A loucura de Maupassant | CONTOS DE TERROR
Você está aqui: Home > Miscelânea > A loucura de Maupassant
PDF Imprimir E-mail
(2 votos, média de 5.00 em 5)
Escrito por Paulo Soriano   
Sex, 15 de Agosto de 2014 00:00

 

 

Maupassant

 

 

A loucura de Maupassant

 

A súbita  notícia do ensandecimento de Guy de Maupassant, um dos autores mais carismático de seu tempo, e de fama mundial,  causou forte impacto entre nós, e o estado de saúde do genial escritor francês foi acompanhado, intensamente, passo a passo, pela imprensa da época (final do século XIX).


A Pacotilha, diário  de São Luís do Maranhão, na edição de 26 de janeiro de 1892, divulgou  a seguinte notícia:

 


O ilustre e apreciado romancista acaba de enlouquecer em Paris.


Segundo a leitura de  um telegrama expedido para o Rio de Janeiro e publicado pela Imprensa, o estimado literato sofria de uma moléstia nervosa, e ultimamente manifestara sintomas de paralisia geral dos alienados.


O seu primeiro ato depois que enlouqueceu foi lançar mão de uma navalha e golpear-se.


Infelizmente, diz ainda o citado telegrama, não há nenhuma esperança de que Guy de Maupassant venha a recuperar a razão.


É uma perda grande e sentida para a literatura francesa, que vê no louco o autor d’Une Vie e de tantos outros livros admiráveis.



J. Guerra, cronista de O Paiz, periódico do Rio de Janeiro, na  edição de 8 de janeiro de 1892, comentou:

 


“A loucura e tentativa de suicídio do grande Guy de Maupassant causou-me a impressão de uma cacetada na nuca.


Como!? Pois aquele homem, que eu julgava um dos mais felizes deste século, pois era moço, vigoroso, ilustre, cercado por todas as manifestações da simpatia e da admiração de seus conterrâneos, rico de fortuna, gozando de fama universal, cujo talento não era assunto discutível - esta criatura excepcional surge-me de um dia para o outro internado num hospício de doidos e dando no pescoço golpes de navalha?


Mas então a quem é que  se deve julgar feliz neste mundo?


Só aos burros?


Pois então andemos todos de quatro pés a despedir coices.”



O mesmo jornal, na edição de 12 de maio de 1892, noticiava, esperançoso:


Guy de Maupassant vai melhor: é uma boa nova para a crítica.


Come com bom apetite, dorme admiravelmente e graças  aos cuidados do Dr. Meriot, o médico da casa de saúde  de Passy, todos consideram a cura de Maupassant quase certa.


Recebe todas as semanas seus amigos. Fala com espírito e bastante vivacidade. Tem pedido livros para ler, pedido que o médico assistente lhe recusou, assim como lhe recusou há dias o papel que Maupassant pediu para (dizia ele) terminar seu romance.


Emílio Zola vai visitá-lo por vezes,  mas todas estas visitas de amigos são curtas por ordem do médico assistente.

 


De fato,  Zola visitava o seu ilustre colega no manicômio, mas sem grandes esperanças em sua recuperação. Ao autor de “O Germinal”, a notícia da autoagressão e internamento de Maupassant causou “a mais penosa tristeza”, mas não surpresa.  Em   em entrevista a um jornal francês,  declarou Zola:

 


“Sem embargo, eu esperava (o enlouquecimento) como a esperavam quantos, como eu, conheciam Maupassant. Todos consideravam este acontecimento coisa fatal e prevista, e, quanto a mim, não me surpreendeu absolutamente.”


(...)


“Maupassant não tinha a reputação de homem excessivamente desordenado.  Jovem, rico, gozando de grande notoriedade, gostava de divertir-se.


Era um trabalhador infatigável, que produziu muito, excedendo-se talvez no trabalho.


O seu caráter, particularmente na primeira época de sua vida literária, não inspirava rumores de que pudesse ser afetado pela loucura. Maupassant era calmo, e de natureza pouco inconstante, robusto e pouco nervoso e agitado, aparentemente bem equilibrado e senhor de si mesmo. Havia, entretanto, em seu cérebro, uma lesão latente, que ainda se não manifestara.


O estado de calma – continuou Zola – de certas naturezas não é sinal de equilíbrio.  Não são os temperamentos agitados, nem os caracteres, por assim dizer, tempestuosos, os susceptíveis da loucura. O seu sistema nervoso muito excitável  e a sua sensibilidade mórbida  são a causa de muito sofrimento. Podem chegar até a desejarem a condição do animal; a lesão, porém, não está localizada no cérebro, e passam a vida sem serem vítima de males parecidos com aquele de que sofre Maupassant.


Não eram essas as condições do ilustre romancista. Só intimamente o seu caráter começou a se transformar. Insensivelmente foi se tornando de alegre em misantropo. Revelavam o seu pessimismo até atos triviais.  Desgostava-lhe falar sobre literatura.  ‘Isso não me interessa’, costumava dizer com desprezo. Jamais falava da obra que tinha em mãos e mudava sempre  de conversa quando esta caía em objeto de arte. Não procedia assim por modéstia, mas por  instinto de repulsão. Recordo-me de tê-lo ouvido dizer, há tempos: ‘Escrevo livros para ganhar dinheiro’. Então mentia, como um normando.


Tinha certas manias, sobretudo pelas viagens.  Falava de passear pelo globo  e cruzar ares e mares. Nos últimos tempos era intratável. Não havia repórter que lhe arrancasse uma palavra. Fugia das antigas relações e vivia completamente isolado. Alexandre Dumas (filho) era um dos poucos com quem tratava. Diz-se, também, que tinha o delírio das perseguições e das grandezas.


Enfim, tudo isto é muito triste – acrescentou Zola.  – Maupassant se restabelecerá? Desejo-o ardentemente, mas não o creio.  É uma grande desgraça.  Como quer que seja, deixa três ou quatro obras que lhe asseguram um dos primeiros lugares na literatura  dos últimos vinte anos deste século.” (Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro,  30 de março de 1892.)

 


Mas,  quase um ano depois,  A Pacotilha, na edição de 13 de fevereiro de 1893, esgarçava toda e qualquer esperança de recuperação do genial escritor,  alimentada por outros que não Zola,  noticiando:


"A respeito do estado em que se encontra o notável romancista francês Guy de Maupassant, conta o seu médico assistente:


‘Seu cérebro parece-lhe viúvo de ideias.  É uma sensação que ele experimenta, persistente, muito nitidamente. Tem consciência de que se produziu um vácuo.


– Onde estão minhas ideias ? – pergunta ele. Procura, como procuraria o lenço ou a bengala; busca por toda parte, no quarto, mexe e remexe em tudo, impacienta-se, atormentado:


– Minhas ideias!  O senhor não encontrou as minhas ideias?


De repente sorri.


Sua fisionomia respira  a alegria, o completo contentamento, fica radiante.  Tem-nas à roda dele: são borboletas, cujo voo fantástico ele segue. Essas borboletas estão no infinito e são de cores correspondentes ao assunto: borboletas pretas para a tristeza, borboletas irisadas para a alegria, borboletas de ouro para a glória.


– Oh! O  belo vermelho – exclama ele – é a púrpura dos sangrentos adultérios!


Ei-lo,  então, o criador de outrora, levado pela imaginação, bordando um tema inventado!


Pobre louco!”

 


Pouco menos de quatro meses depois, faleceu Maupassant, sem jamais haver recobrado a razão.


 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

 

PageRank

Pesquisa de informações

Leitores Online

 

Área de Autenticação








Após o cadastro, acesse seu e-mail e siga as instruções.
Copyright © 2019 CONTOS DE TERROR. Todos os direitos reservados.
Joomla! é um Software Livre com licença GNU/GPL v2.0.