Europa. Entre África,onde ela tinha as suas origens e outra Terra,ainda mais longínqua, de onde procediam muitos turistas como os recém chegados: As Américas.



Se calhar e, se eu  não morrer, estaria agora a ser ensinada por alguma menina vinda de alhures para ler e escrever as palavras pretas como moscas, num papel branco. Para ler o que? Para escrever a quem?...



Em pé face o mar, possuída pelos seus pensamentos e as suas dúvidas, a sua vista perdeu-se até o horizonte. Um aceno de melancolia debuxou -se - lhe no rosto e sentiu-se cansada.



Procurou algo em que se sentar, olhando a direita e esquerda. Viu lá um talhinho e pousou nele. Todavia, deixou a sua vista perder-se no longe deslizando-a sobre as águas que hoje, por sinal, estavam calmas. O mar brilhava como um prato de prata que nascesse das escumas longínquas  e da dourada areia da praia.



Mas ela bem sabia que nem sempre eram assim as águas. Que o mar podia ser muito traidor ­. Um bravo. Um faminto . Um malvado engoledor.



O grande guloso de bandulho nunca farto.



Levantou-se do seu asento e , lentamente , dirigiu-se até a praia . Um feitiço como um triste fado guiava seus pés .Tirou os sapatos e caminhou pela areia dourada em quanto sentia a atracção fatal daquela lámina de prata . Não sabia que força era que a guiava para lá do fundo do horizonte   e uma voz começou a nascer e cantar dentro do seu cérebro:



Amiga que vais para longe

Cuida que teus pés morenos

Não afundem nos lameiros

Fedorentos dos lamentos.


Olhou seus pés escuros a destacar no ouro da área da praia. Sentiu um calafrio a percorrer-lhe as costas e o medo penetrou-a e colheu forma dentro dela como um parasita a habitá-la:



A imagem do mar bravo formando olas imensas tomou lugar na sua mente, substituindo o quadro idílico que se lhe oferecia.



Para ela enganoso e de calma atraente.



E dentro da sua cabeça começaram a soar os lamentos de homens e mulheres cheios de terror.  E as tristes queixas  bruavam em sua cabeça fazendo um imenso barulho que enchia  tudo.



Os desgarrados laios de Seres Humanos a bater os uns com os outros no pequeno espaço duma barca, pareciam sair d’aquele mar, hoje, por sinal em calma.



E do mar saíam imagens que ela via como uma fantasia onírica: Sonhos de terror que rara vez a abandonavam.



Homens e mulheres dentro daquele esquife que saltava sobre as águas como casca de noz.



Uma débil casca adornada de pinturas descoloridas que era o único que os afastava da morte certa, no liquido preto que parecia querê-los engolir como um monstro guloso.



Uma pobre barca que roubaram naquela praia de África ao homem velho que queria cobra-lhes um dinheiro que ninguém tinha, por lhes alugar o transporte da esperança até uma vida diferente da que tinham.



Possivelmente uma vida melhor e em liberdade. Possivelmente também o caminho duma morte certa.



Pobres a roubar pobres.



Na solidão do pôr-do-sol no imenso areal doirado de Porto Santo em que estava, voltou ouvir a voz do velho de pele seca como couro de vaca, a maldizer aquela malta, que lhe roubava a que, possivelmente, era sua única pose.



Todavia o velhote convocava todas as Orixás e os espíritos do mar para que punissem aquela tropa de malandros que lhe tinha levado seu “caiuco”. Para que os engolissem até saciar a fome de intrusos a cruzar as ondas daquele bandulho como fole sem fundo, nunca saciado em que se viravam as águas do mar quando ele se enfadava. Se calhar picado por malvados Orixás, como as invocadas pelo velho que ficava frustrado na praia Africana.



Uma casca de noz, pintadinha de branco, azuis e amarelinhos. De cores já algo esvaídos pelo uso e o tempo, com uma proa levantada para o céu com um olho nela pintado que parecia querer desafiar os maus ventos e os malvados espíritos do mar. Um olho que queria enxergar o rumo certo e o horizonte. Uma mísera barca onde se meteram mais pessoas das que deveram:



Os cinco que vieram com Milena desde a sua aldeia, em médio do deserto, e outras que apareceram desde onde ninguém sabia.



Tinha sido uma loucura: Mal começaram os cinco a mover a barca para o mar, chegaram como por um chamado misterioso de detrás das dunas da praia um grupo de pessoas que se lançaram dentro enchendo o pobre esquife até o limite.



Uma barca pequena, feita para pescar perto da praia estava agora cheia de humanidade em desespero, dirigida para o bravo mar de fora. Todavia por mãos inexperientes ignorantes do mar.



Assim, daquela maneira tão precária, empreenderam a travessia por sobre a imensidade do oceano:



Marinheirinhos de terra dentro!



Daquele grupo bizarro só ela vive. O mar tinha sido mais forte a saciar a sua fome de gente do que a sua esperança a chegar a um ancoradouro seguro onde fazerem seu novo lar.



Num primeiro relance roubou-lhes os remos: Dum só golpe, deixando o pobre grupo ao pairo e a mercê das correntes marinhas. Logo à noite, ainda virou às águas em bocas pretas com dentes de espuma brancos a se abrirem famintos sobre o pequeno esquife.



Longe ficava a aldeia em meio das areias. Terras seca em que se tinham convertido os antigos campos de cultivos. Mais dum ano sem chover e as árvores convertidas pouco e pouco em lenha para fogo em que cozinhar os pobres alimentos que iam conseguindo. Logo vieram os soldados. Forçaram as mulheres e roubaram os poucos miúdos que ainda ficavam com vida . A mamã e a tia Mulembe esconderam-se entre o mato e ela conseguira escapar.



Andando com andar longo sempre a caminho do mar. Seguindo o rumo do sol com passo. certo até encontrar a praia.  Deixando as suas pegadas no ar, apos do vento.



E junto com Molique caminhou aventando o salseiro da maresia  vinda do mar.



E juntos viram a oportunidade que aquele frágil esquife lhes prestara . Uma pobre barca que era a única pertença doutro pobre como eles. Mas a oportunidade virou em morte e escuridão.



Um barco que fazia a travessia entre o continente e as ilhas, encontrou os restos do naufrágio daquele projeto frustrado, da gente perdida em alta mar. Marinheirinhos de terra adentro.



Os Orixás do oceano tinham ido atirando do “caiuco” uns após dos outros para o fundo para serem engolidos pelas águas:



Dois homens fortes, uma mulher embaraçada, três meninos que não teriam mais de catorze anos outra moça nova como ela, mas tão forte como um rapaz...



Tantos, que nem os puído contar antes de conhecê-los.



O mar pode-se mostrar muito contrariado. Como acontecera aquela triste noite. O guloso, de bandulho nunca farto. Sempre com fome de homens e mulheres que ousarem cruzá-lo ignorantes das suas regras ou dos seus caprichos.



Milena lembra, apenas, que foi levada até uma cama seca nos braços fortes dum marinheiro que a sustentava no ar. Lembra também os sonhos de medo e, vagamente, os delírios que a assaltaram lá deitada naquele barco de carga que cheirava a peixe seco.



O cheiro a peixe ainda lhe volta e a acompanha nas noites de solidão, quando o sono não quer vir junto dela.



Agora mora lá, na segurança da ilha do Porto Santo. Para ela a Ilha da Esperança, donde o barco de pesca deixou-a um dia há mais de oito anos.



Sua filha vai à escola e sabe ler e escrever. É possível que um dia chegue a ser professora e, ainda lhe possa ensinar a ela a interpretar as palavras pintadas sobre uma folha de papel. Todavia, que um dia, também como a Carolina, vaia lecionar a alguma aldeia africana, e ensinar a ler e escrever a miúdos e maiores.



E,também, mostrar-lhes como o mar é poderoso e forte. E como as águas podem engolir gente para as profundezas do seu líquido corpo do medo.  Se calhar algum dia a sua menina poder irá mostrar a outras pessoas, como os mares podem unir povos e levar ensinos e saberes duns lugares para os outros.



Por em quanto, hoje a sua filha canta a brincar sobre um jogo pintado no chão, uma canção que ela ouvira na longínqua praia da partida.

Uma canção que foi como uma maldição levada nas asas do vento a voar sobre as negras águas do mar.



Uma ladainha saída da boca dum velho de pele dura como couro de vaca a gritar desesperado desde a beira da praia em quanto lançava a sua maldição



Cuidai que vossos pés morenos

Não afundem nos lameiros

Fedorentos dos lamentos!



Um grito de desespero dum pobre a ser roubado por outros pobres. E o seu grito de velho pousou nas areais da praia africana e desde ali  elevou-se por cima das águas e pairando nas ondas , virou-se em fumareu e rodopio  que fincou entre o salseiro e fundiu-se com as águas do mar que viraram as suas cores verdes de esmeralda Atlântica  para pretas como a cerne do ébano, duras e profundas .E a barca saltitava sobre um mar que se riçava mais e mais e apanhava entre os seus caracóis brancos as notas da canção fazendo-a sua numa coral ameaçadora e mortal.



E os águas devolveram aquelas músicas como uma maldição saída das tebras dos seus fundos.



Uma maldição que atingiu á pobre tropa do infortúnio, de marinheiros a força, ignorantes do mar. Marinheirinhos de terra adentro.



Milena está chantada com os seus pés morenos na areia dourada e olha para o mar. Já está escuro, que a noite cai depressa no trópico, e a massa de água está a virar num prato de cor de chumbo que se estende para lá da praia: Para o Além.



“Olhar longo e passo certo”



Milena levanta-se lentamente. Escuta a voz do mar.



E as águas cantam uma triste canção:



Amiga que vais para longe

Admira-me teu passo certo:

Pegadas após do vento.

Minha amiga de olhar longo,

no horizonte do incerto pensamento:

Rumo incerto.

Deixa as tuas pernas treinadas

Levarem-te onde o mar beija ao Céu.

Palavras, contra silêncios.



Milena escuta a sua própria voz e deixa andar para o mar suas pernas treinadas, geração após geração, em duros trabalhos, em marchas sem fim através de desertos de pedra e areia.Treinadas em abraçar outras pernas, em abrir-se para deixar entrar o sexo no seu corpo fecundo,em parir filhos sem futuro.



Caminha como um autômato, para o negro corpo do medo que a chama e a quer abraçar como um fado cruel.



Sente a atração fatal do mar e quer também ser abraçada pelos braços líquidos. Os mesmos que levaram a Molique para as profundidades misteriosas daquele fosso infinito em que desaparecera. Arrancado de seus braços pelos mais fortes e poderosos dos Orixás de bocas pretas e dentes brancos, que saiam dentre as águas embravecidas.



Molique , o que ria e cantava. O que era mais forte que outro qualquer. O que a segurava em seus braços quando ela tinha medo da escuridão. Quem a tinha resgatado dos cruéis soldados que invadiram a sua aldeia e a violaram brutalmente.



Molique que lhe dava a mão durante sua longa caminhada até a beira do mar e lhe ensinara  a rir e cantar. Com quem aprendera a amar. Quem lhe deixara como prenda, o bebê que já levava dentro antes de se iniciar a triste travessia marinha.



Um bebê que nasceu na segurança da pequena e acolhedora ilha. Uma menina que ia á escola com as outras de seu tempo, e sabia ler, e cantava em quanto brincava, na tranquila rua, ao jogo da Amarelinha:



Nimbwana que, nestes momentos, desespera e anda a procura da sua mãe que não está em casa para a hora de jantar.



E ela, entre tanto, caminha sempre para o liquido escuro, cor de chumbo, deixando ir seus pés sem guia. A água já os molhou e, ainda, ela continua a andar para as profundezas.



Um Grito quebra o ar calmo da ilha!



-Mãe! Mãe!



Milena escuta este último som, enquanto a água preta do mar noturno a cobre por completo.



Os Orixás querem cobrar seu tributo. A maldição lançada naquela praia de África por um velho de pele seca como couro de vaca tem de ser realizada.



Todavia, o mar é uma massa que vai e vem. A onda se retira da praia e da para ver o corpo da mulher desesperada.



E o ar leva o grito angustioso duma filha, a voar para além de todos os malefícios.



E o amplifica e o transporta até os ouvidos do instinto.



Milena fez um aceno de esforço. Luta contra as águas que querem alastrá-la para longe.



Pega numa madeira que lá está a flutuar, e salva a segurança da praia até que os seus pés pousam em sólido.



Na areia, ainda nos rompentes, mãe e filha fundem-se num abraço úmido e salgado em médio da negra noite cálida, na ilha da Esperança do Porto Santo.



A Lua sai e ilumina o mundo que brilha na ardentia das espumas fosforescentes das águas que sempre batem na praia. E a lua lança um sorriso pícaro para o mundo



Nimbwana poderá estudar e, se quiser, algum dia vai poder ensinar a ler e escrever a miúdos e grandes que desejarem aprender.



Por em quanto brinca nas ruas tranquilas a seu jogo preferido pintando no chão um caminho que irá chegar ao céu e canta para acompanhar a sua brincadeira:



Imbo, Cachimbo  / Ambo descanso

Pim-piri- Gloria

Fora



Uma glória que lhe fora furtada o seu pai, que não conheceu, e a tantos infelizes apanhados pelos braços negros do oceano. Sua gente do outro lado do mar.



Ainda o mar canta a sua canção de poder e de vingança:

CANÇÃO DO MAR TRISTE:

Milheiros de corpos e d'almas

vagueiam pelos infernos

de ondas bravas,

e escumas como lamentos:

Minha amiga,

E tu atendendo

As almas de tantos amigos

navegando em cadaleitos,

como esquifes,

de incertezas feitos:

Minha amiga,

E tu atendendo.

Profundos lamentos se erguem

do negro líquido espesso

Como ganchos

perfurantes

paridos num mar lamacento,

frio leito,

Minha amiga,

E tu atendendo:

Braços tendidos , maus abertas

para as vazias apertas

da imensidade do oceano .

Minha amiga,

E tu atendendo.

Braços como remos d'ébano

chicoteando

no líquido corpo do medo.

Minha amiga

Não há remeiro.

As universais penas

das fomes e dos silêncios

cavalgam como cavalinhos

brancos

nascidos do fosso negro

dos avernos.

Marinheirinhos

De terra dentro.

Humana gente deitada

no poço piago do tempo.

Mulheres, homes e crianças ,

Minha amiga,

Contigo,atendendo .

Corpos como arcas d'esperança

línguas como facas de mentiras

navegando entre frustradas vinganças

a naufragar na traição mesquinha.

Minha amiga,meus amigos ,

mergulhando

no líquido Atlântico Oceano.


Dedicado a toda a gente que teve de cruzar o mar na procura dum mundo melhor.

[1]É um jogo que tem muitos nomes.Como Mariola é conhecida na Galiza. Na França Marelle, em Brasil Amarelinha ou pula maré. Rayuela em Hispano–América. A pedra, na Galiza, chama-se “Peletre”.

 
Autor: Adela Figueroa

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