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Longa Noite

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Escrito por Eudes de Pádua Colodino   
Seg, 22 de Fevereiro de 2016 00:00

 

Longa Noite

 

Longa Noite

Por Eudes de Pádua Colodino


O rei observava, satisfeito, o Sol que se punha por detrás dos altos montes, lançando seus últimos raios frios e alaranjados sobre as matas distantes, os campos incultos e rios congelados, que pareciam serpentes negras imobilizadas sob o duro gelo. Encolhendo-se em seu manto real de pele de raposa, do alto do terraço do palácio tinha uma visão privilegiada de sua grande cidade: as inúmeras casinhas de telhados pontiagudos com suas chaminés de pedra lançando fumaça, as ruas e travessas quase vazias, os guardas de plantão nas muralhas e torres de vigilância, as bandeiras e estandartes agitados pelo cortante vento que trazia apressadas nuvens cinzentas pelo céu, deslizando como cortinas plúmbeas, ocultando o palco em que o Astro Rei brilhara durante o dia e anunciando o fim de seu espetáculo para dar lugar a mais uma noite fria invernal.


Faltavam poucas semanas para o inverno encerrar-se e, mais uma vez, seu próspero reino resistiu tenazmente às severas investidas do frio. As despensas e armazéns foram suficientes para suprir as necessidades do povo durante os meses sem produção agrícola, e as perdas de animais e rebanhos foram irrelevantes. As crianças e idosos estavam bem, em sua maioria, e o povo aclamava seu soberano por tantas benesses. Se não fosse por ele e seu competente governo, nada disso seria possível.


Riu-se em baforadas de vapor no ar gelado. Lembrou-se de quando assumiu o trono, e quantas foram as dificuldades apenas para estabilizar a administração; quanto mais para suprir o necessário ao povo. Agora, passados alguns anos, seus domínios cresciam saudáveis e fortes, numa estabilidade inédita ao reino.


Sua única tristeza era a falta de um herdeiro. Mas isso era o de menos. Seria providenciado.


– Tudo a seu tempo. – Dizia, levemente resignado.


Sentiu uma repentina pontada de angústia, e pôs-se para dentro. Já ficava escuro e muito frio, e a noite só aumentaria tais reflexões inconvenientes. Precisava cuidar de alguns últimos assuntos de pouca monta, e logo partiria para a cama.

* * *

Insistentes batidas na grande porta de carvalho dos seus aposentos o acordaram. Abriu os olhos, assustado. Olhou ao redor pelo quarto escuro e concluiu que ainda era alta madrugada, mas teve uma estranha sensação de que dormira o suficiente. “Já devia ser manhã… Que estranho. Bom, quem nunca sentiu o tempo de uma forma diferente?”, pensou.


Levantou-se cautelosamente para não acordar a rainha, vestiu o robe e encaminhou-se ligeiro à porta, onde alguém batia incessantemente. Abriu-a e viu o seu camareiro, apavorado, rosto pálido.


– Que aconteceu? Por que me chama a esta hora? - Sussurrou o rei, com a porta entreaberta.


– Sua majestade… Algo muito estranho está acontecendo. - Retorquiu, trêmulo, o camareiro. O rei observou que, por detrás dele, no longo corredor, havia uma movimentação incomum dos servidores do palácio. Reparou no jovem e viu que devia se tratar de algo sério. Saiu do quarto e fechou a porta silenciosamente.


– O quê? Diga-me logo!


– Majestade… Não percebeu nada diferente nesta manhã?


– Não! Eu estava dormindo! Ora bolas, isso são horas de um homem se aperceber de algo diferente?


– Majestade…


– Deixe de rodeios, rapaz, diga-me do que se trata?


– Não amanheceu, majestade… Não amanheceu!


– Deixe de sandices, você está muito apavorado. Se acalme e me diga o que…


– Majestade! Este é o problema. O Sol não apareceu! O dia não raiou!


Espantado, o rei logo imaginou que aquele homem devia estar maluco. Desvencilhou-se dele e seguiu até o grande relógio de pêndulo no fim do corredor. Pasmo, viu o marcador: seis horas, em ponto. Olhou a janela mais próxima e viu que, lá fora, tudo estava em breu.


– Alguém deve ter mexido neste relógio…


Encaminhou-se até os aposentos do secretário real, que era homem de confiança e de sensatez conhecidas no reino, portanto ele devia saber o que realmente estava ocorrendo por ali. Enquanto dava ligeiros passos pelos agitados corredores do palácio, sentia-se como se realmente fossem seis horas da manhã, pela disposição que tomava conta de seu corpo nesta usual hora em que acordava. Será que o camareiro havia enlouquecido? Ou a natureza era quem estava fora de si? Seja como for, o rei devia saber o que estava se passando ali.


Ao dobrar o último corredor, trombou de frente com o secretário, que também corria, como todos os demais servidores. Ambos recuaram escusando-se do acidente, e o rei não perdeu tempo em questionar se o secretário sabia de algo:


– Você sabe o que está acontecendo? Parece-me que todos perderam o juízo!


– Me perdoe corrigi-lo, majestade, mas se há alguém sem juízo é a natureza. Todos estão certos: o Sol não despertou para a manhã.


– C… como isso é possível?


– Não faço a mínima ideia, majestade. Em minha vida, nunca fiquei sabendo de nada igual. Neste exato momento, eu estava me encaminhando para o real observatório para saber de algo mais.


– Pois então eu vou com você.


Os dois homens saíram em desatinada marcha pelos corredores do palácio até a saída, onde o rei se recordou que estava ainda em trajes de repouso, tamanho o frio que se abatera sobre ele. Não se importou com isso e ordenou a um guarda que providenciasse a carruagem real, e puseram-se a caminho do observatório, encrustado no topo das montanhas, a alguns minutos de viagem.


* * *


Chegando lá, adentraram rapidamente o edifício, onde os astrônomos já estavam de olhos fixos e preocupados no céu, através das lentes do potente telescópio. Ao notarem a incomum presença do rei, fizeram longas reverências. O rei dirigiu-se ao chefe do instituto e pediu-lhe explicações:


– Bom dia, meu bom homem. Já têm alguma explicação para tal fenômeno?


– Majestade… Aparentemente… A Terra parou de girar.


– E como isso é possível?


– Isso não é possível, majestade. Mas é o que de fato está acontecendo.


– Meu Deus! E agora? O que seremos de nós?


– É um mistério, majestade. Estive observando as estrelas, e não há nenhum movimento. Realmente, a Terra está estática. Não há atividade de rotação.


Sem maiores delongas, o estupefato rei voltou-se ao secretário e os dois seguiram novamente à carruagem, agora se destinando mais longe, à caverna do ermitão profeta. Se havia algum homem no reino que devia entender tal evento, era ele, que constantemente recebia oráculos e fazia previsões, quase sempre certeiras.


Após mais algum tempo de viagem pelas estradas escuras e geladas das montanhas uivantes, já sendo fustigadas pelos primeiros flocos de uma possível nevasca, chegaram à caverna. Saltaram da carruagem e chamaram pelo ermitão, cuja silhueta encurvada e envelhecida não tardou a aparecer na entrada da caverna, apoiado em seu gasto cajado, com uma pele de lobo jogada aos ombros. No escuro não era possível vê-lo muito bem, mas dava para se sentir fitado pelo seu par de flamejantes olhos. O rei sentia algum desconforto sempre que encontrava o velho, a quem nutria grande respeito, mas também profundo temor. Fez-lhe uma reverência respeitosa e perguntou se por acaso ele sabia o que estava acontecendo. O ermitão respondeu, serenamente:


– Meu filho, não sei de nada.


– Como assim? - Questionou, espantado, o rei. Aquele homem sabia de tudo! Como, desta vez, não sabia?


– Já faz alguns dias que não ouço mais nada dos Céus. Eles se fecharam. Alguma coisa grande está acontecendo por lá. Chamo, chamo… E nada. Não me ouvem, não me respondem. Suponho que isto que está acontecendo tem alguma relação com o silêncio de Deus. Até o Reino dos Céus tem seus problemas, meu jovem.


– E o que faremos? Nossas provisões têm poucos excedentes para além do inverno, que não tarda a acabar!


– Você é o rei, meu filho. Você é quem deve saber.


Aquelas palavras soaram como um soco no soberano, que estacou, pasmo. Mais uma vez, aquele velho o deixava sem palavras.


O ermitão, sabendo que não havia mais nada a ser perguntado, tampouco respondido, virou-se e retornou para o interior da caverna escura e solitária. Sem perceber o frio e a neve que aumentavam, o rei ficou imóvel por algum tempo, sem saber o que fazer. Sentia medo e solidão, e um incomum peso parecia alojar-se em suas costas. Pensou em seu belo reino, do qual se orgulhava sem igual, e nos problemas que tomavam forma num horizonte não tão longínquo.


Retornou de seus pensamentos com um tapinha no ombro dado pelo secretário. Deviam retornar à cidade, a neve estava aumentando muito e poderiam ficar isolados caso se demorassem mais. Assentiu e voltaram à carruagem, que desceu veloz pelos caminhos sinuosos e perigosamente escorregadios das montanhas íngremes, temerosos de que fosse tarde demais.


* * *


Passadas algumas semanas de ausência do Sol sobre a Terra, a temperatura registrava recordes de negatividade. Nevascas intensas e ventos furiosos fustigavam o reino, que desaparecia rapidamente debaixo da grossa camada de neve que se formava sobre ele. Mensageiros foram enviados às pressas às vizinhanças para saber se os demais Estados fronteiriços passavam por semelhante apuro, mas nenhum retornou. O reino estava isolado e sem notícias do mundo ao redor.


As reservas de alimentos estavam perigosamente baixas, e o racionamento de víveres tornou-se necessário. Lenha, carvão, água, ração aos animais, tudo também faltava. Alguns habitantes já morriam, sobretudo os mais frágeis, e o clima de luto e desespero tomou conta dos lares dos homens dali. Acorriam ao rei, acorriam aos Céus; ninguém lhes dava uma solução. Nem mais as estrelas conseguiam ver, pois o céu estava quase sempre tomado por uma camada de nuvens de tamanha espessura que parecia sólida de tanta neve e gelo em seu interior.


O rei tentava fazer o que lhe era possível em conjunto com seus ministros e conselheiros, mas apenas conseguiam administrar a morte lenta de seu reino. Os sacerdotes rezavam sem cessar, e a catedral e as demais igrejas estavam sempre lotadas de fiéis desesperados ou refugiados em seus interiores.


– Majestade, temo que nossa situação seja insustentável. Se ficarmos aqui, morreremos. A neve acumulada já tomou a maior parte do reino, e muitos já morreram. Nossos animais e criações já estão praticamente esgotados, e nossas reservas não devem durar mais que duas semanas, mesmo racionando.


– O que você me sugere, secretário? - Perguntou o rei, desiludido e desalentado, em seu trono.


– Que organizemos um plano de fuga. Logo mais, esta cidade será um cemitério, e todos estaremos nele.


– Fuga? Para onde? - Retrucou, em tom de ironia.


– Um de nossos mensageiros retornou hoje. Pouco antes de morrer por hipotermia, ele deu notícia de que no leste as coisas estão melhores, e que há sol e calor por lá. Reunamos todos os habitantes que ainda restam, e nossas provisões, e marchemos ao leste, seguindo a rota do Grande Rio. Dentro de algumas semanas, deveremos estar melhor.


O rei pensou por um momento, e uma luz distante pareceu acender-se no fim do túnel de sua alma arrasada. Havia uma chance de salvação ao seu reino. Não importa o custo dessa viagem, ela lhe parecia melhor do que ficar e morrer. Loucura por loucura, era mais sensato escapar dali.


– Convoque o Conselho. Vamos organizar a marcha!


* * *


Em tempo recorde os preparativos foram feitos. Todos os habitantes que ainda tinham coisas para salvar acorreram aos seus lares para resgatá-las. Receberam instruções do Conselho para trajarem suas roupas mais quentes e organizarem-se para a fuga ao leste. As autoridades locais trabalharam incansavelmente até que tudo estivesse pronto, e o êxodo teve início na primeira oportunidade.


O rei em pessoa e todo o seu séquito se empenharam para que os cidadãos principiassem o caminho até o último homem, mulher e criança. Quando o que restou da cidade estava completamente evacuado, os servidores reais, ministros e conselheiros foram liberados para fugirem também. Restaram, para trás, somente o soberano e seu fiel secretário.


Totalmente coberto por camadas e mais camadas de peles e mantas, o rei contemplou uma última vez o interior de seu palácio, outrora tão vivo e agitado, agora deserto e sombrio. A escuridão do mundo lá fora era ampliada pela altura da neve acumulada que já cobria a maioria das janelas e portas, soterrando a pomposa estrutura da pujante cidade que ela administrava. Os andares subterrâneos e térreos já estavam inacessíveis, e só se podia deixar o palácio através das janelas das torres mais altas.


Suspirou entristecido, mas convencido de que o que podia ser feito, foi feito. Sentia, sob as toneladas de dor e resignação que o cobriam, uma nesga de orgulho e sentimento de dever cumprido, por toda a sua luta pelo reino contra a impiedosa natureza e a indiferença dos Céus, e era isso o que ainda o mantinha de pé. Tratou de esquecer logo tudo aquilo e foi encontrar-se com o secretário para que, juntos, deixassem o local.


Com alguma dificuldade, por causa do cansaço dos ciclos de sono alterados pela ausência do sol e pelo trabalho árduo de tantas semanas, além dos quilos de roupa que lhe pesavam e limitavam seus movimentos, o rei conseguiu arrastar-se através da janela para o exterior congelado. Ajudado pelo secretário, colocou-se de pé, ajeitou sua formosa coroa na cabeça e tratou de iniciar o caminho.


Após alguns passos, parou.


– Secretário! Não reparou em nada diferente?


– Não, majestade. Sugiro que discutamos sobre isso em marcha, para não nos distanciarmos muito dos demais.


– Espere! Veja que a neve parou de cair!


O secretário parou, e realmente percebeu que não havia nevasca. Nem vento. E o frio também estava menos severo. Virou-se para o rei, e ambos olharam para o céu no mesmo momento: a camada de nuvens parecia menor, e a escuridão por detrás delas já não era tão profunda.


– Secretário, você viu que horas eram?


– Confesso que, mesmo após tanto tempo sem diferir noite e dia, nunca deixei de olhar o relógio antes de sair para algum lugar, majestade. Agora são cinco e quarenta da manhã, exatamente.


– Logo… Vai amanhecer!


– Majestade…?


Ao dizer isso, o secretário abriu um grande sorriso. O rei virou-se para onde seu companheiro olhava e pôde ver os primeiros raios de sol vencendo as nuvens, no leste. Mal acreditou na alegria de sentir em sua face aquele calor, embora tímido, que quase já se esquecia de que existe! Tratou de logo voltar para o palácio, sem dizer uma só palavra, mas radiante de alegria.


– Majestade! Aonde vais?


– Me aguarde aqui, amigo! Volto em pouco tempo!


Disse isso e lançou-se ao interior do palácio pela mesma janela pela qual fugira. Passou alguns minutos lá dentro e retornou com duas belas cadeiras do mobiliário da copa real, rindo como uma criança. O secretário, ao ver o esforço do rei em carregar os móveis, logo acorreu a ele para prestar-lhe auxílio.


– Aonde vai, majestade? O que quer com isso?


Mas o rei não lhe disse mais nada, e nem precisou. Com apenas um olhar, o secretário entendeu o que ele queria. Sorriu, e acompanhou-o.


Deram mais alguns passos adiante e colocaram suas cadeiras sobre a camada pétrea de neve. Sentaram-se ali e dedicaram-se a contemplar aquela imensidão gelada e branca, silenciosa, imóvel. Acima deles, o Sol levantava-se cada vez mais, aos poucos, no ritmo de sempre. Ganhando força, já não era mais o Sol de inverno, mas um caloroso e familiar Sol primaveril, que afagava os dois combalidos homens, que não precisavam de mais nada para ficarem extremamente felizes.


– Secretário, me diga. Isso não é uma coisa muito bela?


– Sim, majestade. Sem igual, eu diria.


Um maravilhoso céu azul vencia as nuvens, agora cada vez mais tímidas e translúcidas. À frente, apenas a desolação alva que outrora fora

 
Autor: Eudes de Pádua Colodino

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