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O Epadachim a Cavalo

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Escrito por Sonia Regina Rocha Rodrigues   
Sex, 16 de Junho de 2017 00:00

Espadachim a cavalo

 

 

ESPADACHIM A CAVALO

Por Sonia Regina Rocha Rodrigues


 

Eu me orgulho do que faço. Sou maquiadora profissional e trabalho há dez anos no Cirque de Soleil.


É um desafio maravilhoso este ambiente de fanáticos por sucesso, procurando a perfeição a cada novo espetáculo, em busca de idéias revolucionárias e projetos audaciosos.


Para 2012, o diretor artístico queria algo épico. Algo a ver com a data fatídica de 21 de dezembro de 2012.


E a idéia genial chegou com Raj Dadasaheb Nataraja Cahkraborty,  um homem alto, de pele escura, olhos amendoados, corpo musculoso e ágil, que apresentou-se como diretor de Bollywood.


Guy e Raj conversaram por dias a fio, animadamente, e todos nós estávamos curiosos para saber qual o novo tema.


Uma bela tarde fui chamada, junto com outros profissionais de apoio.


Raj falou-nos sobre os deuses e heróis indianos, entregou-me algumas fotos e eu tive de inventar, ali mesmo, de improviso, uma máscara demoníaca e a pele de um deus de luz. Passei no teste. Recebi então um kit de pasta prateada e transformei o próprio Raj no rosto mais lindo desta terra. Pois o próprio Raj faria o papel principal desta produção: Kalki, o espadachim.


Meus colegas fizeram testes semelhantes com cores, luzes, sons, vestes.


Em seguida fomos apresentados à história do novo espetáculo.


- Como todos sabem, 2012 está sendo mostrado na mídia com certo sensacionalismo, como sendo o ano do fim do mundo. A nossa idéia é passar uma mensagem de amor e de esperança, baseada na mitologia hindu. – começou Guy. – O nosso próximo espetáculo vai se chamar Kalki, o espadachim.


E Raj continuou:


- Esta montagem precisa ser levada a todo o mundo antes de 21 de dezembro de 2012. Estaremos nas maiores cidades do planeta e a televisão espalhará nossa mensagem a toda parte.


Raj contou sobre o universo que ciclicamente se recria, o desejo humano de progresso e paz, a busca de cada um pela felicidade. E foi explicando o significado do Mahabharata, a grande epopéia hindu. Citou as dez reencarnações, ou avatares, do deus Vishnu, dos quais o último, o espadachim a cavalo, apareceria ao fim da Kali Yuga, ou seja, exatamente agora, para salvar a humanidade.


O espadachim é o herói que vem falar a todos os povos de tolerância, beleza, amor e compaixão. Do respeito a tudo que vive, da fraternidade universal. O último avatar de Vishnu não se restrinje à Índia, pois o planeta há muito passou a ser um grande único território onde todas as raças se irmanam.



Raj falou sobre os nomes dos deuses, de seus objetos mágicos, e o som alegre e vibrante das músicas e danças indianas era o pano de fundo para suas palavras.

Trabalhamos com entusiasmo e, por fim, chegou o dia do primeiro ensaio geral.


As luzes se apagaram. A performance começou.


‘Primeiro o cenário de um fundo de mar, magnífico. Um intenso azul escuro envolve a platéia, e ondas tremulam no espaço, um efeito especial de incrível impacto.


Silêncio total.


A enorme cobra de mil cabeças, Ananda, se arrasta lentamente, e sobre seu dorso, está o deus Vishnu, adormecido.


Milhares de pequenos peixes aparecem ao fundo e ao redor da platéia. A cobra começa, muito lentamente, a erguer suas cabeças sobre o deus adormecido, formando como que o encosto de um trono.


Do umbigo de Vishnu, uma névoa branca em forma de cordão se desenrola até a meia altura do palco, onde se abre em uma flor de lótus que começa desabrochar; sentado sobre a flor, um pequeno deus medita.


Vishnu se espreguiça lentamente, ergue seus quatro braços e a platéia pode ver, iluminados, um de cada vez, seus atributos divinos:


No primeiro braço a destacar-se, está uma concha, onde ele assopra, e nesse instante, começa a música, com um acorde a princípio suave e gradativamente mais forte até ecoar por todo o auditório, enquanto um coral de vozes murmura o sagrado som da criação: Aum.


No segundo braço de Vishnu está um disco, que ele roda em suas mãos e de onde saem faíscas de energia.


No terceiro braço, uma flor de lótus, e no instante em que é focalizado, um suave perfume de lótus envolve a platéia.


No quarto braço ele ergue um cajado, com o qual bate no fundo do oceano, e, então, um grande estrondo se faz ouvir.


E então, com a tecnologia que só o Cirque de Soleil dispõe, tudo parece acontecer ao mesmo tempo – o mar fica branco, os peixes correm todos para baixo. Crituras marinhas de todo tipo e porte aparecem na sequência e dançam – polvos, lulas, baleias, estrelas do mar, tubarões, peixes abissais impressionantes com suas luzes fosforescentes. Até pequenos cavalos marinhos, por entre corais e anêmonas. O fundo do mar, agora, parece areia branca e fina, e a água adquire a coloração azul cintilante dos recifes mais belos do planeta, em dias ensolarados.


A platéia, hipnotizada por tanta beleza, nem respira de emoção.


O foco de luz se desloca, a seguir, para o lótus na ponta do cordão enevoado que sai do umbigo de Vishnu.


Lá está o deus Brahma, que sai dançando pelo palco com seus oito braços, e a cada gesto seu, aparecem imagens das mais belas paisagens, e também seres diversos, alguns gigantescos, outros demoníacos, ou belos como anjos ou velhos como sábios. A música indiana, poderosa, acompanha o jogo da criação do mundo.


Uma imensa onda aparece, e Vishnu transforma-se em um peixe, que salva um homem da imensa onda. O peixe é o primeiro avatar de Vihnu, Matsya, e o homem é o ancestral da atual raça humana.


Desaparece o efeito de água do mar, e uma paisagem ensolarada é o pano de fundo para a história de Indra e do sábio que, ofendido, proferiu a maldição que retirou força e poder dos deuses e dos três mundos existentes.


Uma multidão de Asuras e Devas entra, então, cada uma por um lado do palco, e a platéia pode observar estes espíritos do bem e do mal em seus magníficos trajes, bailando ao som de melodias arrebatadoras.


É com muita emoção que Indra se dirige a Vishnu e solicita a ele o elixir da imortalidade, que está em algum lugar no fundo do oceano, para salvar os três mundos enfraquecidos. Conta-se então a história do Amrita, a bebida sagrada, que dá força e poder a quem o toma, e organiza-se uma conspiração, para que os demônios, Asuras, não fiquem tão poderosos como os angelicais Devas.


A luz escurece, retornam as ondas oceânicas, e ocorre nova transformação de Vishnu, em uma gigantesca tartaruga, que se põe a girar lentamente pelo palco, enquanto Devas e Asuras colocam sobre seu dorso uma montanha. Uma cobra se enrola ao redor desta montanha, deixando de cada lado as extremidades, por onde Devas e Asuras a puxam,  chacoalhando o oceano.


Do solo começa a emanar um veneno que ameaça a todos, e o deus Shiva desce às pressas para tomar o veneno do mundo, ficando, no processo, com a garganta azul. Shiva é imune ao veneno por ser o senhor da vida e da morte.


Tambores marcam o ritmo da próxima música, enquanto do oceano, que se torna cada vez mais leitoso, vão aparecendo em primeiro lugar as dançarinas celestiais, as apsaras, com seus trajes esvoaçantes e suas faces lindas e risonhas, voam para cima, cantando e bailando graciosamente;  suspensas no ar, cruzam a platéia nas quatro direções.


A seguir outras coisas saem do Oceano: a Vaca, o Cavalo, a delicada deusa Lakshmi, e, por fim, o deus da medicina com o Amrita.


A música se agita, Devas e Asuras brigam entre si pela posse do elixir.


A tartaruga (Vishnu) dá lugar a uma mulher – a bela Mohini, que sedutoramente se oferece para distribuir o elixir a todos.


É delicada a música que acompanha o bailado de Mohini, cujos movimentos leves e ondulantes fazem a platéia suspirar de emoção.


A fila se organiza, os Devas vão tomando suas colheradas de elixir, enquanto os Asuras vão sendo enganados, até que aparece um astuto Asura que se disfarça de Deva. Há um grito de advertência, lá do alto dos céus o sol e a lua avisam ao mesmo tempo: ‘cuidado, Vishnu, é Rahu’. Subitamente, a bela jovem tira de seu cinto o disco com que corta a cabeça do demônio.


Rahu, partido em dois, contorce-se em malabarismos e, reduzido a uma cabeça, corre atrás do céu e da lua, tentando devorar os astros. A cada tentativa, a cena quase escurece, como se houvesse um eclipse, mas por trás da cabeça de Rahu, o sol e a lua escorregam e voltam a iluminar o céu.


Enquanto isto, embaixo, grande luta envolve Asuras e Devas.


Mohini sai de cena, e reaparece Vishnu, voando, em seu pássaro Garuna, e todo um conjunto de deuses, astros, bichos, coisas, homens, vão dançando, misturando-se e saindo de cena.


Restam no palco Vishnu e Lakshmi. Ela colhe do oceano uma jóia que ata ao pescoço do deus, e celebram a cerimônia de seu casamento, em um belo ritual indiano.


Lakshmi se retira por trás de Vishnu, e, de cada lado do palco, aparecem Bhrama e Shiva, com seus respectivos atributos, dançando, cada um em um diferente foco de luz, a dança da criação, da manutenção e da destruição do mundo.


Vishnu, ao centro, vai tomando a forma de seus diversos avatares, enquanto os personagens de cada uma de suas existências aparecem a seu redor, ou acima dele, representado resumidamente a história relativa a cada avatar - o Javali, o homem-leão, o anão, o homem com o machado, o arqueiro Rama, o condutor Krishna e Buda.


As três primeiras histórias são apenas sugeridas, mas há um destaque bem maior para cada uma das mais recentes e conhecidas – Rama e o demônio Ravana, Krishna aconselhando o príncipe guerreiro Arjuna, e o Buda.

Ao fundo vão sendo projetadas fotos dos locais históricos onde se desenrolaram estas histórias.


Monges budistas com seus mantos amarelos deslizam por entre fontes borbulhantes, rodas da vida e jardins orientais, acompanhados por instrumentos tibetanos, e os músicos constituem um espetáculo à parte.


Todas as pessoas estão enternecidas, quando um gongo ressoa e Asuras gargalhantes correm pelo palco, anunciando a Era de sofrimentos, Kali-Yuga.


Luzes roxas e vermelhas cintilam por toda parte, e o cenário é de guerra, terremotos, erupções vulcânicas e tsunamis.


A platéia se enterneceu com a bondade do Buda e se enfureceu com a estupidez da guerra; agora, aguarda, inquieta, a continuação dos acontecimentos.


Nesses ambiente de espectativa surge Kalki, o espadachim de pele prateada, e realiza com seu cavalo evoluções circenses.


Kalki é belo.


Canta anunciando o início de uma nova era de felicidade, cooperação, tolerância, sabedoria. Fala ao coração de todos os homens de bem deste planeta.


- Esta é a ora da mudança. Este é o momento em que o respeito à vida é enfim compreendido, o respeito à vida em sua totalidade -  animais, plantas, e planeta.


Todos somos oriundos da mesma poeira cósmica, todos somos um ponto de luz na mente do Criador.’


É a apoteose do espetáculo.


A coreografia de Kalki despertara um sentimento mágico na alma de cada expectador.


Eu estava orgulhosa de participar desta produção monumental. Extasiada, esquecida de mim, observava Kalki voar por sobre a platéia em seu cavalo mágico, irradiando seu brilho prateado, ao suave arome de rosas...


Ainda estou emocionada, quando comento com Raj, ao retirar de seu rosto a maquiagem prateada:


- Pena que tudo isso não passe de ficção. No século XXI não há espaço para espadachins encantados.


Ele me responde, a piscar o olho:


- Muito pelo contrário. É exatamente aqui, no Cirque de Soleil, que eu, Vishnu, encontro o modo ideal de espalhara a mensagem do amor a todos os povos do planeta, pois este espetáculo será televisionado, filmado e replicado pela internet. Afinal, Kalki é um avatar moderno.


- A mensagem vai percorrer o mundo antes de 21 de dezembro de 2012.– eu disse, sentindo-se desfalecer. – Kalki... você... é o avatar do século XXI...meu Deus!...


Eu me orgulho do que faço. Eu me orgulho de pertencer a esta era, e a esta história.

 
Autor: Sonia Regina Rocha Rodrigues

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