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Escrito por Valentim Fagim e Paulo Soriano   
Sáb, 04 de Junho de 2016 00:00

 

 

 

 

A Voz dos Mundos

 

A Voz dos Mundos

Coletânea de Contos de Ficção Científica em volta das Línguas

Organização de Valentim Fagim e Paulo Soriano


Autores:
Roberto de Sousa Causo, Paulo Soriano, Tânia Souza, Miguel Carqueija [Brasil]
Ramón Caride, Séchu Sende, Ângelo Brea, Valentim Fagim [Galiza]
Vítor Lindegaard, Miguel Santos Vieira [Portugal]


 

APRESENTAÇÃO


Em finais de 2014, o autor galego Ângelo Brea publicou na Através | Editora uma coletânea de relatos de Ficção Científica sob o título de Lembranças da Terra & outras histórias de um futuro possível. Um dos relatos portava como título As grandes vantagens da neolíngua. Nele narravam-se as saudades do professor Akira Sakura, especialista em língua japonesa no Japão, que dava aulas a uma exígua turma de nove alunos. A neolíngua devorara tudo e quase ninguém tinha sequer interesse nas velhas línguas dos seus antepassados.



Por volta deste relato, Paulo Soriano, brasileiro e editor de Contos de Terror, e Valentim Fagim, galego e editor da Através, ambos apaixonados pelas relações entre língua e sociedade, começaram a acalentar a ideia de reunir textos de ficção científica que tivessem como nexo a língua. Esta foi a origem do livro que o leitor tem entre as mãos.



Que a raiz desta árvore de relatos seja a Galiza não deve admirar. A língua portuguesa nasceu no velho Reino da Galiza, no noroeste da Península Ibérica, um espaço que na atualidade inclui a Galiza, inserida no Reino da Espanha, e o norte de Portugal até o Porto. Em todos os países de expressão portuguesa associa-se essa época às cantigas trovadorescas, as Ondas do mar de Vigo e tantas outras, talvez o único momento escolar em que a Galiza tem presença no sistema educativo português e brasileiro. Infelizmente.



Dentro do espaço de expressão portuguesa, a Galiza deve ser, com certeza, aquele fragmento com mais reflexões e produções per capita a respeito da relação entre língua e sociedade. Isto é assim por um lance local, o processo de substituição linguística que a variedade galega está a sofrer em benefício do castelhano, processo pelo qual os netos já não falam a língua dos avôs e das avós.



Na verdade, não seria difícil armar uma antologia só de autoria galega, mas a melhor homenagem aos galegos e galegas que dia a dia labutam para que a árvore galego-portuguesa dê frutos e não murche é esta sinfonia polifônica com autores de diferentes latitudes e diferentes tonalidades. Juntos sempre somos mais fortes. Neste sentido, Paulo Soriano, grande amante da Galiza e da sua/nossa língua, tem-se revelado um aliado de primeira hora e Gustavo Felicíssimo — o editor brasileiro, que prontamente aderiu ao projeto —, indispensável.



A moderna ficção científica não se exaure no modelo tradicional. Não apenas a Física, a Biologia, a Astronomia e, mais recentemente, a Robótica, a Cibernética e a Informática constituem uma constante fonte de inspiração aos autores de ficção científica. Outros ramos do conhecimento científico, como a Paleontologia, a Antropologia, a Psicologia e a Arqueologia têm sido  explorados  por modernos artífices  —  escritores ou cineastas — do gênero. A própria Linguística serviu de precisosa ferramenta a Jean-Jacques Annaud na realização da clássica película A guerra do fogo, inspirada na obra homônima do escritor belga J.-H. Rosny aîné, um dos  fundadores da própria ficção cientíca.



Não é, assim, de estranhar que, no presente volume, em que a língua e a linguagem são o mote, germinem, de par com as especulações inspiradas nas ciências  tradicionais,  narrativas em que a Linguística, a Sociologia, a Psicologia,  a Filologia e a Arqueologia assumam uma dimensão relevante.



Abre a nossa antologia o conto A locução final, do prestigiado escritor brasileiro Roberto de Sousa Causo.  Shiroma, já conhecida do público brasileiro,  protagonista de uma  série publicada desde  2008, é uma  matadora ciborgue, protótipo dos super-humanos do futuro. É ela  uma assassina relutante, raptada e levada  da Terra  em tenra idade por um casal de mercenários — Tera e Tiago — para ser treinada como matadora de aluguel. Fruto de experimentos secretos com uma tecnologia que permite ao corpo humano criar avançados sistemas cibernéticos, Shiroma  envolve-se  com a  recuperação dos dados cerebrais de Demetrius Perard, um gângster recém-assassinado. Mas a chave para a aquisição dos preciosos dados mentais é a adição de um fascinante elemento não computacional: o cérebro vivo e apto de uma brilhante linguista, que jaz em estado cataléptico, para entrelaçamento com o do falecido Perard. Mas o esperto criminoso tomara em vida alguns cuidados para evitar a extração forçada de suas memórias comprometedoras...



É igualmente futuro o cenário que abriga o conto Minp, meu amigo, do festejado autor galego Ramón Caride. Pedimos ao leitor que imagine um mundo tecnologicamente evoluído, mas em que a inata capacidade humana de sentir a poesia se tenha perdido. Agora, os poemas são apenas palavras mortas, vazias de sentido: desapareceram, do encéfalo humano, todas as sinapses neurais suscetíveis de processar as criações poéticas. Como poderia Catarina sentir o devalo da maré, o refluxo das águas, o pulso das altas ondas que latejam o coração de um poema milenar?


Em Um linguista notável, breve narrativa do brasileiro Paulo Soriano, um velho professor aposentado, enfermo e deprimido, recorre à custódia do filho, um graduado militar da reserva remunerada, mas tem as atenções e os cuidados roubados por um aparentemente pacífico e altruísta casal alienígena. De ouvido afiado, e sólido conhecimento de línguas ancestrais extintas, o erudito ancião tem a oportunidade de decifrar não apenas um dos maiores enigmas linguísticos da humanidade, mas a de perscrutar as verdadeiras intenções daqueles excêntricos visitantes de feições felinas...


O premiado contista português Miguel Santos Vieira participa de nossa antologia com uma narrativa em que a ficção científica se mescla magistralmente ao fantástico. A escavação, de enigmático clima lovecraftiano, conduz-nos a inexplicáveis inscrições imemoriais, encontradas num remoto sítio arqueológico chileno, e desafia a nossa sanidade com as emanações aziagas de um mistério transcendente e terrível.


Para uma guerra interplanetária, não é difícil conjecturar que o choque de culturas e a deflagração de perenes hostilidades, em razão da resistência de uma espécie à imposição de valores e costumes perpetrada por outra, possam inspirar ações pacifistas e conciliadoras. Noli é uma hábil guerreira — bem jovem arregimentada pelo Exército —, treinada para combater os inimigos até lhes impor a total aniquilação. Todavia, em uma caçada a uma daquelas estranhas criaturas, a jovem guerreira vive uma profunda e inesperada experiência, que mudará radicalmente, e para sempre, a sua visão de mundo. Reencontro, obra da contista e poeta brasileira Tânia Souza, faz-nos aflorar à memória a imprescindibilidade de uma antiga lição: o diálogo é o método mais eficaz à solução dos conflitos, por mais arraigados e terríveis que sejam eles, e por mais belicosos e intransigentes que sejam os antagonistas.


Minha noite, conto escrito pelo professor e ensaísta Valentim Fagim, é um libelo contra o autoritarismo linguístico — sim, esta tirania existe! —, e, neste compasso, contra a hipocrisia humana.  Mas é, igualmente, um elogio à força incoercível da linguagem natural — a língua espontânea, com toda a sua pujança a um só tempo poética e agregadora.  Estamos em uma nova Era na qual reina, soberana, uma língua hegemônica, proscritora e substituta de todas as demais.  Lógica e inflexível, não admite as belas conotações típicas do coração humano.  Uma mãe é severamente punida por referir-se à filha como “minha noite!”... Afinal, a palavra noite, no rigor de seu primitivo significado, não admitiria posse, e muito menos inflexões afetivas tão delicadas. Mas, num subúrbio afastado da megacidade, singularmente denominado Hífen — este peculiar elemento que segrega ao mesmo tempo em que une, ou une segregando —, talvez resida uma derradeira esperança...ou não.


Certa manhã, uma mulher de pijama verde dá-se conta de que a própria língua teima em desobedecê-la. Ela pensa em dizer algo, mas a língua, como se tivesse vida própria, a contradiz, articulando justamente o contrário...  A língua da mulher de verde, do renomado escritor galego Séchu Sende, é uma narrativa insólita, muito bem-humorada e dotada de desfecho surpreendente.


Prolífico escritor brasileiro de ficção científica, acorreu Miguel Carqueija a esta seleta com o conto Problemas de idioma.  Para além do Cinturão de Oort, exploradores espaciais terráqueos abordam uma nave espacial aparentemente inerte.  Em seu interior, deparam-se com uma humanoide adormecida, a levitar suavemente sobre um leito de dossel. Tirantes as duas anteninhas flexíveis no alto da cabeça, era uma jovem e belíssima mulher... Então, a alienígena desperta... E precisa comunicar-se urgentemente com os terráqueos.  Um grave e iminente perigo desafia a sobrevivência da espécie humana... A língua seria um empecilho?


A nova Constituição, do escritor galego Ângelo Brea, implica um retorno ao gélido planeta Zémlia, colonizado por povos eslavos. Mas, agora, o visitamos num momento anterior ao ambiente belicoso no qual o deixamos no conto Nas montanhas de Magadar, constante da coletânea Lembranças da Terra & outras histórias de um futuro possível.  Nessa época pretérita, Zémlia está em vias de tornar-se uma república autônoma, integrante da Confederação Terrestre.  Para tanto, faz-se necessário redigir uma Constituição.  A quase totalidade população de Zémlia fala o neorrusso, a ancestral língua materna.  Mas o idioma oficial da Confederação Terrestre é a todo-poderosa neolíngua. O projeto de Constituição, ao passo em que confere ao neorrusso o status de língua oficial, atribui a cooficialidade à hegemônica neolíngua. E não apenas: impõe aos cidadãos de Zémlia o dever de conhecê-la. Vislumbrando na norma futura o germe da paulatina extinção da língua-mãe, pela inevitável e asfixiante sobreposição do poderoso idioma majoritário, a arguta professora Mariya procura convencer o colega Vítor Korolev desse imenso risco.  Quem se der ao trabalho de ler o artigo 3º da Constituição espanhola verá que Zémlia está bem mais próximo de nós do que ousamos imaginar...


Uma história sem fim, do insigne contista e ensaísta português Vítor Lindegaard, fecha a presente antologia com chave de ouro. A narrativa, que a princípio parece girar exclusivamente em torno de um texto mesopotâmico, possivelmente datando do século XVIII a.C., galga novas dimensões, perpassa milênios e se lança para a suspeita de colaboração de um renomado arqueólogo holandês com as abjetas e cruéis hostes nazistas.  A rigor, estas facetas se imbricam.  Mas, para que bem o saibamos, é preciso decifrar, com cautela e perspicácia, o que diz o enigmático texto, decerto transcrito de antigas tabuinhas em que gravados os caracteres cuneiformes, encontradas no remoto Curdistão...


Mas a antologia que o leitor tem entre as mãos não se esgota na sinfonia polifônica com autores lusófonos de diferentes latitudes e diferentes tonalidades... agrega, também, decerto inusitadamente, editores de um e outro lado do Atlântico. Trata-se de uma edição binacional, publicada simultaneamente na Galiza e no Brasil pelas editoras Através e Mondrongo, estas irmanadas num esforço cultural sem precedentes, e cujos frutos não tardarão a brotar. Ora, existirem duas edições de um mesmo livro, uma a cada lado do oceano, é algo simplesmente maravilhoso.


Finalmente, cabe registrar que a ordem na apresentação dos contos resultou absolutamente aleatória, obedecendo não a eventuais preferências dos organizadores ou editores, mas ao “método” de Stephen King de ordenação de narrativas em coletâneas, descrito na antologia Tudo é eventual, com algumas adaptações. Utilizaram-se cartas de um baralho representando os contos, numericamente associados àquelas, conforme a ordem de encaminhamento pelos autores. Embaralhadas as cartas, estas foram retiradas.  A ordem inversa em que apareceram tornou-se a das narrativas no presente livro.


Ao leitor, deseja-se uma leitura agradável e proveitosa.


Santiago de Compostela (GZ) e Salvador (BR), 05 de agosto de 2015.


Valentim Fagim e Paulo Soriano

 
Autor: Valentim Fagim e Paulo Soriano

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