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A Velha Misteriosa

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Escrito por Sonia Regina Rocha Rodrigues   
Qui, 07 de Setembro de 2017 00:00

Moiras

 

 

A VELHA MISTERIOSA

Por Sonia Regina Rocha Rodrigues


Ela apareceu ninguém sabe de onde. Em meio à elegante vernissage, seus brancos cabelos apertados em um coque baixo, seu xale negro e puído, - no Brasil, onde não é costume usar xale, e em pleno verão! - sua longa saia cinzenta, tudo destoava do entorno. Sobretudo o rosto destacava-se. Encarquilhado, ressecado e amargo.


A diretora da Aliança Francesa, onde acontecia a festa, aproximou-se polidamente:


- Boa noite, veio ver os quadros? É a primeira vez que vem aqui?


A idosa balançou distraidamente a cabeça e continuou a arrastar seu andar torto - era corcunda - em direção à mesa dos comes e bebes.


- Seja muito benvinda à minha exposição. Como é o seu nome? - acorreu a pintora que patrocinava a noite.


- Pode chamar-me de Maria - olhando de soslaio para a anfitriã e logo retornando a atenção aos petiscos, a estranha velhota encheu rapidamente um pratinho com uma pilha de canapés e afastou-se a mastigar gulosamente.


Vozes cochichavam:


- Quem é?


- Alguém a conhece?


- De onde surgiu este...ser?


As senhoras daquele círculo social extremamente seletivo tinham seu código de boas maneiras. Trataram a estranha com cortesia exagerada, crivando-a de perguntas e foram definitivamente ignoradas por ela. Após devorar outro pratinho, esse de docinhos vidrados, e bebericar dois copos de suco, Maria retirou-se sem despedir-se de ninguém.


No dia seguinte, o assunto, na Biblioteca Municipal, onde se dava o lançamento de um livro de poesias de uma poetisa da Academia Santista de Letras, era um só: a intrusa. Intrusa que entrou a passos decididos no recinto decorado de flores, no mais imponente estilo "é falar no diabo que ele aparece".


A supervisora da biblioteca avançou em direção a ela:


- Boa tarde, eu sou Sula, a responsável pela biblioteca. Como a senhora soube desse lançamento? Pelo jornal?


Maria parou, pois a outra postara-se a sua frente a impedir-lhe o caminho. Maria usava nessa noite uma mantilha de renda que já vira melhores dias sobre um vestido longo de cor indefinida.


Algumas pessoas a rodearam. A escritora adiantou-se:


- Nós nos conhecemos ontem na Aliança Francesa, como vai, Maria? Fique à vontade.


Sem sorrir, Maria falou apenas:


- Boa tarde.


Houve um momento de hesitação. A Secretária de Cultura adiantou-se e lembrou a todas que o evento era aberto e afirmou que Maria era muito bem vinda, com o mais profissional dos sorrisos.


Como na noite anterior, a velhota aproximou-se dos garçons e serviu-se de salgadinhos e de vinho. Retirou-se sem comprar um exemplar do livro e sem conversar com ninguém.


De segunda a segunda, Maria passou a fazer parte da paisagem cultural, social e política da região. Chegava calada, esquivava-se de quem se aproximasse,retirava-se séria.Aos poucos entrou para o folclore da cidade.


Certa tarde apresentou-se no Centro de Cultura, onde a professora de literatura da Faculdade de Letras organizava uma oficina literária.


- Boa tarde, Maria. Para quem não conhece, essa senhora é Maria. E esses são...


Maria relanceou um olhar indiferente pela sala, sem aparentemente incomodar-se com o olhar espantado dos mais jovens - sempre tão sinceros - ante suas roupas anacrônicas, mais adequadas a um museu de época ou a um comercial de naftalina.


- Maria, as pessoas que paticipam da oficina precisam preencher essa ficha. Por favor...


A professora esperava enfim jogar uma luz sobre a misteriosa criatura, mas ela preencheu rapidamente o endereço de um conjunto popular e um sobrenome banal - Silva. Com esses dados não foi possível avançar no mistério.


Alguém sugeriu:


- Deve ser fome Ela vem aos eventos para comer.


- Na oficina literária não há comida - lembrou a professora.


- Deve ser solidão.


- Então ela deveria falar com as pessoas! Bem que tentamos puxar conversa.


- Talvez seja maluca.


- Do tipo manso, que não prejudica ninguém.


Passaram-se anos. Nada se descobria e Maria tornava-se, definitivamente, uma lenda urbana.


Bailes no calçadão da praia, caldeirão de Momo, apresentação de cantores em palcos populares patrocinados pela prefeitura, onde houvesse música Maria esbaldava-se a dançar sozinha. A seriedade de seu semblante em completo desacordo com a animação do corpo esquelético. Até o viúvo Braga aparecer em cena.


O viúvo Braga, que afirmava para quem quisesse ouvir que a falecida o perseguia nas ruas nos meses posteriores ao enterro. Depois de ser enlaçado por Maria em um baile na praia, no entanto, o homem remoçou e esqueceu de vez as visitas da defunta.


O casamento de Maria e Braga aconteceu em menos de um ano. Para o casamento só os familiares mais chegados receberam convite.


- Maria casou-se! Maria! Viram os proclamas? - protestaram algumas indignadas e elegantes senhoras - Ela, que nunca fala com ninguém! O que este advogado viu nela?


- Aparentemente ela falou com uma pessoa. Com ele. - retrucou Sula. - Por que ele?


- Ora, um maluco que via o fantasma da ex-mulher - descartou uma socialite rejeitada pelo Braga, fato que ela discretamente ocultou das amigas.


Quase um ano passou-se sem que ninguém tornasse a ver o casal, a não ser ocasionalmente, no supermercado ou na farmácia.


- Imagine - revelou uma farmacêutica - que ela teve o descaramento de pedir inclusão na farmácia popular sem apresentar receita médica. Quando o balconista chamou-me para resolver a questão ela não deu mostras de me conhecer, ela que por tantos anos cruzou por mim todas as semanas!


- Ela passa por nós, mas não nos enxerga. O que a fez enxergar o velho Braga, afinal? E ele, o que viu naquele manequim de brechó?


Sendo verdade que há mais mulheres viúvas que homens, o velho Braga poderia ter escolhido uma candidata melhorzinha...


Pouco depois Braga morreu e Maria voltou a circular por todo canto com seu apetite monstruoso e suas roupas antológicas.


- É o primeiro óbito em muitos anos - observou Sula - Reparando bem, nos últimos anos, além do Braga e da mulher dele, nenhum conhecido meu faleceu.


- Tendência mundial - respondeu Cláudia, a médica - A mortalidade caiu drasticamente nos últimos anos, principalmente entre os idosos. Por outro lado, há uma avalanche de Parkinson, Alzheimer e muitas outras doenças degenerativas e debilitantes. Vivem mais e pior. Outra coisa que se observa é que a taxa de nascimentos vem diminuindo no mundo civilizado.


- Diminuindo, sim, mas não o suficiente para compensar o aumento da longevidade. Quero dizer, a população cresceu demais. A raça humana vai implodir o planeta.


- Será que chegaremos ao que propõe aquela distopia? Comeremos carne humana, de pessoas que serão sorteadas para o abate?


- Que horror!


- Vamos nos ocupar de coisas mais interessantes.Menos morbidez, por favor!


Por toda parte, realmente, as pessoas davam-se conta do panorama planetário. Menos mortes, menos nascimentos, mais doenças.


Ir à praia pela manhã já não era opção para mães de filhos pequenos, tal a multidão de idosos adeptos da caminhada saudável que invadia a orla da praia desde as seis da manhã. Milhares de idosos. Outras centenas exercitavam-se nos aparelhos ao ar livre ou jogavam tamboréu em quadras armadas na areia.


Bancos e estabelecimentos comerciais trocavam seu única caixa "acima de 65 anos" para "abaixo de 65 anos". Os mais jovens faziam-se cada vez mais raros.


Pediatras faziam cursos de Geriatria para migrarem de especialidade.


Vinte anos passaram-se desde o aparecimento de Maria, vinda de alguma plaga ignorada. Agora ela era sistematicamente ignorada nos eventos de onde, por educação, não podia ser expulsa.


Uma manhã, Cláudia, a médica, em seu consultório, viu-se frente a frente com Maria. A velhota olhou diretamente através dos olhos da doutora, fazendo-a estremecer de pavor. Os olhos claros e vazios da megera fitavam a outra sem emoção alguma, como se por detrás do olhar gelado não houvesse uma consciência.


Cláudia não teve muito tempo para devanear sobre o motivo da consulta de Maria. A janela por trás dela abriu-se e a luminosiade do sol desapareceu. Olhando para trás, ela percebeu dois vultos e escutou duas vozes roucas:


- Finalmente a encontramos.


- Vamos voltar ao palácio de bronze imediatamente.


Cláudia, que praticava caratê, de um golpe agarrou os pulsos das duas encapuzadas.


-Paradas aí! Quem são vocês? Como ousam ir entrando assim sem mais nem menos...


..."em meu consultório, pela janela? No quinto andar?"...


Cláudia calou-se. A situação fugia à lógica. Ela ficou pálida, as mão umedeceram.


- Acalme-se, pobre querida, não é nada com você, nada pessoal. - a voz de uma das entidades tornou-se macia e amável.


Existem momentos em que a percepção nos atraiçoa. Nos espetáculos de mágica. Nas ocasiões em que olhamos um lápis mergulhado em um copo de água e a refração nos faz enxergar um desvio inexistente. Cláudia respirou fundo e procurou acalmar-se. Evidentemente essas duas outras mulheres esquisitas não haviam voado pela janela! Alguma explicação haveria...


Uma das mulheres segurou Maria pelos ombros e obrigou-a a sentar. A outra buscou uma cadeira e acomodou-se ao lado, retirando o capuz que lhe sombreava o rosto. Um rosto todo amassadinho como uma uva passa.


- Vocês vão a algum baile a fantasia? - Claudia começou a rir descontroladamente - O Carnaval já passou e outubro está longe...


Para seu pavor, os rostos mumificados a sua frente lentamente alteraram-se para um visual jovem, os cabelos se soltaram e enegreceram.


- Ah, coitadinha, está assustada. Vamos explicar, não queremos fazer mal a ninguém. Não a você, querida.


- Explicar? Que bom! Seus rostos...já vi rostos semelhantes...em um quadro antigo...


- Somos as moiras.


- Eu sou Cloto.


- Eu, Láquesis.


- Essa dissidente aí é Átropos.


- As...moiras. As tais que tecem o destino dos homens?


- E dos deuses.


- De todas as coisas vivas.


Cláudia obrigou-se a respirar e a engolir. "Enlouqueci", pensou.


- Qual é, doutora, a senhora reparou que as pessoas pararam de morrer e estão parando de nascer. Todos estão vivendo vidas miseráveis e indignas. Tudo porque essa aqui - apontaram para Maria - Esta aqui se revoltou.


Cloto abriu os braços e uma rajada de ar fresco envolveu as quatro, elevou-as no ar e, no momento seguinte, estavam no alto de um monte, descortinando uma visão esplendorosa do mundo lá embaixo. Como nos sonhos, Cláudia começou a encarar o acontecido com naturalidade. Afinal, aquilo só poderia ser um pesadelo.


- Onde estamos?


- No monte Olimpo, é claro.

- Vocês não moram em um palácio de bronze?


- Conversaremos aqui. Mortais não podem entrar em nosso palácio.


As três, agora jovens, sentaram-se em pedras diante de Cláudia. Cloto e Láquesis seguravam Átropos com firmeza.


- Desde tempos imemoriais nós tecemos o destino - começou Cloto - Eu teço o fio de cada vida em meu fuso, cuidadosamente.


- Eu caprichosamente tinjo, modelo, estico, enfeito e teço a trama de cada vida. Quando o vivente atinge sua finalidade eu entregava o fio a Átropo para que ela o cortasse.


- Finalidade da vida?


- Sim, cada um tem um papel no cenário cósmico. Uma vez cumprido seu destino, a criatura está pronta para morrer.


- Segundo a cosmogonia grega - retrucou Cláudia. - Agora o mundo mudou.


- Segundo a verdade - insistiu Cloto. - O século XX tentou colocar a ciência no lugar dos deuses e olha só a confusão que resultou disso tudo. Agora Pluto, Ares e Afrodite estão destruindo o mundo.


- Que bobagem! Ninguém mais acredita em mitologia.


- Nega então que os homens do século XX e XXI perseguem o dinheiro acima de tudo? Querem tudo que se associa a dinheiro - fama, poder...Nega que entregam-se ao sexo e procuram por uma vida de prazeres materiais? E que,  em nome do dinheiro, fomentam guerras horrorosas?


- Ah, isso, sim...- Cláudia piscou, confusa.


- As religiões podem mudar o nome dos deuses, mas a psicologia que guia a mente dos homens é a mesma.


- As religiões são o reflexo do coração dos homens, não é mesmo? Tudo que li sobre os mitos, sei, claro...


Cláudia, pensativa, digeria mentalmente a questão de deuses e seus significados modernos, enquanto Átropo debatia-se nas garras das irmãs.


- Não quero voltar! - rugia ela - Odeio os humanos! Quero que sofram. Que sofram muito. Que chorem. Que implorem pela morte.


Cláudia, absorta, pescava na memória as histórias lidas na adolescência.


- Eu não me lembro do capítulo sobre a rebelião de Cloro...


- Só aconteceu recentemente - esclareceu Cloto - Quando o jovem doutor Braga afogou-se.


- Braga tinha filhos? Não sabia.


- Braga, ele mesmo, quando jovem.


- Como assim?


- Eduardo Braga afogou-se aos vinte anos em uma praia da Grécia, onde deveria morrer.


- Não morreu por quê?


- Ele era um jovem muito bonito. Cloto tem esse costume, de beijar os mortos bonitos antes de entregar seus corpos a Caronte.


- A criatura é chegada em um defuntinho...Que mórbido! Olhem, eu não sei de que companhia de teatro vocês saíram, seus truques cênicos são ótimos, mas não esperem que eu acredite nisso tudo aí que vocês estão falando.Caronte, o barqueiro do Rio Estige. Campos Elíseos e o mais. Basta.


- Querida, vou mudar o nome. Se não quer Caronte, que seja São Pedro. Se não que o barco no Rio Estige, fique com as chaves do céu. São metáforas que se equivalem.


- Não acredito!


- Mocinha, existe a morte e existe um estado de pós morte. Há uma morte e um momento antes da morte. Esse foi o erro fatal de Átropo.


- Que erro?


Átropo suspirou e esclareceu:


- Eu fiquei tão entusiasmada me beijar aquele moço tão bonito que me apressei. O beijo aconteceu antes da morte e não depois dela. Aí eu perdi o direito de matar o rapaz. Nesse caso, ele voltou ao planeta e provocou uma comoção no tecido cósmico. Alterou o continuum do espaço tempo.


- Isto é proibido?


- Não existem  transgressões para nós. Somos as forças primordiais. O fato é que a vida de Braga, que não morreu quando deveria ter morrido, alterou o futuro. Para corrigir a situação, Cloto deveria descer ao planeta e usar uma flecha do tempo para corrigir a História. Nós não sabíamos que ela ia se rebelar. Tudo, na verdade, foi culpa de Eros.


- O travesso Eros.


- Aquele das flechas de amor?


- Exatamente. Aquele deusinho estava nadando, viu o afogamento, o engano de Cloto e achou divertido atirar uma de suas flechas em nossa irmã. Foi assim que ela apaixonou-se perdidamente por Eduardo Braga.


- Sinto muito, não estou acompanhando. O Braga que eu conheci era um homem idoso.


- Quando eu o beijei ele tinha vinte anos. - interrompeu Cloto. - De repente, lá estava eu, apaixonada pelo homem cujo fio da vida eu não podia mais cortar. Porque beijar um homem antes do momento da morte é o mesmo que devolver este homem à vida. É como uma segunda chance, entendeu?


- E então? O que ele disse quando a viu?


- Eu lhe ofereci o dom da imortalidade. Eu lhe propus vir morar conosco no palácio de bronze. Ele riu.


- Ele riu?


- Sim, ele riu. Disse que não via graça em morar no Olimpo. Que a vida no século XX era rica de diversões. Cinema, televisão, computadores, jogos, livros, delícias gastronômicas. Prazeres sem conta.


- É verdade. Há muita distração.


- Então eu lhe propus ir viver com ele na Terra. Ele...ele me rejeitou! A mim, uma imortal! Ele gargalhou. Que humilhante!


- Foi por isso que você ficou com raiva da humanidade inteira? - perguntou Cláudia.


Láquesis continuou:


- Nossa irmã enlouqueceu. Voltou para casa furiosa e cortou de uma só vez a vida de milhares de homens jovens.


- Vocês lá na Terra chamaram isso de epidemia de AIDS - contou Cloto.


- Por que você diz "lá na Terra?". Nós estamos na Terra.


- Ah, não é a mesma Terra. Esta é a Terra Mitológica. A Terra do tempo do Sonho. A Terra à parte da humanidade. Um universo paralelo.


- Ah, meu Deus!


- Sim, por Zeus! - retomou Láquesis - Chamamos Asclépio em nosso socorro e ele preparou lá um elixir para curar Átropo da flechada de Eros.


- Funcionou?


- Ela ficou curada da paixão, mas não do orgulho ferido. A dor de ter sido desprezada aumentou, infeccionou sua alma e um belo dia Átropo fugiu de nós e jurou vingar-se de Braga. E de toda a humanidade, por tabela. A questão é que ela não sabia onde ele estava. Primeiro ela precisava encontrar o moço.


- Ela seguiu as pistas desde a Grécia até o Brasil, descobriu a cidade em que ele morava. Matou a esposa e casou-se com ele.


- Essa parte é que eu não entendo. Por que casar-se com ele?


- Óbvio. Para aproveitar um bocadinho. Casou e tratou de gozar.


- Mas...ela é uma velha...


- Braga a via como você nos vê agora. Como uma bela morena. Cloto usou seus poderes mentais e manipulou a situação.


- Foi bastante divertido enquanto durou - confessou Átropo - Um dia cansei. Contei a ele quem eu era e o torturei um bocadinho antes de cortar-lhe o fio da vida.Ele implorou, chorou, gritou, tudo em vão. Deliciei-me com cada segundo de seu martírio.


- Ainda não vejo a graça de casar com um velho.


- Não, você ainda não entendeu, Cláudia. Ele me via com uma aparência jovem. Da mesma forma, ele aparecia para mim em todo o vigor de seu delicioso corpo de vinte anos. - Átropo salivou de luxúria, para grande espanto de Cláudia.


- Esperem aí, moiras - um arrepio de compreensão percorreu a espinha de Cláudia - Eu sou uma mortal. Vocês não precisam contar nada disso para mim. Então, por que... ela veio a meu consultório hoje de manhã?


- Para tomar posse de seu corpo e passar a viver entre os homens com todo conforto. Você tem tudo - uma bela casa, uma profissão rentosa, amigos, tudo estabelecido nos conformes.


- A vida lá entre vocês, nesse século, é muito boa, muito mais interessante que no tempo de Péricles, quando os homens só guerreavam, enchiam a cara de vinho e perdiam um tempão com aquela tal filosofia chata de fazer dormir - afirmou Átropo.


- Então... então..eu vou morrer?


- Ia. - Láquesis esticou um fio rosa e dourado - Este é o seu fio, que Átropo ia cortar para tomar o seu lugar.


- Ela pode fazer isso? Não é contra a lei ou algo assim?


- Agora ela ainda pode cortar, porém no momento certo. Vida longa.


- Ela ia me assassinar? Agora não via mais? - Cláudia demonstrou toda a sua angústia.


- Você tem méritos, Cláudia. Seu destino são os Campos Elíseos. Ou Nosso Lar. Ou A Luz. Não sei sua religião. Será  a versão religiosa que você escolher.


- Eu não concordo em voltar - resistiu Átropo. - Insisto em ficar na Terra. No século XXI.


- Irmã, não sente nossa falta?


- Minhas irmãs, desde o princípio dos séculos que eu só faço uma coisa: corto fios. Minha pobre mão ficou deformada de tanto usar a tesoura. Por milhares de anos observamos as civilizações, os deuses que se sucedem, os mundos que evoluem. Nós, o que temos? A rotina. O tédio. Uma existência sem graça. Cansei. Não volto e pronto.


- Ora, é a nós que você pune com sua teimosia, irmã tonta! - indignou-se Láquesis. - A nós! Eu, que fiava milhões de vidas humanas, agora teço diariamente, loucamente, incansavelmente. quase nove bilhões. Bilhões! Bilhões, ouviu bem? Porque Cloto me ajuda a tecer e parou de gerar novas vidas. A harmonia do cosmos está comprometida em ambas as pontas agora.


- Mesmo sendo duas a tecer - comentou Cloto -, nove bilhões de vidas humanas é demais para apenas duas moiras. Volte, irmã.


- Voltar para o tédio? Nunca.


Claúdia não se conteve:


- Essa aí diz que quer ficar na Terra. Para quê é que eu não sei. Ela não fala com ninguém. Não faz amigos. Só come e come...


- Eu não comi por séculos. Quero tirar o atraso. Salgadinhos, doces, vinhos. Tem coisa melhor?


- Amizade - respondeu Cláudia.


- O que você disse?


- Amizade. Eu disse amizade. Um pão repartido com um amigo é mais saboroso que um banquete que se devora sozinha. Há uma palavra em grego para isso, deixe-me lembrar...philia.


- Essa tal de amizade é melhor que uma noite de sexo louco e selvagem?


- O sexo é melhor se as pessoas, além de parceiras, forem amigas.


- Isso é o que dizia o Braga, e eu nunca entendi o que ele queria dizer com isso.


Láquesis apressou a irmã:


- Resolvam isso logo. O planeta vai explodir com tantos habitantes. Precisamos urgentemente retirar alguns milhões deles.


- O pior - comentou Cláudia - é que muitos desses milhões de velhos estão doentes, estressados e infelizes.


- Já disse, recuso-me a voltar!


Átropo bateu teimosamente os pés. Dessa vez, a escuridão caiu sobre tudo. Apesar do manto maravilhosos de estrelas no firmamento acima, Cláudia não enxergava nada a seu redor. Noite plena. Breu total. Algo nunca antes presenciado por ela em sua existência. As moiras, no entanto, deviam estar vendo algo, pois exclamaram:


- Mãe!


As moiras tinham mãe. Algumas tradições, embora não todas, lembrou-se Cláudia, afirmam que as moiras nasceram de Nix, a escuridão.


Maravilhada, Cláudia agradecia a oportunidade de cotemplar as estrelas, um dos mais belos espetáculos da natureza em qualquer tempo, antes de morrer. Ela sentiu-se quase conformada, afinal, todos morrem um dia, é inevitável. Um toque suave em suas mãos e uma rajada cheirosa de brisa noturna a trouxe de volta ao consultório. Uma presença tranquilizadora, uma mulher alta de voz acolhedora falou:


- Toda vez que o mundo se desequilibra, um movimento oposto o coloca novamente nos eixos. Superpopulação, guerras, superpopulação, fome, superpopulação, doenças. Ciclos que se repetem na história dos homens na Terra.


Cláudia, imóvel, aguardou que a mulher continuasse:


- A uma geração longeva sucederá uma geração frágil que morrerá precocemente. Os homens explicarão: dieta errada, coca-cola demais, fast food desbalanceados, exercícios de menos. A terceira geração irá casar-se tarde e muitas dessas mulheres não conseguirão engravidar. Dessas, poucas poderão pagar pelas inseminações artificiais, que nem sempre vingam. Outras nem vão querer ter filhos. Os homens explicarão: falhas no relógio biológico.


- Do que estamos falando? - perguntou Cláudia, um tanto desorientada.


- De minhas filhas tecelãs. Dos mistérios da vida e da morte. De um engano que estou a consertar agora.


- Um engano? Quer dizer que eu não vou morrer?


- Você tem uma sócia, não tem? Além de sócia, uma homônima.


- Sim, minha sócia também é Cláudia. Ela está doente, aliás, muito doente, há meses.


- É a outra Cláudia que deve morrer hoje, querida, não você.


- As moiras agora sumiram, mas o pesadelo continua - gemeu Cláudia. - Quem é você?


- As moiras estão a fiar, comportadamente, como deve ser, no monte Olimpo, de onde nunca deveriam ter saído. Quem sou eu? Eu sou a noite primordial. A noite que existe mesmo antes de existir o dia.


- Eu gostaria muito de entender, sendo médica, todas essas alterações que nós médicos estamos notando há algumas décadas. Eu mesma venho fazendo pesquisas. Síndrome metabólica, afecções cerebrais, alterações epigenéticas. Condições que simulam Parkinson e Alzheimer. Gordura marrom, intolerância ao glúten...estou certa de que o excesso de estudo está produzindo este pesadelo.


- Ora, mulher tonta, os deuses sempre revelam suas verdades nos sonhos dos eleitos.


- É isso o que eu sou? Uma eleita? - Cláudia saboreou a ideia, satisfeita, enquanto Nix ergueu acima de sua cabeça uma garrafinha e derramou algumas gotas sobre ela.


- Essa água vem do templo de Elêusis. Você está recebendo neste momento o dom da compreensão e da cura. Use este dom com sabedoria.


- Agora entendi. Você é um Arquétipo.


- Não, querida, basta um Jung por milênio. Vamos parar com isso. Que em seu coração haja, a partir de hoje, compaixão pela ignorância dos homens e pela loucura dos deuses!


- Ah, obrigada. Eu não vou morrer, então? Ah, quando eu contar...será que alguém vai acreditar em mim?


Nix pronunciou-se:


- Amnésia, filha minha, mergulhe essa jovem aqui em sono profundo.


Cláudia inclinou-se sobre a mesa e adormeceu.


Um mês depois ainda comentava-se sobre a morte de Cláudia, a sócia de Cláudia, e sobre o desaparecimento de Maria, a lenda urbana de Santos.


Na família de Cláudia morreram quinze familiares em quinze dias, todos nonagenários. O mesmo acontecia, comentava-se com alívio, em todas as famílias.


A morte, que por um tempo pareceu ter saído de férias, retornou.

 

 
Autor: Sonia Regina Rocha Rodrigues

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