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Escrito por Paulo Soriano   
Sáb, 25 de Abril de 2015 00:00

 

 

Noite de 17 de março de 1716

 

NOITE DE 17 DE MARÇO DE 1716: “INVASÃO” DE OVNI  NA EUROPA?

Por Paulo Soriano


A noite de 17 de março de 1716, uma terça-feira, foi especial.


Os que se aventuraram a contemplar o céu da Europa Setentrional, em diversos países, não se arrependeram.  Puderam testemunhar um raro fenômeno, extremamente singular, cuja memória persiste até os dias de hoje.

 

Um opúsculo publicado em Lisboa, de autoria do jornalista José Freire de Montarroio Mascarenhas – Prodigiosas appariçoens & successos espantosos vistos no presente anno de 1716 –, registrou que, “entre as 7 e 8 horas da noite de terça-feira, 17 de  março, se viu em Amsterdão, e em outras diferentes partes de Holanda, um fenômeno, ou cometa, que lançava muitos raios para todas as partes, o qual apareceu e se sumiu por várias vezes, até que pela meia noite desapareceu de todo para o sudoeste.”

 

“Na mesma noite de terça-feira 17 de março – prossegue Montarroio, editor da prestigiada Gazeta de Lisboa – se viu em Londres o mesmo cometa que se viu em Holanda, o que se conta com mais esta circunstância: que apareceu no céu como um clarão pálido que caiu no nordeste daquele horizonte, semelhante à claridade da aurora, ou da Lua, quando a sua luz reverbera por entre as nuvens; lançava resplendores de várias partes e o céu parecia estar todo cheio de fumo. Desapareceu pela meia noite para a parte do sudoeste.”


Também na Irlanda, enigmáticos fenômenos celestes foram observados e detalhadamente narrados:


“Em 17 de março deste ano se viu em Elston, junto a Nevvark (vila do Reino da Irlanda), aparecer no céu sobre as sete horas da noite, entre 20 e 22 graus a noroeste do seu horizonte, uma luz à maneira de raio de Sol, cujo corpo era largo e comprido, e saía de uma nuvem escura, a qual começou a se mover para o zênite, por mais de uma hora, seguindo o curso do Sol.  Pouco depois se viram sair outros copos lúcidos – ou seja, luminosos – de outra nuvem vizinha da primeira, vários nas cores, porque uns eram negros, outros azuis, alguns cor de fogo, outros amarelos, e de outras cores em tantos números que ocupavam uma grande parte do céu.   Logo entre estes meteoros se começou a travar uma  batalha, correndo com incrível fúria um contra os outros, avivando mais a sua luz ao tempo do combate, o qual durou perto de hora e meia, vendo-se entretanto as estrelas daquele distrito, cobertas de um vapor espesso à semelhança do Sol, quando o vemos entre nuvens densas; e neste mesmo tempo se viu o céu para nordeste e sudoeste limpo, claro, e as estrelas resplandecentes como nas noites frias do inverno em que não aparece a Lua. Perto das nove horas se foi sumindo a maior parte destes fenômenos; porém não inteiramente, nem todos, ficando alguns continuando ainda a batalha. Pelas dez horas tomaram outra vez ao combate com a mesma fúria que antes mostravam, permanecendo nela até as onze e meia.  Perto das onze apareceu outro corpo de luz redondo e quase tão grande quanto o Sol quando nasce, mas não tão claro; ainda que não dava tanta luz, que não pudesse uma pessoa de sessenta anos ler sem óculos na sua Bíblia.  A noite estava quieta e tão serena que não se sentia bafo de vento. Começou a ver-se no nordeste e foi  discorrendo obliquamente pelo horizonte até o sudoeste. Tudo foi visto de mil pessoas chamando umas às outras, e toda cheias de espanto e de medo, cuidando ser chegado o dia do Juízo.”

 

Os antigos prussianos da região hoje correspondente ao enclave russo no mar Báltico puderam admirar, naquela noite admirável, fenômenos semelhantes:  “pelas oito horas da noite  de terça-feira 17 de março deste ano se viu em Koninsberg, Pillau e outros lugares deste Reino para a parte do Norte, uma luz em forma de meia Lua, mas maior de corpo, a qual um quarto de horas depois de aparecer começou a lançar uns grandes raios de cor variada, como a do íris, a que vulgarmente chamamos de arco da velha – ou seja, o arco íris. Pelas nove horas se viu para o nordeste uma nuvem mui negra que lançava de si raios de fogo, e havendo continuado assim por tempo de meia hora, se viram sair dela uns corpos lúcidos de várias cores, que se tornaram logo a recolher.  Perto da meia-noite começou a mesma nuvem a lançar de si raios  de luz com maior força, e apareceram uns fenômenos que pareciam subir, remontando-se na esfera. Durou esta visão até perto das três horas em que saiu a Lua, começando então a fazer-se a nuvem mais escura que a princípio. Para a parte do norte se viu toda a noite um clarão como no meio do estio, quando o Sol anda vizinho do trópico.”


Mas estes fenômenos celestes haviam começado alguns dias antes.  Na Suíça, na noite anterior, entre as 8 e 9 horas da noite, “apareceu no horizonte da cidade de Schafhauzen dos Esguizaros, para a parte de Borgonha, um cometa e não tornou a ser visto depois”.   E na Polônia, já no dia 11 do mesmo mês, “pelas duas horas se viram no céu treze globos de fogo, dos quais um lançava uma luz extraordinária...”


Quatro dias depois da noite admirável, clarões foram vistos nos céus da França:  “...se viu em Paris, na extremidade ao nordeste tirando para o norte, um clarão no céu que ocupava 60 graus de extensão, e tão clara que se viam por entre ela as estrelas”. No Sul da França, claridade semelhante foi observada, “havendo uma distância de 200 léguas entre uma e outra”.


Luiz Miguel Bernardo é doutor em Física e professor catedrático da Universidade do Porto. Escreveu um livro maravilhoso, História da Luz  e das Cores, no qual reproduz excertos do opúsculo de Montarroio (os referentes a Amsterdã e Londres, acima citados).  Ele diz: “Não deixa de ser estranho o carácter dos objetos descritos por Montarroio e que ele classificou como cometas [...]. Os relatos de Montarroio Mascarenhas fazem lembrar as actuais descrições de objetos voadores não identificados (OVNI), ou, mais precisamente, de discos voadores!...”  E acrescenta o ilustre cientista, em nota de rodapé: “Outras descrições que aparecem na referida obra de Montarroio são ainda mais facilmente identificáveis como fenômenos ‘OVNI’”.


Foi esta mesma a sensação que tive ao ler, pela primeira vez, o alfarrábio do antigo jornalista lusitano.  Mas não sou cientista.  Nada sei sobre fenômenos astronômicos, atmosféricos ou coisas semelhantes.  Preferi, assim, ouvir  opinião autorizada, antes de tornar públicas as minhas impressões pessoais.  E estas são de uma simplicidade pungente:  o fenômeno UFO não é o resultado da paranoia estabelecida  no primeiro quarto do século XX, sob a batuta do velho e bom Welles.  É bem mais antigo e os jornais avoengos, já nos primórdios do jornalismo, não deixam margens à dúvida.


Também não sou ufólogo. Nem mesmo digo, aqui, se acredito ou não na existência de OVNI.  Mas creio que a descrição de Montarroio, realizada com lastro em diversos periódicos da época,  já no bem distante século XVIII – quase duzentos anos antes do primeiro voo de um aeroplano –, bem poderá merecer uma interpretação moderna, a cargo dos especialistas na matéria.


Concluo dizendo apenas que os acontecimentos do mês de março de 1716 não constituem um fato isolado.  Naquele mesmo século, e no seguinte, diversos fenômenos celestes, registrados na Gazeta de Lisboa, parecem descrever modernos fenômenos OVNI.


Quem se interessar poderá conferir, por exemplo, as edições de 19/01/1726, 7/11/1726, 14/11/1726, 4/03/1734, 25/11/1734, 9/12/1734, 31/12/1817, disponíveis no Google Books e na Hemeroteca Digital de Lisboa.

 

 

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