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Escrito por Paulo Soriano   
Dom, 28 de Dezembro de 2014 00:00

 

 

Lembranças da Terra

 

"LEMBRANÇAS DA TERRA

& OUTRAS HISTÓRIAS DE UM FUTURO POSSÍVEL",

de Ângelo Brea


por Paulo Soriano

 

 

 

Existem temas na ficção científica que sempre estão a merecer uma revisita, uma nova abordagem. Quem não se delicia com narrativas sobre explorações extraplanetárias, civilizações alienígenas, guerras interplanetárias, viagens no tempo, robôs?

 

Os puristas costumam afirmar que a abordagem de temas clássicos, dentro ou fora da ficção científica, estaria a evidenciar a falta de originalidade do escritor.  Nada mais falso. Tome-se, por exemplo, Shakespeare.  Quais dos argumentos de que se valeu o imenso poeta inglês já não haviam sido visitados por vates que o antecederam?  Desafio o purista a me indicar as peças por ele escritas que se não basearam em escritos ou tradições anteriores. Goethe não o fez em seu inexcedível Fausto? E Thomas Mann não recorreu ao velho tema da venda da alma ao Diabo para escrever outra obra-prima?


Creio que a revisita a temas clássicos, longe de indicar ausência de originalidade, revela-a profundamente, já que se traduz num imenso desafio ao poder criativo do escritor, à sua destreza em abordar, sob um ângulo diferente, os motes tradicionais.  E aqui  Ângelo Brea se sai muito bem.

 

Ângelo  parece fascinado pela exploração de outros mundos. Até agora, a humanidade tem explorado outros orbes para fins de pesquisa.  Mas, num futuro quiçá não muito distante, fá-lo-á para fins de aproveitamento econômico e colonização. Ângelo sabe disto e o sabe muito bem.

 

Em Um pôr do Sol Vermelho, Lembranças da Terra e O Sol no Horizonte, os homens colonizam outros mundos, alguns bem próximos, outros muitíssimo distantes, o que lhes sempre exige a superação de imensos e frequentes desafios. Assim sucede não apenas no Marte vizinho, mas igualmente em Cygnus 4, um planeta a 60 anos-luz da Terra,  que abriga uma colônia terrestre. Nele desenvolvem-se as ações de O Sol no Horizonte – um belo conto, permeado de sutil melancolia.  Pai e filho contemplam o Sol – um ponto minúsculo no firmamento – e conversam serenamente acerca do insondável e secular isolamento do planeta do resto da humanidade.   Em Lembranças da Terra, um jovem filho independentista descobre algo de  surpreendente em sua própria origem.


Já em Doze Anos em Titã, não procuram os humanos expandir os seus territórios, senão explorar, com imensas dificuldades,  os recursos naturais de outros mundos. Em Um Planeta Remoto – conto denso, tangido por um belo toque de desesperança – os mineiros de  um satélite inóspito, fugindo ao iminente cerco de piratas e mercenários espaciais, buscam o refúgio desesperado num planeta remoto, desconhecido, mas possivelmente habitável, para onde outros  proscritos já haviam debandado.


O crepúsculo da humanidade está presente, igualmente, na excelente narrativa As Exploradoras: em missão de reconhecimento, visitantes alienígenas verificam que a civilização, outrora vicejante na Terra, já não mais existe; mas, numa  visita exploratória à Lua, logram uma intrigante surpresa...  De sua feita, n’ O Efeito Smith, um militar alienígena  narra, triunfante,  o fim de nossa civilização... Sim, a civilização terráquea, apesar de todo o seu poderio bélico e tecnológico, está extinta. Sucumbiu a uma guerra intrerplanetária. E o começo do fim, surpreendentemente, teve a sua origem num prosaico desentendimento amoroso...


A guerra também insinua os dedos pérfidos Nas montanhas de Magadar: um planeta colonizado por eslavos é alvo de conflitos protagonizados por forças rebeldes, comandadas por um líder tirano, que ultima por depor os governantes locais e  impor aos habitantes um  regime de violência e terror. Entrementes, um grupo de cinco pessoas, auxiliado por um fiel robô, refugia-se nas frias montanhas de Magadar. Decerto, relembrará o leitor que a sombra nefasta da tirania está sempre presente nas sociedades humanas, em qualquer tempo e onde quer que estejamos.


Os riscos das explorações científicas são tratados com maestria em Perdidos na Lua e em Rosas de Amdete. Perdidos na Lua é um conto de suspense muito bem urdido. Perder-se na Lua é “o pior pesadelo possível”, nas palavras do protagonista astronauta.  E foi isto que aconteceu a ele e ao seu colega quando, em uma missão arriscada, terminaram por lutar desesperadamente pela sobrevivência, após um acidente inesperado.  Em Rosas de Amdete o risco não é propriamente físico – como o é, também, em Um pôr do Sol Vermelho –, mas bioecológico: a humanidade importara, do longínquo exoplaneta Amdete, uma planta maravilhosa, que proporcionava oxigênio, eletricidade e  calor   a todos os mundos habitados pelos humanos.  Mas algo de assustador passou despercebido aos cientistas. O leitor experimentará uma excelente narrativa, dotada de desfecho terrível e surpreendente.


Por Causas Naturais é um conto breve – e um tanto cruel – que vem a provar o que já dissemos: é perfeitamente possível elaborar uma narrativa original, criativa,  a partir de um antigo mote. No caso, a colonização marciana. Ao tempo do início da colonização de Marte, as perguntas que se  mais  faziam eram estas: quem seria a primeira pessoa nascer em Marte? Quem seria a primeira a morrer naquele planeta ferruginoso? Como a engenheira espacial Maria Rodrigues estava grávida, era, naturalmente, bem provável que uma das perguntas estivesse prestes a ser respondida, apesar dos riscos da gestação.  Mas o futuro sempre engendra as suas reviravoltas.


Mas, voltemos à Lua. O leitor já imaginou uma investigação policial conduzida em plena estação lunar? É o que, em Estação Espacial Alfa, fará o inspetor Souza, procurando argutamente desenredar uma tríade de homicídios praticada em condições  misteriosas.


Não menos original é o conto O Varredor. Ambientado no espaço circunterrestre, engendra uma iniludível crítica social. O seu protagonista é um “varredor” e a sua missão é recolher lixo e detritos espaciais.   Não o consideram astronauta e o seu mister inspira o desprezo – se não a repulsa – geral, até mesmo o da própria família.  Mas uma inesperada  missão de resgate pode alterar radicalmente o estado de  coisas.


O velho e bom mestre Stephen King disse um dia que, em um determinado momento, todo escritor de história de terror tem que lidar com o tema do enterro prematuro, inaugurado pelo genial escritor norte-americano Edgar Allan Pöe.


Se eu tivesse alguma autoridade no assunto, diria semelhantemente, mas agora nas searas da ficção científica. Meus temas obrigatórios seriam: viagem no tempo e robótica.  E, nestes quesitos, Ângelo se sai muito bem.  A tradição da viagem no tempo, encetada por H. G. Wells, está muito bem representada no volume que o leitor tem em mãos.  Mas contemplamos uma máquina do tempo singular, e mesmo uma viagem temporal diferente, sem precedentes, n’A Máquina de Entropia Inversa. Nesta curiosa narrativa, o espaço cibernético interage com espaço-tempo astronômico para produzir efeitos inusitados. Até mesmo no espírito do viajante.


Se Nas montanhas de Magdar a fidelidade do  androide Andy admira, em 盆栽 (Bonsai) a  relação entre o robô Jiro e seu criador  surpreendente e cativa. Poderá, algum dia, a poesia tocar o “coração” de um robô?  Se Asimov não o disse, Ângelo bem o fez agora.


Ângelo, sem dúvida, foi-se muito bem revisitando temas recorrentes em ficção científica. Afinal, ele conhece muito bem o gênero no qual envereda com imensa desenvoltura e desfila com audaciosa segurança.  Com uma linguagem fluida, cheia de imagens e detalhes convincentes, Ângelo domina não apenas a técnica da narrativa, mas, igualmente, os fundamentos científicos a partir dos quais, com perfeita verossimilhança, fia e urde as suas histórias admiráveis.


Mas Ângelo  Brea é, igualmente, um inovador.


De fato, indago-me se Ângelo, assim como Wells e Asimov, não estaria a criar um novo tema em ficção científica.  Um tema sumamente original, esboçado Nas montanhas de Magadar e desenvolvido com maestria n’As Grandes Vantagens da Neolíngua. É bem possível que sim: a Ficção Científica Linguística. Imagine o leitor um velho professor de japonês, minguado de alunos, amargando  a sina de lecionar a língua vernácula, praticamente abandonada, substituída que fora pelo novo e triunfante idioma, a neolíngua... O leitor encontra algo de familiar na melancólica narrativa? Vê nela uma sutil metáfora ao que hoje em dia acontece ao galego-português na Galiza e a tantas línguas hoje minoritárias no planeta? De minha parte, creio que sim.


Despeça-se, pois, urgentemente o leitor da minha já demorada companhia,  e desfrute intensamente da de Ângelo Brea, bem mais aprazível, inteligente e especialmente instigante.

 

 

Ficha técnica

Título: Lembranças da Terra & outras histórias de um futuro possível.

Autor: Ângelo Brea

Editora:  Através Editora (http://www.atraves-editora.com/ - Galiza – Espanha)

Data de impressão: Dezembro, 2014, 1.ª edição

Descrição: 316 páginas , 21 x 14 cm

Encadernação: Rústica

Coleção: Através das letras, 15

ISBN: 978-84-87305-87-0

DL: C 2123-2014

Preço: 15 €

 

Ângelo Brea

Sobre o autor:

Ângelo Brea (Santiago de Compostela, 1968) realizou estudos de Filologia Hispânica na Universidade de Santiago de Compostela e de Filologia Galego-Portuguesa na Universidade da Corunha. Foi secretário das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal e coordenou vários congressos internacionais sobre literaturas lusófonos e língua portuguesa. Na atualidade é membro da Academia Galega da Língua Portuguesa e professor titular de Língua e Literatura Galega no IES Terra de Soneira (Vimianço).


Como escritor, é autor do Livro do Caminho (1989) e está presente em várias antologias, como Mátria da Palavra e a Antologia da Poesia Lusófona. Publicou em 2005 O país dos nevoeiros, na editorial Espiral Maior. É autor da edição portuguesa de Cantares Galegos, de Rosalia de Castro; e de Queixumes dos Pinhos, de Eduardo Pondal.

 

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