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Os Euleres

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Escrito por José Bonifácio Reutemann   
Sex, 18 de Março de 2016 00:00

 

Euleres

 

OS EULERES

Por José Bonifácio Reutemann


Rally de regularidade é um pseudo-esporte e ainda por cima um pseudo-esporte caro. Mas combina alguns elementos que me atraem muito: lugares ermos, estradas rurais e sentir os limites do automóvel sem colocar em risco transeuntes (e com socorro imediato caso algo realmente dê errado).


Meu chefe pratica rally faz um bom tempo, e decidiu me apadrinhar neste novo hobby. Não fui nada bem numa primeira corrida, então resolvemos sair a campo para conhecer o terreno do próximo evento. Um lugar muito alto, praticamente uma serra em cima de outra serra, vegetação rasteira, muito frio e isolado. Não se via vivalma, apenas as estradas parcamente mantidas denunciavam presença humana. Humana mesmo?


Primeiro andamos devagar pelas estradas que deveriam formar o circuito do rally vindouro, formando um enorme quadrilátero irregular. Em alguns lugares, paramos para verificar terreno, tipo de macadame que cobria a estrada, etc. Nisto perdemos algumas horas.


Na segunda volta o meu chefe, Aírton (nome apropriado!) tomou o volante e procurou mostrar alguns truques do "ofício". Tendo completado mais ou menos metade do circuito, passou-me o volante e foi dando mais dicas, forçando mais e mais o limite do carro e da pista, gradativamente. Fora uma quase-saída de pista que teria sido mais grave, já que o lado de fora da curva era um barranco para baixo, fui razoavelmente bem. Ainda chegaria em último mas chegaria no mesmo dia que os demais competidores.


Na verdade o que eu mais gosto é explorar caminhos rurais, trilhas. Não gosto de competir. O rally e a associação ao clube de jipeiros foram meios de conhecer lugares normalmente fechados à visitação pública, ou perigosos de se visitar sozinho. Já queimei muita gasolina passeando por aí, conheço inúmeros caminhos secundários na região, eu seria o melhor contrabandista do mundo, se decidisse virar um criminoso, é claro. Mas sou tão egoísta que nem para o crime pretendo legar este meu conhecimento. É algo que vai morrer comigo, que ninguém vai herdar nem pode ser tirado de mim. Uma torre de marfim para mim mesmo.


Nunca perco a oportunidade de conhecer mais um caminho. E na volta do nosso treinamento, vi uma estradinha que parecia boa demais para ser uma simples entrada de propriedade. Não estava no mapa, mas levava para a garganta de um vale, um lugar que segundo a carta era completamente desabitado...


É bem verdade que havia uma porteira, mas não estava trancada. É muito comum naquela região haver porteiras em estradas públicas ou semi-públicas, para que o gado não fuja, já que seria muito caro implantar cercas no perímetro das vastas propriedades. O gado nunca vai mais longe que meio dia de caminhada, o boi é inteligente o suficiente para fazer meia-volta a fim de comer a saborosa ração, para variar a dieta do capim, que é ainda por cima escasso em altitude elevada.


Além disso, há propriedades sem saída para a rua, principalmente as mais próximas das montanhas, distantes da estrada de rodagem. A lei obriga que as propriedades vizinhas deem passagem.


Destes dois fatores emerge a regrinha: você pode trespassar uma porteira, mas mantenha-a do mesmo jeito que encontrou. Se estava aberta, deixe aberta, se estava fechada, feche-a novamente.


E assim fizemos, tínhamos algo com duas horas de luz do dia para explorar o tal caminho desconhecido, e o caminho de volta nós conhecíamos suficientemente bem para percorrer à noitinha.


Fomos assim percorrendo a tal estrada, claramente mais bem pavimentada que as demais do entorno e em leve descida. Ela serpenteou para dentro do vale, e então o vale dobrava à esquerda, ficava bem estreito, quase uma garganta. A estrada acompanhava... neste ponto havia um aspecto estranho. O rio corria na mesma direção em que estávamos indo, porém estávamos indo de encontro à montanha, quando a lógica ditava o oposto, muito embora a estrada realmente prosseguisse em gentil descida, a água não estava correndo morro acima...


Chegou um ponto em que o vale virou mesmo uma garganta estreitíssima e a estrada era escavada na rocha, com o rio correndo uns 10 ou 15 metros lá embaixo. Do lado esquerdo, um paredão de pedra pura. A rua só tinha a largura estrita do carro, não era possível fazer a volta, o jeito era prosseguir para encontrar um ponto de retorno -- nesta altura estávamos convencidos que era um beco sem saída e não estávamos confortáveis em ir até o fim. A outra maneira era andar de ré, mas isto é deveras trabalhoso e perigoso numa estrada estreita. Esperávamos chegar a qualquer momento numa porteira ou casa, e ali poderíamos fazer a manobra de retorno.


Não dava pra negar que o lugar era bonito. Mas o veículo ideal para explorar aquele caminho desconhecido teria sido bicicleta, ou talvez moto.


Mas acabamos chegando num lugar mais amplo, uma espécie de pátio, sem nenhuma porteira ou cerca. E algumas construções.


Eram prédios moderadamente altos, maiores que casas, porém não eram edifícios industriais. Tinham 3 ou 4 andares de altura, porém muito estreitos, com cúpulas arredondadas. Lembravam vagamente cogumelos gigantes. Havia algo como trinta destes naquela área.


Ficamos ao mesmo tempo maravilhados e assustados com a descoberta daquele local. Um conjunto de construções tão esquisito, ao mesmo tempo tão bonito, perfeitamente pintado de branco, entorno ajardinado. Até aquele instante, nenhuma pessoa tinha dado as caras, o lugar passava por deserto. E não teria sido completa surpresa se saíssem anõezinhos verdes daqueles prédios-cogumelos. Realmente não parecia o tipo de construção feita pelo homem, e sim alguma cidade alien.


Uma sensação de mal-estar, de estar num lugar que não deveríamos estar, nos invadiu, e depois de contemplar o local por uns poucos segundos, sem trocar palavra entramos no carro ao mesmo tempo a fim de dar no pé.


Mas assim que começamos a manobrar, rapidamente apareceram muitos homens a cercar nosso automóvel.


Eram muitos, uns quarenta, todos com feições graves, uniformemente vestidos de preto e armados de bestas, aqueles arcos-e-flecha com gatilho (o nome é besta ou balestra, sempre me confundo). Não podíamos forçar passagem sem atropelar alguém e aquelas flechas pareciam capazes de atravessar vidro e lataria. O jeito foi desligar o motor e sair do carro a fim de apresentar nossas desculpas pelo incômodo.


Assim fizemos, e comecei a tartamudear umas desculpas, tremendo de medo. Os homens continuavam a olhar de forma grave, mas não raivosa, ainda apontando as armas, como se não compreendessem uma palavra do que eu dizia. À medida que fui reparando melhor nos guardas, fui ficando ainda mais amedrontado.


Eram todos muito parecidos. Não exatamente iguais, mas realmente parecidos, como se fossem irmãos. Ou como se tivessem sido desenhados por um único artista... Eram homens bonitos (e não sou de achar homem bonito), muito altos, morenos, cabelo preto liso, pele morena, quase vermelha ou profundamente bronzeada, mas a cor era perfeitamente uniforme em todas as partes do corpo. Olhos pretos enormes. Para resumir, pareciam super-heróis.


Exceto que não estavam ali salvando a gente, estavam nos ameaçando com bestas. (Preferia fossem armas de fogo.)


O uniforme, se assim pode ser chamado, dos nossos algozes também era um espetáculo à parte. Longas capas pretas, roupa do corpo completamente negra também, um e outro detalhe dourado. Tecido de boa qualidade perfeitamente ajustado sobre os corpos de deus grego que cada um deles possuía. Me senti levemente inferiorizado, com meu corpo sedentário coberto por um folgadíssimo agasalho.


Não demorou muito e os tais homens abriram caminho, sem nenhum comando aparente. Logo vimos por quê: apareceu outro cara, claramente o líder. Era parecido com os demais em tudo, mas tinha intensidade maior em cada característica: ainda mais alto, mais altivo, vestimenta denotando posição superior.


E este pelo menos falava:


"Então estes são os invasores? Pois vocês são bem-vindos, de certa maneira. Faz tempo que não temos carne humana. Levem-nos para a prisão, onde serão preparados para a festa."


Nada mais nos disseram e fomos atirados a celas em prédios separados, sem qualquer possibilidade de contato.


Não era agradável constatar que eu estava passando meus últimos dias, ou horas, de vida naquele lugar, e meu corpo serviria de alimento, de repasto, para aqueles monstros. Mas por que eu tinha tanta certeza que acabaria comido (literalmente), talvez com uma maçã cravada na boca? Claro que era basicamente pela (única) frase que o líder daqueles monstros, aliens ou seres do além pronunciara.


Mas também pelo olhar deles. Você sente a intenção de outro ser vivo quando olha diretamente para você: é possível vislumbrar desejo sexual, amor, raiva, carinho... e fome. Eles olharam com fome, do mesmo jeito que qualquer um de nós olharia animado e alegre para um churrasco no espeto ao ser servido. Não é exatamente um olhar de maldade. Se aplacar a fome daqueles seres não implicasse dor e morte para mim, eu até poderia compartilhar da alegria deles.


Muita coisa passou pela minha cabeça durante o curto tempo em que fiquei preso. Claramente a cela não era feita para reter humanos. Era para animais, feita de madeira gradeada, seria muito fácil escapar dali, se os meus algozes não tivessem me prendido por mãos e pernas a uma parede, como nos filmes sobre a Idade Média. Aquele estábulo ou pocilga que fazia as vezes de cela colaborava ainda mais para aquela expectativa terrível de virar churrasco ou foie gras para os desgraçados.


Uma das coisas que me ocorreu aleatoriamente é que só tinha visto homens, dezenas deles, naquele lugar. Ou talvez aqueles seres malditos nem tivessem sexo e simplesmente adotassem uma forma antropomórfica masculina. Tá certo que só tive contato com os guardas que nos cercaram, e com o líder da matilha. A beleza das construções e dos jardins em torno de cada uma delas sugeria a presença feminina, mas nem sinal delas, nem a contemplação de uma mulher bonita (ainda que esfomeada pela minha carne) para diminuir um pouquinho a nossa desgraça.


Pensava também como poderia estar Aírton. Ele já era quinquagenário e já tinha infartado uma vez. Além do que meu chefe era alguém a quem eu devia muito, profissionalmente pelo menos, e gostava muito dele como pessoa. Me sentia culpado por ter sugerido passearmos por aquela vereda, e agora estávamos ferrados, nós dois. Certamente os belos monstros cuidariam de não deixar nenhum vestígio da nossa passagem.


Para o resto do mundo, teríamos simplesmente desaparecido. Nem procurariam no lugar certo, já que tínhamos mentido para nossas esposas quanto ao destino que tomamos, simplesmente para provar que podíamos fazê-las de trouxas a despeito do ciúme e da tendência controladora, particularmente da minha patroa. O castigo veio a cavalo...


... Nestes pensamentos, pensei ter ouvido um grito, poderia ter sido Aírton. Mas não ouvi outro, talvez tenha sido uma ilusão.


...


Os grilhões que prendiam os membros do meu corpo à parede eram de um tipo particularmente antigo e ineficiente. Realmente estes caras não tinham grande experiência em manter seres humanos presos. Cada grilhão era mantido fechado apenas por um ferrolho, simplesmente inserido no lugar, sem contra-trava nem cadeado. Se eu conseguisse livrar qualquer braço ou perna, conseguiria abrir outro ferrolho com o membro livre, até me soltar. Mas é claro, estando preso como um X na parede, não podia fazer nada. Eles não eram idiotas a ponto de deixar o ferrolho ao alcance da cabeça...


...


Notei que o grilhão do pé esquerdo parecia um pouquinho frouxo na parede. As peças eram simplesmente pregadas, sem porcas ou parafusos. Depois de torcer o pé para cá e para lá, milhares de vezes, praticamente cortando a pele em contato com o grilhão, a peça toda saiu da parede.


Em seguida foi a ginástica para tentar tirar o ferrolho do grilhão do pé direito, que estava do lado direito. Como parte do peso do corpo estava apoiada na peça, foi bem difícil. Acima de tudo, tive medo que algum guarda viesse dar uma olhada em mim, visse o grilhão solto e tratasse de me prender melhor. Lá teria ido a minha última chance. Era na verdade um fator de estranheza, não haver um carcereiro, nem guarda rondando. E nem tinham servido comida ou água. Então decerto o fariam em breve. A não ser que desejassem uma rês esfomeada e sedenta?


Enfim, depois de dolorosos contorcionismos acabei conseguindo soltar o ferrolho do pé direito. O grilhão abriu-se e liberou o outro pé, e então percebi a burrice que tinha feito. Agora todo o peso do meu corpo estava seguro pelos grilhões presos às mãos! A dor do alongamento involuntário foi horrível, e erguer um pé até o grilhão superior para tirar a respectiva trava estava fora de questão. Eu conseguia tocar a pontinha dos pés no chão, mas isto era suficiente apenas para não destruir de vez os ligamentos e tendões do braço. Não era um alívio, era antes um incremento da tortura.


Num esforço sobre-humano para tentar ficar numa postura menos dolorosa, consegui erguer meu corpo até os braços ficarem quase na mesma altura dos grilhões, como um crucificado, e aí para minha surpresa o grilhão da mão direita também cedeu da parede.


Agora eu estava dependurado apenas pela mão esquerda, mas então conseguia me apoiar na ponta dos pés de forma suficiente para tirar o último ferrolho com a outra mão e ver-me livre.


Livre! Bem, ainda dentro de um estábulo ou galinheiro trancado. Deveria ser fácil sair dali, porém faria barulho, o risco era mais alto.


Reparei que não havia nenhum pedaço de madeira ou qualquer outro material para usar como alavanca a fim de forçar o gradeado. A gaiola não era tão primária quanto eu tinha imaginado enquanto preso pelos muito mais desafiadores grilhões... O local tinha sido limpo, talvez imaginassem que o eventual prisioneiro tentaria escapar. Se me pegassem preso ali, porém liberado dos grilhões, certamente me puniriam, era uma situação pior que antes, e tinha de sair dela, rápido.


Reparei que na cela ou cubículo ao lado havia um cabo de ferramenta, talvez de enxada, apoiado ao gradeado. Estava posicionado de forma que não era possível vê-lo de dentro da cela, exceto por um ângulo de visão que certamente o carcereiro que preparou a cela não tinha vislumbrado... Eu tinha de empurrar o cabo delicadamente, de forma que caísse por entre as grades, e fosse possível puxá-lo para dentro. Um erro e ele cairia totalmente para dentro da outra cela e fora do meu alcance para sempre.


Consegui fazer o cabo cair entre as grades, e puxá-lo para dentro da cela. Depois de algum trabalho para forçar as ripas da grade de madeira, fazendo um buraco mas sem fazer (muito) barulho, logrei escapar da cela!


Próximo passo: localizar Aírton e escapar dali. Certamente tinham obliterado nosso carro, mas pelos meus cálculos dava pra escapar descendo as montanhas, chegaríamos em algumas horas a uma vila e ali pediríamos ajuda. O isolamento do local se dava meramente por ser região de montanha e de preservação.


Mas em que prédio-cogumelo estava Aírton? Vaguei um pouco, sempre olhando para todo lado, até que pelo cheiro desagradável de estábulo, não muito diferente do lugar em que tinham me largado, achei que aquela construção era boa candidata a ser vasculhada.


Ao entrar lá, vi uma espécie de facão, de material muito prateado e sem ferrugem. Estava mais para cimitarra, talvez. E era muito bem afiado. Tomei este facão, para usar como arma. Se encontrasse apenas um daqueles guardas, e ele errasse o disparo da flecha, talvez eu conseguisse matá-lo. Talvez. Se fossem vários...


De fato o interior da construção tinha diversos estábulos, galinheiro, chiqueiro, mais ou menos como numa fazenda, e com todo tipo de animal de corte de pequeno e médio porte: coelhos, porcos, cabritos. Mas também havia bichos mais pra pet shop: porquinhos da índia, camundongos, ratazanas.


Verifiquei todos os estábulos, no último deles ao fundo do corredor, estava Aírton. Não estava preso a grilhões, mas no chão. A cela era da mesma qualidade da minha: madeira gradeada. Mas ele não tinha achado meios de fugir, e reparei então que ele não estava em condições mínimas de fugir.


Aparentava ter levado uns cachações, mas o pior mesmo eram uns cortes superficiais, porém numerosos e compridos, que cobriam seu corpo todo. Talvez tinham sido feitos com aquele mesmo facão que eu estava brandindo... Ele estava vestido apenas com roupa de baixo. O chão do estábulo estava realmente sujo, inclusive com estrume, e certamente meu chefe tinha desmaiado com os maus-tratos. Em contato com a imundície, todos os ferimentos estavam infeccionando, uma coisa feia mesmo.


De todas as reações possíveis, eu que sempre fui meio covarde, nunca briguei na escola, e se tivesse brigado teria perdido, acabei sentindo raiva infinita em função do que estavam fazendo do meu amigo. Comecei a desmantelar a porta da cela para tirar Aírton e fugir. Não conseguindo forçar as grades, usei o facão por simples raiva, e descobri assim que ele cortava madeira muito facilmente. Não era uma ferramenta normal. Logo consegui cortar fora a trava com cadeado que mantinha a cela fechada.


Mas assim que consegui abri-la...


...Assim como na ocasião em que estávamos manobrando o carro para ir embora, surgiram do nada aqueles monstros (belos monstros, é bem verdade). Não os 40 ou 50 da outra vez, mas apenas uma patrulha de meia dúzia, acompanhada daquele mesmo líder, distinguível até na meia-luz por sua altura superior.


Nem sequer estavam de má cara pela nossa tentativa de fuga. Tinham aquele mesmo sorriso e aquele mesmo olhar de gula que nos assombrou no primeiro contato.


"Ora, ora, nossa caça é matreira e arisca."


Aírton só olhava para todos, sem esboçar nenhuma reação. Estava mal mesmo, decerto moribundo já. De minha parte, estava ainda entorpecido pelo choque de ver Aírton apodrecendo vivo, e neste mesmo ar perguntei:


"Por que diabo estão fazendo isto com ele? Por que não nos matam logo? Por que ele, e não eu?"


"Estamos reservando você para a próxima ceia. Quanto ao outro, é apenas parte da preparação, aprimorar o sabor... mas não se preocupe, você ficará conhecendo a receita em primeira mão."


Só me ocorreu uma coisa a fazer. Entrei na cela e ergui o facão sobre o pescoço de Aírton.


"Negativo, vou tirar meu amigo desta fria, e cuido de vocês em seguida!"


Os monstros se entreolharam com uma cara típica de ponto de interrogação. Pela primeira vez, repararam naquele belo facão especial, cuja lâmina parecia tão extraterrena quanto eles. Pelas distâncias, estava claro para todos nós que eu conseguiria realizar pelo menos metade do meu intento: matar Aírton e livrar-lhe da agonia. Quanto a mim...


Era curioso como estes belos aliens ficaram preocupados ante a perspectiva de eu interromper a "preparação" de Aírton para virar comida. Ignorava o motivo mas vi que tinha atingido um ponto fraco deles.


"Tudo bem, façamos um acordo então. Deixamos você ir embora, mas ele fica."


"Não vou embora sem ele."


"Então mataremos os dois!"


Brandi o facão e respondi: "Não sem luta!". Subitamente eu me descobri na última página da minha vida e queria morrer como homem.


Novamente o líder deles pareceu hesitar. Olhou-nos de alto a baixo, como se descobrisse que comprou gato por lebre.


"Interessante você não ter aceitado minha proposta."


"Pois é", respondi. "E aí, o que vai ser?"


Nisto, Aírton conseguiu, com muita dificuldade, balbuciar "foda-se!" e fitou os monstros, sorrindo como uma caveira -- aquele sorriso que já fez muita gente tremer e chorar lá na empresa.


Aquele olhar de gula tinha desaparecido das faces dos monstros. Ficaram espantados, então desinteressados e começaram a debandar, como que atendendo a uma ordem telepática do seu líder. Este então falou:


"Tudo bem, vocês não são do tipo que procuramos. Mas terão de permanecer alguns dias conosco, como hóspedes. Para que este seu amigo recupere-se dos ferimentos, e para que vocês sejam convencidos a não denunciar nossa presença aqui."


A perspectiva de sair vivo desse pesadelo acabou abafando minha impetuosidade. Pensei em dizer que íamos embora e denunciá-los de todo jeito, mas tinha chegado minha hora de ceder um pouco.


O líder dos malditos pareceu ler meus pensamentos e sorriu compreendendo. Senti meu rosto queimar ante à sensação de ter minha mente perscrutada. E se eu tivesse pensando em alguma bobagem?


Não me ocorrendo mais nada a dizer, vi que que ainda segurava o facão esquisito na mão direita. Perguntei automaticamente:


"E este facão, é invenção do seu povo? Acho que nunca vou encontrar ferramenta desta qualidade na loja de ferragens."


"É apenas um de muitos segredos nossos. Mas nos próximos dias vou mostrar-lhe muita coisa. Agora, vamos tratar do seu amigo."


Mas o estado de Aírton era coisa para UTI de hospital, e olhe lá. "Veja, ele precisa ir para um hospital, talvez nem chegue lá a tempo, vocês não têm os recursos para tratar dele aqui, não vão curá-lo com chazinho de folhas e um pedaço de gaze!"


O líder novamente se divertiu com a minha ignorância. "De fato, ele não chegaria vivo a um hospital. Deixe conosco, amanhã mesmo seu amigo estará novo em folha. Você verá."


Aírton foi levado numa maca de metal brilhante, aparentemente aço inox imaculadamente polido ou talvez até prata, para uma enfermaria. O recinto não parecia possuir senão remédios primitivos, extratos de plantas e coisas do gênero, conforme eu temia. Porém só o cheiro dos preparados já deixava a alma mais leve, com mais fé num desfecho feliz...


Tentei me agarrar a esta impressão quando deixamos meu chefe e amigo para trás, aos cuidados de dois daqueles seres belos e terríveis, tão parecidos entre si, sempre me espantava novamente a cada poucos segundos com isto.


O líder deles identificou-se como Juno, e nomeou alguns dos seus asseclas, mas como era quase impossível distingui-los, como se fossem gêmeos, era difícil também associar nomes a rostos, e assim tenho esquecido quase todos.


Juno mostrou-me todo o perímetro, as construções em forma de cogumelo, e o que possuíam em seus interiores. Geralmente os topos em forma de domo eram estádios, áreas de lazer. Os "Euleres" -- era assim que aqueles seres denominavam-se  -- preferiam morar e ficar em lugares altos.


As partes baixas dos prédios tinham estábulos, como eu tinha visto em primeira mão antes e não havia necessidade de rever. Alguns deles, onde o sol batia menos, por estarem mais ao sul ou por estarem cercados de outros "cogumelos", eram utilizados para cultivar certos fungos, que era a base da alimentação dos Euleres. O feijão-com-arroz deles, digamos assim. Mas o que eles gostavam mesmo era de carne... viva...


Juno contou-me que eram uma espécie similar porém distinta dos seres humanos, o que era óbvio para qualquer observador. Explicou-me também que eram descendentes do povo da ilha de Atlântida,  übermenschen criados pelos cientistas geneticistas da lendária civilização.


Exceto pelos Euleres, toda a abundante e grandiosa produção científica da Atlântida foi perdida para sempre quando a ilha foi destruída numa enorme explosão termonuclear acidental.


Devido à baixa natalidade da espécie, a população era pequena em Atlântida, e ninguém via motivos para viver fora da mítica ilha, e a catástrofe pegou praticamente todos... Alguns Euleres estavam em missão em outras partes da Terra; só por isto a espécie sobreviveu.


Desde então eles viviam em comunidades fechadas, tão ló profile quanto possível, mudando a cada tantas décadas, fazendo uso de algumas tecnologias herdadas de Atlântida, e forçosamente de muita coisa da tecnologia humana convencional, por estar mais prontamente disponível.


Os Euleres tinham uma ligação muito natural com o sobrenatural, se me perdoam o trocadilho. Eles faziam uso corrente de telepatia, por exemplo, além de conseguir ler a mente de outros humanos. Nisto eu contestei Juno, já que não acredito nestas coisas. Na minha opinião este "ler a mente" era uma mistura de empatia e leitura de expressões do rosto. De fato Juno não conseguia ler minha mente como um livro, mas chegava muito perto. O suficiente para a questão da existência do sobrenatural ficasse em cima do muro, indecidível. A posição dos Euleres a respeito disso era muito prática: eles faziam uso do recurso, ele funcionava, então discutir sua existência era pura perda de tempo.


A atitude deles perante a ciência era igualmente curiosa. Sem dúvida Atlântida era muito avançada no momento de sua destruição, mas o modo de vida quase rural dos Euleres também remetia a um certo atraso. Eles eram felizes com o conhecimento que tinham à mão, e simplesmente não tinham interesse em estender a fronteira do conhecimento da finada Atlântida. O tempo para eles era circular, não linear. Por exemplo, para aprimorar a produção local de fungos, utilizaram eletricidade, e prosaicamente um gerador a gasolina, comprável em qualquer loja de ferragens. Para eles, obter -- pela compra ou pela subtração pura e simples -- um gerador construído por humanos tinha a mesma importância que colher uma laranja do pé. A laranja está lá, eu quero comer, eu pego a laranja, o que pode ser mais simples do que isto?


Aliás, ia quase me esquecendo por que eles se autodenominavam Euleres. Como o leitor deve ter suspeitado, isso tem a ver com o matemático Leonard Euler.  Sim, o grande matemático tinha sido um "deles" - na verdade, 75%, porque sua avó materna era humana. Boa parte da obra de Euler foi simplesmente tradução de escritos da Atlântida, o que "explica" parte de sua aparente infinita genialidade. O trabalho relativo a frações contínuas, óptica e astronomia, por exemplo -- tudo veio da Atlântida, Euler apenas traduziu e fez publicar.


Por outro lado, as descobertas relativas a números complexos, esses são realmente de autoria de Euler. Isto é líquido é certo, porque conforme descobri com Juno e outros, os matemáticos da Atlântida simplesmente não conseguiam lidar com números complexos. Conheciam o conceito mas era por demais abstrato para eles -- dizer que a solução de uma equação polinomial é um número complexo seria, para eles, tão ofensivo e intelectualmente preguiçoso como trapacear num jogo. Para suprir esta deficiência na sua ciência, usavam de contorcionismos matemáticos, que podiam ser demonstrados puramente com números reais. Nisto eles herdaram um pouco do antigo pensamento grego -- por exemplo, quando Pitágoras lidou mal com o fato da raiz de 2 não ser um número racional.


Isso dá uma boa ideia de como a ciência na Atlântida evoluiu, e para que lados ela escolheu não evoluir.


Ainda sobre Euler, ele não viveu por séculos, como todo mundo sabe. Viveu bons 76 anos, mas certamente tinha potencial de viver muito mais. Euler não tinha medo de humanos, sempre gostou de viver entre eles - e mais importante, recusou-se a seguir a dieta "correta" para a sua espécie - carne viva com um naco de carne humana de vez em quando. Isso não o matou imediatamente mas custou-lhe várias enfermidades, ficou inclusive cego de um olho com menos de 40 anos de idade.


Mas, tirante Euler, os demais de sua espécie eram arredios em relação a humanos. Por que Juno e sua comunidade de Euleres, estes curiosos seres não-humanos, ou quase-humanos, estava fazendo tanta questão de se mostrar, de se explicar para dois intrusos, que eles estavam pretendendo tomar como alimento há poucas horas?


"Bem, espero que assim você compreenda quem somos, e não nos delate", respondeu Juno.


"E que garantia você tem que não estou sendo cordato agora, para salvar a minha pele, e em seguida entrego vocês ao primeiro policial ou ao Exército?" -- perguntei.


"Você está sempre esquecendo que consigo 'ler sua mente', em termos, é claro. Assim já sei que você decidiu-se por não fazê-lo. Não é do seu feitio, ser um delator. E sejamos francos: você nos admira, está gostando do que vê aqui, entende nossas razões e apenas nos considera uma espécie diferente, porém moralmente equivalente à sua condição humana."


"É... na verdade o que eu estava cogitando é que não posso considerá-los seres "do mal" simplesmente por comer carne. Também gosto de carne, por opção racional preferia ser vegetariano mas realmente aprecio carnes e demais alimentos de origem animal..."


"Vê? Já te convenci!" -- Juno abriu seu maior sorriso, com satisfação ainda maior deste feito do que se fosse banquetear-se.


"... o único problema é que não gosto de me ver como a espécie a ser deglutida. A sensação de ser o gado foi bem esquisita" -- atalhei. "Ainda penso que os animais têm sentimentos mas não têm consciência reflexiva, então não posso evitar o chauvinismo de me considerar não-comestível, mesmo perante uma espécie que aparentemente é  'superior' à minha".


Juno estava gostando da digressão. "Pois é, mas o que aconteceria se você encontrasse uma vaca ou um porco capaz de pensar?"


"Acho que eu tentaria explicar por todos os meios o porquê de nós seres humanos termos escravizado e nos alimentado deles. Não seria muito fácil."


"Naturalmente, você não consentiria em matar e comer aquele animal consciente em particular. Mas você deixaria, a partir deste evento hipotético, de se alimentar de carne?" -- Juno perguntou, sabendo da resposta.


"Não." -- tive de admitir. "Mas vocês alimentam-se de humanos, e cada um deles é consciente. Não posso evitar a distinção."


"Para nós, esta característica não é determinante. Para nós, ou para nossos estômagos, o que distingue um animal 'superior', que merece ser poupado, é sua valentia diante do momento final da vida. Quase todos os demais que caíram em nossas mãos imploraram como covardes pela vida. Por acaso vocês são de uma subespécie diferente. São como felinos, e não comemos felinos."


"Interessante". Não sabia se deveria me sentir lisonjeado.


Nisto, Aírton juntou-se a nós. Ainda estava um pouco abatido, dado o "tratamento especial" recebido de véspera, mas sem dúvida o tratamento de recuperação foi mais que milagroso. Os ferimentos tinham praticamente desaparecido de tão bem cicatrizados, e mais importante, Aírton deslocava-se usando as próprias pernas, sem qualquer bengala ou muleta, como seria natural que usasse por muitos meses a partir do dia anterior.


E vinha com uma cara excelente, não o sorriso malvado que fazia sua fama, mas um sorriso de quem tinha visto passarinho verde.


"Senhores, acabo de ver a coisa mais bonita do universo!" -- nos disse assim que chegou.


Juno deu um sorriso algo amarelo, mas foi cortês com Aírton, perguntou se estava bem, se precisava de ajuda para caminhar. E depois me disse, antes que eu perguntasse: "Talvez ele tenha razão, vamos ver se você concorda, quando vê-la. Mas primeiro vamos comer, que já é hora e nos aguardam. Hoje é dia de comer carne".


"Ah, vocês não comem todo dia? Achei que fossem carnívoros estritos, como os felinos?"


"Não, também podemos nos alimentar a partir de certos fungos, mas é sobrevivência, não é exatamente a comida predileta. Mas não precisamos comer muito para nos manter. Basta a carne, uma vez por semana,  e alguns bocados do suplemento à base de fungos de vez em quando no ínterim".


Até nisto eram superiores, pensei. Esta parca necessidade de alimento, mais a necessidade de carne e sangue vivos, fez a lenda dos Euleres. As lendas de vampiros, lobisomens e assemelhados derivam diretamente das atividades furtivas dos Euleres a fim de obter comida.


Além de precisarem comer carne viva, eles apreciavam particularmente o sabor da carne de um animal (ou humano) sob extremo sofrimento. Certos hormônios são liberados quando uma pessoa ou bicho é torturado, por exemplo, e exatamente estas substâncias davam o sabor desejado à carne, além de serem nutrientes importantes para sua dieta.


Apesar de não comerem muito, precisavam comer carne humana de vez em quando, e nas mesmas condições: carne ainda viva. Por diversos motivos práticos, tanto pela dificuldade de obtenção, pela encrenca que poderia lhes causar (a questão de comer uma pessoa consciente não era um fator que, em si, lhes incomodasse, até aumentava seu prazer), os Euleres limitavam ao máximo o consumo de carne humana, mas precisavam pelo menos um bocado a cada tantos meses, no máximo um ano. Do contrário, sua longa vida, de aproximadamente 350 anos (sem apresentar sinais de velhice senão nos últimos 24 meses de vida!) era fortemente abreviada, talvez para uma década.


Assim, eles procuravam caçar, pescar, e mais modernamente criavam animais em cativeiro, dada a escassez de boas águas e florestas conservadas. Este era mais um motivo de contenção e até ódio dos Euleres em relação aos humanos. Eles odiavam automóveis em particular e Juno me avisou logo que não devolveria nosso carro, pois fora destruído meticulosamente quando fomos capturados.


Muito do que descrevi acima ficamos sabendo em primeira mão, vendo os Euleres comendo num grande salão à guisa de refeitório coletivo. Nós também fomos, na condição de visitantes.


Cada um recebeu um pequeno antepasto fungal. Este nós também comemos, não era ruim, mas não tinha gosto de nada. Juno e os demais comensais da mesma mesa garantiram que não nos faria mal. E de fato aquilo matou nossa fome, nos vários dias em que ficamos ali. Também nos trouxeram alguns vegetais folhosos crus, o que era curioso pois não tinha visto horta alguma no complexo.


E depois, cada comensal recebeu um animal preso numa gaiola. Uns receberam porquinhos-da-índia, outros preferiram coelhos e assim por diante. Cada um abriu uma espécie de estojo de ferramentas, podiam ser talheres, mas estavam mais para ferramentas de tortura destinadas a pequenos animais.


A maioria dos animais veio íntegra, mas alguns vinham já machucados, sangrando, um e outro com sinais de infecção.


Com evidente prazer, todos começaram a lancetar seus respectivos bichos, picá-los, chupar o sangue dos ferimentos que produziam. Furar e chupar os olhos, arrancar pedaços da pele com os dentes. Depois, com cutelos, cortar patas, chupar o membro destacado e também o toco do lado do corpo. A gritaria da bicharada era ensurdecedora, e obviamente este era o efeito desejado. Os Euleres estavam totalmente absortos na atividade de alimentação, nem mesmo Juno prestou muita atenção na gente, nem explicou nada, enquanto comia viva a rês que lhe tinha cabido.


Só não saí dali por falta de coragem, podiam tomar isto como falta de educação. Não é o que se diz, que não se levanta da mesa até todos terem acabado de comer? Aírton em particular ficou bastante abalado, já que ele tinha enfrentado pelo menos a fase inicial daquele incrível processo de ser transformado em almoço... Ao cabo de uns trinta minutos os bichos começaram a morrer e a barulheira começou a amainar.


Assim que "seu" animal morria, o comensal desistia logo dele, no máximo espremia o sangue num copo ainda para um último gole. O prazer supremo deles era o bicho sobreviver até a fase de ser estripado vivo, para que o coração e outros órgãos mais apetitosos pudessem ser despedaçados e deglutidos ainda com algum tremor de vida.


Isto não era muito fácil de conseguir num animal pequeno, onde qualquer corte maior tende a ser fatal. Mas claramente era um talento valorizado entre eles; exercitado e aprimorado a cada oportunidade. O comensal ao lado de Juno demonstrou habilidade ainda maior, ao conseguir abrir o crânio de um sagui, ou um mamífero desses que parecem com macacos (zoologia nunca foi meu forte) e chupar o cérebro enquanto o bicho ainda gritava e nos olhava. Apenas quando o cérebro saiu da caixa craniana foi que um espasmo e o apagar das vistas demonstraram que o pobre animal tinha ido para o Paraíso de sua espécie.


Depois de terminar seu almoço, Juno pareceu ter acordado do transe e notou novamente nossa presença. Notou também nosso desconforto e pediu desculpas pelo "espetáculo", não sem lembrar que o cenário dentro de matadouros "humanos" não era tão diferente.


Esta afirmação realmente colocou o que tínhamos visto na devida perspectiva, e nos acalmamos um pouco.


Procurei distrair a mente em questões econômicas. Se eram uns cinquenta Euleres, e comiam carne uma vez por semana, precisavam produzir algo como duzentos animais por mês. Isso precisa bastante estrutura, comida para os animais, e sempre tem de haver fêmeas prenhas, machos reprodutores. Vida rural não é mole não.


Pensando nesta questão reprodutiva, notei de repente que não tinha visto nenhuma fêmea/mulher dentre os Euleres. Eram 50 ou 60 homens, todos parecidos ou quase iguais mesmo. De onde vieram eles? Quem os deu à luz? A pergunta saiu da minha boca automaticamente:


"Juno, sua espécie não tem fêm.. digo, mulheres?" -- corei um pouco pela pergunta que saiu mal formulada.


Ele fez uma careta, como quem é lembrado de um fato menos agradável. "Sim, há fêmeas dentre os Euleres, mas são pouquíssimas. A proporção entre meninos e meninas nascidos é muito alta. Ainda bem que nossa vida é longa, do contrário já teríamos desaparecido. E isto vem piorando, acreditamos que é por fatores ambientais, mas não temos certeza." Ele não disse, mas deixou transparecer que, no longo prazo, a espécie deles estava condenada à extinção.


Aquela comunidade de Euleres tinha contato com algumas outras comunidades que eles mantinham mundo afora, nos cinco continentes, com o objetivo de ajuda mútua e alguma troca genética, mas a escassez de fêmeas era igual em todas e este intercâmbio não ajudava em nada com o problema.


Juno continuou: "Temos apenas uma mulher aqui nesta comunidade. É minha esposa. Como líder tenho direito sobre ela." Antes que eu pudesse abrir a boca, atalhou: "Sei o quão... machista --- esta é a palavra que vocês usam? --- isto soa, mas é questão de sobrevivência. As poucas fêmeas vão para os machos mais perfeitos, a fim de assegurar nossa pureza genética. Isto também soa eugênico, mas nossa 'eugenia' não é baseada em critérios políticos ou ideológicos. Não negue, você viu como somos uniformes, bonitos e perfeitos."


Credo, quanta pretensão. "E como os demais homens se viram? Eles aceitam ficar 'solteiros' numa boa?"


Juno expirou como se fosse uma pergunta óbvia, infantil. "Sim, todos nós aceitamos este fato da vida, da nossa espécie." Depois ele pensou melhor e continuou: "Para ser honesto, os homens solteiros também têm sua libido, menor que a dos machos humanos, mas ainda está lá, e precisam lidar com ela de vez em quando. Mas para isto, uma mulher humana serve. Vez por outra, cada homem recebe uma licença para sair da comunidade, oficialmente para adquirir ou obter algo que precisamos, mas eles podem aproveitar o passeio para satisfazer suas necessidades sexuais."


Os Euleres tinham suas posses, investimentos de baixo risco de muitos séculos no mundo inteiro, portanto tinham dinheiro para gastar (embora não fizessem muita questão dele, era uma ferramenta de interação com os humanos inferiores) e podiam comprar tudo que precisavam, e também podiam pagar prostitutas conforme a necessidade. Mas a beleza física dos Euleres era tamanha que quase nunca precisavam pagar por sexo. Bastava saírem à rua, que logo aparecia uma transeunte ou uma atendente de loja que caía de quatro pelo belo ser com feições de vampiro.


Como sua genética era já demasiado distante da humana, os Euleres eram para todos os efeitos homens estéreis. não havia o menor risco deles estarem fazendo filhos por aí. Isto era de certa forma uma desvantagem, já que as fêmeas eram tão escassas dentre os Euleres, e nem a "importação" de fêmeas humanas poderia mitigar o problema.


Mais curioso ainda: a combinação oposta era viável. Leia-se: uma fêmea-Euler com macho-humano podiam ter filhos, cuja genética seria quase puramente humana, e daí por diante tais "filhotes" poderiam cruzar com humanos, descartando completamente a genética "melhorada".


Não era esta, portanto, uma alternativa válida para aumentar a população de Euleres. Ademais, as fêmeas-Euler eram escassas, não se ganhava nada com o fato delas serem insemináveis por humanos. Não havia mesmo registros de nenhum cruzamento interespécies na história recente daquela comunidade. Era uma mera curiosidade, conhecida desde a época da Atlântida onde os Euleres foram inicialmente concebidos pelos cientistas geneticistas.


Aliás, foi conversando sobre isto que descobri que os Euleres poderiam ser mortos. Não era muito fácil, e se conseguissem voltar à comunidade geralmente sobreviviam graças aos remédios miraculosos que produziam (eles também levavam um pequeno kit de primeiros-socorros consigo nas "expedições" à cidade). O último deles a sair do complexo e não retornar foi morto por um marido enciumado. Por pura sorte do corno e azar do monstro, o Cornélio atacou o rival com uma faca de prata... Desde então os demais foram encorajados a preferir prostitutas.


"Aliás, isso me lembra uma coisa. Não creio ter visto nenhuma mulher no refeitório conosco. A não ser que suas mulheres sejam tão parecidas com os homens."


"Não, ela não estava lá. Nosso dimorfismo sexual é ainda mais intenso que nos humanos. As nossas mulheres não precisam comer carne, por exemplo. Nem mesmo gostam. Elas comem exclusivamente vegetais crus. Aquelas verduras que vocês comeram, foram preparadas pela minha esposa, que ficou com pena de vocês, para variar um pouco a dieta."


Não seria mau pousar os olhos numa mulher, depois de ver tanta coisa nas últimas horas, e tanto macho junto. Um colegiozinho, digamos assim. Também havia uma certa curiosidade científica. Veríamos o quanto aquela perfeição genética dos machos conseguiria traduzir-se em beleza feminina... em geral um pool genético reduzido traduzia-se em mulheres feias.


"Vou apresentá-la a vocês, então você verá", disse Juno em resposta ao pensamento. O rosto de Aírton foi logo se iluminando, o que achei gozado, logo ele tão estoico nestas questões. Mas veríamos.


Como é de se esperar numa sociedade tão primitiva, machista, encontramos Elena trabalhando numa cozinha, muito embora estivesse ocupada preparando vegetais para consumo posterior, que era a dieta dela e apenas dela.


Juno apresentou-nos mutuamente. Elena demonstrou ser muito amável, temperamento suave, nem um traço de maldade em seu olhar. Outra diferença gritante em relação aos machos de sua espécie.


O que ela tinha em comum com os homens do lugar era a beleza física. Que, vazada em forma de mulher, finalmente podia ser avaliada por homens, ainda que de outra espécie, como eu e Airton. A beleza de Elena era algo absurdo, monstruoso no bom sentido, de tirar o fôlego. Não admira Aírton tenha ficado todo abobado, alheado dos seus ferimentos ainda em cicatrização, só de tê-la visto casualmente pela manhã.


Se as mulheres sentiam pelos Euleres-machos o que eu senti olhando para esta fêmea, eles realmente tinham quantas mulheres quisessem quando em missão; não tinham mesmo motivo prático para queixar-se da escassez de fêmeas.


Toda pessoa bonita parece mudar ligeiramente, ou bastante até, de um ângulo para outro, de uma foto para outra. É uma prerrogativa de top-modele, assim sua imagem é polimórfica, não "cansa" o público tão depressa. Pode anunciar 10 produtos, cada um com uma das suas 10 facetas. Pois bem, Elena mudava o tempo todo, a olhos vistos, continuamente, como a água vai mudando de forma sobre o mar ou sobre o lago, sem perder a essência e beleza.


Falando mais "tecnicamente", ela tinha uns 170 de altura, cabelos pretos lisos, profundamente morena mas puxando para o vermelho como Juno e os demais. Mas tinha olhos verde-azulados, enormes, enquanto os homens eram todos de olhos escuros. Mais uma diabrura do dimorfismo sexual a serviço de uma beleza arrasadora... Sorriso de infinita bondade, ou pelo menos assim é assim que um macho é programado geneticamente para enxergá-lo. Aquela confusão de beleza com virtude.


Como tem muito homem por aí que prefere loiras exclusivamente, talvez Elena não agradasse a este público em particular, mas mesmo assim, acho difícil um homem não abrir uma exceção para ela.


Aírton era um desses cuja predileção recaía sobre loiras, ele que não era nenhum santo, muito embora separasse rigidamente seus casos amorosos do trabalho, nunca saindo com ninguém do nosso ambiente de labuta, nem permitindo prosperar situações de assédio. Nisto era considerado um "trouxa" pelos demais gerentes de departamento, e também uma fortaleza de honestidade pelo resto de nós. Mais de uma menina que primeiro tentou "subir na vida" dormindo com seu chefe foi implorar transferência para nossa área, para se ver a salvo.


Enfim, Aírton já estava em fase de convalescença da visão estonteante de Elena, já conseguia comportar-se de maneira normal frente à beleza ideal em carne e osso. Eu fiquei bastante abalado e Elena não parava de me fitar, como se quisesse também ler a minha mente, assim como o marido Juno o fazia. Fiz o possível para manter a mente vazia de pensamentos. Talvez os dois fossem comentar na cama, à noite, as besteiras que um e outro tinham captado do meu pobre cérebro.


Juno, para provocar, ainda atalhou "já que vocês têm dieta mais parecida, você pode vir aqui quando quiser, a fim de obter mais comida."


Isto me despertou parcialmente. Pelo nosso "acordo" nós ficaríamos uma semana inteira no complexo dos Euleres, a fim de sairmos completamente convencidos a guardar o segredo da sua localização. Comer apenas folhas verdes e fungos por uma semana ia ser triste. Haveria outros ingredientes para comida "humana"?


"Procure por aí, na granja, talvez ache uns ovos, pode fazer algum prato mais elaborado. Ninguém aqui come ovos, apenas os utilizamos como fonte de alimento para outros animais".


Saímos dali, e fomos deixados à vontade para andar pelo complexo. Juno foi ocupar-se de outros afazeres. Visitamos por nossa conta os estádios de esportes. Os jogos eram uma coisa que os Euleres prezavam muito. Eram esportes bem violentos para os padrões humanos, e suscetíveis de provocar muitos ferimentos. Lembro de um deles com bolas de pedra, eram atiradas para todo lado e a chance de pegar no corpo de alguém ao longo de uma partida era quase 100%. Mas fora isso, cada jogo tinha seu conjunto de regras, rígidas e simples, a exemplo do futebol, basquete, etc.


Achamos também uma biblioteca, onde haviam uns quatro Euleres estudando. Nenhum deles falava muito conosco, exceto um e outro monossílabo. Assim como a reprodução, a interface com estranhos dentro do complexo era completamente delegada a Juno e sua esposa, como uma colônia de abelhas ou outra espécie animal com rígida organização social. Mas conseguimos arrancar de um dos leitores que o livro que ele lia tratava-se de um livro de medicina, com receitas de remédios.


Infelizmente, tanto o alfabeto quanto o idioma em que estavam escritos nos eram desconhecidos. As letras lembravam o alfabeto grego mas não era exatamente o mesmo. Folheamos alguns livros, nenhum dos Euleres nos molestou quando fizemos isso apesar do óbvio valor e raridade dos escritos, mas ficamos sem entender nada. Talvez por isso mesmo não se importaram com nossa xeretagem.


À noite, fomos alojados, ou melhor dizendo, trancafiados, num daqueles prédios em forma de cogumelo, que não tinha nenhum ser vivo exceto nós. Havia uma pequena copa com água (os Euleres só bebiam água. E, eventualmente, sangue.) e a comida disponível para humanos: uns "chips" de fungo seco e diversos vegetais frescos. Também encontramos alguns jogos de tabuleiro.


Juno apareceu mais tarde, como que para desculpar-se por nossa detenção, sem realmente pedir desculpas de forma verbal.


Ele explicou rapidamente as regras de dois ou três jogos, que tinham instruções mas naturalmente não tínhamos entendido nada. Também apareceu com um dispositivo improvisado que aquecia água, e assim pudemos fazer chá. Juno lembrou, levando a mão à testa e pronunciando o primeiro palavrão em três dias, que não tinha trazido qualquer folha passível de infusão, e o aquecedor de água seria então inútil.


Mas Elena tinha, curiosamente, mandado um bom bocado de erva-doce, que ela apreciava como salada mesmo e achou que também comeríamos. Realmente apreciamos, mas na forma líquida, e mais ainda porque havia na erva um levíssimo resto do perfume dela.


Com isto, pudemos nos distrair, eu e Aírton, entre disputas de um jogo que lembrava o gamão e observação do céu estrelado na cúpula do prédio, tentando descobrir que horas são, até finalmente o sono chegar.


Nos dois dias seguintes, nos deram mais liberdade para percorrer o complexo e espiar onde quiséssemos. Juno e os demais estavam ocupados com seus próprios afazeres e não podiam nos ciceronear continuamente. Talvez esta liberdade fosse um teste para ver se não fugiríamos, e haveria uma segunda linha de defesa no perímetro, prendendo-nos novamente. Porém apenas brincamos com a hipótese de dar no pé, não tínhamos realmente vontade de ir embora, não tão rápido.


Também não nos trancafiaram mais no prédio à hora de dormir, mas então preferimos trancar a porta por dentro.


Aírton, com seu tino comercial, começou a estudar detidamente o processo de cultivo dos fungos. Achou que poderia produzir algum tipo de alimento saudável semelhante, talvez um substituto para cereal matinal. Até coletou uma amostra num vidrinho, o que provavelmente era proibido mas ninguém viu e decerto não iam nos condenar à morte por um delito tão pequeno.


Aírton também conseguiu disciplinar sua mente de forma a não ser tão prontamente lida pelos nossos anfitriões, e tentou me ensinar o truque. Cada vez que cruzávamos com algum daqueles Euleres, tão parecidos entre si, eles davam uma "vasculhada" rápida em nossas mentes para ver se não tínhamos feito alguma besteira -- ou se estávamos na iminência de fazer alguma. Meu chefe divertia-se ao conseguir deixar a consciência completamente vazia e constatar a pequena decepção do monstro ao não conseguir extrair nada.


Quando roubamos a amostra de fungo, eu também tinha deixado cair uma pipeta, e logo que saímos da sala de cultivo um deles olhou para nós, perscrutando nossos pecados. Aírton passou incólume, mas o monstro deteu-se na minha pessoa e foi logo perguntando o que eu tinha feito. Naturalmente o delito maior era a biopirataria, mas confessei logo o acidente com a pipeta, o que satisfez nosso inquisidor. Decerto ficou feliz que ainda conseguia me decifrar e que tinha me pego em flagrante...


Eu ainda carregava uma terceira preocupação: Elena.


Fiz muitas visitas a ela e conversei com ela muitas horas, tentando balancear este tempo num patamar justificável pela curiosidade, e pela necessidade de obter nossos alimentos "para humanos". Claro que meus motivos iam além destes dois...


Elena parecia divertir-se com meu interesse, como se a Miss Mundo fosse alvo da paquera de um velho. Era divertido, talvez gratificante emocionalmente, mas naturalmente o velho não teria sucesso em seu intento. E normalmente o velho sabe disto, ele passa a cantada apenas proforma, um tributo à nova geração.


Era como estar admirando a Mona Lisa (se a Mona Lisa fosse bonita, claro). Posso admirar um quadro belo sem ter vontade de transar com ele.


E eu também sabia que não tinha chance, e nem mesmo tentaria qualquer avanço ainda que ela me encorajasse. Primeiro, era casada com o líder daqueles seres monstruosos; imagino o tipo de castigo que me estaria reservado.


E eu, de espécie diferente e inferior, era curioso como tínhamos exatamente a mesma altura mas ela parecia duas vezes mais alta. Fora a beleza dela, e deles, frente a meu corpo sedentário que só não tinha degringolado de vez à custa de dieta e exercício leve. Aliás, esta foi uma vantagem da minha estadia lá com os Euleres, perdi um bocado de peso.


Uma vez, Juno entrou de repente na sala onde Elena mantinha sua horta hidropônica, e claramente divertiu-se com minha beatificação frente à esposa Elena. Depois ele falou, pilheriando, sobre o assunto:


"Aposto que vai procurar uma namorada morena de olhos verdes assim que sair daqui!", quase orgulhoso que a esposa poderia impingir-me um estereótipo a ser perseguido em meus futuros romances.


Ele não estava nem um pouquinho preocupado com a "concorrência". Tinha absoluta certeza que eu não faria nenhuma besteira, por medo da represálias e por sermos de espécies diferentes. E tinha mais certeza ainda que Elena não se interessaria por mim, nem por nenhum outro humano, exceto como um objeto de curiosidade, talvez mistificada de como os machos da espécie dela poderiam querer alimentar-se de bichos tão feios...


Juno mesmo colocou-me a coisa nestes termos, numa conversa mais solta, e senti-me momentaneamente inferiorizado. Ele sentiu isto e arrematou rapidamente, tentando desfazer o mal-estar, alegando que éramos simplesmente de espécies diferentes, etc.


Mas eu não queria uma mulher "como Elena". Eu queria Elena, estava perdidamente apaixonado por ela. No terceiro dia, descobri que ela também gostava de mim. Não só aqueles seres conseguiam ler a mente, eles também transmitiam informação sem palavras. Ou talvez foi o olhar conjugado com a mão dela segurando forte a minha.


Não era uma troca na mesma moeda, certamente ela não tinha a mesma paixão selvagem e incontrolável que eu tinha por ela, o que seria talvez impossível, dada a incrível beleza física dela e o meu maltratado corpo de nerd que come salada e anda meia hora por semana na tentativa de não sofrer um ataque cardíaco antes dos 30. Eu era até mais baixo que ela!


Porém ela via meu valor, o sujeito calmo mas que não hesita em lutar se necessário. Alguém que não tinha uma posição chauvinista em relação aos demais seres... que não era possessivo em relação às fêmeas. Que não precisava alimentar-se de seres humanos em agonia. Alguém que poderia ajudar Elena a inserir-se no mundo maior -- onde ela poderia descansar de uma longa vida, até então vivendo isolada, perseguida e vigiada.


Sim, Elena queria ir embora, deixar seu povo, e apegou-se a mim como uma tábua de salvação. Talvez me deixasse depois de um tempo "lá fora", talvez fosse procurar outro homem mais parecido com os machos de sua espécie, mas não importava. Se eu pudesse tocá-la apenas uma vez...


Comecei a imaginar como poderíamos escapar dali, nós três: eu, Elena e Aírton. Uma vez fora do complexo estaríamos a salvo, os Euleres nunca se atreviam a atacar alguém fora dos seus domínios, era perigoso demais.


Como estávamos sem automóvel, teria de ser à pé, na direção de uma fazenda que eu sabia estar relativamente próxima, algo como um dia de caminhada, e dali solicitar auxílio pelo rádio que eles tinham.


O maior problema era ficar pensando nisto sem dar bandeira. Qualquer dos Euleres machos que passasse por mim e desconfiasse de alguma coisa poderia ler minha mente e inferir pelo menos as minhas intenções, dali em diante poderiam me prender e fazer o diabo comigo para descobrir as minúcias.


Consegui disfarçar bem, mesmo frente a Juno. Quem primeiro notou minha angústia acabou sendo Aírton, e tive de me abrir com ele, até porque estava envolvido; quem de nós ficasse para trás estava condenado.


Aírton deu um longo suspiro; aquela novidade prejudicaria seu projeto de cultivo de fungos como suplemento alimentar, ele contava com a parceria dos Euleres pelo menos numa fase inicial do projeto.


Mas ele conformou-se logo e passou a enumerar algumas possibilidades de fuga sem sermos notados, traçando um plano muito mais detalhado e viável do que os que eu tinha engendrado até então. Isto porque eu estava com a questão na cabeça há quase 24h e Aírton só tinha pensado a respeito nos últimos minutos após minha confissão.


A fuga seria no dia seguinte. Hoje, eu tinha combinado encontrar-me com Elena numa trilha da floresta, perto de uma ponte pênsil que atravessava uma garganta de pedra estreita e profunda.


Era a mesma garganta onde tinha sido escavada a estrada de acesso ao complexo dos Euleres. A ponte passava por cima do rio e da estrada e era também um bom posto de observação. Mas não haveria vigias lá hoje, os Euleres acreditavam em estatística. Se tinha havido invasores nos últimos dias -- eu e Aírton -- não haveria outros por um certo tempo e era bobagem ficar vigiando.


-*-


Elena chegou, as 17h, conforme combinamos. Os Euleres não utilizavam relógio, mas sim referências do tipo "a hora em que a cigarra canta" e outras bobagens inexatas do gênero. Mas naquele dia a cigarra cantou com precisão às 17:00:35.


Mas vinha transtornada, com pressa. Juno tinha lido sua mente, sabia de tudo, disse ela. Mas então por que ela tinha vindo? me perguntei.


E de fato Juno apareceu em seguida, com a face mais raivosa e selvagem que eu jamais tinha visto numa pessoa. Estava fora de si, possesso, nem raciocinava direito. Queria apenas nos trucidar com as próprias mãos, assim me pareceu. Iria ele mandar às favas uma das poucas fêmeas da espécie dele?


Estávamos na cabeceira da ponte precária, recuamos mais ou menos um terço do comprimento, adentrando na ponte. Juno foi se aproximando também, sem pressa, como uma fera encurralando a presa.


Elena olhou-me com ternura infinita... e num movimento rápido, felino, sem dar tempo a nenhum de nós, pulou da ponte, de cabeça.


Mas o rio era meio raso para pular de cabeça, e o ideal seria estar da metade da ponte em diante para pular na água. O rio era daqueles bem pedregosos nas margens, tem de medir bem onde mergulha. (Incrível como estes cálculos passam pela cabeça tão rápido nesses momentos críticos!)


Então eu e Juno constatamos a horrível verdade: ela tinha feito tudo de caso pensado. Pulou de cabeça, sobre as pedras, cometendo suicídio. Por longos segundos, nem eu fui capaz de fugir nem Juno de me perseguir. Ficamos em choque.


Mas acordei do choque. Com Juno fechando uma cabeceira da ponte, sabe Deus onde ia dar o outro caminho a partir da outra cabeceira. E fugindo à pé, seria alcançado neste minuto ou no próximo.


A vida passou frente a meus olhos, como sempre acontece a quem vai morrer em muito breve...


...Mas também outro fato cruzou meu pensamento: nunca tinha visto um Euler tomar banho ou entrar num corpo de água, apesar do belo rio que cortava sua vivenda. Eles não cheiravam mal (e sem dúvida Elena tinha o olor mais convidativo que já senti), nunca estavam sujos, nem mesmo com a barba por fazer, mas... talvez fosse da sua natureza, como os gatos domésticos, que estão sempre limpos?


A única chance que eu tinha era jogar todas as fichas nesta hipótese. Havia chovido, o rio estava mais caudaloso que de costume. Se pulasse na água, com sorte acertaria a parte mais funda do leito, ainda bateria nas pedras mas talvez escapasse apenas com um pé torcido, em vez de uma perna quebrada que me imobilizaria, e seria uma refeição a mais para os Euleres...


Melhor ainda: pulei de cabeça, como Elena fez. Se por azar o rio fosse raso, que eu morresse logo. Coloquei os braços para frente assim que ia tocar a água. As mãos tocaram o fundo de pedras lodosas, meu dedo médio esquerdo entrou num vão; por instinto, puxei violentamente, o dedo ficou destroncado e a unha quase foi arrancada. Pela adrenalina, só senti os impactos mecânicos; a dor viria depois.


Nadei mergulhado, a favor da correnteza, o mais rápido que pude, talvez uns dois minutos, mas não tinha como saber exatamente quanto tempo. Podem ter sido poucos segundos. Achei ter ouvido uma ou duas flechas batendo no leito, passando perto de mim; os Euleres deviam estar atirando com suas bestas. Redobrei os esforços.


O rio também estava com boa correnteza. Quando finalmente tive de emergir, quase apagando, vi que já tinha passado do complexo dos Euleres. Como estavam todos à minha caça no outro extremo da propriedade, não havia nenhum por ali esperando para me atingir.


Ainda vi um ou dois correndo pelas margens do rio, tentando seguir-me, lá longe, mas já não distinguia suas faces, e estava fora do alcance das flechas. Talvez já nem me vissem mais, apesar de gostarem alegar que tinham visão 24/20... mas não entravam na água, não suportavam entrar na água. Foi a minha salvação.


Entre correnteza e natação resoluta, percorri muitos quilômetros, passei por trechos encachoeirados onde alternei caminhada e simplesmente me deixar rolar pela água pelo cansaço. Só parei quando enxerguei sinais claros de habitação humana: sítios e uma estrada razoavelmente frequentada, que vencia o rio mediante uma ponte cheia de traves cruzadas. Não quis nadar por baixo e já estava com sinais claros de hipotermia.


Caminhei pela estrada e pedi ajuda a uns sitiantes que passavam. Ficaram muito desconfiados, mas como tinham telefone via rádio, atenderam meu pedido de chamar a Polícia e minha família. Depois sentiram-se mais à vontade e me ofereceram comida e pouso.


Eu sabia que não poderia contar a história real para as autoridades; ninguém acreditaria em mim, e os Euleres certamente já tinham desaparecido do seu recanto, como sempre faziam quando pressentiam delação. Tive uma certa pena deles; eram monstros mas ao mesmo tempo viviam escorraçados para lá e para cá neste mundo de Deus. Outro problema era o desaparecimento de Aírton.


Como toda mentira tem 90% de verdade, aleguei ter sido sequestrado, eu e Aírton, e fingiria surpresa pela ausência de qualquer pedido de resgate...


Para minha surpresa legítima, Aírton apareceu logo depois, bem-vestido e recomposto, em seu próprio carro, magicamente, como se nada tivesse acontecido, bem ao estilo dele!


Enquanto os Euleres estavam à minha caça, sob as ordens do ciumento Juno, Aírton observou a movimentação e tratou de escapulir, com boa dianteira, por uma trilha no mato. Guiando-se primitivamente pelo Sol e pelos musgos das árvores, foi seguindo na direção sul, procurando sempre despistar seu caminho real para o caso dos Euleres irem atrás dele, até encontrar também um povoado e pedir que seu motorista o apanhasse.


Não tinha falado com a polícia ainda, e espertamente foi logo confirmando minha história, já que para todos os efeitos estávamos desaparecidos do mundo civilizado há muitos dias e estavam à nossa procura. Muitas explicações a dar. A cidade já tinha aventado todas as hipóteses: que ele fugiu dando o calote nos fornecedores de suas empresas; que eu e ele éramos amantes e tínhamos fugido para a Austrália...


Nas semanas seguintes com a mão e quase todo o braço enfaixados para que meus dedos quebrados e destroncados pudessem recuperar-se (o raio X mostrou que não um, mas três dedos e outro osso da mão tinham sido afetados) foi muito reconfortante ouvir estas histórias e rir até as dores do braço reaparecerem.


Mas, no fim do dia, a cor amarela do sol poente me lembrava quão bonita aquela luz do fim do dia refletia em Elena... Pobre Elena... e o que seriam dos machos do seu povo? Onde estariam agora?


Oito meses depois, encontrei Juno casualmente na rua. Não estava me perseguindo, ele estava entrando num banco e eu detive-o à porta. Cumprimentamo-nos formalmente, Juno não teve nenhuma reação além do rosto grave de dignidade ferida.


Era fim do dia, a luz do sol refletiu no rosto moreno de Juno, transparecendo aquela bela cor semelhante à de Elena. Isso me afetou por um instante, Juno notou, mas não fez pilhéria, apenas me pareceu que sua expressão de rosto aliviou-se, ele viu meu sofrimento por Elena e considerou-me devidamente punido afinal de contas.


A conversa fluiu pastosa, mas acabei perguntando onde os Euleres tinham fixado nova residência.


"Normalmente eu não lhe diria, mas o fato é que não mudamos de lugar."


"Mas como?!?"


"Estimei que, se você escapasse vivo, não nos entregaria. Nem mesmo contaria exatamente o que aconteceu, porque ninguém acreditaria. Então nos escondemos, mas mantivemos o complexo sob vigilância. Ninguém apareceu num lapso razoável de tempo e decidimos retornar. Economizou muito dinheiro, e eu tenho uma certa ligação agora com aquele pedaço de terra, você deve imaginar por quê. Acho que é algo pelo que vale correr algum risco."


Juno também perguntou de Aírton. Respondi que ele estava produzindo um novo tipo de salgadinho natural, baseado justamente nas amostras de fungos e mofos que tinha coletado no complexo Euler. Devido à pressa com que tivemos de fugir, as amostras eram pequenas e não tão saudáveis quanto a produção Euler, mas foram boas o suficiente para que Aírton fundasse mais um lucrativo negócio.


"Talvez eu procure-o para cobrar royalties", riu Juno. "Se eu precisar de dinheiro, posso vender amostras melhores para ele. Mas só em caso de emergência, aqueles fungos poderiam acabar com a fome no mundo, não gosto tanto assim da raça humana para fazer-lhe este favor" -- desdenhou, tom de voz e rosto de volta à antiga forma, falando de pessoas como se fossem gado.


A conversa foi morrendo e finalmente nos despedimos, em certo tom de amizade.


Às vezes tenho vontade de visitar novamente os Euleres, aprender algumas coisas com eles, rever o lugar onde conheci Elena.


Mas às vezes me ocorre que Juno possa ter me dispensado um tratamento civilizado exatamente para provocar este desejo. Um humano entrando voluntariamente em seus domínios, seu prato predileto.

 

 

 
Autor: José Bonifácio Reutemann

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