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O Alto Preço da Vida

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Escrito por Pedro Paes   
Qui, 28 de Janeiro de 2016 00:00

 

O alto preço da vida

 

O Alto Preço da Vida

(Conto baseado em "Morte", de Neil Gaiman)

Por Pedro Paes


Soluções Drásticas


Ao despertar, naquela fria e úmida manhã de outono, Cornélio estava decidido. Iria dar um fim àquela realidade abjeta e desoladora que chamava de vida. Enxergava sua própria existência como um fardo e não conseguia mais lidar com a impiedosa cobrança de viver em sociedade. Por 29 anos foi do tipo que não se encaixava nos padrões. Introspectivo e observador, tentava se ajustar à sua maneira, mas tudo era confuso demais, nada fazia sentido. Sentia o fracasso correr em suas veias. Alimentava a alma em fundos pratos com caprichosas porções de frustração e angústia. O sentimento de rejeição a que foi submetido desde cedo fez com que se criasse e desenvolvesse uma reciprocidade negativa com o mundo. Desde então não foi mais capaz de enxergá-lo como algo além de uma imensa e contaminada bola flutuante.


Era um dia atípico e cinzento. O sol não castigava tanto como nos dias anteriores, só o movimento nas ruas permanecia como de costume, a cidade nunca parava. Naquele dia, Cornélio deixou um bilhete e saiu de casa. Cansei, por favor não me procurem eram os dizeres. Não quis cometer um ato tão hediondo ali, na frente da família.


As folhas despencavam das árvores e alguns fragmentos caíam em seus olhos e cabelos, enquanto fazia o que havia decidido que seria a sua última caminhada matutina. A brisa que batia em seu rosto era suave e agradável, mas o homem estava entorpecido e indiferente demais. Apenas procurava um lugar para fazer o que pretendia, longe daquela multidão que o cercava. As aglomerações eram algo que o perturbava quase mortalmente. Antes de qualquer outra atitude, resolveu que ainda faria uma última refeição. Comer ainda era um dos poucos prazeres mundanos que havia sobrado. Parou em uma dessas padarias de esquina, que era o máximo que a sua atual situação financeira lhe permitia desfrutar. Sentou-se, acendeu um cigarro e pediu um café e um salgado de frango que estava solitário e exposto no balcão. O balconista começou a dialogar despretensiosamente, enquanto servia o café.


-Hoje o tempo tá feio, né amigo?


Cornélio não o olhava diretamente. Apenas observava o curso do líquido preto e fumacento que saia da garrafa e era despejado em sua xícara. Falou naquele dia pela primeira vez, com a voz baixa, quase sonolenta.


-Pelo contrário. Está perfeito.


-Mas está a maior cara de chuva!


-Pois então que chova. Se inundar tudo, melhor ainda.


Pegou a sua xícara já cheia, com o gesto de erguê-la, como se brindasse àquilo. E levantou os olhos pela primeira vez em direção a um balconista levemente assustado.


-Bem...se você diz, não é?


Cornélio tomou um gole do café e virou-se demonstrando seu desinteresse em prosseguir com aquele assunto enfadonho e dispensável. Não deu importância aos murmúrios do balconista, apesar de ter quase certeza de ter ouvido algo como “esquisitão”.


Enquanto fumava o seu cigarro e bebia o seu café, se lembrava com um certo prazer que muito em breve não precisaria mais lidar com aquele mundo horrível e repleto de podridão humana. A sensação que percorria o seu corpo era de como se tivesse tomado uma droga forte e ela estivesse começando a fazer efeito. As primeiras impressões de que em breve as cores abandonariam seus globos oculares começaram a aparecer. Ouvia vozes, prováveis alucinações. Vozes na sua cabeça que se misturavam com as da multidão. Tudo acontecia enquanto sentia o gosto forte e amargo do café e soprava aquela fumaça como uma locomotiva. O salgado ainda estava intacto, esperando pela primeira mordida. O homem só lembrou que aquilo estava ali quando precisou espantar as moscas que começaram a sobrevoar aquela fritura com a aparência do dia anterior. Foi também quando percebeu que estava sendo ridículo em se preocupar com tamanha banalidade em seus últimos momentos.


Antes de dar a sua primeira mordida e voltar a ficar absorto em seus pensamentos, percebeu que estava sendo observado, mais precisamente abaixo, a poucos centímetros de suas pernas. Estava sentado sobre as patas traseiras e os pelos negros despenteados, a orelha baixa e o olhar de pedinte desabrigado não deixavam dúvida de que era um cachorro. Um vira-lata, talvez.  Mas aquela não foi uma interrupção incômoda, Cornélio sempre teve muito apreço pelos animais e por ele levaria todos que encontrasse na rua pra sua casa, mas isso independia da sua vontade, por sua família não compartilhar do mesmo sentimento.


-Você é um bom garoto, não é? É isso que você está querendo?


O rabo do animal começou a balançar no instante em que o homem pegou aquele salgado que, ao menos para os olhos de um cachorro, era suculento.


-Faça um bom proveito, você precisa mais do que eu. Dá pra ver as suas costelas daqui, meu amigo.


Largou o salgado inteiro e deu para o cachorro comer, enquanto o afagava. O café e o cigarro já bastavam para o homem. Distraído com o cão e esboçando um sorriso, quase não notou a mulher gorda que se aproximava. Parou em sua direção, ofegante e com as mãos nos joelhos. Seu olhar era de um predador voraz.


-Anakin! O que pensa que está fazendo? Largue isso!


A mulher usava um vestido vermelho e mal cabia na própria roupa. Tinha um perfume forte e enjoativo e seu odor logo penetrou nas narinas de Cornélio, causando uma vontade quase irresistível de espirrar. Aquilo era inesperado e deixou o homem atordoado. O cão, oprimido, obedeceu a sua dona, mas não antes de ter devorado mais da metade do salgado.


-E o senhor? Como se atreve a dar essa porcaria para o meu cachorro comer? Pensou que fosse um cachorro de rua vagabundo?


-Na verdade, sim.


-Mas que audácia! Pois saiba que ele tem dona e sou eu! Vamos, Anakin, da próxima vez que eu te pegar fugindo eu te castro!


A mulher gorda prendeu o cão na coleira, olhou uma última vez com um desprezo fulminante para o homem e partiu. Quase podia jurar que ainda ouviu o cachorro se despedindo e agradecendo. Mas estava ciente que a sua saúde mental estava comprometida e essa era uma ideia absurda. Pobre animal. Não merecia uma dona tão escandalosa e agressiva como aquela o homem pensou consigo mesmo. A ideia de discutir sobre possíveis maus tratos com animais surgiu em sua cabeça, mas percebeu que seria inútil conversar com alguém daquela natureza. E talvez não devesse ter dado aquilo de qualquer maneira, apesar de suas boas intenções. Se sentiu um lixo repugnante por isso, apesar de que sentir-se assim não era nenhuma novidade. Deu um profundo suspiro, terminou seu café e cigarro, pagou a conta e continuou a sua jornada solitária rumo ao seu caminho só de ida.


E ali estava ele. Caminhava pensativo e sozinho outra vez, naquela fria e nublada manhã de outono. As pessoas passavam por ele, apressadas e indiferentes. Ninguém sabia ou se importava com o que se passava pela sua cabeça. E se soubessem, talvez nem sequer tentariam impedi-lo. Sua fé e esperança na humanidade já haviam abandonado cada fibra do seu ser e dificilmente seriam restauradas. De nada lhe servia tanta evolução tecnológica e as praticidades contemporâneas, se as pessoas já haviam esquecido o principal.


E naquela mesma manhã de outono, seus pensamentos foram cortados pela segunda vez. Um homem de muletas, gorro e roupas velhas esfarrapadas o abordou, logo após acender o segundo cigarro do dia.


-Me dá um desse aí, doutor? O meu acabou e só tenho o meu vício pra sustentar.


Mesmo com a má vontade visivelmente estampada em seu rosto, o homem optou por evitar desavenças desnecessárias.


-Tome, fique com este.


Deu o cigarro recém aceso ao homem aleijado, sem refletir muito sobre as palavras que deixou escapar em seguida enquanto procurava abrir espaço.


-Mas corra atrás da próxima vez. É melhor do que pedir aos outros.


O mendigo absorveu aquelas palavras e ergueu a sobrancelha ao perceber que aquilo soava como uma piada de péssimo gosto. Ou pelo menos, foi como interpretou.


-Eu não posso correr, seu filho da puta!


E apagou o cigarro em suas costas, furiosamente.


Cornélio não teve a intenção de escarnecer de suas limitações físicas. Mas que diferença faria explicar? O homem aleijado estava indignadíssimo e provavelmente dizer que havia usado uma linguagem simbólica seria pura perda de tempo. Cornélio não teve o reflexo de reagir e evitar que a sua jaqueta ficasse suja de brasas e ganhasse uma mancha tostada.


Agora com uma possível queimadura superficial no meio das costas, seus olhos assumiram um tom baço, mal-humorado. Casos como aqueles eram tão corriqueiros em sua miserável vida, que não era à toa que se sentia uma peça sobrando de um quebra-cabeças. Se ainda houvesse uma chance ínfima de voltar atrás em sua decisão, aquele dia até ali definitivamente não estava ajudando. Cada vez mais decidido e determinado em sua decisão, andava em passos mais apertados, na intenção de se livrar mais rapidamente de todos que o intoxicavam. Lembrou de seus fones e encaixou em seus ouvidos. A música eventualmente aliviava a tensão e o deixava mais confortável. Se não tivesse uma boa trilha sonora para acompanhá-lo, nada valeria a pena, nem mesmo o suicídio. O tema musical escolhido foi um dos mais apropriados. Quando começou a tocar Highway to Hell, do AC/DC, Cornélio cantarolava a música, com sua voz longe de ser afinada, durante boa parte do percurso. Desconsiderou a presença da velha senhora que saía da igreja e se benzia, coincidentemente na hora em que ele cantava o famigerado refrão. Quando foi pegar mais um cigarro no bolso da jaqueta, percebeu que no lugar onde deveria estar a sua carteira estava apenas o vazio.


-Foi aquele desgraçado. Não bastou queimar a merda das minhas costas!


A vida não lhe dera direito a mais um último fumo. O homem que o queimara aproveitou o momento propício para livrá-lo de seus preciosos cigarros. E não restava mais um centavo sequer para conseguir outros.


Mas não importava mais. Apenas continuou o seu caminho. Errante até o momento, foi ali que havia decidido como faria para se livrar do seu fardo existencial. Observou que a ponte estava próxima e já havia criado uma distância razoável de toda aquela selva urbana em que estava metido.


A ponte, por ser uma obra inacabada, estava abandonada. Na margem do rio que passava sob a ponte havia apenas lixo, dividindo espaço com pneus velhos e barracos desconstruídos. O homem andava em sua direção e a cada passo se aproximava mais do seu ponto mais alto. Então é aqui onde tudo termina. Se algo for me impedir, que seja agora. Mas nada aconteceu. O silêncio agora era absoluto, a não ser pelo canto das aves e barulho do curso do rio. Já estava no ponto mais alto da ponte. Dali até o chão havia vinte metros aproximadamente, era altura suficiente para o que pretendia. Olhou para o horizonte por alguns segundos, quase catatônico. A manhã ainda era fria e sol estava escondido entre as nuvens, como se não quisesse testemunhá-lo. A desolação já o havia consumido por tempo demais. Desejava que a morte viesse beijá-lo. Fechou os olhos. Tirou os sapatos e se aproximou ainda mais da beira. Estava a ponto de fazer até aquela voz o chamar. Olá, Cornélio. Era uma voz diferente daquelas que costumava escutar em sua cabeça.


- Essas vozes outra vez. Até o meu nome é ridículo. O que minha mãe estava pensando?


A voz continuava. Não é um nome ridículo. É um nome romano, de um antigo centurião.


Cornélio abriu os olhos. Os pelos da sua nuca se eriçaram e tornaram-se espetados e duros. Até o vento que soprava parecia ter parado por um momento e as folhas das árvores ficaram imóveis. Não era de fato uma das vozes que costumava ouvir. Era uma voz feminina e estava realmente ali presente. E sabia o seu nome. Agora ele podia ver quem o acompanhava. Seria uma alucinação? A mulher magra, de vestes negras, massas de cabelos imensos de cabelo preto encaracolados, um pouco de maquiagem nos olhos e sem batom nos lábios pálidos e uma cruz Ankh de prata numa corrente no pescoço tornou a falar com ele.


-Olá. Desculpe se eu o assustei. Parece que precisa falar com alguém.

 

 


Decisão

 


Era uma vez um homem que se chamava Cornélio, que gostava de animais, de café, de cigarro e de uma boa brisa no rosto. E também passou a gostar da ideia de estar morto. Escolheu uma fria e úmida manhã de outono para dar fim à sua própria existência. Cada vez menos hesitante, já não parecia haver meio algum de fazê-lo voltar atrás. Nada surpreendente costumava acontecer, nunca achou uma moeda na rua, um trabalho que o satisfizesse ou mesmo amor. Era como se ninguém o enxergasse ou achasse digno de uma relação mais atenciosa ou informal. Até agora.


Foi a primeira vez que Cornélio se deparou com alguém com uma aparência tão peculiar. E mais do que isso, foi a primeira vez que alguém assim se dirigia a ele com tanta proximidade e naturalidade. Até a sua voz era angelical, completamente o oposto dos ruídos que vinham daquelas vozes tagarelas, dissonantes em sua cabeça. O homem poderia se limitar a questionar apenas o óbvio, como faria todo mundo. Mas como sua mãe costumava lembrá-lo desde quando era só uma criança franzina, ele não era todo mundo. Fazer certas associações não era a sua especialidade. Era difícil raciocinar, como se houvesse um tornado de pensamentos desordenados, aleatórios rugindo em sua cabeça. Naquele momento ele a fitava, sem conseguir desgrudar os olhos. Ela tornou a falar antes que ele dissesse qualquer coisa.


-O que houve? O gato comeu a sua língua? Ou será que tem algo no meu dente?


Ignorando aquelas perguntas retóricas, o homem optou por perguntar o que poderia ser na concepção de muitos, a segunda coisa mais óbvia.


-Como você apareceu aqui?


-Ah...você sabe. Da mesma forma que você. Caminhando e tal.


Não havia dito aquilo de uma forma irreverente. Pelo contrário, sua expressão era gentil e agradável.


-Engraçadinha. Não sei o que faz aqui, mas é melhor você ir. Isso aqui não vai ser nada bonito de se ver.


-Que fofo você se importar com o meu bem estar. Mas não acha que deveria se preocupar com você mesmo?


-Sei o que vai dizer. Que eu não deveria fazer isso. Que é errado. Mas eu já decidi.


-Por que eu diria isso? a morte não é errada. Nem certa. Apenas é.


-Eu não entendo. Você diz coisas estranhas.


Ela sorriu.


-De qualquer modo, eu só estou de passagem, não queria me meter. Me desculpe.


Estavam a uma distância de uns dois metros. Cornélio tinha a cabeça baixa, as mãos geladas enfiadas no fundo dos bolsos do jeans preto. Não sabia porque lhe parecia tão vitalmente ser notado naquele momento, mas era. Uma desconhecida não deveria ter muita importância, mas de algum modo queria que estivesse ali.


-Desculpe-me. Eu não pretendia ser rude. Mesmo nos meus últimos momentos, só o que eu consigo é agir como um estúpido.


-Você diz atitudes estúpidas, tipo se jogar da ponte?


-Não. Quero dizer... não sei. Esqueça.


Cornélio ouviu a raiva que sentia dentro de si em sua própria voz. Sentiu que a mulher também havia percebido, mas por vergonha, ele não a olhava diretamente nos olhos, não desta vez. Esperava que ela se afastasse, mas se aproximou e manteve a voz aveludada.


-Quer conversar a respeito?


-Só se não for entediá-la.


-As pessoas não me entediam. Eu gosto de todas.


O homem estava confuso e não entendia como alguém podia lhe causar tanta estranheza e ser tão acolhedora ao mesmo tempo. Respondeu com um sorriso nervoso.


-Você realmente diz coisas estranhas. Não dá pra gostar de todo mundo.


-Mas eu gosto.


-Até das pessoas perversas?


-Ninguém é só perverso por dentro, Cornélio.


Inconcebível. Como poderia gostar de todo mundo? O homem já vira muitas coisas pavorosas, em que a perversidade era evidente. Então o que motiva as pessoas a cometerem crimes bárbaros? A maltratar animais indefesos? A roubar desenfreadamente, sem o menor pudor? A atear fogo no desabrigado que dorme no banco de uma praça, apenas por puro prazer e entretenimento com a dor? Como gostar de alguém assim? Inconcebível.


-Eu não entendo.


-Bem, todos têm algo dentro de si. E podem até achar que são o centro de tudo. Mas ninguém é pavoroso por dentro.


-Você fala como se pudesse ver dentro das pessoas.


-E eu posso.


-Não brinque. Você não entenderia o inferno que existe dentro de mim. Não sabe o que é sentir toda a sua felicidade sendo sugada dia após dia, até você secar. E ver todos os seus sonhos se despedaçando diante dos seus olhos. Mesmo que eu tente fazer algo de bom, a recompensa não estará lá, afinal. A morte, é só o que me resta.


Cornélio virou o seu corpo e tornou a se debruçar no encosto da velha ponte.


-Olha, pode parecer duro o que eu vou dizer, mas o inferno somos nós mesmos que criamos, Cornélio. Você pode se matar se quiser. A vida é sua. E a morte também. Para algumas pessoas ela pode ser uma libertação, para outras uma coisa terrível. Mas uma coisa é certa, ela não é piedosa e chega para todos, não importa como a vejam. Mas o mundo não é feito apenas de sofrimento. E o que vem depois não traz a segurança do esquecimento que você procura. Então se pergunte: você precisa mesmo apressá-la?


-Mesmo que diga isso...não acho que seja importante que eu esteja aqui.


-Todos são importantes. Você só ainda não sabe.


Na verdade até aqui a pergunta mais óbvia ainda não havia sido feita. O homem finalmente havia se dado conta, com surpresa e espanto.


-Um momento. Você sabe o meu nome. Como?


A mulher abriu o seu guarda-chuva e chegou ainda mais perto do homem, a ponto de cobri-lo. Um segundo depois, começou a chover. Cornélio estava imóvel. Era um homem indolente até o momento, mas sentiu pela primeira vez algo diferente de raiva ou desapontamento, naquele dia. As atitudes dela desde o começo não eram de uma estranha comum. Não era como se a conhecesse, mas havia uma admiração, ou mais do que isso, um desejo tácito. Se a descrevesse, diria que era como se ela não fosse desse mundo. Que era alguém que aparentava não sair muito de casa, mas tinha um vasto conhecimento e sabia tudo exatamente o que precisava dizer. Era alguém que se importava. Alguém que quisesse se encontrar, no fim.


-Você ia se molhar.


-Não me respondeu.


-Você demorou um pouco pra perceber, não é?


-Quem é você?


-Ainda não sacou?


Foi daí que tudo começou a ficar claro na sua cabeça. Já havia escutado uma história islâmica que dizia que o anjo da morte tem grandes asas repletas de olhos, e para cada morte de um mortal, um dos olhos se fecha, por um instante. Também já ouvira que o anjo da morte era tão belo, que você se apaixonaria tão perdidamente que as suas almas seria sugadas por aqueles olhos.


Não enxergava asas, ou tampouco se sentia sugado. Mas era inegável que a morte o encarava de frente, embora com uma presença muito mais elevada, mais humana do que poderia imaginar.


-Você...não é exatamente como eu imaginava.


-E o que imaginava? Um esqueleto com um capuz e uma foice?


-Não exatamente. Então você veio mesmo me levar não é?


-Não. Como eu disse, estava de passagem. A poucos quarteirões daqui, um homem acendeu um cigarro atravessando a rua e não percebeu o carro em alta velocidade. Está a maior confusão na rua. A mulher que o atropelou está enfrentando nesse momento uma multidão furiosa.


-Entendo. Deve ter sido terrível. – fechou os olhos e ficou pensativo. – Mas então, ainda não chegou a minha hora.


-Isso só depende do que você escolher.


-Se eu escolher pular, o que eu verei depois? Sofrerei pelos meus atos ou encontrarei absolvição?


-Infelizmente eu não posso te contar. Só o que eu posso dizer é que nada que você faça apenas para obter algo em troca pode ser chamado de virtude.


Aquele diálogo decisivo quase não fez o homem perceber o que se aproximava subindo a ponte, na direção de ambos. Vinha ligeiro, os pelos negros despenteados esvoaçavam e a língua pendurada pelo canto da boca. O animal surgiu como se tivesse seguido os seus rastros. Quando chegou mais perto, o homem o reconhecera.


-É você? Como veio parar aqui?


O cachorro que ele havia dado o seu salgado a alguns momentos atrás estava feliz em vê-lo novamente. Parou e começou a abanar o rabo de um lado para o outro, como um pêndulo.


-Parece que você fez um novo amigo. – a morte os observava. - Ele deve ter aproveitado para fugir do carro da mulher de vestido vermelho que atropelou o morador de rua e seguiu o seu cheiro.


O cachorro começou a lamber o rosto perplexo e paralisado de Cornélio, que naquele momento já estava agachado para lhe dar atenção.

-Está me dizendo que...


-Sim. São as pessoas que você teve contato antes de vir pra cá.


-Quer dizer que se aquele mendigo não tivesse roubado os meus cigarros...


-Provavelmente não teria sido atropelado. E talvez morresse de câncer daqui a um ano. Quem poderia dizer? Você entende? As pessoas estão entrelaçadas e todos tem um papel a cumprir. Todos são responsáveis pelos seus próprios atos e não pelos dos outros, mas todos se relacionam.


Cornélio estava sem reação. Olhou para o cão mais uma vez. O coração se acalmava conforme percebia o quanto alguns momentos podem ser preciosos. Algo que o seu coração antes não o permitia enxergar. Sem desviar o olhar, perguntou.


-Você disse que podia me ver por dentro, não?


-Sim.


-E o que você vê?


-Que até alguns minutos atrás você estava mais determinado a pular. Mas algo mudou.


O artificial auto domínio do homem se esfarelou. As lágrimas se misturavam com a chuva da fria manhã de inverno. O pranto exausto de quem ficara perdido por tempo demais. Ainda não tinha todas as respostas que gostaria. Mas aquele encontro o fez se lembrar que ainda precisava viver para descobrir. E que alguém precisava dele naquela imensa esfera perturbadora que chamavam de mundo. A morte deu um último aceno para o homem, que partiu para casa com o cão.


- A gente se vê.


Ela possuía um coração silencioso, perpétuo e vigilante. Não sofria, ou tinha um prazer mórbido com o seu trabalho. Essa era a morte.

 

 
Autor: Pedro Paes

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