O Coração de Leão | CONTOS DE TERROR
Você está aqui: Home > Contos Fantásticos > O Coração de Leão

O Coração de Leão

PDF Imprimir E-mail
(88 votos, média de 4.41 em 5)
Escrito por Olavo Mattos   
Qui, 29 de Maio de 2014 00:00

 

Coração de Leão

 

O Coração de Leão

O menos Rei da Inglaterra foi corodado duas vezes

por Olavo Mattos

(Da série - “ Olaff Palmer: O viajante do Tempo. ”)


Ricardo nutria um ódio pelo seu pai, Henrique ll, rei da Inglaterra. Viveu com sua mãe entre os normandos, falando sua língua e adquirindo seus costumes, inclusive o respeito ao povo, hoje francês. “Não tenho nada que me identifique com aquele miserável, tirano, que insultou minha mãe deixando-a voltar aos domínios dos francos, sem nem se importar com o futuro dela, e muito menos com o meu. Nunca averiguou o meu estado de saúde e características pessoais ou bélicas” - dizia a termo.


Pai morto, Ricardo retornou à Inglaterra para ser coroado. E assim o foi. “Como posso amar uma nação corrompida e miserável, com um povo não menos que isso?” - aos baixos falava o novo rei.


Não perdeu tempo e, logo após a cerimônia começou a reunir condições para ir às cruzadas: “Melhor partir em guerra santa estrangeira e sumir daqui, pois, do contrário, vermes ingleses irão me amaldiçoar terrivelmente.” Utilizou o tesouro real para seu intento, e mais, distribuiu patentes nobiliárias em troca de ouro, cessões de terras, títulos distribuídos a rodo e, vejam só, entregou a Escócia aos nobres escoceses, em troca de vultosa soma em ouro.


Reuniu um exército e foi fazer a terceira cruzada, pois não conseguia viver naquele país. Derivando sua antipatia do pai a todo o povo Inglês, deu as costas ao seu reino. Em sua longa jornada por Medina e além mar, aportou na ilha de Chipre, onde o rei Isaac Commeno, por medo de saques mandou-o embora. Ofendido, ele não foi e após um massacre conquistou a ilha, subjugando seu soberano bizantino.


“Destruí seu reino, casarei com uma de suas vossas princesas e tudo aqui será meu” - bradou o monarca. Casou-se e coroou-se rei daqueles domínios, despertando a fúria do Sacro Império¹.


Logo após esses acontecimentos, partiu para Acra e começou o embate com os turcos e muçulmanos, onde teve algumas vitórias contra Salãh ad-Din (Saladino). Dizem que ganhou um grande respeito do sultão e era recíproco, pois nas contendas havia várias táticas de guerra e muita coragem, de ambos, mas sempre longe de Jerusalém.


Em Jaffa após uma batalha o Rei Ricardo, diante de Saladino disse: “Perdi três mil homens e você perdeu dois mil. Estou pronto para perder mais três mil e você? ”O Sultão olhou para os lados observando a carnificina e, com pesar, respondeu: “Toda morte individual dói em Ala! Duas mil mortes são muitas. Você ganhou esta batalha. Respeito meu povo e suas famílias. Oro pelos meus e pelos seus... Retiro-me momentaneamente. Nós velamos nossos mortos e esta batalha, como disse, você venceu”.


“O desgraçado nunca me deixou chegar perto daquela terra maldita, impedindo minha glória de conquista”. - Balbuciou o fidalgo real.


Ao seu lado estava Felipe ll, rei da França, inimigo da Inglaterra, a quem conseguiu convencer a acompanhá-lo, deixando a Inglaterra mais segura, e Leopoldo V da Áustria, este sempre uma pedra em seu sapato, motivo de desavenças e robustas discussões.


“O bastardo austríaco, invejoso, retardado, estava ali só para me afrontar e garantir minha derrota” - dizia o Rei Ricardo.


O leão sem coração recebeu notícias de seu país, onde o seu sucessor, João, estava se intrometendo na política e fazendo um governo perverso, deveras impopular e cruel. Isto o fez voltar antes do tempo, pelo menos serviu de álibi, pois o fato de Felipe ll e Leopoldo V terem debandado em retorno à Europa já inviabilizava uma invasão a Jerusalém. Fala-se que o Coração de Leão nunca chegou perto de Jerusalém e nunca nem a viu, nem de longe.


Voltando para casa, no meio do caminho foi surpreendido e imobilizado por Leopoldo V, que se tornara inimigo público, dadas as ofensas mundanas pronunciadas por Ricardo contra sua pessoa. “Filho de uma cadela, traidor, devasso, bastardo!”, foram as menores ofensas dirigidas ao nobre austríaco, no fragor das discussões.


Com apoio do Sacro Império, Leopoldo V levou o rei prisioneiro para um castelo na Áustria, onde este passou encarcerado 14 meses, até ser resgatado por uma vultosa soma(para se ter uma ideia, a Inglaterra arrecadava anualmente, com impostos e produção, um terço do valor pago como resgate). Além do erário, o povo, os nobres e os judeus, oprimidos por João, fizeram uma “vaquinha”. A guarda real ia de casa em casa tomando, compulsoriamente, as coisas de valor que encontravam. (Novidade, né?).


Pago o resgate, ao retornar à Inglaterra, se arrependeu dos atos, se confessou e foi novamente coroado Rei. Ricardo teve uma segunda chance de governar seu povo, mas não demorou muito tempo e o recoroado “Coração de Leão” foi numa nova investida de guerra, além de suas fronteiras, na qual levou uma flechada no estômago e veio a falecer em decúbito horizontal.


“Melhor morrer aqui a voltar àquela terra sombria, cheia de lama, na qual chove o dia inteiro uma chuva decrépita, defendida por pessoas não menos decrépitas. Metade do ódio que tenho pela Inglaterra é por minha mãe, a outra metade é pelo meu pai”.


Suas últimas palavras no leito de morte surpreenderam o padre e seus súditos que, por prudência mundana, não ousaram oficializar suas últimas palavras, na extrema-unção, com esse revés.


Um Rei adorado, que detestava o seu povo, é, de todos, o único conhecido pelo apelido de “Coração de Leão“, sem número régio.


Amado pelo povo sem merecer, Ricardo foi coroado duas vezes. Com certeza ele foi um leão, mas seu coração jamais pertencera à Inglaterra... Um amor inexplicável, unilateral e sem sentido. Aliás, só a ignorância popular, a opressão e a fome podem assim, justificar. O povo nunca se deu conta que nem a língua  inglesa ele sabia falar...

 

 

“Rex qui populus non diligit, non memoratu digna.“

Um rei que não ama seu povo, não merece ser lembrado.

 

 

 

¹ Império que englobava a Alemanha, Áustria, Luxemburgo, República Tcheca, Bélgica, Suiça, Eslovénia, Parte da França, Itália e Polônia entre outros. Seu primeiro Sacro Imperador foi Carlos Magno, coroado em 800 DC e o último foi Francisco ll. O Sacro Império permaneceu até o início do século XlX.


Nota do autor: Aguardem: “ Assim viveu Zaratustra ”

 

 

 

Comentários   

 
#2 Guest 03-11-2015 16:02
enviar
Citar
 
 
#1 Guest 08-07-2014 21:18
Olavo.Não sou conhecedor dessa história, mas, confio no que você diz ou publica, portanto, obrigado por ter aprendido mais um pouco com você.
Valeu. Um abraço.
Wilson
Citar
 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

 

PageRank

Pesquisa de informações

Leitores Online

 

Área de Autenticação








Após o cadastro, acesse seu e-mail e siga as instruções.
Copyright © 2019 CONTOS DE TERROR. Todos os direitos reservados.
Joomla! é um Software Livre com licença GNU/GPL v2.0.